CAPÍTULO 1 – BALIZA TEÓRICA
1.3. A Auto-Estima
1.3.2. O Self
Do que sou numa hora, na hora seguinte me separo; do que fui num dia, no dia seguinte me esqueci.
(...) É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são. (...) Para que viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos,
onde estaria eu senão em mim mesmo? (...) Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem sou eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?
(Bernardo Soares, um dos mais de dez heterônimos de Fernando Pessoa, apontando, em uma multiplicidade de si-mesmos, para uma idéia de self). Pessoa, F. (2006, p. 72).
Entendemos ser impossível tratarmos de auto-estima sem considerarmos o self, enquanto influente regulador do comportamento humano. Podemos situar em James (1890), interessando-se pelo funcionamento da consciência humana no seu clássico Princípios da Psicologia, notadamente no Capítulo 10, The Consciousness of Self, o gérmen das discussões voltadas a tal questão. James (1890), vendo o self como agente regulador do nosso comportamento, sinaliza que tal mecanismo é representado pelo conjunto daquilo que consideramos nossos. Não somente nosso corpo e nossas forças psíquicas, mas também nossas coisas, nossa casa, nossa família, nossos ancestrais, nossos amigos, nossa honra, nosso trabalho, etc. Tudo isso nos traz as mesmas sensações, que, se se acendem e se avantajam, sentimo-nos vitoriosos; caso contrário sentimo-nos combalidos. O self, para James (1890), é formado por três conjuntos: o Self Material, que abrange tudo que podemos dizer que é nosso, inclusive as pessoas; o Self Social, que é a forma pela qual somos vistos pelos outros; e o Self Espiritual, que, envolvendo a subjetividade, é constituído pelas nossas faculdades psicológicas.
Ainda sem perder de vista tal questão, Symonds (1951) oferece-nos uma conceituação de self como a maneira pela qual reagimos a nós mesmos e que se compõe por quatro processos:
• Como nos percebemos;
• O que pensamos acerca de nós mesmos; • Como nos avaliamos;
• Como, através de várias ações, tentamos nos destacar e nos defendermos.
Symonds (1951) destaca a contradição que pode existir entre tais processos. Podemos, por exemplo, pensarmo-nos ou julgarmo-nos de determinada forma e agirmos incongruentemente.
Por sua vez, Snugg e Combs (em Hall & Lindzey, 1973) entendem o self como o plano fenomenológico onde se localizam todas as vivências das quais somos conscientes nas ocasiões em que ocorrem. Defendem, tal como em James, que a consciência é o ato gerador do comportamento e pleiteiam que o que pensamos e sentimos determina nossas ações.
Alinhavando a idéia de self ao tecido da cultura, Valsiner (1989) o define como um conjunto sistêmico da nossa cultura individual elaborado conforme as sugestões sociais que são direcionadas às nossas peculiaridades, tais como nossa forma de ver, sentir e reagir, próprias do sujeito. Assim, Valsiner (1989) conclui que “a cultura pessoal inclui a unidade de afeto e racionalidade. No self, toda idéia racional tem seu contexto afetivo e todo sentimento está intrinsecamente ligado a alguma forma de pensamento sobre a pessoa ou sobre o mundo” (p. 366).
Potter e Wetherell (1996) propõem uma psicologia discursiva, que tenha por objetivo compreender como as versões de self são construídas na interação entre as pessoas, nas práticas sociais que são engendradas através delas, e como a pessoa se constitui de modos diferentes, através das formas pelas quais se descreve em determinadas ocasiões. Fierro (1996) também destaca a importância do ambiente na concepção de self, salientando que são as nossas experiências interpessoais, sobretudo aquelas que nos traduzem os significados mais importantes, as de destacado valor para a formação da nossa personalidade.
Baumeister (2000) vem encontrar-se com nossa opção conceitual de self, ao propor um self fixado em três conceitos: 1) a consciência reflexiva, através da qual conhecemos o desenvolvimento do self por meio da consciência; 2) a associação interpessoal, através da qual o self se desenvolve por meio das relações interpessoais e serve para conectar o organismo físico à rede social; 3) a função executiva, que se refere à vontade própria: escolha, decisão, iniciativa, ação, esforço sobre si mesmo e acerca do mundo.
Interessa-nos como Hermans (2001) aponta para a proposta de um self dialógico, situando-o no cruzamento entre a psicologia do self herdada de James e a escola dialógica de Bakhtin. Aqui self e cultura são concebidos como uma multiplicidade de posicionamentos nos quais as relações dialógicas podem se estabelecer. Segundo Hermans (2001) esta concepção evita a armadilha de se tratar o self como algo individualizado e auto-suficiente; e a cultura como uma abstração. Assim percebido, o EU tem a possibilidade de mover-se de uma posição espacial para outra, de acordo com mudanças de situação e de tempo; flutua entre diferentes posições e tem a capacidade de dotar cada posição com uma voz para que relações dialógicas entre tais posições possam ser estabelecidas. Hermans (2001) considera uma complexidade do self que se distancia do conceito clássico do self cartesiano, expressado no exemplo da declaração ´EU penso´.
Esta expressão, para ele, assume que há um EU central responsável pelos passos do raciocínio ou do pensamento, opondo-se à sua idéia da multiplicidade de posicionamentos. A sugestão de um self dialógico vem validar as aflições de Bernardo Soares, comuns a todos nós, postas em epígrafe a este item: “onde estaria eu senão em mim mesmo? O que é este intervalo que há entre mim e mim?” (Pessoa, 2006, p. 72).
Ainda nesta perspectiva, com a qual compartilhamos, Oliveira (2003) destacando os aspectos comunicacional e subjetivo tipicamente humanos, aduz que
o contexto da formação do self é a interação comunicativa, como parte das transações entre sujeitos coparticipantes de uma dada realidade social, na qual conhecimento e subjetividade se produzem mutuamente, de acordo com influências exercidas por sujeitos que agem e negociam significados em contextos socioculturais concretos (p. 430).
De acordo com Guanaes e Japur (2003), aderindo ao nosso juízo de um self co- construído socioculturalmente, “a própria definição de Psicologia pressupõe a noção de
self, assumindo a idéia de indivíduo como sendo constituído por disposições internas e
mentais - noções que hoje integram grande parte das significações de nossa cultura ocidental sobre este tema” (p. 23).
Fleming (2004), reforçando nossa opção epistemológica de uma construção sócio- histórico-cultural, ao apontar para os aspectos relacionais e socioculturais, defende que a construção do self está associada à construção do conceito de “outro”.
Souza e Gomes (2005) realizam um oportuno exame histórico da teorização psicológica do self, contrastando-o com discussões atuais na psicologia do desenvolvimento humano. Aqui, destacam que as narrativas, o corpo e a interação têm
modificado as formulações teóricas acerca da psicologia do self, revelando uma nova perspectiva, a comunicacional. Tal abordagem nos interessa vez que consideramos os aspectos comunicativos e metacomunicativos na construção da auto-estima infantil. Assim, as autoras apontam que, a partir desta ótica, se define o self como “um processo de interação comunicativa entre consciência e corpo situado no mundo” (p. 1).
Entendemos que, epistemologicamente, avaliar o self pressupõe a compreensão das relações estabelecidas entre consciência e suas formas de manifestação no ambiente situacional do sujeito.