A pesquisa realiza uma análise sobre a utilização do Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente, diretriz da política de atendimento dos direitos das crianças e dos adolescentes, para garantir os direitos de adolescentes em circunstância de cumprimento de medida socioeducativa restritiva de liberdade, na perspectiva da sua inclusão social.
Cumpre, pois, contextualizar as políticas públicas no cenário das políticas para viabilizar a compreensão das políticas de proteção especial e o Fundo dos Direitos das Crianças e Adolescentes como instrumentos de inclusão social de adolescentes que cumprem medidas socioeducativas privativas de liberdade.
Segundo Bobbio (2000, p. 159), o conceito de política é derivado do adjetivo originado de polis (politikós), que significa tudo que se refere à cidade e, consequentemente, o que é urbano, civil, público e, até mesmo, sociável e social.
Conforme Cavalcanti (2012, p. 29):
Política (Polity) – organização política de um grupo, governo ou sociedade ou a uma sociedade como uma nação, que tem uma forma específica de governo.
Politics – conjunto de procedimentos formais e informais que expressam
relações de poder e que se destinam à resolução de conflitos quanto aos bens públicos.
Policy public – conjunto de decisões e ações relativas à alocação de valores (políticos, ideológicos, filosóficos etc.).
Segundo Caldas (2008, p. 5), políticas públicas são a totalidade de ações, metas e planos que os governos (nacionais, estaduais ou municipais) traçam para alcançar o bem-estar da sociedade e o interesse público.
Para Cohn (1995), o debate acerca das políticas sociais no Brasil vem ganhando destaque nesse período mais recente, suscitado tanto pelos brutais indicadores que traduzem uma sociedade marcada por profundas desigualdades sociais, condenando à pobreza larga parcelas da nossa população, quanto pela candente questão da reforma do Estado, identificado como historicamente ineficiente.
Dessa forma, ainda segundo Cohn (1995, p. 3):
[...] ao se discutir as políticas sociais na atual conjuntura brasileira, a questão da lógica do seu financiamento e da prestação de benefícios e serviços, e, neste caso, da sua produção, ocupa lugar central no debate atual, e que se desdobra em termos da compatibilidade entre os objetivos
propostos por cada política setorial — e dos respectivos programas aí
presentes — da área social; da disponibilidade, origem e constância dos
recursos disponíveis e previstos para sua efetivação; e da sua eficiência quanto a atingir os objetivos e o público-alvo previamente definidos. E se não é novidade que as políticas e programas sociais no Brasil não preenchem esses quesitos, entender sua lógica e buscar elementos que permitam imprimir-lhes outra racionalidade torna-se tarefa das mais urgentes para a construção de uma sociedade mais igualitária, vale dizer, mais democrática.
Imprescindível se torna analisar como têm sido implementadas algumas políticas de atendimento voltadas a adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativa restritivas de liberdade.
É importante pensarmos sobre as políticas estabelecidas e definidas como prioritárias relacionando espaço e tempo como um dos meios de identificar a realidade vivenciada.
Para Bobbio (2009), os fins da política são tantos quantos forem as metas as que um grupo organizado se propõe, segundo os tempos e as circunstâncias. Assim, as deliberações guardarão íntima relação com o contexto sócio-político num dado momento histórico.
No que toca aos adolescentes que praticam atos infracionais, a história social dos adolescentes no Brasil indica uma ausência de políticas públicas em favor deste público, contribuindo para a sua exclusão no contexto das oportunidades e de acesso aos bens de consumo.
Tejadas (2008), após realizar pesquisa em relação à juventude e o ato infracional, concluiu que os adolescentes reincidentes não são reconhecidos, sua presença é obscurecida, passam despercebidos pelas estruturas do Estado ou delas são excluídos, por não corresponderem a padrões de comportamento desejados.
Ainda conforme Tejadas (2008), a debilidade da intervenção do Estado, utilizando políticas invertidas, desarticuladas, fragmentadas e descontínuas, sem enfoques geracionais e nos jovens com as suas famílias, inviabiliza a construção de estruturas de sociabilidade portadoras de sentido, as quais possibilitariam ao adolescente a condição de projetar um futuro e de pertencer a uma estrutura societária.
Para se saber a realidade dos adolescentes em circunstância de cumprimento de medidas socioeducativas, nas suas dimensões sociais, é preciso identificar as relações políticas, quantos são contemplados com políticas de proteção social que viabilizem as suas emancipações cidadãs, verificando como estão insertas as suas necessidades tidas como prioritárias nas agendas dos agentes formuladores de política social pública.
