annaritamacielsimiao
Texto
(2) ANNA RITA MACIEL SIMIÃO. SEXUALIDADE E PERVERSÃO NA PSIQUIATRIA DE KRAFFT-EBING. Dissertação apresentada ao Departamento de Pós Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora, como parte dos pré-requisitos para a obtenção do título de Mestre em Psicologia.. Orientador: Prof. Dr. Richard Theisen Simanke. Juiz de Fora 2015.
(3) Agradecimentos Agradeço ao meu orientador Richard, meus familiares e amigos pela dedicação e ajuda durante todo o processo. Sem vocês a conclusão desse trabalho seria impossível..
(4) Resumo Em 1886, tendo como foco o estudo da sexualidade para ser usado nos tribunais e a partir da apresentação, classificação e análise de inúmeros casos de sexualidade desviante observados ao longo dos anos de atuação clinica própria ou alheia, o psiquiatra alemão Richard von Krafft-Ebing (1840-1902) publica a sua obra mais importante – a Psychopathia Sexualis– e articula uma nova perspectiva para o estudo da sexualidade em geral. Embora influente e amplamente discutido por seus contemporâneos, o interesse pela obra de Krafft-Ebing diminuiu consideravelmente depois e poucos estudos lhe são hoje dedicados. Este trabalho descreve e discute, em seus aspectos históricos e conceituais, a abordagem da sexualidade nas obras de KrafftEbing, através de uma análise interna da arquitetura conceitual de seus principais trabalhos e de autores que o influenciaram ou foram por ele influenciados.. Palavras-chave: história da psiquiatria; Krafft-Ebing; sexualidade; perversão; perversidade; instinto sexual..
(5) Abstract In 1886, focusing onthe study of sexuality to be utilized in the courts and starting from the presentation, classification and analysis of numerous cases of deviant sexuality observed over the years of own (or others)clinical practices, the german psychiatrist Richard von Krafft -Ebing (1840-1902) published his most important work - the Psychopathia Sexualis- and articulates a new perspective for the study of sexuality in general. Although influential and widely discussed by his contemporaries, the interest in the work of Krafft-Ebing decreased considerably during the following centauries and in the present days only a few studies are dedicated to this subject . This paper describes and discusses, in its historical and conceptual aspects, the approach of sexuality in the works of Krafft-Ebing, through an internal analysis of the conceptual architecture of his major. works. and. authors. that. influenced. or. were. influenced. by. him.. Keywords: history of psychiatry; Krafft-Ebing; sexuality; perversion; wickedness; sexual instinct..
(6) Sumário Introdução ...................................................................................................... 1. PRIMEIRA PARTE: INTRODUÇÃO HISTÓRICA 1. CONTEXTO HISTÓRICO DOS ESTUDOS SOBRE A SEXUALIDADE NO SÉCULO XIX ........... 9 1.1– A Medicina na Antiguidade ....................................................................................9 1.2– Medicina na Idade Média ....................................................................................... 12 1.3– O Renascimento e o Nascimento da Psiquiatria .....................................................13 1.4–A Medicina Legal ............................................................................................................ 18 1.5–A Sexualidade: Objeto de Estudo da Psiquiatria ......................................................... 22 2. KRAFFT–EBING, VIDA E OBRA. A PSYCHOPATHIA SEXUALIS .........................................26 2.1– Obras de Krafft–Ebing ............................................................................................ 28 2.2–Visão de Krafft–Ebing sobre a Psiquiatria e a vida psíquica até a sexualidade como objeto de estudo da psiquiatria ..............................................................................31. SEGUNDA PARTE: TEORIA DA SEXUALIDADE 3. A PSICOLOGIA DA SEXUALIDADE ...................................................................................37 3.1– O instinto sexual e o desenvolvimento da moralidade ...........................................42 3.2– O amor e o sexo na civilização ...............................................................................50 3.3– A significação do fetichismo...................................................................................73. 4. A FISIOLOGIA DA SEXUALIDADE ....................................................................................81 4.1– O ambiente e a temporalidade do impulso sexual ..................................................81 4.2– O cérebro e a sexualidade ....................................................................................... 84 4.3– A sexualidade e o sentido do olfato ........................................................................92 4.4– A questão da excitabilidade sexual .........................................................................93 4.5– A antropologia sexual ............................................................................................. 99 TERCEIRA PARTE:PATOLOGIA DA SEXUALIDADE 5. A PATOLOGIA GERAL DA SEXUALIDADE .......................................................................106 5.1–Neuroses Sexuais Periféricas ...................................................................................107.
