2 BASES TEÓRICAS
2.4 O processo desenvolvimental do interesse
Hidi (1990) discutiu que embora interesses situacionais e individuais tivessem diferentes origens e fossem fenômenos distintos, eles não eram isolados. Apesar de reconhecer que, em alguns casos, os interesses poderiam ser provocados por uma disposição do indivíduo, a natureza elementar do interesse era situacional, ou seja, este estado psicológico era despertado a partir de um estímulo proveniente do ambiente, o qual poderia evoluir e alcançar um estado permanente. Barron (2006) estudou o contato de jovens com tecnologia, observando que quando interesses eram despertados, os jovens procuravam recursos, se aproveitavam de situações que lhes eram oferecidas, criavam oportunidades de aprendizagem e cruzavam fronteiras em diferentes espaços de aprendizagem para atingir seus objetivos. Nos seus estudos, a autora observou que a interação com colegas e o contato com determinados eventos e atividades eram condições capazes de despertar o interesse e manter o engajamento.
Krapp (2007) examinou o desenvolvimento de interesses sob a perspectiva de como as pessoas desenvolviam a própria identidade. Para ele, autonomia, competência e vínculo social eram necessidades psicológicas básicas, mencionadas posteriormente na teoria da Autodeterminação, e os elementos essenciais para estabelecer o desenvolvimento de interesses. De acordo com a percepção de Krapp, as pessoas estariam dispostas a se engajar com algo se ele fosse o meio para satisfazer tais necessidades. O autor observou que o interesse evoluía em três estágios: surgia como um interesse situacional, se estabilizava, ainda na forma de um interesse situacional, e depois, emergia como um interesse individual. Para ele, as pessoas experimentavam este processo tendo algum grau de consciência. A presença de elementos interessantes no ambiente estimulava a manutenção do interesse situacional, mas eram os processos mentais que influenciavam a ação das pessoas. Assim, o engajamento com os objetos era mediado pela avaliação que as pessoas faziam sobre o quão valioso era aquele objeto e se a experiência de se envolver seria positiva ou emocionalmente satisfatória.
Por sua vez, Alexander (2005) estudou como as crianças desenvolviam expertise em leitura, explicando este processo através de um modelo conhecido como
Model of Domain Learning (MDL). O desenvolvimento de interesse foi descrito como
uma dimensão paralela a esse processo. A autora não mencionou fases para o desenvolvimento do interesse, mas argumentou que o interesse poderia mudar de natureza e que este fenômeno ocorria à medida que as crianças desenvolviam mais conhecimento e apuravam as estratégias de leitura. Por sua vez, quanto mais os
interesses se desenvolviam, mais acumulavam conhecimento e aprimoravam tais estratégias. Assim, estas três dimensões do desenvolvimento de expertise (interesse, conhecimento e estratégias) se influenciavam reciprocamente.
Segundo o MDL, a primeira fase do desenvolvimento de expertise é a aclimatação (Figura 1). Quando o estudante está se ambientando ao novo domínio, ele possui conhecimentos fragmentados e dispõe de estratégias de leitura superficiais, que apenas o permitem acessar a mensagem do texto, sem ser capaz de estabelecer interpretações elaboradas. Ele precisa ser orientado e depende de certas circunstâncias para manter o foco da atenção e o engajamento, as quais são importantes para sustentar o seu desempenho. Estando na fase de competência, o leitor já possui maior familiaridade com o domínio, fazendo com que ele aprofunde as estratégias de leitura, que passam a se tornar mais eficazes. Estas mudanças dão mais autonomia ao leitor, o que favorece o seu desempenho. Uma vez que a dependência de elementos interessantes do contexto está diminuindo, começa a ocorrer a transição da natureza do interesse. Na fase de expertise, porque o conhecimento é maior e as estratégias de leitura estão mais sofisticadas, o leitor é capaz de diversificar o seu entendimento sobre o domínio e de se manter engajado, mesmo diante de situações difíceis ou frustrantes.
De acordo com o modelo, porque o desenvolvimento de interesse acompanha o desenvolvimento de expertise, um expert em leitura possui interesses individuais bem desenvolvidos nessa área. O modelo sugere que os estágios do processo de desenvolvimento de interesse eram irreversíveis. Além disso, devido à idade, crianças não eram capazes de atingir a fase de expertise, uma vez que esta fase apenas seria concluída no ensino médio. Tais suposições foram contestadas por Hidi e Renninger (2006) que alegaram que alguém poderia ser um expert em um domínio sem necessariamente possuir interesses individuais bem desenvolvidos por esse domínio, citando o caso de um operador de raio-x cuja perícia na tarefa não determina o seu interesse pela mesma. Segundo as autoras, um interesse individual poderia regredir e mesmo crianças muito pequenas poderiam desenvolver interesses individuais por certos objetos.
Visando compreender sob que condições um conteúdo ou domínio do conhecimento se tornaria parte do repertório dos interesses do estudante, alguns pesquisadores buscaram entender como os interesses se desenvolviam sob o enfoque educacional. Hidi e Harackiewicz (2000) alertaram que alguns educadores tinham dificuldade de lidar com estudantes desmotivados porque acreditavam que se o estudante não possuísse interesses acadêmicos, estes não se desenvolveriam, uma
discussão que também ressaltava que, ao passo que o interesse era uma variável capaz de influenciar o processo de aprendizagem também deveria ser vista como um subproduto desejável do processo instrucional.
Figura 1. Dimensões do processo de desenvolvimento de expertise segundo o MDL
Figura 1a. Progressão do conhecimento Figura 1b. Progressão do interesse
Figura 1c. Progressão das estratégias de leitura Figura 1d. Progressão do interesse, conhecimento e estratégias
Fonte: (ALEXANDER, 2005)
As pesquisadoras Suzanne Hidi e K. Ann Renninger se dedicaram ao estudo do processo desenvolvimental do interesse, produzindo um reconhecido framework teórico na pesquisa educacional: o Modelo das Quatro Fases (M4F), uma contribuição que permitiu expandir a compreensão sobre como os processos instrucionais poderiam ser capazes de estimular e desenvolver os interesses escolares. Porque o objeto central deste estudo está relacionado a como iniciantes em programação experienciam o fenômeno de desenvolver o interesse em aprender a programar, o M4F representa uma peça teórica central para a pesquisa, de forma que o framework é detalhado na Seção 2.5.