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4 FRAMEWORK METODOLÓGICO

4.1 O ambiente do estudo

O estudo foi conduzido no campus de uma universidade pública localizada no interior do estado da Paraíba. O Campus IV da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) situa-se na cidade de Rio Tinto, a 70 quilômetros da capital, João Pessoa. Sua implantação teve início em 2006 como parte de um programa do Governo Federal para interiorização do ensino superior. O campus foi planejado para atender a população local, no sentido de ampliar o acesso de comunidades que por estarem em situação de vulnerabilidade econômica e desvantagem educacional possuíam dificuldades para alcançar o ensino universitário. O campus dispõe da infraestrutura básica no que se refere ao ambiente de salas de aula e laboratórios específicos (climatização, equipamento de projeção e acesso à internet); biblioteca; programas de assistência estudantil e programas de ensino, pesquisa e extensão. Até 2018, o campus dispõe de dez cursos, sendo dois na área de Computação: uma Licenciatura em Ciência da Computação e um bacharelado em Sistemas de Informação, ambos funcionando durante o dia.

O curso de Licenciatura em Ciência da Computação (LCC) forma educadores para atuar no ensino da Computação nos níveis médio e técnico, mas também tem a missão de desenvolver competências técnicas que possibilitem aos egressos utilizarem tecnologias para resolver problemas no âmbito educacional8. Por sua vez, o curso de Sistemas de Informação (SI) tem como objetivo formar profissionais na área de tecnologia para atuar no planejamento, desenvolvimento e implantação de soluções que atendam o setor organizacional, de negócios e inovação de empresas9. Os cursos de LCC e SI foram reconhecidos em 2011 pelo Ministério da Educação e Cultura com conceito 4 e possuem avaliações 4 e 2, respectivamente, no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE), respectivamente10. Cinco laboratórios de informática são compartilhados pelos dois cursos, assim como, os mesmos programas de assistência à aprendizagem, como é o caso dos projetos de monitoria e tutoria. O corpo docente que trabalha na área da Computação é o mesmo e composto por professores que atuam predominantemente nas seguintes subáreas: redes e sistemas distribuídos; programação; informática na educação; ensino de computação; engenharia de software e inteligência artificial.

8 https://lcc.dcx.ufpb.br

9 https://si.dcx.ufpb.br

Considerando o perfil dos ingressantes dos cursos, muitos concluem a educação básica em escolas públicas. Muitos ingressam na universidade com deficiências escolares em áreas-chave, tais como Português e Matemática, algo que colabora para que tenham dificuldades para desenvolver certas competências técnicas em programação. Diferentes razões levam os estudantes a escolherem os cursos: curiosidade pela área de tecnologia, influência de alguns familiares e, às vezes, experiências com jogos. Contudo, também foi constatado ao longo dos anos que muitos estudantes optavam por cursar SI e LCC por não atingirem pontuação suficiente para ingressar em outros cursos, inclusive, de áreas não relacionadas à tecnologia. A combinação de alguns fatores, tais como, a familiaridade com a Internet; a presença dos cursos na região em que moram; baixas taxas de concorrência e expectativas positivas em relação a empregabilidade na área de tecnologia estabelecem um contexto favorável para que alguns estudantes optem por essas graduações. Em geral, os alunos são pouco estimulados no ambiente familiar, social e escolar a se aproximarem da Computação. Assim, não estão familiarizados com a área quando ingressam. Por vezes desconhecem a formação em Sistemas de Informação e a Licenciatura em Computação, não sendo capazes de distinguir as especificidades destes cursos em relação a outros existentes na área e, sobretudo, no que se refere aos campos específicos de atuação profissional.

O primeiro contato de estudantes de LCC e SI com a área de programação ocorre através da disciplina de Introdução à programação (IP), que é ofertada no primeiro semestre e possui as mesmas características em termos de ementa e carga horária – 60 horas/aula, distribuídas em dois encontros semanais. A disciplina objetiva introduzir a noção de algoritmos e conceitos básicos de programação, de forma que os estudantes se familiarizem com a lógica de programação, sejam capazes de desenvolver programas simples, identificar e corrigir erros, documentar códigos, além de exercitar o pensamento computacional resolvendo problemas do cotidiano.

A linguagem de programação adotada em IP é Python. Em geral, o ensino de programação nesta disciplina segue um modelo convencional. Entende-se que é convencional porque as aulas se baseiam na exposição de conteúdos e a avaliação ocorre predominantemente através de provas em papel. Há pouca inovação em termos pedagógicos, a exemplo do uso de práticas de ensino orientadas a projetos, ensino personalizado, sala de aula invertida, programação em pares e uso de tecnologias, tais quais jogos ou objetos de aprendizagem, por exemplo. Embora essas sejam as características gerais da disciplina de IP, outros aspectos metodológicos variam a depender do professor que leciona a disciplina.