(7) 5.1.1–Hiperestesias ................................................................................................... 108. 5.1.2– Neuralgias .....................................................................................................108 5.1.3– Anestesias ........................................................................................................109 5.1.4– Polespermia .....................................................................................................109 5.1.5– Aspermia .........................................................................................................109 5.1.6– Espamos e Paralisias ....................................................................................... 110 5.2– Neuroses Sexuais Espinhais ....................................................................................110 5.2.1– Afecções do Centro de Ereção ......................................................................110 5.2.2– Afecções do Centro de Ejaculação ............................................................... 111 5.3– Neuroses Sexuais Cerebrais ....................................................................................112 5.3.1– As paradoxais ................................................................................................ 113 5.3.2– As anestesias (como neurose cerebral) ......................................................... 116 5.3.3– As hiperestesias (como neurose cerebral) .....................................................118 5.4– As Parestesias ( Perversões Sexuais do Instinto) ....................................................122 5.4.1– Sadismo .........................................................................................................123 5.4.2– Masoquismo ..................................................................................................141 5.4.3– Fetichismo .....................................................................................................159 5.4.4– Inversão Sexual ............................................................................................. 168 5.4.4.1– O Sentimento Homossexual como uma manifestação anormal adquirida em ambos os sexos .........................................................................173 5.4.4.2– O Sentimento Homossexual como uma manifestação anormal Congênita .......................................................................................................181 5.4.4.3–Homossexualidade em seu Aspecto Legal ........................................196 5.4.4.4– Diagnóstico das Perversões, Prognóstico e Tratamento da Homossexualidade ......................................................................................... 201. 6. A PATOLOGIA ESPECIFICA DA SEXUALIDADE ............................................................... 208 6.1– Na Psychopathia Sexualis ....................................................................................... 208 6.1.1– Idiotia e Imbecilidade ...................................................................................208 6.1.2– Fraquezas Mentais Adquiridas .....................................................................210 6.1.3– Eplepsia .........................................................................................................210 6.1.4.– Mania e Insanidade Temporária ...................................................................211 6.1.5–Satiríase e Ninfomania ...................................................................................212 6.1.6– Histeria ..........................................................................................................213.
(8) 6.1.7– Paranoia Sexualis .......................................................................................... 214 6.2– Em outras obras ......................................................................................................217 6.2.1– Paranoia Sexual– Erotomania .......................................................................218 6.1.2– Paranoia Masturbatória .................................................................................219 6.1.3– Neuroses sexuais causadas pelo climatério ...................................................221 6.1.5– Neuroses sexuais associadas ao período menstrusal ....................................222 6.1.5– Melancolia ....................................................................................................225. 7. AS PATOLOGIAS SEXUAIS E SEUS ASPECTOS LEGAIS227 7.1– Exibicionismo e Froteurismo ..................................................................................229 7.2– Violações de Estátuas e Vouyrismo........................................................................231 7.3– Violação de Crianças /Pedofilia .............................................................................. 232 7.4– Abusos não–naturais: Bestialidade ou Sodomia e Zooerastia ............................... 236 7.5– Incesto .....................................................................................................................239 7.6– Crimes de Sedução..................................................................................................242. Conclusão ....................................................................................................... 244 Referências ..................................................................................................... 251.
