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o íntimo alargado

No documento DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA (páginas 161-177)

Usos impertinentes de espaços públicos

Vila Praia. A calçada é lavanderia e quintal. Foto Marcelo Min

Ainda que a diminuição da vitalidade na ocupação da Avenida Luis Migliano por parte dos moradores da Vila Praia seja a camada de realidade mais imediatamente sensível (mais visível quanto maior a comparação com o período anterior ao fogo), a implantação entrincheirada da favela em uma antiga praça, com as fachadas alinhadas diretamente com o asfalto da avenida, ainda é uma imagem muito potente que atiça a discussão acerca das fronteiras

155 entre espaço público e privado e as apropriações que subvertem estas relações, transformando os espaços em territórios.

A sarjeta é salão de beleza. Favela Vila Praia. Foto de Marcelo Min.

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Fachadas das casas da favela Vila Praia. Foto de Marcelo Min.

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Localização da favela Vila Praia em relação aos prédios de alto padrão. Disponível no site Google Earth

O Entulho foi organizado por moradores no meio do terreno, mas não tem por onde ser retirado. Prédios de classe média alta ao fundo. Foto de Marcelo Min

Os vizinhos da Vila Praia são edifícios de classe média alta do bairro do Morumbi, empoleirados no alto dos morros e que espiam de cima a movimentação da favela. Estes prédios de alto padrão são ilhas de segurança e lazer concebidos dentro dessa lógica, basta ver a foto aérea - formatados segundo a cartilha neoliberal, que estimula a privatização do solo em políticas

158 não participativas. As justificativas para remoções de favelas são a renovação urbana e a segurança, tanto para os ―favelados‖ como para os ―incluídos‖.

Os empreendimentos imobiliários atuais apostam em afirmar uma cidade fora dos muros que não vale a pena. Com as promessas dos condomínios fechados – segurança 24hs, ―lazer de clube‖ - não será mais necessário relacionar-se com a cidade, além da garantia de simetria nas relações intramuros, determinadas pela homogeneidade dos padrões socioeconômicos. Não se vende apenas um apartamento, mas uma idéia de mundo, atrelado a certo padrão de consumo.

Muitas moradoras da favela trabalham nesses prédios, na função de empregadas domésticas, faxineiras, cozinheiras, etc. Uma delas nos contou do desespero de ver o fogo consumir sua casa da janela do apartamento da patroa. Hoje ela se aperta com suas duas filhas pequenas na casa do filho casado, que também teve o segundo andar de sua casa, feito de madeira, consumido pelo fogo.

A cota das casas da Vila Praia raramente ultrapassa o segundo andar. Pela foto aérea podemos observar a alta densidade da ocupação horizontal antes do incêndio. Não havia ruas internas visíveis, nem pátios. A circulação se dava por corredores que se formam passando praticamente por dentro dos barracos - e agora há aquele imenso pátio de destroços e água suja. Mas a textura que se vê da avenida é a de um casario simpático, quase cenográfico, de pequenas casas de alvenaria, muitas coloridas, outras com soluções construtivas curiosas, alguns bares, carros velhos estacionados e roupa lavada pendurada por toda parte.

As casas foram se amontoando sem recuos até a beirada da via pública e, se houve anteriormente uma faixa destinada ao passeio, ela foi paulatinamente ocupada por ampliações dos espaços das moradias. Tornaram- se lavanderias, salas, espaços para guardar bicicletas. E os moradores que possuem veículos os estacionam em frente às suas casas, roubando um pouco mais do espaço viário. É interessante notar que a circulação de pedestres pela rua obedece a uma faixa invisível de asfalto, regulada apenas pelo bom senso, tanto dos motoristas quanto dos pedestres. Os carros passam sempre a partir

159 dessa linha invisível por onde circulam pessoas e muitas crianças. Estabeleceu-se uma margem de segurança através de um acordo tácito de respeito aos pedestres. Uma calçada direto no asfalto.

