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O agendamento e suas prováveis conseqüências

A PESQUISA NA CÂMARA

MANCHETES JORNAL DATA

5.2. O agendamento e suas prováveis conseqüências

Partindo da observação realizada nas Sessões Ordinárias da Câmara Municipal e

do acompanhamento diário nas editorias de Política e Cidade dos jornais (FL) e (JL),

verificamos que o agendamento entre imprensa/Câmara e Câmara/imprensa ocorre de

diversas formas:

1) A imprensa agenda temas para o Legislativo que influenciam as ações dos

vereadores através de pronunciamentos, requerimento, projetos de lei e abertura de

Comissão Especial de Investigação, como aconteceu com a CEI da Cultura,

mostrado no Capítulo IV.

2) Agenda temas para discussão em Comissões Permanentes como, por exemplo, o

caso do fechamento do Asilo Ebenézer e a crise no Hospital Evangélico de

Londrina.

3) Produz uma circularidade da informação (o caso, por exemplo, do Wal-Mart versus

o Teatro Municipal e a Crise no Hospital Evangélico), em que o assunto saiu na

imprensa, agendou a Câmara e voltou a agendar a imprensa novamente, o que

4) A Câmara agenda a imprensa por meio de sua Assessoria de Imprensa que mantém

um contato diário com os meios de comunicação local. Além disso, a imprensa

também procura a Assessoria para se informar sobre as atividades do Legislativo.

5) Os vereadores tentam agendar a pauta jornalística procurando os jornalistas como

mostra o depoimento do editor de Política do (JL); convidando os repórteres

setoristas da Câmara para reuniões que serão realizadas e nas quais eles vão

participar e tomando decisões a partir de temas que estão em evidência na imprensa,

como foi mostrado nos casos do Wal-Mart, do Asilo Ebenezer e do Hospital

Evangélico.

6) O agendamento pode levar a uma uniformidade na pauta jornalística, como mostrou

o Quadro 8.

Nesse sentido, podemos dizer que a imprensa tem a capacidade de agendar

componentes da atividade parlamentar. Como já havia constatado por McCombs e Shaw

nos estudos sobre o agenda-setting, os políticos criam situações para chamar a atenção da

imprensa e tentam fazer parte da agenda midiática pela seleção de prioridades que também

acabam sendo eleitas pela imprensa, gerando uma influência mútua entre as agendas. Ao se

encaixar nos assuntos de interesse da imprensa, os vereadores ganham destaque nas

páginas dos jornais, o que para eles, é o mesmo que ter destaque para a opinião pública e

uma forma de encurtar a distância que os separa.

Sobre isso, Gomes (2004) argumenta que os políticos sabem o que querem da

mídia e o que devem fazer para conseguir espaço no cenário midiático. Para o autor, os

políticos querem exposição favorável na esfera midiática de modo que lhes renda o

máximo de benefício junto ao público. Gomes comenta que o primeiro modo de fazer isso

é satisfazendo os critérios de seleção aplicados pelos agentes do subsistema informativo:

A oferta de discurso sobre os temas da pauta da imprensa e a oferta de comportamentos correspondentes às dramaturgias e espetáculos

midiáticos são formas muito eficientes de conseguir exposição midiática. Trata-se de estar na página ou estar na tela, sempre e constantemente, de preferência construindo ou reforçando imagens positivas. (GOMES, 2004, p. 155)

Gomes acrescenta ainda que a estratégia vencedora consiste em freqüentemente

protagonizar fatos noticiosos ao gosto da imprensa, em apresentar discursos e bandeiras

que atraiam a sua atenção, em ser bem percebido visualmente. Por esse motivo, os

vereadores acabam agindo mais sobre aquilo que é veiculado pela mídia, enquanto assuntos

importantes que não foram selecionados pela imprensa acabam tendo menos chances de

entrar na agenda dos parlamentares. Entretanto, a imprensa sendo uma elite – por si só, mas

também representante de outras – tem também seus interesses e prioridades que nem

sempre coincidem com os da população. Não podemos pensar que os meios de

comunicação privados chegariam a ponto de representar a sociedade civil em todas as suas

esferas.

O papel da Assessoria de Imprensa da Câmara e a dependência que os

repórteres setoristas da Câmara têm em relação a este órgão podem fazer com que a mídia,

em muitas ocasiões, não seja a fonte primária da informação devido à sua relação estrutural

com o poder como observa Hall et. al. (1993, p. 230). Segundo os autores, nesse processo

a mídia se coloca numa posição de subordinação aos definidores primários institucionais e

ao privilegiar as fontes oficiais, corre o risco de reproduzir o discurso dominante. Para Hall

et. al.(p. 228) isso é preocupante porque a mídia, além de definir para a maioria da

população quais acontecimentos são significativos, também oferece poderosas

interpretações de como compreender esses acontecimentos. Mas os autores têm o cuidado

de admitir que esse processo não é totalmente fechado, reconhecendo que a mídia é

institucionalmente distinta de outras esferas do Estado e possui sua própria lógica que pode

levar a entrar em conflito com os definidores primários e as instituições que compõem a

Essa dependência acaba sendo recíproca porque da parte dos vereadores a

situação não é muito diferente. Por não representarem literalmente os grupos sociais pelos

quais foram eleitos e estando, na maioria das vezes, distante deles, os vereadores procuram

estar sintonizados com o que quer a sociedade, tendo como referência a imprensa.

Buscando suprir a ausência de laços com a sociedade, os vereadores se rendem às regras da

imprensa, acreditando assim atingir a opinião pública. A falta de contato com os cidadãos,

a forte presença da mídia na sociedade contemporânea e a necessidade de orientação em

relação aos temas tratados tornam os parlamentares suscetíveis ao agendamento da

imprensa da forma como vem sendo demonstrado neste estudo.

Como as pessoas, de uma forma geral, têm pouco contato direto com os

políticos, o conhecimento delas sobre eles acaba sendo por intermédio da imprensa. Como

podemos observar, o meio político também tem pouco contato com os cidadãos e o

conhecimento acerca dos assuntos e interesse que envolveriam a população acaba sendo

suprido pela imprensa. Portanto, trata-se de uma lacuna ocupada pela mídia, que não é a

esfera mais apropriada, considerando que os meios de comunicação têm interesses e

prioridades que nem sempre coincidem com os interesses da população, como já foi

exposto ao longo desta pesquisa, o que pode gerar distorções na atuação dos políticos.