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3. DESENVOLVIMENTO E TURISMO

3.1 O advento do turismo

O turismo como conhecemos hoje, constitui um fenômeno eminente do século XX. Os historiadores admitem que o advento do turismo de massa iniciou-se na

Inglaterra durante a Revolução Industrial, com o despertar da classe média diante do transporte relativamente barato. O surgimento da indústria aérea comercial após a Segunda Guerra Mundial e o subsequente desenvolvimento da era dos jatos na década de 1950 assinalaram o rápido crescimento e a expansão das viagens internacionais. “esse crescimento conduziu ao desenvolvimento de uma nova indústria, o turismo” (THEOBALD, 1997, p.3).

A palavra turismo teve sua origem no inglês tourism, originário do francês

tourisme, segundo Theobald (1997,. p 06), etimologicamente, a palavra tour (francês) é

derivada do latim ‘tornare’ e do grego ‘tornos’, significando um giro ou um circulo. Ou ainda, um movimento ao redor de um ponto central ou eixo. O significado mudou no inglês moderno passando a representar especificamente ‘um giro’. O sufixo ‘ismo’(turismo) é definido como uma ação ou processo, enquanto o sufixo ‘ista’(turista) qualifica aquele que realiza uma determinada ação.

Foi um escritor, Stendhal, o responsável pela propagação do termo turista ao escrever em 1938 o livro “Memórias de um turista”, no qual descrevia como o turismo influenciava de várias formas as comunidades.

Um dos primeiros teóricos do turismo foi Herman Von Schullern zu Schattenhofen, que em seu livro Turismo e Economia Nacional, publicado em 1911, definiu turismo como o: “conceito que compreende todos os processos, especialmente os econômicos, que se manifestam na afluência, permanência e regresso do turista, dentro e fora de um determinado município, país ou Estado”.

Como economista, Von Schullern privilegiou o aspecto econômico, antecipando-se na conceituação atualmente aceita, que nos anos seguintes seria deixada um pouco de lado, privilegiando-se nas definições o aspecto de tráfego de pessoas.

No período compreendido entre as duas grandes guerras mundiais (1919-1938), cresce o interesse no turismo como matéria de pesquisa nas universidades, principalmente sob o viés econômico. Nesse período assume fundamental importância o papel desempenhado pela Escola de Berlim, pelos esforços empreendidos em sistematizar o conhecimento da atividade turística através da utilização da pesquisa respaldada por métodos científicos adotados pelas ciências da sociedade da época.

Entre os principais expoentes encontram-se nomes importantes do pensamento teórico do turismo mundial, como Glücksmann, Bormann, Shwink, Benshidt. Em 1929, Robert Glucksman, na revista Verker und Bader, definia turismo

como “uma superação do espaço por pessoas que afluem a um lugar onde não possuem lugar fixo de residência”.

Schwink, em revista com circulação de dezembro de 1929 a janeiro de 1930, considerou o turismo como: “movimento de pessoas que abandonam temporariamente o lugar de sua residência permanente por qualquer motivo relacionado com o espírito, seu corpo ou sua profissão.”.

Já Arthur Bormann (1930) apud Dias (2008) definiu:

Turismo é o conjunto de viagens cujo objetivo é o prazer, motivos comerciais ou profissionais ou outros análogos, e durante os quais a ausência da residência habitual é temporária. Não são turismo as viagens realizadas para deslocar-se ao lugar de trabalho (BORMANN 1930 apud DIAS 2008, p.28).

Nessas primeiras definições de turismo, quando ainda não se constituía um movimento de massas, privilegiou-se o tráfego, pela importância que se dava a superação de distancias. Assim, o movimento dos turistas só era possível pela situação econômica privilegiada que desfrutavam, dispondo de renda suficiente para arcar com os custos desse deslocamento.

Posteriormente, com o turismo se constituindo cada vez mais num fenômeno de massa, e tendo inúmeras implicações do ponto de vista econômico, a ONU, juntamente com a União Internacional das Organizações Oficiais de Viagem (IUOTO, em inglês) realizou em Roma (1963) um congresso sobre Viagens Internacionais e Turismo, que tinha como objetivo o estabelecimento de definições que facilitassem o trabalho estatístico em diferentes nações.

Nessa reunião recomendou-se que fosse adotado o termo visitante e definido o turista como: “qualquer pessoa que visita um país que não o de seu local normal de residência, por qualquer motivo que não seja decorrente de uma ocupação remunerada dentro do país visitado”.

