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A disputa sobre a qualificação se acirra entre artesãos e industriais neste período, pois havia uma demanda diferente de habilidades a partir dos industriais. Havia, também, um movimento a partir dos sindicatos dos trabalhadores da indústria para influenciar a qualificação, porque trabalhadores não conseguiam promoções nas empresas, desde que os espaços de altos salários eram ocupados apenas por trabalhadores qualificados nas escolas de artesanato (BUSEMEYER, 2015; GILLINGHAM, 1986). Esse acirramento entre os dois setores trouxe ganhos construtivos para a preservação do treinamento intensivo de habilidades baseado na indústria com o apoio dos sindicatos para aumentar sua capacidade de monitoramento e

81 Em 1932, as mulheres votavam e o voto era obrigatório a todos a partir dos 20 anos, exceto os analfabetos.

supervisão do treinamento que ante o momento era papel exclusivo dos artesãos (CULPEPPER;

THELEN, 2008).

Nesta nova República nasce o Reichsgrundschulgesetz (direito da escola primária do Reich), em 1920, no qual estabeleceu a obrigatoriedade de quarto anos primários obrigatórios para todo o Estado alemão (DÖBERT, 2007). Na sequência, em 1925, de forma independente, o Instituto Alemão para Treinamento Técnico (acrônimo em alemão Dinta) foi fundado e o seu primeiro diretor Arnhold é considerado o pai da moderna educação alemã. O objetivo era representar os interesses sobre qualificação da indústria de máquinas pesadas da Alemanha.

Portanto, essa instituição autárquica sistematizou e padronizou o treinamento. Entretanto, diferentemente, o DATSCH atuava com o suporte de associações comerciais, o grupo de indústria de máquinas de Berlin e a Associação de Empresas de Construção de Máquinas da Alemanha (acrônimo em alemão VDMA) (THELEN, 2004). Os sindicatos também foram reconhecidos por DATSCH como parceiros para a discussão de salários (BUSEMEYER, 2015).

Apesar dessas diferenças tanto Dinta quanto DATSCH reconheciam que o componente prático do treinamento, embora centrado na empresa, não poderia ser limitado a ela, mas não fizeram propostas de alteração. Ao mesmo tempo, compartilhavam a crítica ao sistema de formação artesanal que tinha uma natureza "não sistemática" de treinamento, assim, iniciava a discussão da padronização da formação de habilidades no país (THELEN, 2004).

Entretanto, a autora revela que apesar dessas duas instituições específicas pensarem a qualificação foi o VDMA, no período da República de Weimar, que trabalhou em torno da estabilização da concorrência no mercado de produtos a partir da organização e coordenação das empresas e, consequentemente, influenciou na futura coordenação da formação profissional. A partir disso, houve uma mudança geral na atuação da DATSCH a fim de promover cada vez mais sistematização e padronização de habilidades, em conjunto com um lobby para a certificação, logo, uma atuação similar ao do Dinta (THELEN, 2004). Assim a autora reforça, que nesse período os empregadores procuravam manter a formação profissional

“objetivo, científico e livre de lutas partidárias e políticas de classe”82 (THELEN, 2004, p. 75).

Contudo, o posicionamento do Diretor do Dinta não se mostrava tão apartidário, pois entendia que “a fábrica substituiria os sindicatos como o núcleo da organização social e política e o empregador o líder político como guia moral”83 (GILLINGHAM, 1986, p. 425). Também,

82 Do original: “[…] objective, scientific, and technical training and free from partisan struggles and class politics”. Cf. THELEN, 2004, p. 7) (Tradução do autor)

83 Do original: “[…] the factory would replace the union as the nucleus of social and political organization, and the employer the political leader as moral guide”. Cf. GILLINGHAM, 1986, p. 425 (Tradução do autor)

entendia que a qualificação baseada em empresas não poderia ser submetida a qualquer controle estatal ou para público. Por isso, Dinta promoveu as “factory schools”, a fim de substituir as escolas públicas de comércio. Entretanto, o conceito de qualificação do Dinta não se organizava com as associações dos empregadores e outros interesses organizados (THELEN, 2004).

