Felipe Miguel (2002, p.169) argumenta que a visibilidade na mídia é, cada vez mais, componente essencial da produção do campo político. A presença de políticos em noticiários e Talk Shows é determinante para o sucesso ou fracasso de um mandato parlamentar ou executivo. Isso fica evidenciado na grande quantidade de profissionais da
mídia que acabam ingressando na vida política. O exemplo mais recente é o ator Arnold Schwarzenegger que em outubro de 2003, tornou-se governador do Estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Ronald Reagan é outro exemplo de ator que se tornou presidente dos Estados Unidos e, no Brasil, a situação não é diferente. Radialistas, cantores, repórteres de televisão e apresentadores de programa de variedades acabaram entrando para a política. Os exemplos são vários: Antônio Britto, Celso Russomano, Aguinaldo Timóteo, entre outros.
Dessa forma, ser uma celebridade midiática tornou-se o ponto de partida mais seguro para quem deseja se lançar na vida política. Além disso, muitos partidos políticos disputam a filiação de celebridades porque pessoas famosas podem representar mais votos para o partido. É caso, por exemplo, dos medalhistas olímpicos Aurélio Miguel, do judô, que se filiou ao PSDB; o jogador de vôlei André Felipe Ferreira (Pampa), que entrou no PT; o jogador de basquete Oscar Schimidt, filiado ao PTB; e o apresentador de televisão Milton Neves, filiado ao PL2. Como coloca Marques de Melo (2003, p. 94), está cada vez mais difícil distinguir com clareza quem são os atores políticos que transitam entre o mundo da política e da mídia. Para o autor, vivemos neste início de século um lusco-fusco, um ir-e-vir, uma androginia político-midiática.
É lógico que, a exemplo de outros países, no Brasil existe a permanência de uma massa de políticos que desenvolveu suas carreiras às margens do sistema midiático. No entanto, são em sua maioria parlamentares ancorados em redes clientelistas ou representantes de interesses corporativos. Portanto, não é incorreto afirmar que a mídia adquiriu um forte peso na formação do capital político e mesmo que, em alguns casos, condiciona as trajetórias políticas – já que a ausência de visibilidade nos meios de comunicação parece ser um empecilho sério para quem deseja os cargos eletivos.
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“Famosos sonham com cargos públicos”, matéria publicada no jornal Folha de Londrina, do dia 12 de outubro de 2003, editoria de Política, página 5.
Pesquisa realizada em Londrina-Paraná por Costa (2002)3 revelou que no período de 1968 a 2000 foram eleitos vereadores municipais 15 (quinze) radialistas, contra 4 (quatro) médicos, 3 (três) microempresários, 2 (dois) economistas, 3 (três) funcionários públicos estaduais, 4 (quatro) professores universitários, 5 (cinco) funcionários públicos municipais e 5 (cinco) outros profissionais. As únicas categorias que ganharam dos radialistas foram os advogados, com 18 eleitos, e os comerciantes com 16 eleitos vereadores neste período.
Se a mídia é importante para quem almeja um cargo político, é igualmente importante para quem já o possui. Em uma sociedade midiatizada, estar na mídia significa notoriedade e visibilidade, duas condições fundamentais para os políticos. Como observa Régis Debray (1994, p.48), governar é a arte de fazer crer e os meios de comunicação são as tecnologias da crença coletiva. O político tem que ocupar terreno, dia após dia, ou desaparece. O Estado tem que produzir, atualmente, uma quantidade crescente de imagens e sons. É o espetáculo que faz o Estado, como o monumento faz a memória. Um Estado que não possua nada para dar, ver e ouvir, sem rituais, monumentos e documentos, é “um nada”. Discursos, textos e imagens devem circular para tornar operacionais a história descritiva e estática dos sinais do poder. A história dos historiadores estará incompleta sem o estudo dos meios de transmissão destes signos, isto é, sem a ação dos midiólogos .
Cientes da importância da visibilidade na sociedade contemporânea, os políticos - diretamente ou através de seus assessores - vão direcionar suas atuações de modo que elas possam de alguma forma pautar a mídia. Em contrapartida, a mídia, devido seu poder de influência no campo político, acaba por agendar as atuações dos políticos, sejam elas no Legislativo ou no Executivo. É uma retroalimentação, pois de um lado temos
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COSTA, O. Rádio e política em Londrina – um estudo sobre as eleições de radialista no período de 1968- 2000. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais, defendida em 2002 na Universidade Estadual de Londrina.
os políticos que anseiam estar na mídia e, por outro, a imprensa que precisa de “estórias” para alimentar sua pauta jornalística.
Nesse sentido, como defende Rubim (2002, p.47), um dos desafios mais essenciais para pensar a Comunicação na atualidade, sem dúvida, diz respeito à rigorosa compreensão do lugar ocupado por ela, especialmente em sua versão midiática, na sociedade contemporânea. O imprescindível tema da incidência da Comunicação na sociabilidade e das modalidades de sua conexão com a contemporaneidade tem mobilizado um plural e dissonante núcleo de pensadores da atualidade. Apesar da diversidade de concepções teóricas e ideológicas, um dado comum aparece como fundamental dos estudos: a compreensão da atualidade como uma sociedade transbordante de comunicação e de informação. Essa relação entre mídia e política abre caminho para a fixação de agenda que está se tornando cada vez mais acentuada entre esses dois campos.
Rubim e Azevedo (1998, p.201-202) propõem sete áreas para estudo sobre mídia e política no Brasil: 1º) comportamento eleitoral e mídias; 2º) discursos políticos midiáticos; 3º) estudos produtivos da mídia; 4º) ética, política e mídia; 5º) mídia e reconfiguração do espaço público (formação da agenda, da opinião pública e do imaginário social, cenários de representações, etc.); 6º) sociabilidade contemporânea, mídia e política; e 7º) políticas públicas de Comunicação.
Podemos dizer que esta pesquisa se enquadra, em parte, no item 5º, no qual - segundo os autores - estão agrupados os vários aspectos ligados à gênese, estruturação, funcionamento e a lógica operativa da mídia, que abrange investigações baseadas na hipótese do agenda-setting e do newsmaking das diversas mídias, incluindo as impressas, eletrônicas e digitais. Para os autores, no Brasil os estudos nessa área, apesar de permearem várias pesquisas sobre mídia e política, ainda são poucos se comparados aos realizados nos Estados Unidos. Essa constatação vem reforçar a necessidade de ampliar o
leque de pesquisas sobre a influência da mídia no estabelecimento da agenda política e em que medida a política tem o poder de agendar a imprensa.