CAPÍTULO 1 – BALIZA TEÓRICA
1.3. A Auto-Estima
1.3.3. O Afeto
Afeto, favor particular dos céus. Delícia e orgulho de mentes nobres, Só concedido a homens e a anjos, Negado a todo o mundo inferior. (Samuel Johnson, lexicógrafo inglês que viveu entre 1709 e 1784).
A partir do senso comum, afeto, do latim affectus, corresponde no português a “sentimento de amizade”, “afeiçoado a”, “carinho”, “afabilidade” (Ferreira, 1999, p. 62). Assim, quando pensamos em “afeição” vem-nos naturalmente à mente imagens relacionadas a cuidado, acolhimento, aceitação, afago. Em outra raiz etimológica (Cunha, 1986, p. 19), ao adjetivo afeto soma-se, às traduções anteriores, “sujeito a”, “dependente de”. Ou seja, receber ou doar afeto representa uma situação de abertura, de sujeição ao ato afetivo. Pretender compreender este fenômeno requer reconhecer que, dentre as necessidades que precisamos suprir para a garantia da sobrevivência, da vivência e da convivência humana no contexto sócio-histórico-cultural, está a do afeto.
Por outro lado, para ser afeto, precisa afetar, tocar, contatar, atingir aquele que estava “sujeito a” fazendo-o mudar de estado. Desta forma, o afeto é uma emoção que logo avistamos e, desta forma, se comunica. Então, a emoção passa a ser afeto quando denunciada pelo aspecto comportamental.
Não é nada simples o exercício de dissecar o afeto enquanto constituinte da psique humana, vez que, na sua irretorquível aliança com o plano cognitivo, originariamente visto como uma emoção, pode – noutro momento – fundar-se como um sentimento. As dificuldades começam a se apresentar quando se tenta entender as emoções. O plano da emoção acolhe os mais diferentes e importantes fenômenos, como a alegria, o medo, a tristeza, a ira e o afeto (Berne, 1995). Visto assim, o afeto é uma das cinco emoções fundamentais e o comportamento humano perpassa (e é perpassado) por todas elas, inevitavelmente, ao longo do curso da vida.
Berne (1995) entende que as emoções são fenômenos que se expressam por meio de reações pujantes, mas de curta duração, a exemplo do medo, do pranto, da paixão ou do riso. Os sentimentos, por seu turno, se diferem por durarem mais tempo e por não se expressarem com pujança, a exemplo da amizade e da ternura. Assim, a emoção do afeto, se consolidada, pode vir tomar forma de sentimento do afeto. Desta forma, se justifica as declarações ao mundo: - Estou me sentindo “assim” ou “assado”! Ainda, se se compreende as emoções como herança evolutiva, vez que se utilizava dela como mecanismo de defesa e de garantia à vida nos primórdios, quando – por exemplo – das reações de medo ou de coragem frente ao ambiente ainda inóspito a desbravar.
No Brasil, apesar de em 1836 o pesquisador Manuel Inácio de Figueiredo já defender no Rio de Janeiro sua tese intitulada Paixões e Afetos da Alma, não há significativa literatura sobre o afeto. Todavia, já em Aristóteles (2001) a motivação é conduzida por
meio de dois extremos: afeição e desafeição. Assim, nossa mente nos dirige em direção do agrado e repele o desagrado. Sabemos que o afeto cumpre função capital na atividade da inteligência. Sem afeto não haveria interesse, nem necessidade, nem motivação; e, conseqüentemente, perguntas ou problemas nunca seriam colocados e, assim, não haveria espaço para a inteligência operar. A afetividade é uma condição necessária na constituição da inteligência, desde a mais tenra idade. Piaget (1962) ressalta que na relação entre inteligência e afeto, o afeto produz ou pode produzir o desenvolvimento de importantes estruturas cognitivas. Alerta, ainda, que a condição do afeto pode retardar ou acelerar a formação de tais estruturas.
Vygotksy (1996) cunha a clássica expressão “função mental” para acenar aos conceitos de pensamento, memória, percepção e atenção, dimensões pilares do processo educativo. Assim, para ele, a gênese do pensamento está na motivação, no interesse, na necessidade, no afeto e na emoção, combustíveis essenciais da auto-estima.
Conforme Werebe e Nadel-Brulfert (1986), quando Wallon plantou a idéia de uma psicogênese da pessoa completa, levou em conta o sujeito como um todo. Assim, seus afetos, emoções, motricidade e ambiente físico, estabelecem-se em um mesmo nível. Galvão (1995), ao se referir aos estágios wallonianos do desenvolvimento humano, lembra que estes ocorrem sucessivamente preponderando o binômio afeto/cognição. Assim, no estágio impulsivo-emocional, característico do primeiro ano de vida, o afeto norteia as reações que a criança apresenta aos que a rodeiam.
Temos em Vygotsky (1996), rompendo a dicotomia razão-emoção, a idéia primordial da unidade cognição-afeto no desenvolvimento humano. Para ele,
a forma de pensar, que junto com o sistema de conceito nos foi imposta pelo meio que nos rodeia, exclui também nossos sentimentos. Não sentimos simplesmente: o
sentimento é percebido por nós sob a forma de ciúme, cólera, ultraje, ofensa. Se dizemos que desprezamos alguém, o fato de nomear os sentimentos, faz com que estes variem, já que mantém uma certa relação com nossos pensamentos (p. 57).
