• Nenhum resultado encontrado

O ambiente e a temporalidade do impulso sexual

No documento annaritamacielsimiao (páginas 89-92)

TEORIA DA SEXUALIDADE

3. A psicologia da sexualidade

4.1. O ambiente e a temporalidade do impulso sexual

Seguindo na mesma ordem que os assuntos são tratados na obra, a primeira argumentação abrange os processos ambientais de regulaçãodo desejo sexual.

Para Krafft-Ebing o desejo sexual, maduro e posterior ao desejo dapuberdade, representariauma lei fisiológica comum a todos os sujeitos. Assim como a legislação social nas diferentes sociedades humanas, a lei do desejo sexual variaria de acordo com os muitos contextos nos quais os indivíduos estivessem inseridos. Fatores como raça, clima, hereditariedade e circunstâncias sociais influenciariam a fisiologia do sexo.

Sendo assim o autor propõe que os habitantes dos países do sul (anteriormente apresentados como os últimos a atingir a moralidade sexual) quando comparados aos habitantes do norte, seriam os primeiros a atingir o desenvolvimento sexual.

As razões para esse aparecimento precoce não são explicitadas por Krafft-Ebing. O mais próximo do argumento de Krafft-Ebing para esclarecer o aparecimento dessa relação está, novamente, na primeira Psychopathia Sexualis. Kaan (1844, p.48) apresenta, em ordem crescente, o momento em que as diversas espécies atingiriam asexualidade: No pólipo esta faculdade apareceria depois do nascimento. Nas conchas, apareceria no terceiro ano de vida. Nos peixes, apareceria mais rápido que nos anfíbios. E assim sucessivamente até a espécie humana. Pelo texto, ele parecer acreditar que a faculdade de procriação irromperia nos animais inferiores cada vez mais cedo, quanto

82 mais simples fosse a constituição corporal e neurológica.Dessa maneira, e sabendo que algumas colônias dosul ainda seriam consideradas selvagens pelos estudiosos nortistas e que mesmo quando já estivessem colonizadas, teriam sido civilizadas tempos depois das sociedades do norte, os habitantes dessas colônias seriam considerados menos evoluídos que os habitantes do norte, logo, alcançariam primeiro a faculdade de procriar.

A fase da puberdade, seguida pela juventude seria agitada por uma inquietude secreta, por pensamentos constantes e marcada por certa característica de sensibilidade incerta. Nessa fase o ânimo se comoveriafortemente e uma sensualidade aprazível apareceria. Neste período, o jovem desenvolveria devaneios, teria desagrado em realizar as ocupações ordinárias, fugiria da companhia de outras pessoas e procuraria a solidão. As meninas seriam as que primeiramente ficariam atormentadas por tal emoção da mente por causa do sistema nervoso mais evoluído e mais suscetível do sexo feminino.

O impulso sexual convidria o homem ao coito. O coito seria um ato que a natureza humana exigiria, e nem a moralidade nem a religião seriam capazes de contradizer, pois neste ato a propagação do gênero humano aconteceria. No entanto, alguns tipos de cópula não seriam conveninte aos homens, entre eles a pantogamia31e a poligamia, que ocorreriam no reino animal e ainda existiria em povos primitivos da África e da Ásia. Deles podemos notar alguns traços, para desonra do gênero humano em cidades bem organizadas, mas tão somente a monogamia, que conduz ao matrimônio.

Em termos fisiológicos, de como tal relação se daria até o desenvolvimento da moral sexual, a partir das leituras dos autores dos séculos XVIII e XIX, já se faz presente a noção geral de que quanto mais cedo as glândulas sexuais se desenvolveriam, mais cedo a pessoa estaria fisiologicamente madura para manter relações sexuais. Sendo assim, a sexualidade precoce favoreceria a consumação sexual dos amores da puberdade. Quando os argumentos da psicologia da sexualidade de Krafft-Ebing são retomados, a maturação sexual (quando precoce) completa coincidiria com o período psicológico do aparecimento dos amores idealizados e primordialmente sensuais. Esses sentimentos precoces, além de correrem o risco de serem dedicados à pessoas indignas, seriam impossíveis de serem mantidos atéo ponto em que seriam convertidos em

31

O termo Pantogamia significa o modo reprodutivo em que a individualidade não desempenha nenhum papel, o macho e a fêmea acasalam indiscriminadamente com todas as pessoas do sexo oposto a eles, desde que a necessidade surge em produzi-las (Nyst, 1845, p.615), o mesmo que nomadismo sexual.