(9) Introdução Ao lançar a discussão sobre um assunto tão árido e inovador como as relações de gênero da sexualidadehumana,namedida em que se trata de um “tema de recente e difícil introdução nas ciências sociais, porque é de difícil introdução na própria vida social” (Almeida, 2000, p.130), mais do que debater classificações desprovidas de contexto, é necessário compreender tais relações dentro de uma estrutura maior, tentando apreender as formas através das quais estas relações se construíram entre indivíduos em diferentes épocas e contextos culturais, sociais, históricos e políticos, afirmando- se e reafirmando-se, via variada gama de práticas e teorias. Para tanto é fundamental discorrer sobre alguns dos pensamentos responsáveis pelo panorama que a sociedade experimenta atualmente. A sexualidade compreende uma importante dimensão da existência humana, e parece chamaratenção especial da sociedade. Suacompreensão envolve diversos fatores biológicos, culturais e morais. Segundo Foucault (1985), o sexo ocuparia um lugar central na organização social, e passariaa definir o sujeito tanto na dimensão individual quanto coletiva. No século XIX:. (...) a sexualidade foi esmiuçada em cada existência, nos seus mínimos detalhes; foi desencavada nas condutas; perseguida nos sonhos, suspeitada por trás das mínimas loucuras, seguida até os primeiros anos da infância; tornou-se a chave da individualidade: ao mesmo tempo, o que permite analisá-la e o que torna possível constitui-la(Foucault, 1985, p. 137).. Para o filosofo francês, a repressão à prática sexual no interior das famílias burguesas, em uma época chamada pelo autor de a “Idade da Repressão”, seria pautada no desenvolvimento do capitalismo. Qualquer prazer capaz de levar os seres humanos para além da reprodução precisaria serrepudiado e desestimulado por uma prática calcada na economia sexual. A repressãoao sexo como mecanismo de controle da sexualidade acabaria por abrir uma brecha dialógica encontrada nos discursos de todos aqueles que ousam falar, debater ou ventilar assuntos ditos proibidos, originando atitudes que colocariam os transgressores em posições que escapariam ao alcance do poder (Foucault, 1985, p.52). Paraa moral burguesa, a sexualidade seria normal quando encontrasse uma única direção: a das relações entre pessoas do sexo oposto visando à procriação. Os gêneros sexuais(masculino e feminino) teriam características fortes e 1.
(10) delimitadas, e os sujeitos do sexo masculino seriam socialmente superiores aos sujeitos de gênero feminino. Para Bourdieu (2003, p.18), as relações de dominação e exploração instituídas entre os gêneros sexuais seriam inscritas em duas classes de hábitos diferentes, que levariam à classificação de todas as coisas segundo distinções redutíveis a masculinoe feminino. Aos homens ficariam designados os papéis de realizar todos os atos ao mesmo tempo breves e espetaculares que levariam à rupturado cotidiano social, como caçar, matar e guerrear. Às mulheres, sobrariam os trabalhos privados e escondidos, como cuidar da casa e das crianças. No Ocidente, por volta do séculoXVIII, a distinção entre os sexos seria culturalmente percebida, mas não explicada pela diferenciação sexual, pois a visão científica conceberia a mulher como um homem invertido do ponto de vista biológico e inferior do ponto de vista estético. OIluminismo e a revolução burguesa no final do século XVIII e início do século XIX modificariam a percepção médico-científica da anatomia feminina, devido à necessidade da diferenciação entre homens e mulheres. A diferenciação entre os sexos justificaria o aparecimento das diferenças morais entre oscomportamentosfemininos e masculinos, de acordo com as exigências da sociedade burguesa: “A partir do século XIX, a mulher diante do novo modelo dos sexos, se torna o inverso complementar do homem. Por outro lado, a categoria de inversão (agora como algo anormal, antinatural e perverso), passa a designar o homossexual” (Cecarelli, 2010, p.123). A partir do final do século XIX, com a ascensão da nova moral burguesa e a presença forte que as diversas religiões tiveram nessa classe social, todos os comportamentos sexuais que representassem uma discordância com a “lei da natureza” começariam a ser estudados incansavelmente pela ciência, pois estas manifestações sexuais representariam uma ameaça à sociedade e aos costumes morais e familiares e, consequentemente, à perpetuação da raça humana.. Os indivíduos passariam a ser. categorizados a partir de suas práticas sexuais. Nesse período a medicina foi a disciplina escolhida para ser a representante do discurso que pretendia ser cientifico. Vários psiquiatras publicaram mais e mais histórias de casos de excentricidades sexuais, apresentando classificações para a vasta gama de comportamentos sexuais desviantes por eles identificados durante o exercício da profissão. Em 1886, tendo como foco o estudo da sexualidade para ser usado nas cortes dos tribunais e a partir da apresentação, classificação e análise de inúmeros casos de sexualidade desviante observados ao longo 2.