Outra peculiaridade deste tipo de favela em beira de vias públicas é que a fronteira entre os espaços íntimos e o espaço público são as finas paredes. Ao passarmos de carro pela Avenida Luis Migliano, podemos observar as atividades mais prosaicas, que normalmente se inscrevem dentro dos espaços estritamente privados do lar. No final de semana as faxinas, o ócio, a vaidade escapam pelas portas. Os homens lavam os carros, as mulheres lavam e penduram roupas no varal, fazem da sarjeta salão de beleza, ponto de encontro e muitas portas permanecem abertas o dia todo. Há uma permeabilidade muito maior entre o fora e o dentro, o que também implica em uma maior vivência festiva da coletividade e dos espaços externos do que na contrição da cidade formal.

As forças que a Vila Praia coloca em campo são práticas urbanas que merecem atenção, não no sentido do perigo que a cidade formal denuncia, mas naquilo que a cidade murada desaprendeu sobre a cidade vivida e que, aos poucos, foi assimilando os atritos naturais da experiência da urbanidade como fatores de risco e de medo.

Mas o desafio que está posto é o estabelecimento de um espaço ―entre‖ as duas cidades, uma fronteira no sentido de Lotman, na qual textos estranhos entrem em contato para a criação de um terceiro texto, não uma síntese, mas uma conversa.

Ao observar durante anos a inserção da favela naquele local, o objetivo era a escuta e a amplificação dos aspectos positivos das urbanizações informais, tais como a coletividade, a ocupação da rua e as relações espaciais voltadas para o aberto, acreditando que há forças politicamente ativas que desmontam as retificações do estado com ações simples, tais como portas abertas para uma avenida - que teve sua velocidade reduzida pela simples percepção de uma espacialidade singular. O que nos leva a pensar que estas ocupações perduram não apenas por descaso do governo, mas porque há um ―comum‖ a ser defendido - o direito de habitar, o direito à cidade e ao usufruto

160 dela, para além dos espaços públicos hiper-codificados, tais como praças, parques e locais de consumo cultural. Favelas como a Vila Praia são espaços não reclamados por nenhum projeto de cunho social, mas que desperta interesse comercial por localizar-se em ilhas urbanas de solo valorizado, com sólidos investimentos da construção civil. A favela é um impedimento, mas pode ser uma grande oportunidade para investidores, por ser pequena e facilmente removível.

Mas depois do incêndio parece que a escuta captou uma emergência: a Vila Praia ainda não despertou para o risco de seu desaparecimento. Há a necessidade imediata de refazer a conversa com a ―cidade maior‖. Será preciso que se organizem em torno de um objetivo político, aprender sua jurisprudência, lutar pela permanência.

Porém, ainda que permaneça, o que deverá ser negociada é a forma de permanência. A política neoliberal prevê que o direito à cidade consolida-se através do direito de posse do solo urbano, mas entendemos que a propriedade não garante a permanência e valorização de certos mecanismos importantes da informalidade, que não vão desaparecer nem ter sua importância diminuída pelo simples fato da posse da casa.

O primeiro destes dilemas consiste em como fazer para integrar, formalizando, um tipo de espaço urbano cujas características aparecem totalmente imbricadas com uma economia popular que prospera e se reproduz com a marca da informalidade, quando não, da ilegalidade no sentido forte do termo.60 (DUHAU, 2003, p. 9)

Há naquela clareira gerada pelo fogo signos, tanto do fim da favela como de seu fortalecimento. Ainda é cedo para saber.

Em tempo: O fotógrafo Marcelo Min me enviou um email ontem, 17/08/2010, dizendo que os bares da favela continuam a ser lacrados pela prefeitura: ―O

pessoal da Vila Praia me ligou hoje. Disse que a prefeitura estava lá, com força policial e tudo para fechar todos os bares (e as casas que ficam em cima)”. As casas que ficam em cima são residências, mas o

60 DUHAU, EMILIO. La ciudad informal: el orden urbano y el derecho a la ciudad Disponível

em: <http://free-books-online.net/LA-CIUDAD-INFORMAL-EL-ORDEN-URBANO-Y-EL- DERECHO-A-LA-CIUDAD-pdf>. Acesso em: agosto de 2010.

161 morador, para entrar em casa, precisa necessariamente passar pelo bar. Como é que vai ser agora?

