3 EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS E PROJETO SAÚDE E
4.1 Para quem o projeto Saúde e Prevenção nas Escolas fala
4.1.3 O aluno adolescente: educando sexualidades
A grande maioria dos documentos do projeto Saúde e Prevenção nas Escolas com os quais trabalho é direcionada aos adolescentes de escolas públicas brasileiras. No entanto, é possível perceber que existem duas divisões entre estes materiais. Alguns visam os alunos em geral e outros visam os alunos que irão conduzir as atividades com os seus colegas, como será explicado a seguir.
4.1.3.1 O aluno adolescente: falando a todos os estudantes
Ao estudante, existem seis volumes de Histórias em Quadrinhos, o chamado
Caderno das Coisas Importantes e o material intitulado Eu preciso fazer o teste do HIV/Aids?.
No Guia para utilização em sala de aula das HQs do SPE, afirma-se sobre as revistas:
Direcionado a adolescentes e jovens, as seis revistas que compõem as HQs SPE e o CD-Rom se propõem a tratar diferentes temas de forma simples e divertida. Nas HQs, a partir de uma situação fictícia em que um professor é afastado da escola por propor aos estudantes um trabalho sobre a homossexualidade, vários outros temas se entrelaçam propiciando um retrato preciso dos anseios e das dúvidas existentes no mundo adolescente e jovem. (BRASIL, 2010a, p. 13)
São seis histórias em quadrinhos (BRASIL, 2010j, 2010k, 2010l, 2010m, 2010n, 2010o), que trazem diversas situações e vivências relacionadas à sexualidade de um grupo de adolescentes. Tratam de temas como homossexualidade, preconceito, inclusão, uso de camisinha, procura pelos serviços de saúde, DST, primeira relação sexual, gravidez, Aids, drogas, participação juvenil, igualdade de gênero, entre outros.
Através das histórias contadas, o SPE fala ao aluno. Fala ao mostrar experiências de adolescentes que possuem preconceitos, mas os superam; de jovens que engravidam, mas
que assumem o filho, não optam pelo aborto e logo procuram um serviço de saúde; que apresentam DST, mas que procuram o posto de saúde; que estabelecem relações sexuais, mas que usam camisinha, que usaram drogas, mas que pararam. Enfim, o SPE parece demonstrar ao aluno, através das histórias, o “erro”, mas depois o “acerto”. As desvantagens de não se prevenir e depois as vantagens de viver uma sexualidade saudável e protegida. Em outras palavras, o SPE educa, através das HQs, os adolescentes e suas sexualidades.
Em uma lógica semelhante funciona o Caderno das Coisas Importantes (BRASIL, 20--a). Trata-se de uma espécie de agenda ou diário em que, com uma linguagem fácil, gírias e um visual colorido, jovem e atrativo, apresenta-se ao adolescente várias informações sobre DST, Aids, uso da camisinha, masturbação, entre outras. Alterna-se informações sobre a sexualidade com outras questões próprias da juventude, como baladas, amigos, hobbies, música, etc. O visual e o conteúdo do material parecem ser feitos para atrair a atenção e interesse dos adolescentes.
Figura 6: Caderno das coisas importantes
Fonte: BRASIL (20--a)
Há ainda o material chamado Eu preciso fazer o teste do HIV/Aids? (BRASIL, 20- -c). Trata-se de um questionário endereçado aos adolescentes que funciona como instrumento de prevenção da infecção pelo HIV e Aids.
Fonte: BRASIL (20--c)
Ao final, dependendo da soma do número de respostas de determinada cor, o aluno saberá o seu nível de vulnerabilidade ao HIV e Aids. Algumas breves recomendações são dadas aos adolescentes que obtiveram determinada resposta, como, por exemplo, que eles devem se informar mais sobre métodos contraceptivos, que devem proteger seus parceiros sexuais, que devem buscar serviços de saúde, entre algumas outras.
4.1.3.2 O adolescente educador entre pares
Além dos materiais citados acima, que se direcionam a todos os alunos adolescentes. Alguns materiais são dirigidos a jovens educadores de seus pares. Trata-se da série de oito fascículos Adolescentes e Jovens para a Educação entre Pares (BRASIL, 2010b, 2010c, 2010d, 2010e, 2010f, 2010g, 2010h).
A série de fascículos Adolescentes e Jovens para a Educação entre Pares, do Projeto Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE), como o próprio nome indica, é destinada a adolescentes e jovens. Tem como objetivo auxiliá-los(as) no desenvolvimento de ações de formação para promoção da saúde sexual e saúde reprodutiva, a partir do fortalecimento do debate e da participação juvenil.