(11) dos anos de atuação clinica própria ou alheia, o médico alemão Richard von KrafftEbing (1840-1902) publica a sua obra mais importante – a Psychopathia Sexualis– e articula uma nova perspectiva para o estudo da sexualidade em geral. O trabalho de Krafft-Ebing foi, em sua maioria, uma coleção das observações clínicas e estudos de caso (seu e do outros médicos). Suas discussões pretendiam articular perspectivas predominantemente médicas, mas também envolviam questões psicológicas e filosoficas. Entre seus contemporâneos as ideias de Krafft-Ebing logo alcançaram grande reconhecimento. Sua obra foi traduzida e reeditada em diversos idiomas, mesmo depois de sua morte. A maioria das obras sobre sexualidade que sucedem a sexta edição alemã (1891) da Psychopathia Sexualis, – a edição em que Krafft-Ebing adicionou pela primeira vez as categorias do sadismo, masoquismo, fetiche entre outras –todas em algum momento fizeram referência a alguma das classificações, principalmente aos termos cunhados por ele. Essas referências variam entre elogios e criticas, mas todas reconhecendo a importância do trabalho Psychopathia Sexualis. A famaoutroraalcançada, porém, não conseguiu sobreviver ao longo dos anos. Para Oosterhuis (2000) nos dias de hoje Krafft-Ebing, para o público geral, não seria mais um nome familiar, e sua fama teria sido suprimida pelos nomes de Sigmund Freud, Kinsey, Masters e Johnson. Os historiadores considerariam o trabalho de Krafft-Ebing apenas como uma espécie desatualizada da visão da sexualidade pré-freudiana. Hauser (1992) argumenta que à primeira vista não existiriam razões para que Krafft-Ebing ficasse tão desconhecido atualmente como de fato aconteceu. Seu papel durante o final do século XIX teria sido importante demais para justificar o limbo intelectual ao qual seu trabalho foi relegado. A explicação para a ausência de trabalhos sobre Krafft-Ebing estaria, em sua maior parte, nas dificuldades com o material que ele produziu. Primeiro porque os historiadores ainda o encarariam como o autor de um único livro. E o sucesso e popularidade que a Psychopathia Sexualis alcançou acabaria tomando vida própria, muito maior que a vida própria de seu autor. Muito do que está escrito em suas páginas seria de largo reconhecimento, mas não remetido imediatamente ao nome de Krafft-Ebing. Esse quadro de autor de um único livro ainda seria agravado pelo fato de que, por ter sido um autor muito prolífico, boa parte do que ele teria realmente escrito acabou se perdendo e não poderia nem ser encontrada para ser estudada. 3.
