CAPÍTULO 2 DISCUTINDO A PARTICIPAÇÃO DE NEYMAR JÚNIOR NA COPA
2.2 O ÍDOLO NEYMAR JÚNIOR: DESEMPENHO, COBRANÇAS, LIDERANÇA E
Uma das estratégias adotadas pela mídia, ligada ao conteúdo esportivo, mais especificamente, ao futebol, foi a criação de um ídolo esportivo: Neymar Junior. Este dircurso midiático esportivo necessita criar um “herói nacional” que represente o povo aproximando a comunidade, os adolescentes e, todo público de modo geral, ao consumismo e as influências que este mesmo traz através dos seus movimentos ligados a espetacularização.
Destaco aqui algumas das falas dos alunos que participaram do grupo focal, evidenciando o jogador Neymar Jr. e sua participação na Copa do Mundo de Futebol FIFA 2018, com o intermédio do mediador.
“- A questão da influencia da mídia ficou muito presente, porque se espera muito do Neymar na copa do mundo?” – Perguntou o Mediador.
“- Sim, ele era muito cobrado.” – Respondeu a Aluna F. “- Porque será que ele cobrado? – Mediador.
“- Porque ele é considerado uma figura pública do Brasil por causa do Futebol.” – Aluna F.
“- A gente esperava mais dele porque ele é o destaque do Brasil, e nos jogos ele arrasa, ele chama atenção, todo mundo pensava que ele fosse dar o melhor dele lá e acabou decepcionando.” – Aluna B.
“- Inclusive ele tinha acabado de voltar de lesão do pé.” – Aluno C.
“- Porque ele se cobra e é muito cobrado, o peso da copa do mundo sempre fica nas costas dele, porque ele é o jogador destaque.” – Destaca Aluna F.
Quando Neymar deixa de ser reconhecido pela mídia e pelos torcedores como mero jogador e, é compreendido como alguém que se destaca no universo social, no qual muitos se inspiram, cria-se um vínculo com a população que se identifica com este jogador de forma imediata.
De acordo com as colocações de ( MARQUES, 2012, apud BRUGGEMANN E PIRES, 2013, p. 12):
Baseado na Revista SportsPro, que [o agora ex] atleta do Santos e [ainda atual jogador] da Seleção Brasileira tem o maior potencial de Marketing entre os esportistas de todo o mundo. Este potencial se dá pelo seu carisma e sua abertura junto ao público através de redes sociais, mas também pode-se entender que esse potencial se deu pelo "Tsunami" de notícias proferidas pelos meios de comunicação sobre a figura do Neymar.
Constatamos através destas falas, que os alunos partilhavam expectativas e esperanças de um esporte da mídia, que se compreende no universo da espetacularização, exaltando ídolos que geram uma personificação nestes alunos, podendo até ir para além, envolvendo pessoas de qualquer meio social, idade e gênero.
“- Será que a história do Neymar inspira alguém?” – Perguntou o mediador. ‘- Sim né, porque ele saiu da favela.” – Disse o Aluno C.
De acordo com Lisbôa (2007, p. 81) ressaltando colocações de Adorno (1996) “a mídia exerce influência para a ‘semiformação cultural’ utilizando o esporte, criando estratégias para a construção do ídolo esportivo, privilegiando principalmente a mobilidade sociológica e ascensão social.”
Segundo Bruggemann e Pires (2013) por meio do seu discurso, a mídia esportiva passa um encantamento do jogador fazendo questão de noticiar tudo o que acontece na vida dele, deixando ao final de ser só dele e passando a ser vivida por todos. O que possibilita pensar na questão dos “heróis” que devem agir para “redimir a sociedade”. Mas podemos pensar, que às vezes esses “heróis” acabam tomando atitudes não tão cuidadosas.
“-Vocês acham que o Neymar poderia ser o líder desta seleção?” – Questionou o Mediador.
“- Poderia ser, pelo fato de ele jogar bem e ter o apoio dos fãs, da nação brasileira, ele poderia sim. ” – Disse o Aluno A
“- Eu não acho, porque ele não tem autocontrole sobre ele mesmo. Então não tem como ser, tanto é que ele xingou o juiz em um jogo.” – Aluna F
“- Então nós temos lá o Neymar, que a midia o trata como um ídolo, e a gente se depara com um ídolo agindo assim de modo desrespeitoso, xingando o juiz como ocorreu em um jogo da Copa do Mundo, em 2018. Será se com essa atitude, ele pode ser considerado uma boa influencia?” – Pergunta o Mediador.