O comércio da Vila Praia atende somente a população da favela, que é bem pequena, situação bastante diversa da favela Paraisópolis, bastante próxima dali, onde o comércio florescente atraiu prestadores de serviços do mercado formal para dentro da favela, comportando empresas tais como o banco Bradesco, Casas Bahia, posto de saúde do hospital Albert Einstein e muitas ONGs. A concessão de áreas para estas atividades regulares tem que ser negociada, pois a situação fundiária ainda é informal. A grande diferença entre as duas favelas está no poder de atração que a economia informal pode gerar para a economia formal. Neste caso é verificável a hipótese de Torroja, que diz que61(...) ―o informal pode muito bem surgir e ser criado inclusive a partir do formal e supostamente já estruturado, e talvez o formal só possa mesmo existir como parte da informalidade generalizada‖. (2005, p. 65)

Rua 25 de março

Trabalho, festa e guerrilha nas ruas

Na rua dos sentidos é somente andar, olhar, ouvir, cheirar. Será interessante arriscar-se em elevadores antigos, pequenos e sacolejantes, com portas pantográficas de uma São Paulo vestigial para comprar toda espécie de miçanga, vidrinhos coloridos e artigos religiosos, maquinários de relógios, ponteiros e tantas outras partes para montar coisas. Nada se vê do antigo porto fluvial que justificou o nome da rua contígua, a Ladeira do Porto Geral, fica difícil imaginar pra onde foi tanta água. O formigueiro humano que se configura diariamente naquela região próxima ao Mercado Municipal é um enclave de festim urbano na cidade de São Paulo.

O Estado muda as táticas de controle do comércio informal e da pirataria diariamente, pega daqui, escapa dali. Os ambulantes reagem com solidariedades momentâneas na hora do rapa. São diariamente reprimidos, mas também diariamente reinventam a ocupação da rua. Não adianta colocá- los em áreas separadas e planejadas. Eles reclamam a permanência na rua, a despeito da precariedade e do desamparo social.

61 TORROJA, PÍO. Cinzento público americano. Publicado em 2005. Disponível em:

<http://www.seacex.es/Spanish/Publicaciones/POST_IT_CITY_CIUDADES_OCASIONALES/P ost-It%20City.%20Occasional%20Urbanities.pdf>. Acesso em: maio de 2005.

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As fotos de Marcelo Min feitas na Rua 25 de março no final do dia estendem o olhar para depois do caos dos pregões e rapas. Novas configurações acontecem a partir do cair da tarde.

Os ritmos exprimem o desigual, como apresenta Richard Pinhas: ―é o ritmo impulso desigual e complexo que efetua a simbiose da música e dos elementos. O ritmo ou desigual torna sensíveis as vibrações‖. Porém, Deleuze adverte que o caos não é o contrário do ritmo, ele será o meio dos meios. ―O que há de comum ao caos e ao ritmo é o entre-dois, entre dois meios, ritmo-caos, ou caosmos: entre a noite e o dia, entre o que é construído e o que cresce naturalmente, entre as mutações do inorgânico ao orgânico, da planta ao animal (...)

O ritmo é crítico, liga a passagem de um meio a outro e trabalha por blocos heterogêneos. Os esgotamentos e as intrusões do caos sobre os meios ganham ritmos e estes se produzem entre dois meios, são devires. É no meio que o ritmo é produzido. O meio, então, se constitui de uma repetição produtora‖. Rodrigo Carqueja de Menezes62

Uma crônica publicada por Rubem Braga63 ilustra como em 1935 o embate

entre ambulantes e comerciantes, proprietários e despossuídos, entre a força e a astúcia já estava instaurado. A narrativa tem os desfavorecidos representados pelos engraxates, figuras então muito presentes nas praças, marquises, galerias e barbearias do centro. Já os donos de barbearia representam o comércio formal incomodado com os ambulantes.

Rubem Braga nos faz percorrer com ele um trecho central muito conhecido da cidade, conduzindo o leitor até o lugar do conflito entre ambulantes e comerciantes.

A São Paulo, Avenida São João. A vida em São Paulo está barata. Vemos ali sandwiches de queijo ou de presunto a duzentos réis. A avenida é larga, é bella, cheia de gente e de barulho. Desçamos no meio da turba. Na praça do Correio existe a estatua mais feia da America do Sul. É de Verdi. Amo este trecho entre a praça do Correio e o largo Paissandu. Vinde ver os engraxates. Aí, engraxates de São Paulo! Aí,

62 Rodrigo Carqueja de Menezes. Revista Eletrônica COMUM num. 26. Disponível em:

<http://www.facha.edu.br/publicacoes/comum/comum26/artigo3.pdf>. Acesso em: junho de 2010.