Mesmo assim, em apenas dois anos (1926-1928) houve a abertura de 71 oficinas de formação na empresa e 18 escolas de fábricas. No final da década de 20, a organização estava executando treinamento entre 150 a 300 empresas na Alemanha e Áustria. Todavia, a forma de atuação centrada apenas nos interesses da empresa do Dinta aumentou os problemas de relação entre o empregador e empregado na esfera judicial prejudicando a relação entre capital e trabalho. Como não havia uma regulação do Estado as decisões judiciais não tinham respaldo legal, neste sentido, raramente um trabalhador ganhava a causa, pois todas as instituições tinham apenas representantes dos empregadores. Portanto, os sindicatos dos trabalhadores não tinham espaço para discutir sobre políticas de qualificação (THELEN, 2004).

De forma paralela, a Organização de Empregadores da Alemanha (acrônimo em alemão VDA), a Liga da Indústria da Alemanha (acrônimo em alemão RDI) e o DATSCH fundaram o Comitê de Trabalho para a Formação Profissional (acrônimo em alemão AfB) (no mesmo ano do Dinta)que catalogou as primeiras ocupações na áreas de metalurgia, construção naval e indústrias químicas. Portanto, o início da formulação de um quadro de qualificação (THELEN, 2004).

Com toda essa movimentação, os artesãos iniciaram a sistematizar seus treinamentos a fim de competir com os métodos de qualificação, tanto que em algumas regiões do país começaram a surgir comitês que examinavam tanto habilidades industriais quanto artesanais.

Esse movimento uniu no AfB, em 1927, as duas principais associações dos artesãos a Liga dos Artesãos da Alemanha e o Congresso de Artesanato e Comércio da Alemanha (acrônimo em alemão DHGT). Logo, a coalizão em apoio ao coletivismo de associações do DATSCH baseado na dominação do empregador e na regulação de si mesmo da formação profissional uniu todas as associações sob a égide do mesmo comitê (THELEN, 2004).

Contudo, a força sindical crescia, pois era um período republicano. Dessa maneira, as empresas começaram a realizar negociações coletivas com os sindicatos. Logo, em 1924, 61,2%

da força de trabalho alemã já estava coberta por negociações coletivas enquanto em 1913 eram apenas 20%. Há também uma mudança significativa na atuação sindical, que passa a representar o segmento econômico (os trabalhadores da indústria, por exemplo). Neste sentido, com os ganhos de negociações coletivas houve um influxo significativo de trabalhadores sem

qualificação mudando o equilíbrio de poder nos sindicatos, pois assumiram postos importantes anteriormente dominados apenas pelos trabalhadores qualificados (THELEN, 2004).

Diante do exposto, a certificação neste período ainda era de exclusividade dos artesãos.

Por isso, em 1925, 55% de todos os aprendizes ainda estavam sendo treinados em empresas de artesanato contra 45% na indústria. Entretanto, como apresentado, já ocorriam discussões a fim de regular toda essa política de treinamento paralela as câmaras de artesãos. Mesmo com todas essas mudanças na Alemanha, obviamente não houve tempo hábil para progressos significativos no período pós-primeira guerra e o país enfrentou dificuldades econômicas devido ao tratado de Versalhes (THELEN, 2004).

Em seguida, em 1929 inicia-se um grande período de depressão econômico em todo o mundo com a quebra da bolsa de Nova Iorque. Logo, com o objetivo de proteger os empregos nos países a vertente política nacionalista se expande no continente europeu e na Alemanha em 1933 há a ascensão, como chanceler, um representante do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (acrônimo em alemão NAZI) chamado Adolfo Hitler. Em 23 de março do mesmo ano o Parlamento aprova uma lei que emite poderes ao chanceler de aprovar Leis e alterar a Constituição sem a consulta do Parlamento por quatro anos. Emerge então um período totalitário.