“- Não né, ainda mais que ele falou [referindo-se ao comentário do jornalista do vídeo transmitido durante o grupo focal] que ele [ Neymar] era ídolo das crianças né, isso influencia as crianças [negativamente]. Elas não vão achar isso bonito.” – Argumenta a Aluna B.
“- Não sei qual jogo, mas teve um que ele foi massacrado.” – Relatou o Aluno G, na ocasião de Neymar ter passado por acontecimentos de críticas e maus comentários, por usuários da internet.
De um certo modo os sujeitos desta pesquisa, por mais que se comprometam com estas representações midiáticas, já conseguem analisar algumas das questões que estes ídolos repercutem em dados momentos, dentro ou fora de campo, como celebridades. O mediador e os alunos, após as reflexões, chegaram à conclusão que tendo a aparição de Neymar como ídolo, este teria que controlar suas atitudes, pois representa uma parcela da sociedade que se inspira em sua história e padrão, mesmo este sendo empoderado pela mídia. Assim como cita (SETTON, 2009, apud FELTES E SANFELICE, 2017, p. 1):
Grande parte dos autores acredita que os jovens estão em fase de construção de suas identidades e, portanto, são mais vulneráveis na apreensão e influência das mídias em seus comportamentos e subjetividades, como também enfatizam uma séria e estreita associação entre cultura pós-moderna, globalização e cultura do consumo veiculada, sobretudo, pelas mídias e pelo lazer.
2.3 REPERCUSSÃO DE NEYMAR E SUA REPRESENTATIVIDADE: MEMES
Estas influências que são repercussões de uma representatividade mídiatica, se conectam diretamente com a identidade que os consumidores destas informações da mídias estão formando. Podem, assim, com os elementos que compõem estes dados expostos, apresentar diversas narrativas, positivas e/ou negativas, além de humorísticas inclusas nos princípios da jovialidade. Construindo então a identidade de um meme.
“- Qual a imagem que o jogador Neymar pode ser lembrado da Copa do Mundo de Futebol?” – Pergunta o mediador aos membros do grupo focal.
“- Caindo no chão, rolando. Com formato de meme.” – Responderam todos “- Onde vocês acham que esses memes são formados?” – Questionou o Mediador.
“ - Na internet.” – Disse a Aluna H.
“- Só estava acompanhando a copa pelos memes, pra rir. E porque a gente já estava meio que numa expectativa do que ia acontecer” – Mencionou o Aluno C.
“- Nós somos uma fábrica de memes.” – Disse o Aluno E olhando e mencionando seu colega Aluno C.
Foi muito interessante como os memes surgiram representando uma forma de conversação com tom humorístico para os alunos desta pesquisa e para além destes. Por meio de comunidades na internet, que replicavam suas ideias, compartilhando e criando novos significados, ressignificando as informações através dos memes, os sujeitos contextualizam um novo cenário para os meios de comunicação.
O cenário desta vez foi a participação de Neymar Jr. que a mídia espetacularizou e criou através de expectativas de seus discursos, trazendo o Brasil
como favorito campeão. Mas que foi frustada após a eliminação da seleção brasileira da Copa do Mundo de Futebol 2018. Como forma de não desperdiçar este fato histórico, os mais diversos acontecimentos deste evento foram transfomados em memes pelos membros de comunidades presentes na internet. Como exempo os Alunos E e C, que são donos de pagínas de memes e compartilham estes fatos a seus colegas e assim disseminam suas concepções.
Estas falas relacionadas aos memes não apareceram só no grupo focal, mas também nas questões discursivas do questionário, com os mais diversos integrantes da turma. Foi observado que estas questões meméticas se ramificam aos mais diversos nichos de uma sala de aula e para mais a frente da sua própria comunidade. Frases estas, bem como a pergunta, como você avalia a participação do jogador Neymar Junior:
Aluno E: “Boa, só que poderia chorar e cair menos, porque no jogo do Brasil, tive que assistir na horizontal para ver ele em pé”.
Aluno I: “ Não sei, quando fui assistir ele caiu”. Aluno J: “Que ele fica mais no chão do que joga”.
Aluno K: “Ele joga bem, mas fica mais no chão do que em pé”.
Aluno L: “Mais ou menos a participação dele não foi tão boa ‘cai, cai’”. A partir da contextualização destes fatos, Horta (2015, p. 44) reflete que:
Nesse sentido, pensar os memes no ambiente da internet nos instiga uma reflexão sobre a influência e o impacto do meio no curso da cultura, o que implica a interação social mediada, como se configuram os memes em seu devir, que aspectos conformam suas possíveis significações, entre outros fatores.