(12) Mas a razão mais importante parao pouco conhecimento atual sobre KrafftEbing seria o fato de que as obras dele geralmente tratariam de muitos objetos e diversos conceitos. O trabalho dele não consistiria, de fato, em uma reflexão de um único pensamento mais profundo, mas na apresentação de sua argumentação com vários exemplos do pensamento de muitos outros colegas, por vezes ainda menos conhecidos do que ele. Atualmente recuperar esses diversos pensamentos dos colegas e traçar uma linha de pensamento em meio a tantas outras apresentadas, seria uma tarefa muito complexa. Entre todas essas teorias, separar o que seria original de Krafft-Ebing consistiria, por sua vez, em uma tarefa tediosa (Hauser, 1992). Atualmente, salvo os estudos de Hauser (1992) e Oosterhuis (2000), a maioria dos trabalhos que contam com alguma referencia sobre Krafft-Ebing falam apenas ou de uma maneira geral, citando sua importância histórica, fornecendo crédito por algum termo ou citando brevemente a teoria de alguma de suas patologias. Esse número aumenta consideravelmente quando procuradas por bibliografias em alemão e inglês, e diminui consideravelmente ao procurar por trabalhos mais completos em português. Na língua portuguesa, a maioria dos textos menciona Krafft-Ebing apenas com alusões às citações que Freud fazia dele em suas obras, algumas vezes sem referência original. A pouca bibliografia disponível sobre a teoria da sexualidade de Krafft-Ebing, (principalmente em português), a falta de trabalhos que analisem suas obras disponíveis de maneira mais profunda – quando comparadas com o reconhecimento e a presença das ideias e conceitos de autoria de Krafft-Ebing nas várias teorias psicológicas e médicas da sexualidade atual – tornariam justificável análise dos conceitos teóricos a partir das obras originais do próprio autor.Desse modo, uma das justificativas para o empreendimento dessa pesquisa é o preenchimento nessa lacuna na história das teorias sexuais. O presente trabalho tem como objetivo expor e analisar, em seus aspectos históricos e conceituais, a abordagem da sexualidade e da perversão na obra psiquiátrica de Krafft-Ebing. Pretende-se também descrever, minuciosamente, a abordagem da perversão na obra Psychopathia Sexualis e complementar essa abordagem com a investigação da teoria da sexualidade em outras obras do próprio autor, dos autores que o influenciaram e por ele influenciados. O texto base principal deste trabalho é a tradução em inglês da sétima edição da Psychopathia Sexualis, lançada no ano 1892. Essa tradução foi autorizada por KrafftEbing e foi a primeira tradução inglesa da obra. A sétima edição em alemão e a nona 4.
(13) edição em francês também serão foram consultadas, principalmente para esclarecer questões das traduções dos termos. Como a Psychopathia Sexualis sofreu muitas alterações entre a primeira publicação e a última edição, além da sétima edição base inglesa e alemã, a terceira,nonae a décima edições da obra em alemão foram consultadas a fim de apontar, quando necessários, as mudanças mais profundas na teoria de Krafft-Ebing. As outras edições em alemão não puderam ser recuperadas para constarem no trabalho. As traduções em inglês da décima edição e décima segunda edição também foram utilizadas para o mesmo fim citado anteriormente. A última edição em inglês utilizadafoi a de 1906 também porque não foi possível encontrar a edição em inglês de 1904. Apesar de essa edição ter sido lançada após a morte de Krafft-Ebing, ela é apenas uma tradução, sem nenhuma alteração, da edição alemã de 1904 (Krafft-Ebing, 1888, 1892, 1892b, 1894, 1898, 1899, 1906). As edições póstumas da Psychopathia Sexualis que foram editadas e complementadas pelos colegas de Krafft-Ebing, Albert Moll e Alfred Fuchs, não serão utilizadas neste trabalho. Essa opção se justifica pelo fato de que as obras foram modificadas pelos revisores e poderiam afastar um dos objetivos do trabalho que é avaliar o impacto que a teoria de Krafft-Ebing teve nos estudos das perversões no século XIX e início do século XIX. Essas modificações incluem algumas ramificações das linhas teóricas discutidas, bem como categorias que nunca chegaram a ser incluídas nem discutidas por Krafft-Ebing, em vida, em suas obras. Os outros textos de Krafft-Ebing utilizados aqui não contam com nenhuma outra tradução além das referenciadas, à exceção do seu Lehrbuch der Psychiatrie. A obra principal utilizada foi a última edição inglesa lançada em 1904 (uma reedição da obra de 1900), o texto original em alemão foi usado apenas para destacar alguma mudança nos pensamentos gerais e para esclarecer traduções (Krafft-Ebing, 1888b, 1904). Nos capítulos desta pesquisa que tratam da descrição do sistema de categorização das patologias proposto por Krafft-Ebing, para as categorias que contavam com mais de um caso de exemplificação, utilizou-se como primeiro critério geral para escolha dos casos a serem traduzidos e incorporados, transcrever os casos que foram atendidos pelo próprio Krafft-Ebing, pois na obra sempre fornecem mais detalhes e sempre são acompanhados de alguma explicação mais minuciosa. Como segundo critério (que serviu tanto para os casos por ele atendidos quanto para os casos de terceiros) as próprias notações de Krafft-Ebing no corpo da obra, procurando sempre relatar o caso da categoria que ele ressaltou entre todos os 5.