Para Faleiros (2009, p. 36), uma política voltada para a cidadania implica outra relação com o Estado, baseada no direito e na participação, combina a autonomia da criança com a solidariedade social e o dever do Estado em propiciar e defender seus direitos como cidadã.
Segundo Marinho (1998, p. 196):
Qualquer que seja, enfim, a origem ou o ângulo dos contrastes sociais, a igualdade há de ser conquistada e mantida pela reivindicação vigorosa e pela prática possível e decidida. Admitir a negativa ou o resmungo dos que discriminam, é fazer o jogo da desigualdade. A igualdade se afirma pela consciência de torná-la efetiva, que é também forma de vencer obstáculos.
Tejadas (2008) analisou detidamente as questões sociais relativas ao trabalho (profissionalização), lazer, esporte, cultura, educação e saúde no que se refere às políticas públicas ditas direcionadas aos adolescentes em circunstância de cumprimento de medidas socioeducativas e concluiu que elas carecem de melhorias significativas em relação às políticas implementadas.
Conforme Tejadas (2008), as políticas implementadas não atendem às demandas que os atendimentos dos socioeducandos carecem, não se prestando aos fins para os quais deveriam ser destinadas, motivando as suas revisões.
Essa tarefa não é tão simples, daí a importância significativa da sensibilização para a causa dos adolescentes e atuação conjunta, em rede, nos espaços de decisão por parte do Estado através dos seus agentes, quanto por parte dos mais variados representantes das famílias, comunidades, sociedades e os próprios adolescentes que praticaram os atos infracionais e estão cumprindo medidas socioeducativas restritivas de liberdade.
Para Pereira Júnior (2012, p. 77), fica notória a necessidade de atuação articulada por parte de vários atores do Sistema de Garantia de Direitos (SGD), no sentido de materializar os direitos infantojuvenis estabelecidos na Constituição Federal, pois cada ator deve agir em sua esfera específica de atuação, bem como
nas lacunas deixadas pelos outros, garantindo, assim, a proteção integral, com ênfase na necessidade da participação popular, que juntamente com as entidades governamentais devem manter uma articulação constante na busca pela efetividade dos direitos formalmente fundamentais.
A política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais, da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios (art. 86, ECA).
No Estatuto da Criança e do Adolescente, no seu art. 87, estão estabelecidas as linhas da política de atendimento dos direitos das crianças e dos adolescentes:
Art. 87. São linhas de ação da política de atendimento: I - políticas sociais básicas; II - políticas e programas de assistência social, em caráter supletivo, para aqueles que deles necessitem; III - serviços especiais de prevenção e atendimento médico e psicossocial às vítimas de negligência, maus-tratos, exploração, abuso, crueldade e opressão; IV - serviço de identificação e localização de pais, responsável, crianças e adolescentes desaparecidos; V - proteção jurídico-social por entidades de defesa dos direitos da criança e do adolescente; VI - políticas e programas destinados a prevenir ou abreviar o período de afastamento do convívio familiar e a garantir o efetivo exercício do direito à convivência familiar de crianças e adolescentes; VII - campanhas de estímulo ao acolhimento sob forma de guarda de crianças e adolescentes afastados do convívio familiar e à adoção, especificamente inter-racial, de crianças maiores ou de adolescentes, com necessidades específicas de saúde ou com deficiências e de grupos de irmãos.
A delimitação de tais linhas da política de atendimento norteia as políticas públicas a serem deliberadas em favor das crianças e dos adolescentes, restringindo as discricionariedades dos gestores públicos, no sentido de que são obrigados a implementarem políticas públicas que estejam em sintonia com o quanto previsto na Lei n. 8.069/90 (ECA), na Lei n. 4.320/64 (Normas Gerais de Direito Financeiro e Orçamentos) e na Lei Complementar 101/2000 (Lei de Responsabilidade Fiscal).
Para Pereira Júnior (2012), em razão do caráter de urgência na implementação, as ações devem ser desenvolvidas de forma articulada e podem ser divididas de maneira didática em quatro grandes áreas de atuação, de acordo com o ECA: Políticas Sociais Básicas (art. 87, I), de Assistência Social (art. 87, II), de Proteção Especial (art. 87, III, IV, VI e VII) e de Garantia de Direitos (art. 87, V).
As políticas básicas atenderão as necessidades básicas, sentidas universalmente por todos, como as relativas à educação, à saúde e à segurança, com os seus fundos próprios.
