1. Alimentos funcionais
1.2 Alimento ou medicamento?
1.3.3 Problemas dos estilos de vida
Há teses que defendem a existência de um cenário mais amplo, cuja influência é maior do que a capacidade de mudança pela adoção de estilos de vida saudáveis. Recentemente, um estudo encomendado pelo governo britânico defendeu que a obesidade é uma conseqüência inevitável da modernidade, não apenas uma questão de maus hábitos individuais (Duarte, 2007). O argumento é que a sociedade atual conspira contra a boa forma por conta de um ambiente com comida hipercalórica e barata, tecnologias que resultam na redução do esforço físico, transporte motorizado e trabalho sedentário. Segundo os especialistas que sustentam que o Reino Unido caminha para uma crise de obesidade, as campanhas de combate à obesidade não deveriam culpar o comportamento individual.
Ao estudar hábitos do passado e do presente, os estudiosos constataram, por exemplo, que mulheres na década de 1950 queimavam pelo menos três vezes mais calorias que as de hoje. Era outra época, em que não se fazia compras on-line ou pelo telefone. Os autores do estudo defendem que a responsabilização individual deve ser abandonada: “Concentrar o problema apenas numa questão de estilo de vida individual não é suficiente” (Duarte, 2007). Eles propõem que as campanhas sejam focadas numa revolução de políticas e hábitos: do replanejamento urbano para que habitantes de grandes cidades caminhem mais até a maior pressão para o uso de leite materno, passando pelas conhecidas propostas de proibir a publicidade de junk- food nos meios de comunicação.
Nesse contexto, algumas perguntas aparentemente simples podem se tornar problemáticas como “Que é comer normalmente?” (Parker-Pope, 2009). Nos Estados Unidos, com 60% da população acima do peso, a visão do que é comer normalmente mudou durante os anos. Para alguns, normal significa comer fast food regularmente. Em
um “ambiente obesogênico”, em que uma “epidemia de obesidade” é alarmada, a própria noção de obesidade não consegue atingir seu público alvo por não levar em conta nuances psicológicas de indivíduos que não reconhecem a obesidade como parte de sua auto-identidade, apesar de serem assim classificados por fórmulas objetivas de índice de massa corporal (Bianco, 2008).
A tese do ambiente obesogênico parece carregada de objetivismo se procura retirar completamente a responsabilidade individual e a escolha de um estilo de vida saudável. Em um livro seminal para a perspectiva construcionista, Berger e Luckmann (1973) enfatizam o caráter dialético, a interrelação das dimensões objetiva e subjetiva da realidade16
Na medida em que a realidade social da vida cotidiana é apreendida num contínuo de tipificações que vão se tornando progressivamente anônimas ao se afastarem do “aqui e agora” da situação face a face, as realidades subjetivas são penetradas constantemente por conceitos, noções, idéias e tipificações amplas que regem as ações sociais e já não pertencem ao domínio individual, senão que podem apenas ser influenciadas e moldadas por instituições
. Essa perspectiva entende de modo geral que a sociedade é produto de sujeitos sociais ativos cujas práticas e interações são também fonte de estruturas e instituições sociais emergentes (Dunn, 2008). Nos exemplos acima, as “intervenções políticas” propostas pelos especialistas tem um aspecto objetivo, como o replanejamento urbano, uma mudança objetiva na organização do espaço que, a princípio, mudaria comportamentos e hábitos. A fórmula de IMC também faz parte da dimensão objetiva. Ela pode classificar os sujeitos como dentro, acima ou abaixo da média de peso de modo geral e abstrato, independente de relações face a face. A dimensão objetiva existe, no entanto, na medida em que é apropriada e interpretada subjetivamente dentro de um conjunto de tipificações mais ou menos coerente. Relaciona-se a isso o conceito de estrutura social, que para Berger e Luckmann é “a soma dessas tipificações e dos padrões recorrentes de interação estabelecidos por meio delas” (1973, p. 52).
16 São comuns críticas ao construcionismo feitas por meio de leituras pouco atentas (talvez por
causa da raiz da palavra) que tendem a equalizar o termo a “tudo é construído socialmente” ou generalizar, em relação à identidade, que esta “é construída pelas pessoas”, numa supervalorização da agência.
capacitadas – mas dada a complexidade da comunicação, nunca o são de modo completamente claro e objetivo17
Procuraremos abordar noções que são fundamentais para o discurso sobre os alimentos funcionais, como sugeridas pelos termos saudável, natural, beleza, risco, assim como já nos referimos a obesidade e estilos de vida. Para esclarecer o uso dos termos de Berger e Luckmann: o mercado de alimentos saudáveis e funcionais se baseia majoritariamente nas noções citadas (saudável, natural, risco), de modo que estas se tornam elementos-chave para as tipificações dos padrões recorrentes de interação
.
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Algumas reflexões acerca disso são as propostas dos capítulos que seguem. A problemática em questão é que o uso de tais termos em um cenário comunicativo tão complexo
. Pode-se ir além e afirmar que o saudável e o natural representam referências para a ação no mercado global destes alimentos, funcionando como valores (Weber 2001, p. 417). A busca pela saúde e as vantagens do natural se tornam inquestionáveis, e como observa Weber, quanto mais absoluto o valor, menos se reflete sobre suas conseqüências.
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17 Por isso, reiteramos aqui a tentativa de não cair facilmente num voluntarismo, nem num
automatismo, de acordo com as propostas construcionista de Berger e Luckmann (1973) e da teoria da estruturação de Giddens (1984). Para isso, focaremos nos próximos capítulos a comunicação, os fluxos informacionais, que influenciam de modo mais ou menos difuso a ação individual e social.
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De outra perspectiva Dunn (2008, p. 167) pode levar a conclusões semelhantes ao explorar como as mercadorias e seu uso social comunicam por meio de códigos semióticos. Os estilos de vida recebem significado dentro de um sistema de signos e já que as mercadorias também são signos, e à medida que os padrões de consumo fluem através das linhas que distinguem classes, a mera posse e uso envolve um conjunto de significados que operam independentemente as intenções e desejos dos sujeitos. Isso sugere que mesmo quando atores buscam conscientemente uma auto-identidade pelo que consomem, esta identidade já é atravessada por códigos de consumo.
19 Que envolve, como afirmado no início, as perspectivas científica; regulatória; mercado;
profissionais da saúde; divulgação
se torna nebuloso, por vezes contraditório, podendo (ao contrário das reivindicações de contribuição à saúde pública) causar confusão e desorientação.