(14) apresentados. Para os poucos casos em que ele não fez nenhuma notação, foram utilizados sempre os que mais se aproximassem da explicação fornecida por KrafftEbing para a patologia em questão. A escolha de outros autores para fazer parte da pesquisa também seguiram alguns critérios. O primeiro foi incluir os autores, que de acordo com o próprio KrafftEbing, influenciaram os aspectos gerais da teoria. Alguns autores citados por KrafftEbing em suas obras também serão discutidos a fim de esclarecer e complementar os argumentos utilizados. Esses autores foram eleitos por sua importância histórica, para contextualizar historicamente alguns conceitos, complementar eventuais argumentos principais e para avaliar as influências da teoria da sexualidade de Krafft-Ebing. Outros autores que não foram citados por Krafft-Ebing serão eventualmente abordados para contextualizar, principalmente historicamente, alguns argumentos teóricos. Alguns desses autores são predecessores à Krafft-Ebing e foram eleitos de acordo com sua importância teórica para a necessidade do próprio assunto abordado nesta pesquisa. Os autores que não foram citados por Krafft-Ebing, mas que se fizeram necessários para a argumentação e contextualização neste trabalho são aqui classificados como autores contemporâneos a ele. O critério principal para a escolha desses autores foi o de, além de tratarem da teoria da sexualidade e perversões sexuais, terem obras publicadasaté, no máximo, os anos de 1970. Essa data foi definida tomando como base da divisão histórica da psiquiatria apresentada por Shorter (2005), que divide a história da psiquiatria moderna em três períodos distintos: (a) 1770-1870, que seria chamado de período da Era dos Asilos, durante a Idade Média, com maior ênfase nas teorias biologicistas das doenças mentais e físicas; (b) 1870-1970, o período das psicoterapias de raízes psiquiátricas, tendo como maior exponente Sigmund Freud e o método psicanalítico; (c) 1970- até os tempos presentes, que seria chamado de período da segunda psiquiatria biologicista com a popularização dos psicofármacos. Com essa divisão, Krafft-Ebing pertenceria a uma transição entre o final da psiquiatria da Era dos Asilos e as psicoterapias de origem psiquiátricas. Logo os autores para serem chamados de seus contemporâneos deveriam pertencer ao mesmo período histórico. Por esse mesmo motivo autores que excedem esse momento, incluindo os próprios citados anteriormente (Shorter, Oosterhuis e Hauser), não serão incluídos para analisar diretamente a teoria de Krafft-Ebing, mas apenas para contextualizações históricas e esclarecimento de conceitos. 6.