As políticas sociais assistenciais visam a suprir necessidades temporárias ou não das crianças ou adolescentes que necessitem.
As políticas de proteção especial são direcionadas para todas as crianças ou adolescentes em condição de risco pessoal e social que justifiquem a implementação de políticas para protegê-los integralmente, retirando da condição de risco.
Quanto às políticas de proteção especial, segundo Pereira Júnior (2012, p.79):
São voltadas para os que se encontram com direitos violados ou ameaçados de violação em sua integridade física, psicológica e moral, e as políticas de garantia de direitos atuam nas situações nas quais as crianças e adolescentes se encontram envolvidos em um conflito de natureza jurídica, como nos casos de adolescentes com envolvimento com a prática de ato infracional, isso em relação aos adolescentes.
Um adolescente em circunstância de prática de ato infracional de tráfico de drogas, sem recursos financeiros para a subsistência e fora da escola, não está, em princípio, tendo acesso às Políticas Sociais Básicas, de Assistência Social, de Proteção Especial e, no dizer de Pereira Júnior (2012), de Políticas de Garantias de Direitos, fazendo com que os atores do Sistema de Garantias de Direitos tenham que promover a reparação de tais omissões.
As políticas em questão atingem diretamente o foco da pesquisa, pois se cuida, in casu, da utilidade e/ou necessidade do direcionamento dos recursos do Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente em prol dos adolescentes privados de liberdade no cumprimento de medidas socioeducativas restritivas de liberdade.
É importante evidenciar o quanto contido no artigo 88 do ECA:
Art. 88. São diretrizes da política de atendimento: I - municipalização do atendimento;
II - criação de conselhos municipais, estaduais e nacional dos direitos da criança e do adolescente, órgãos deliberativos e controladores das ações em todos os níveis, assegurada a participação popular paritária por meio de organizações representativas, segundo leis federal, estaduais e municipais; III - criação e manutenção de programas específicos, observada a descentralização político-administrativa;
IV - manutenção de fundos nacional, estaduais e municipais vinculados aos respectivos conselhos dos direitos da criança e do adolescente;
V - integração operacional de órgãos do Judiciário, Ministério Público, Defensoria, Segurança Pública e Assistência Social, preferencialmente em um mesmo local, para efeito de agilização do atendimento inicial a adolescente a quem se atribua autoria de ato infracional;
VI - integração operacional de órgãos do Judiciário, Ministério Público, Defensoria, Conselho Tutelar e encarregados da execução das políticas sociais básicas e de assistência social, para efeito de agilização do
atendimento de crianças e de adolescentes inseridos em programas de acolhimento familiar ou institucional, com vista na sua rápida reintegração à família de origem ou, se tal solução se mostrar comprovadamente inviável, sua colocação em família substituta, em quaisquer das modalidades previstas no art. 28 desta Lei;
VII - mobilização da opinião pública para a indispensável participação dos diversos segmentos da sociedade.
Tudo o quanto relatado no art. 88 do ECA não pode ser considerado facultativo; ao contrário, é uma obrigação e deve ser cumprida. Para tanto, todas as despesas que deverão ser direcionadas para o custeio das políticas de atendimento, regular-se-ão por intermédio das leis orçamentárias.
As leis orçamentárias regulamentam, conjuntamente, a coerência das destinações das despesas públicas, em face da receita pública estimada, para satisfação de metas previamente estabelecidas.
As leis orçamentárias classificam-se em Plano Plurianual, Lei de Diretrizes Orçamentárias e Leis Orçamentárias, sendo elaboradas pelo Poder Executivo Municipal, que as enviará ao Poder Legislativo para que os representantes do povo possam autorizar a realização das despesas previstas que terão a finalidade de satisfazer as necessidades obrigatórias sentidas por todos aqueles que delas necessitam, nos moldes do quanto previsto nas metas estabelecidas.
No contexto de escolhas das políticas públicas garantidoras de direitos de crianças e adolescentes, Pereira Júnior (2012) estabelece que o principal avanço é a obrigatoriedade de deliberação pelo Conselho de Direitos da Criança e do Adolescente, o que possibilita a participação social mais efetiva no processo, elaborando, decidindo e/ou fiscalizando sobre as políticas públicas a serem implementadas em favor das crianças e dos adolescentes. Desse fato decorre a importância de se pensar os espaços de decisão sobre políticas públicas, os seus atores e os modos de atuação.