63 BRAGA, Rubem. Engraxates de São Paulo: Folha da Noite, domingo, 14 de abril de 1935.

Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/almanaque/rubembraga1.htm>. Acesso em: 17 de out. de 2009.

163 sobretudo engraxates volantes de São Paulo! Engraxates civis, engraxates militares.64 (BRAGA, 1935).

Então Rubem Braga entra numa barbearia da época para nos mostrar um mundo que não existe mais. São oito os barbeiros e mais ao fundo duas manicures. Ao lado delas um homem com a importante tarefa de renovar, limpar e lavar chapéus. À frente, quase na calçada, os engraxates contratados, quinze ao todo, os tais que o autor chama de ―engraxates militares‖, com o uniforme da casa. Embora sejam tão miseráveis quanto os ambulantes perseguidos pela polícia, os ―engraxates militares‖ sentem alívio por não estarem, pelo menos naquele dia, na pele dos miseráveis ambulantes.

Os ambulantes são os engraxates volantes, os chamados ―engraxates civis‖ pelo autor, que trabalham de cócoras, que vestem farrapos. São aqueles que

(...) estão na rua, e sabem a technica do combate de rua. Sabem jogar pedra, jogar xingamentos, provocar, fugir, voltar, vaiar, atormentar. O homem [o dono da barbearia, que contrata os engraxates militares] teme a concorrência dos engraxates volantes. Além de tudo - affirma - elles não pagam licença. De modo que um commerciante honesto que paga a sua licença fica prejudicado por esses vagabundos. (BRAGA, 1935).

Rubem Braga conclui que a vida não é justa, e que os engraxates de todos os tipos, todos vivendo miseráveis vidas, deveriam unir-se. E pensa revoluções, enquanto seus sapatos são engraxados pelos ―engraxates militares‖, sempre esperando gorjetas que dêem sentido à miséria de suas vidas.

É humilhante. Humilhante? Quem foi que disse, poeta, que isso é humilhante? Humilhante é a vida. Será que não ha um meio de concertar a vida? Deve haver. Tenho meditado sobre esse assumpto. Nós faremos muitas coisas pouco recomendáveis e contra os sentimentos do povo brasileiro, que em sua enorme maioria é catholico, ordeiro e syphilitico. Com excepção dos tuberculosos e de outros. As balas das metralhadoras ferirão os caules das rosas suaves. Mas agora não. Agora o melhor é mandar engraxar os sapatos enquanto se medita. (BRAGA, 1935).

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Engraxates no centro de São paulo. Foto de Deltafrut, no flickr.com

Mas os ―civis‖ foram vencidos pelos ―militares‖? Todos foram vencidos pelas evoluções do capitalismo. As grandes barbearias foram vencidas pelas multidões sem paletós, usando sapatos nobuck, tênis esportivos, sem gravatas nem chapéus, que fizeram encolher a presença dos engraxates do centro. Os ―engraxates militares‖ foram para o ―olho da rua‖, literalmente. Há atualmente algumas cadeiras de engraxate localizadas na praça D. José Gaspar, que existem graças à luta da Associação dos Engraxates em Vias Públicas no Município de São Paulo, porém com um detalhe - os engraxates devem trabalhar em cadeiras padronizadas. Os ―engraxates civis‖ continuam pobres, em geral são ainda crianças, circulam com caixas improvisadas.

165 Cidadania latino-americana: a nódoa móvel na cidade

Homem descansa em canteiro durante uma passeata do MSTC , movimento social pró-moradia no centro de São Paulo. Foto Marcelo Min

Um território debilmente governado não significa, a priori, que seja uma terra de ninguém, mas sim que os sistemas de registro mais interligados e densos, os estatais e os legais, deixam vazios, ou seja, não quer dizer que haja uma ausência de lei ou de sociedade, mas sim que se trata de lugares e situações onde os sistemas de registro apresentam zonas de ligação fracas,...65 Pío Torroja (2005, p. 65)

A cidade, pensada de acordo com Manuel Delgado (Sociedades Movedizas), é tudo o que existe de estável no urbano, logo podemos pensar que a cidade dedica-se à permanência do seu patrimônio construído, mas também à manutenção das instituições que regulam a vida de seus moradores. O Estado coloca-se então no papel de representante-mor da cidade, pois é quem traz para si a tarefa de criar e por em andamento os dispositivos reguladores que faz a cidade perdurar. (TORROJA, 2005, p. 64).