(15) Tendo-se esses objetivos em vista, o trabalho se estrutura da seguinte maneira: no primeiro capítulo, que compreende a primeira parte deste trabalho, levando em conta a importância conferida por Krafft-Ebing ao estatuto da medicina enquanto ciência e a prática psiquiátrica pretende-se contextualizar historicamente as fases pelas quais a medicina teria passado até chegar aos estudos da sexualidade pela psiquiatria no século XIX. Sendo assim, no segundo capitulo, a primeira seção apresenta de uma breve biografia de Krafft-Ebing; a segunda seção apresenta brevemente as obras de KrafftEbing, dando destaque às traduções e edições da sua obra principal, a Psychopathia Sexualis. Na última sessão será apresentado o pensamento geral de Krafft-Ebing sobre o objeto de estudo da psiquiatria e os princípios gerais teóricos e práticos da psiquiatria praticada por Krafft-Ebing. Os dois capítulos seguintes compreendem a segunda parte deste trabalho e discutem a parte teórica dos estudos da sexualidade de Krafft-Ebing. O terceiro capítulo, homônimo à primeira parte da Psychopathia Sexualis, discutirá os ensaios teóricos de Krafft-Ebing sobre a psicologia da vida sexual. Esse capítulo abrange os conceitos filosóficos e metafísicos nos quais Krafft-Ebing baseia sua teoria da sexualidade. O quarto capítulo, por sua vez, discute os conceitos biológicos, fisiológicos e antropológicos nos quais Krafft-Ebing baseia a sua teoria sexual. A terceira e última parte do trabalho, compreende os capítulos de categorização das patologias propostas por Krafft-Ebing. O primeiro capítulo desta parte, quinto capitulo do trabalho, apresenta as patologias gerais da sexualidade categorizadas por Krafft-Ebing e os casos relativos às mesmas, sendo elas: sadismo, masoquismo, fetichismo e homossexualidade. O sexto capítulo abrange a apresentação das patologias especificas da sexualidade os casos relativos às mesmas. Essas patologias seriam consequências de outras doenças mentais e não perversões do instinto, por isso são apresentadas em um capitulo separado. O sexto capítulo apresenta também outras patologias sexuais presentes em outras obras de Krafft-Ebing, que por não tratarem de perversões sexuais gerais não constam na Psychopathia Sexualis. Finalmente, o sétimo e último capítulo apresenta as patologias da sexualidade em uma abordagem mais aproximada da medicina legal. Por fim, a partir das evidências apresentadas, na conclusão será examinado aquiloquesignificamasideiasdeKrafft-Ebing, isto é, qual seu papel, sua função, seu lugar na teoria do próprio autor e sua influência nas teorias sobre sexualidade de seus 7.
(16) contemporâneos e sucessores, bem como sua influência para a visão geral da sexualidade do século XIX e século XX. Espera-se, com essa pesquisa, obter uma melhorcompreensãoda contribuiçãode Krafft-Ebing para a teoria. da sexualidade, bem. pensamento. seus contemporâneos. Dessa forma, o trabalho poderá. filosófico de. como sua. relação. com. o. contribuir paraumaavaliaçãomaisprecisa das teorias sobre a sexualidade ao longo dos anos.. 8.
(17) PRIMEIRA PARTE INTRODUÇÃO HISTÓRICA. 1. CONTEXTO HISTÓRICO DOS ESTUDOS SOBRE A SEXUALIDADE Apesar de vários relatos indicando que formas primitivas de medicina existiriam desde os textos mais antigos da humanidade, de acordo com Ackerknecht (1982, p. 47) a medicina praticada na Grécia seria, dentre todas as civilizações antigas, a mais próxima à ideia de medicina nos séculos que se seguiram. Sendo assim, o ponto de partida desse trabalho é a contextualização histórica deste período.. 1.1. A Medicina na Antiguidade. A partir da medicina e das práticas médicas gregas, a doença passaria, gradativamente ao longo dos séculos, a perder seu caráter mágico e adquirir uma abordagem que a aproximaria dos estudos lógicos. A civilização grega, por estar geograficamente próxima de diversas outras civilizações (como a egípcia, fenícia, mesopotâmica, cretense), ficaria exposta aos diferentes tipos de abordagens culturais. Essas abordagens seriam capazes de provocar orientações diversas nos contextos culturais e sociais. A divisão política que prevaleceu ao longo da história da Grécia – e que posteriormente seria a responsável pela ruína da civilização – teria prevenido que uma burocracia religiosa muito forte e bem organizada fosse desenvolvida, e acabasse por dominar as esferas de pensamento e das práticas sociais, incluindo a prática médica. Sendo assim os médicos gregos teriam acesso aos mais diversos tipos de conhecimentos. Outra das grandes causas para o desenvolvimento lógico da medicina grega teria sido a influência mútua entre filosofia e medicina. A filosofia grega teria estimulado a crítica e o avanço de saberes. O individualismo e o pensamento crítico puderam ser desenvolvidos em um nível que nenhuma outra civilização até então teria conhecido (Ackernecht 1982, p. 51). Como um dos pioneiros entre a relação entre medicina e filosofia, o filósofo Empédocles teria chegado à conclusão de que todo o universo seria formado por quatro elementos e cada um desses elementos teria sua própria qualidade: fogo (quente), terra (seco), água (úmido) e ar (frio). De acordo com ele, existiriam muitos tipos de doenças, 9.