Foram consideradas ainda duas categorias diferentes de viajantes: os turistas propriamente ditos, que são os visitantes temporários que permanecem pelo menos 24 horas no país visitado, e cujo objetivo é lazer, negócios, família, uma missão ou reunião; e excursionistas, os visitantes temporários que permanecem menos de 24 horas no local visitado e não pernoitam (aqui são incluídos os que viajam em navios de cruzeiro). Desde essa data, e com várias revisões incluídas posteriormente, a maioria das nações aceitou essas definições (THEOBALD, 2001a).

Durante muito tempo, particularmente até a década de 60, o turismo foi visto como fenômeno altamente positivo a ponto de ser considerado como uma verdadeira panaceia 3 para os países menos desenvolvidos, chegando a ONU a declarar o ano de 1967 como o Ano Internacional do Turismo como forma de incentivar a sua expansão. Na época, à ideologia do turismo poderia ser resumidos nos seguintes três pontos: ²

1.o turismo é gerador de emprego e riqueza;

2.o turismo é via de comunicação cultural, é o caminho mais positivo para conservar as belezas do mundo;

3.o turismo é um gerador de mudanças sociais positivas.

Em meados da década de 70, essa visão começa a ser desmistificada por estudiosos não comprometidos com a indústria turística. É quando se inicia o questionamento de um modelo que, na realidade, estava tornando os países que postavam no turismo como fonte de riqueza cada vez mais dependente do país emissor de turistas: dependência econômica, política e cultural. (Dias, 2008)

Na década de 80 as relações entre turismo e desenvolvimento tem um reflexo fiel nas diversas declarações e documentos patrocinados por organizações internacionais, entre as quais se destacam a Organização Mundial do Turismo (OMT) e o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (World Travel &Tourism Council-WTTC). Entre os documentos mais importantes destacam-se:

• Declaração de Manila sobre o Turismo Mundial (1980); • Declaração de Direitos e Código do Turista de Sófia (1985); • Declaração de Turismo de Haya (1989);

• Carta de Turismo Sustentável de Lazarote (1995); • Agenda 21 para o setor de viagens e Turismo (1993);

• Código Ético Mundial para o Turismo de Santiago do Chile (1999).

Em alguns trechos desses importantes documentos se observa uma paulatina transição desde o predomínio de aspectos sócios culturais e econômicos do turismo ao paradigma onipresente da sustentabilidade.

3. Panaceia sf.Remédio que teria o poder de curar todos os males. Nessa época o turismo era visto como a solução eventualmente mais rápida para desenvolver um determinado local.

2.CfArrones(1992)à p.18.o livro de Francisco Jordão Arrones,Los mitos del turismo,traz uma coletânea de textos bastante críticos à visão excessivamente positiva do turismo como fator de desenvolvimento.

A declaração de Manila, de 1980 (OMT, 1980, apud DIAS e AGUIAR, 2002) afirmava textualmente que:

[...] a satisfação das necessidades turísticas não deve constituir uma ameaça para os interesses sociais e econômicos das populações das regiões turísticas, para o meio ambiente, especialmente para os recursos naturais, atração essencial do turismo, nem para os lugares histórico-culturais [...].

No documento divulgado, em 1985,a Carta do Turismo e o Código do Turista (DIAS e AGUIAR, 2002:213-217), fica mais explícita a vinculação entre o turismo e o meio ambiente em vários de seus artigos. Expressa que os Estados deveriam: “proteger os interesses das gerações presentes e futuras, o meio ambiente turístico que, por ser ao mesmo tempo um meio humano, natural, social e cultural, constitui o patrimônio da humanidade inteira” (art.3).

O primeiro artigo da Carta de Turismo Sustentável de Lazarote de 1995, estabelece que o desenvolvimento turístico deverá fundamentar-se sobre critérios de sustentabilidade, ou seja “deverá ser suportável ecologicamente a longo prazo, viável economicamente e equitativo desde uma perspectiva ética e social para as comunidades locais”

Vale ressaltar que em todos os documentos há o predomínio dos aspectos sócios culturais do turismo associados ao paradigma onipresente da sustentabilidade. Verifica-se que desde os primeiros, coloca-se a dependência do turismo em relação á conservação dos recursos naturais, tanto como atrativos, quanto como fatores de produção, nos quais se constatam os impactos negativos do turismo, e os riscos de que tais impactos agravem-se com o previsível incremento da atividade turística.