65 TORROJA, PÍO. Cinzento público americano. Publicado em 2005. Disponível em:

<http://www.seacex.es/Spanish/Publicaciones/POST_IT_CITY_CIUDADES_OCASIONALES/P ost-It%20City.%20Occasional%20Urbanities.pdf>. Acesso em: maio de 2005.

166 Torroja diz que a cidadania - um tema complexo e inesgotável, somente apontado aqui como um prelúdio às questões da informalidade - indica uma inserção do habitante em um território através de sua inscrição em diversos dos sistemas regulamentadores do Estado. Existe a chamada ―luta pela cidadania‖, o que significa lutar por existir na cidade, mas o que o autor afirma é que na América Latina a cidadania não pode ser facilmente definida, pois não é nem mesmo definitiva.

Isto é importante, uma vez que grande parte da população latino-americana não é cidadã no sentido tradicional, o seu registro é cinzento: gradual, ambíguo, contraditório e intermitente.

(...) Nesse ponto, se quisermos entender como o público se manifesta na América, teremos de ter a precaução de evitar o juízo comum de que este caráter gradual e contraditório seja um defeito. A idéia de um cinzento, de um caráter gradual, põe em evidência o fato de que os processos de formalidade e informalidade não sejam substanciais, mas sim relacionais, e de que não possam ser localizados definitivamente. (TORROJA, 2005, p. 65)

O autor dá o nome de zona cinzenta para a cidadania latino-americana, como se esta fosse um dégradé, melhor dizendo, uma passagem gradual de um tom para outro, de um estado para outro. Essa comparação suaviza demais a idéia da cidadania latino-americana, tão interessante que o autor nos traz. Ora, mais do que um dégradé, a imagem da mancha contém todos os quesitos para representar nossa cidadania amorfa e móvel, resultado contingencial do derramamento de informalidades. De novo é o movimento do maior para o menor, ―entre a vida no território e a vida dentro do Estado‖ (TORROJA, 2005, p. 65), do formal para o informal e vice-versa. Mas o autor avisa que as transações entre o ―formal e o informal‖ não são reflexos apenas da pobreza e da exclusão. Nunca será, segundo Torroja, uma separação radical: pobreza e gagueira civil de um lado e riqueza e legalidade de outro.

A mancha cidadã instaura-se nos territórios geometrizados do Estado através de mini-governanças relacionais: solidariedades homem-a– homem, alianças fracas pelas emergências e às vezes até através da pequena corrupção: excluídos, invisíveis, pactuam-se com funcionários e fiscais de menor categoria, vizinhos, ativistas e pastorais. Estes pactos, muitas vezes, salvam só o dia.

167 Está claro que nosso modelo de Estado, ao menos na América, não determina as representações do ―público‖, embora seja um dos atores mais fortes. ‖É um dos peões principais, mas não é um tabuleiro‖ (TORROJA, 2005, p. 65). O ―público‖ na América Latina é, para o autor, uma emergência, o imprevisível que se mantém como crítica viva e mutante ao projeto, ao planejamento.

A rua-bazaar: o oriente somos nós

Rua 25 de março. Foto de Sérgio Alberti, no flickr.com

[o barroco] assume o caráter inquieto do contexto social, via linguagem, fazendo do tecido estético um ícone da loucura que vivemos. Nessa operação, recupera a fala do Outro, do excluído, do marginal.Cláudio Daniel66

A tradição urbana de comércio ambulante é, segundo Díos (2004), parte da América profunda que se apropria de ruas e de praças para viver e sobreviver na cidade. Esta tendência, já presente nas culturas ameríndias de colonização espanhola, juntou-se às contribuições coloniais ibéricas e mozárabes. Segundo Díos (2004), os colonizadores que chegaram ao

66 DANIEL, Cláudio. A escrita como tatuagem. Disponível em:

168 continente nos primeiros tempos já se deparam com um forte comércio de rua,

No documento DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA (páginas 161-177)

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