83 amores nobres. Dessa maneira, logo o amor e o desejo sexual por um sujeito cessariam e passariam a ser dedicados para outra pessoa. O ato sexual seria consumado com cada novo objeto de amor, levando o individuo ainda muito jovem à um comportamento que favoreceria a promiscuidade sexual e o manteria cada vez mais afastado da evolução necessária para atingir a moralidade. Seguindo a mesma linha de raciocínio é possível dizer que o argumento de Krafft-Ebingpode ir além, pois, caso aprendido muito cedo, o comportamento promíscuo assumiria a mesma forma de um mau hábito precoce e quando em conjunto com as degenerações cerebrais que apareceriam em alguns seres humanos (e seriam hereditárias), possivelmente formariam as primeiras ocorrências das perversões sexuais do instinto entre a espécie humana.

Os habitantes de lugares com clima tropical alcançariam essas características fisiológicas do início do desenvolvimento sexual (menstruação, pelos pubianos, engrossamento da voz, ejaculação) aproximadamente aos oito anos de idade, ou às vezes até mais cedo nas mulheres. Essas idades representariam uma faixa etária muito menor do que os quatorze ou quinze anos dos nortistas, e menor do que a própria faixa etária da puberdade, período que marcaria o início da vida sexual. Sendo assim, o argumento que Krafft-Ebing endossa (de que a vida sexual, os primeiros amores e desejos começariam exclusivamente na puberdade quando a sexualidade fosse normal) não é correspondente. A Psicologia Sexual compreende um enunciado universal para todos os seres humanos em todos os tempos, já o autor assume que o início das características fisiológicas sexuais, e, por conseguinte, da sexualidade em si também estaria influenciado por fatores não biológicos e externos, que poderiam alterar qualquer determinação de um momento fixo para o início da sexualidade. Fato que corrobora essa contradição apresentada acima seria a ideia no texto em que meninas que vivem nas cidades desenvolvem-se antes que meninas que vivem no interior e, que quanto maior a cidade, mais cedo o desenvolvimento sexual da menina ocorreria.

A hereditariedade teria um papel equivalente ao do clima e ao das raças na fisiologia da sexualidade. Pessoas que nasceram em famílias ativas sexualmente e longevas teriam maior tendência a ser sexualmente ativas, ter mais filhos e viver mais que pessoas que não possuíssem tais características familiares.

A atividade das glândulas reprodutoras também seria diferente entre os gêneros sexuais. A função sexual das mulheres cessaria antes da dos homens. A ovulação feminina duraria até trinta anos depois do início da primeira menstruação, ou seja, a “potência” da mulher duraria no máximo até os quarenta e quatro anos de idade, dando

84 início ao climatério. Entre a menarca e a última menstruação, o período do climatério representaria um acontecimento biológico que acarretaria em uma atrofia dos órgãos reprodutores femininos e uma mudança em todo o organismo da mulher. Por essa razão, esse período também seria chamado de “período da mudança da vida”. Na maioria dos homens da Europa, a maturidade sexual começaria aos dezoito anos de idade, chegando ao ápice por volta dos quarenta anos e começando a declinar lentamente a partir daí.

Krafft-Ebing assume a divisão que separa a potência sexual em dois tipos, cada um com funções distintas: a potentia generandi, potência que propicia a procriação, a continuação da espécie, que duraria até os sessenta e dois anos no máximo em um homem e até a menopausa na mulher; e a potentia coeundi, potência de coabitar, de conseguir manter relações sexuais poderia ser encontrada até em pessoas idosas.

O instinto sexual existiria durante toda a vida sexual do sujeito, mas teria variação no nível e na intensidade ao longo desse período. Apesar de não ser totalmente periódico como nos animais, o instinto sexual humano teria picos periódicos de maior atividade: nos homens seria de acordo com a variação da economia e do ato de expelir o esperma e as mulheres teriam um aumento do desejo sexual na época da ovulação, logo após o fim da menstruação. A duração da potentia coeundi representa um ponto de contradição na teoria, uma vez que, dentro das patologias gerais fato de ter o desejo sexual e, principalmente, de manter relações sexuais durante o período da velhice, incluiriam o indivíduo entre os doentes com o instinto sexual pervertido. Ao longo da leitura integral do texto pode-se dizer que para Krafft-Ebing a variação normal sofrida pelo instinto sexual chegaria a um ponto que diminuiria até tornar a sexualidade nula. Mas ainda assim, a potentia coeundi inevitavelmente teria que ter um final antes da velhice. Esse final não é apresentado abertamente, mas existe, devido a uma afirmação posterior de Krafft-Ebing que diz que é válida a suposição de alguma anormalidade em uma pessoa que sente vontade de manter relações sexuais depois de muito velha, entre os 70 ou 80 anos (de acordo com os casos que ele seleciona). Provavelmente a potentia coeundi seria uma patologia quando encontrada além da duração dapotentia gerenrandi.

No documento annaritamacielsimiao (páginas 89-92)