Diante desta relexão, o mediador questionou ao grupo se podemos encontrar pessoas que tiram essas informações da mídia como verdade incontestável. Com o intuito de identificar junto com os alunos, que estavam presentes, novas percepções sobre um possível esclarecimento mais crítico contra estas influências midiáticas.
“- Sim, talvez essa seja a única informação que eles tenham. E não conseguem refletir sobre isso.” – Mencionou o Aluno A.
Destaca-se um episódio interessante do Aluno A, em que o mesmo anteriormente, em suas falas, mencionou que ao se deparar com uma publicação em uma rede social, na internet, de que a seleção brasileira estava com uma boa formação, acreditou nesta afirmação, a tomando como verdade. Pode-se compreender como uma boa formação, a seleção se constituir de jogadores referencias internacionais, em boa fase física e de entrosamento com grupo. Como o aluno não era adepto de buscar informações sobre conteúdos esportivos, confiou na informação que apareceu primeiro em sua linha de publicação, sobre dado conteúdo símbolo da espetacularização esportiva. Ele foi, deste modo, realmente influenciado por esta informação. Ele compreende que as pessoas, por entrarem em contato com uma única informação, sem refletir sobre isso, podem ser influenciadas pelas mídias, mas, de uma forma intrínseca, ele acaba repercurtindo este mesmo fato, como mencionado nas falas acima.
Assim sendo, concluímos que, por meio de reflexões, podemos construir um novo entendimento sobre o esporte e a mídia. Propondo pensares problematizadores que agregam a discussão destes fatos nas aulas de Educação Física. Por isso a necessidade de se abordar questões sobre o desenvolvimento de um pensar crítico sobre esta temática, relacionando-se diretamente com a Educação Física escolar, com aprendizagens metodológicas e referências para tais conhecimentos, como exemplo do corpo, movimento, esporte propriamente dito e as informações que são propostas pelas mídias. Sendo a educação física a disciplina que tem os esportes como conteúdo de seu currículo, é de maior responsabilidade, dos educadores da disciplina, discutir sobre estes fatos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A interação com os alunos durante a realização do estudo proporcionou observações extremamente pertinentes ao que se foi questionado por meio desta pesquisa, com intermédio de sua temática. Uma delas diz respeito diretamente a Educação Física como problematizadora do esporte da mídia na formação de jovens e adolescentes, através de suas reflexões durante as aulas.
Tal conjuntura esportiva midiática, acaba refletindo diretamente na educação física escolar, que adota e utiliza o esporte como um conhecimento e conteúdo do seu currículo. Este esporte encontra-se contaminado por essa influência da mídia esportiva, gerando representações oriundas do espetáculo. Assim como exemplo podemos citar o comportamento de alunos imitando seus “ídolos” do esporte, utilizando-se de vestimentas que correspondem ao time que mais prevalece, atuando de uma maneira competitiva, e compartilhando e editando informações via as plataformas e meios de comunicação encontradas na internet a partir dessa compreensão de esporte.
O preço que se paga pela espetacularização do esporte é a fragmentação e descontextualização do fenômeno esportivo. Os eventos e fatos são retirados do seu contexto histórico, sociológico e antropológico, (...) o prazer, a ludicidade, não são vivências privilegiadas no enfoque das mídias, mas as eventuais manifestações de violência, em partidas de futebol, por exemplo, são exibidas e reexibidas por todo o mundo, fazendo-nos acreditar que o futebol é um esporte violento. (BETTI, 2001, p. 126-127).
O futebol como bom exemplo para esta ponderação, pode ajudar a compreender ainda mais a influência da mídia no comportamento de uma sociedade, submergindo-se até o seu núcleo educacional. Atualmente o futebol é o esporte mais veiculado pelas mídias, onde esta propagação repercute na simples ação de uma aula de Educação Física. Como padrão, encontramos a grande maioria dos alunos já vindo preparados para o jogo, com costumes ligados a seus ídolos, por meio dos movimentos corporais que se deixam levar por estas representações e conhecimentos oriundos desta mesma celebridade. Contudo ainda devemos ressaltar que os alunos não apenas reproduzem as representatividades, mas também produzem através destas novos movimentos e conhecimentos. Diante disto ressalto que, além de todas as críticas, os adolescentes não são apenas meros reprodutores da cultura que consomem, mas também ressignificam este repertório cultural e produzem uma nova cultura.