Seu propósito não é ser apenas mais um conjunto de fascículos, e sim trazer provocações e aprofundar o conhecimento que os(as) adolescentes e jovens têm a respeito de temas presentes em toda a sociedade, e que muitas vezes são tratados de maneira equivocada ou com preconceitos. Ao mesmo tempo, deseja orientar o trabalho por meio de oficinas, debates e leituras. Pretende, também, provocar reflexões e instigar o diálogo sobre as temáticas do SPE dentro das escolas brasileiras. (BRASIL, 2010b, p. 7).
Cada fascículo trata de um assunto relacionado à sexualidade e traz oficinas e textos que irão guiar o adolescente facilitador de ações de prevenção e promoção com outros adolescentes. Trata-se da metodologia de trabalho de educação entre pares. “Cada oficina descreve, minuciosamente, o passo a passo da proposta, visando a facilitar a sua aplicação
pelo(a) educador(a) entre pares e seguindo o roteiro abaixo [...]” (BRASIL, 2010b, p. 11). O roteiro das oficinas descreve o objetivo, material, questões a serem respondidas, tempo, integração, atividade, conclusão e finalização.
A educação entre pares é uma proposta onde os adolescentes ocupam uma posição mais participativa nas atividades, sendo eles mesmos os facilitadores das atividades voltadas aos seus pares. “Quando se propõe um modelo de aprendizagem como esse, a ideia é que serão os (as) próprios(as) adolescentes e jovens os(as) responsáveis tanto pela troca de informações quanto pela coordenação de atividades de discussão e debate junto a seus pares.” (BRASIL, 2010h, p. 19).
Indica-se (BRASIL, 2010h) que a educação entre pares vem mostrando bons resultados e que as vantagens de tal metodologia de trabalho repousam no fato de que, através desta, os adolescentes podem conversar “de igual para igual” com seus pares e as atividades podem aproximar-se da realidade dos adolescentes, pois os facilitadores estão imersos na cultura local dos jovens “A participação de adolescentes na gestão de políticas públicas mostra que a presença deles altera a agenda, tornando-a mais próxima das suas necessidades.” (BRASIL, 2010f, p. 18). Em Brasil (2010f) afirma-se que adolescente aprende mais com outros adolescentes. Assim, “Qualquer adolescente ou jovem pode realizar esse trabalho. Basta querer ter acesso a novos conhecimentos, gostar de trabalhar com grupos e saber ouvir e perceber as outras linguagens que não as verbais.” (BRASIL, 2010h, p. 20).
O SPE afirma ainda que “O (a) educador (a) de pares tem como tarefa formar outras pessoas, ao mesmo tempo em que forma, também, a si mesmo.” (BRASIL, 2010h, p. 22). Aponta como possíveis estratégias e atividades de educação entre pares: oficinas, ações espontâneas com seus pares, debates a partir de expressão artística, encontros, grupos de estudo e discussão, eventos, gincana solidária e cultural, intervenção na comunidade, elaboração e divulgação de material informativo, proposição de conteúdos e atividades aos(às) professores(as), para a sala de aula, audiovisuais (BRASIL, 2010h).
No início desses documentos, há uma seção chamada “Para início de conversa”, onde se apresentam conhecimentos sobre a temática geral a ser tratada. Assim como no material voltado aos professores, os fascículos também se apresentam, primordialmente, no formato de sugestão de oficinas. Em cada uma, algumas informações adicionais são apresentadas, além dos textos teóricos que trazem informações sobre os assuntos tratados. Nesta série de fascículos, são apresentadas leis, curiosidades, depoimentos, entre outros recursos para complementar os debates dos temas de cada oficina. Ao final de cada fascículo,
há uma seção chamada “Para saber mais”, onde se apontam perguntas e respostas e alguns filmes relacionados aos subtemas tratados.
É possível perceber que os fascículos trazem uma grande quantidade de conhecimentos teóricos sobre o tema geral e os subtemas tratados. Além disso, também se nota, como no material para os professores, que é detalhadamente explicado como cada oficina deve ser conduzida, o passo a passo que o aluno deve seguir.
Talvez se possa afirmar que o SPE enquanto dispositivo pedagógico operacionaliza uma tecnologia de poder que não é apenas piramidal, onde os profissionais educam os alunos, mas também horizontal. Provavelmente isto é feito porque acredita-se que adolescentes sentem-se mais confortáveis em discutir/confessar acerca das suas sexualidades com seus pares do que com professores e profissionais da saúde. No entanto, faz-se necessário preparar esta troca entre os adolescentes, institucionalizá-la, para que o jovem-modelo que já possui práticas saudáveis possa incentivar as mesmas em seus pares.