O tamanho médio das turmas é de 50 alunos. De 2006 a 2016, a disciplina foi ofertada 37 vezes para o curso de Licenciatura em Computação e 26 vezes para o curso de SI.

Considerando a oferta para Computação, a taxa média de aprovação das turmas de IP foi de 30,60% nesse período. Em ambos os cursos, em média, aproximadamente, 30% dos matriculados abandonam a disciplina (conforme pode ser observado na Tabela 3). Por abandono entende-se a reprovação do estudante como resultado das suas ausências na disciplina. Através de uma pesquisa do tipo survey, realizada entre fevereiro e março de 2017 em que participaram 104 estudantes, dentre os quais, alunos de LCC e SI em estágios de formação variados, bem como egressos, 63% dos respondentes apontaram ter reprovado pelo menos uma disciplina do curso. Destes, 65% indicaram ter reprovado a disciplina de IP no mínimo uma vez. As taxas de aprovação nessas disciplinas introdutórias de programação são preocupantes, principalmente quando se considera o cenário mundial no qual, historicamente, nos últimos trinta anos, a taxa de sucesso de estudantes é de 67,7% (WATSON; LI, 2014).

Tabela 3. Índices de aprovação, reprovação e trancamentos nas disciplinas de IP nos cursos de LCC e SI de 2006 a 2016. Nota: os valores se referem à média calculada neste intervalo de tempo

LCC SI

Número de ofertas 37 ofertas 26 ofertas

Taxa de aprovação 30,60% 36,25%

Taxa de insucesso 69,39% 63,75%

Reprovação por nota 28,04% 27,07%

Taxa de abandono 31,84% 29,04%

Taxa de trancamentos 9,52% 7,64%

Fonte: Dados obtidos pelo sistema de controle acadêmico da UFPB via coordenações de curso

O ambiente da disciplina IP dos cursos de LCC e SI foi selecionado como local de investigação por algumas razões. O baixo desempenho acadêmico dos iniciantes em programação foi associado, dentre outros fatores, aos seus baixos níveis de motivação. Conforme se pode observar através dos trabalhos de Scaico et al. (2011), Scaico et al. (2012a), Scaico et al. (2012b) e Raposo e Dantas (2016), essa percepção sobre a influência do estado motivacional dos iniciantes nos seus resultados acadêmicos impulsionou várias tentativas, como é o caso de ações relacionadas ao uso de sistemas de tutoria, adoção de estratégias motivacionais baseadas em gamificação e no uso de jogos educativos. Todavia, conforme Scaico et al. (2013) destacam, apesar do suposto efeito positivo de algumas iniciativas, ainda havia mais a conhecer sobre a experiência dos estudantes. Pouco conhecimento havia sido construído acerca dos alunos destes cursos e especialmente de como certos aspectos contextuais influenciavam as suas experiências.

Pode-se dizer que o contexto da disciplina de IP no campus IV é representativo do que ocorre em muitos espaços de ensino introdutório de programação no Brasil: turmas numerosas e heterogêneas; formadas por estudantes pouco familiarizados com a Computação, em especial com a área de programação, cursos nos quais ainda predominam práticas convencionais de ensino, que podem ser resultantes de múltiplos fatores, dentre os quais, limitações financeiras que dificultam assistir adequadamente os estudantes no processo de aprendizagem (SILVA et al., 2015) (ROCHA et al., 2010). Além disso, em parte, há de se considerar a cultura de ensino introdutório de programação que foi sendo sedimentada ao longo das décadas e que é difícil de romper.

Estudar o fenômeno em um contexto típico como o que está sendo descrito se mostrou uma decisão razoável pelo potencial de situar os resultados e de eles se tornarem úteis para diferentes atores, inclusive, com potencial de influenciar práticas locais de ensino de programação. Outra razão diz respeito ao amplo acesso da pesquisadora ao campo de investigação, o que lhe conferiu capacidade para observar o fenômeno em um ambiente natural e em um intervalo de tempo relativamente longo, um elemento que era crítico para sustentar a observação do fenômeno e que também foi atendido ao realizar a pesquisa no Campus IV. Sendo assim, a presença deste conjunto de circunstâncias tornou propícia a seleção deste campus universitário como o ambiente da investigação.