Fauth (2010, p. 7) explicita a ressignificação da educação fisica escolar e dos esportes, através de uma consideração crítica. Segundo a autora “o processo de ressignificação dos esportes e dos conteúdos da Educação Física no âmbito escolar, necessitam de uma abordagem reflexiva que trabalhe com a mídia dentro do processo pedagógico.” Só assim com uma abordagem crítica desta educação, levantando discussões acerca deste conteúdo, é que podemos trabalhar de forma harmônica cada elemento, reconhecendo a sua importância.
“Apenas uma Educação Física concebida como articulação pedagógica entre vivência corporal/conhecimento/reflexão, referenciando-se à cultura corporal de movimento, poderá ser frutífera e relacionar-se criticamente com as mídias.” (BETTI, 2001, p.127).
Estas abordagens críticas são recomendadas, pois trabalham com relações de comportamento que geram fundamentações e contribuições dos alunos. Fugindo de uma metodologia de ensino tradicional, onde apenas o professor é o mediador do conhecimento e da palavra. Como obervamos no decorrer desta pesquisa, há uma
influência da mídia esportiva na ação e na compreensão dos alunos sobre o esporte e a própria educação física. Contudo, esta influência não está totalmente enraizada nos princípios destes alunos. Eles ainda estão cientes de que sem um ponderamento crítico, seremos facilmente persuadidos pelo discurso da espetacularização da mídia.
Sendo assim, por meio de uma forma crítica metodológica há uma participação de todos nas discussões durante as aulas, provocando e “integrando as dimensões físico-motora, afetiva-social e cognitiva, e vislumbrando a formação do cidadão capaz de usufruir criticamente da cultura corporal de movimento.” (BETTI, 2001, p.127).
Com isso devemos seguir uma lógica de apropriação de leituras, discussões, suportes tecnológicos, construção de ideias e problemas de maneira crítica a fim de emancipar estes alunos que são receptores de todas essas informações, formando estes sujeitos, para que quando fora da vida escolar, repercutam esses saberes críticos.
Desta forma deixa-se explícito também o porquê de nos basearmos no estudo de recepção. Pois este propõe uma reflexão em relação as ações dos indivíduos de acordo com o discurso vindo diretamente da mídia, a partir dos seus diferentes contextos sociais e histórico culturais.
Trazemos então, enriquecendo com as colocações de Fauth (2010) como objetivo, que os alunos sejam mais autônomos e possuam um olhar mais atento e criterioso, para assim formarmos seres capazes de realizar uma recepção crítica e que não apenas reproduzam os discursos e representações impostos a todos através do discurso midiático.
Neste contexto, o ambiente escolar, junto aos professores e prefessoras, precisam reajustar seus serviços abordando as necessidades e comportamentos da nova geração dos seus alunos, acompanhando seu desenvolvimento crítico. Pois é a partir desta mediação, do suporte da escola e dos educadores, que os alunos irão desempenhar sua emancipação intelectual.
Como estratégia para um novo pensar, Alves e Silva (2018, p. 58) citam que: A participação dos educadores pode ser encorajada pelo contato via plataformas digitais, nas quais eles possam trocar experiências, disseminar boas práticas e compartilhar projetos exitosos, podendo ainda desencadear um trabalho em conjunto e on-line.
Com este intuito conclui-se e é ressaltado que o professor pode ser o mediador que proporciona uma ligação entre os diversos meios didáticos, de forma significativa, para oportunizar com estes uma contextualização desses conhecimentos, tornando-os cientes da necessidade de um olhar crítico. Desta forma, os alunos deixarão de ser apenas meros espectadores e passarão a captar as informações para se tornarem cidadãos responsáveis pela sociedade na qual vivem, garantindo assim, um futuro melhor para si.
Esta pesquisa trouxe muitas experiências para mim enquanto professor em formação, lançando-se ao desafio de ser pesquisador. Por meio deste estudo consegui compreender de uma forma mais enriquecedora, através de todos os dados colhidos, os fatos relacionados a um conteúdo tão presente na formação do meu conhecimento, que estão presentes também, de modo geral, em nossa sociedade. Conteúdos estes o esporte e mídia. É preciso também assumir que esta pesquisa possa apresentar algumas limitações quanto a sua execução e discussões realizadas, que refletem, de certa forma, o estágio de formação acadêmica no qual me encontro e as poucas oportunidades de “ser pesquisador” ao longo da licenciatura. O que poderia ser diferente, nesta perspectiva seria ter buscado mais alunos para participarem da pesquisa, olhando, por exemplo, todos os alunos do ensino fundamental. Expandindo estes sujeitos da pesquisa. Contudo, quem sabe esta não possa ser uma próxima e eventual continuação desta pesquisa.
REFERÊNCIAS
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