Nos apoiado em Vygotsky (1996), ao sinalizar que sentimento e pensamento em algum momento se casam, reforçamos que a auto-estima surge daquilo que o sujeito representa valorativamente para si mesmo, quando se avalia, cognitiva e/ou afetivamente, nas mais diversas facetas, como a pessoal, a familiar, a social ou a acadêmica.
A propósito, Schore4 (2001) chama-nos a atenção ao afirmar que o que o sujeito é hoje, constitui-se em grande parte, de seqüelas das interações mais remotas que teve com os pais. E, parafraseando Garcia (1999), em tais interações a qualidade do afeto não fica de fora.
Calviño (1983) concebe os afetos como possuidores de um caráter universal e que “são expressivos e, sem exceção, comunicativos no sentido de que implicam em contágio” (p. 103). Idéia, aliás, também presente na visão psicogenética e interacionista do desenvolvimento em Wallon (1975), onde a afetividade na criança é considerada mais que uma dimensão pessoal, é entendida como uma etapa desenvolvimental. Desta forma, para ele, o contágio afetivo constrói as pontes indispensáveis que possibilita ao indivíduo promover as interações. O afeto, então, com seu poder de contágio, pode ser o principal combustível a dar movimento aos mecanismos processuais da auto-estima. Temperando tal questão com um pouco de lirismo, Prado (1991) já revelara no poema Ensinamento: “minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento” (p. 89). Queremos entender o recado concluindo que o evento prioritário é o sentimento, condição primeira do ensinamento.
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Destacamos em Valsiner (2001) o papel da subjetividade e da intersubjetividade na construção do afeto. Para este autor as formas mediante as quais avaliamos as características físicas ou comportamentais dos outros são construídas afetiva e cognitivamente ao mesmo tempo. Elas surgem a partir dos nossos constantes processos de vivenciar os ambientes nos quais somos participantes dos acontecimentos. Valsiner lembra-nos, ainda, que a questão do afeto primário (no seu nível psicológico) é um precursor da construção dos significados dos sentimentos e das emoções. Ainda em Valsiner (1989), à luz da perspectiva sócio-histórico-cultural que distingue nosso desenvolvimento biológico do psicológico, nosso desenvolvimento é inerentemente social e toda a estrutura do processo psicológico - cognitivo e afetivo - desenvolve-se em conjunção com o desenvolvimento da interação social da criança.
Pensar tal perspectiva como corroborativa da construção da auto-estima e adjuvante do cotidiano escolar, obriga-nos a levar em conta a dinâmica cultural que nos envolve. Cole (1992) considera a possibilidade de existir influências culturais no desenvolvimento do futuro ser, a partir do período que antecede seu nascimento, mesmo não estando em contato com o ambiente. Para o autor, já no imediato período pós-natal o pequeno ser se mostra sensível e é modificado pela linguagem do ambiente que a mãe integra.
A aludida teia cultural dinâmica e intrincada em que está imersa a criança mesmo antes de nascer, pode adquirir outros matizes, inclusive perversos, que poderão lançar seus encantos invocatórios sobre o processo de construção da sua auto-estima e, talvez, da aprendizagem. Oportunamente, Ghiradelli Jr (1995) alerta-nos acerca do “processo de infantilização da sociedade, que nega o desenvolvimento da infância e das crianças” (p. 55). Então, este movimento anacrônico de apologizarmos a importância da infância e da criança, e também do valor do seu percurso escolar que estabelecemos nos dias que correm, choca-se frontalmente com a produção e a alimentação cotidiana de uma dinâmica
cultural dirigida na contramão desta via. Calligaris (1994) adverte que temos esquecido as crianças e este esquecimento, acrescentamos, é social, cultural e, fundamentalmente, afetivo. O autor chama a atenção para o fato de que “as crianças não mais realizam os sonhos dos adultos”, estão “cada vez menos integradas em quadros familiares, cada vez mais sozinhas” (p. 12) e que “o narcisismo parental cada vez mais vê na criança o adulto” (p. 12). Assim, entendemos que o abandono afetivo passa a ser, talvez, um dos mais danosos acontecimentos que podem conduzir a uma avaliação negativa de si mesmo.
Por fim, embora a questão do afeto careça de espaços mais generosos na pesquisa científica, urge lembrarmo-nos sempre da importância da afetividade em todas as ações humanas, incluindo-se aí o processo educativo.
A seguir, em forma gráfica, apresentamos as articulações da estrutura teórica adotada neste estudo, à luz da perspectiva sociocultural construtivista.
Assim, entre os sujeitos em interação, há uma atmosfera comunicacional e metacomunicacional construída pela cultura, pelas partilhas dos comuns, pelas negociações, pelas idiossincrasias dos interagentes, pela co-construção de significados, pela semiótica, etc. Tal atmosfera guia a co-construção do self dos sujeitos e, considerando o papel da unidade afeto-cognição em tal construção, contribui na construção da auto- estima dos indivíduos em interação.
Chegando ao núcleo da questão, definiremos a seguir os objetivos gerais e específicos na direção para os quais caminhará este empreendimento.