(18) mas, de uma maneira geral, todas as doenças ocorreriam devido a três situações: por causa dos elementos; por causa da condição dos corpos e/ou por causas externas. Os elementos causariam as doenças quando o quente e o úmido estivessem em excesso ou quando o quente se tornasse muito fraco (Ariet, 2005, p.118). Relacionados a cada um desses elementos, estariam os quatro humores: sangue, linfa/fleuma, bílis amarela e bílis negra. O médico mais conhecido da antiguidade grega, Hipócrates, em sua teoria, utiliza os pensamentos de Empédocles, para afirmar que a doença seria o estado desregulado das substâncias (humores) no corpo do homem:. O corpo do homem tem dentro dele sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. Eles constituem a natureza desse corpo e por eles surge dor ou saúde. Ocorre a saúde mais perfeita quando esses elementos estão emproporções corretas um para com o outro e em relação à composição, poder e quantidade e quando eles estão perfeitamente misturados. A dor sobrevém quando um desses elementos está em falta ou excesso, ou se isola no corpo sem se compor com todos osoutros (Hipócrates, 1849, p. 406).. Condições externas (como o clima) teriam influência no organismo, principalmente nos humores: o fleuma seria o mais frio dos humores e no inverno aumentaria no corpo do homem por ser o mais de acordo com a estação. Na primavera o sangue aumentaria, devido aos temporais e o homem padeceria com doenças como a disenteria. No verão, a bile amarela, quente e seca, aumentaria; no outono a bile negra, seca e fria, seria a predominante no organismo (Hipócrates, 1849, p. 407). O médico deveria promover a cura agindo da maneira contrária à constituição da doença: “[...] às características físicas, às estações e às idades, e relaxar o que está tenso, retesar o que está relaxado. Pois assim o sofrimento cessaria de fato, e parece-me ser isso a cura” (Hipócrates, 1849, p. 416). Haveria, no corpo humano, uma relação entre os quatro humores, as quatro qualidades e os quatro componentes elementares da matéria: a água seria fria, úmida e linfática; o ar seria úmido, quente e sanguíneo; o fogo seria quente, seco e relacionado com a bílis amarela e a terra seria seca, fria e relacionada com a bílis negra. Cada um dos humores predominaria em uma determinada parte do corpo: a linfa predominaria no cérebro; o sangue no coração; a bílis amarela no fígado e a bílis negra no baço. Embora as pessoas pudessem apresentar humores totalmente equilibrados, o mais natural era que um desses humores predominasse sobre os outros, gerando assim quatro tipos de personalidades básicos:Temperamento Colérico, com predominância da 10.
(19) bílis amarela; Temperamento Sanguíneo, com predomínio do sangue; Temperamento Fleumático, com predomínio da fleuma e o Temperamento Melancólico, com predomínio da bílis negra. A medicina grega era, na época, pautada na base da teoria dos humores e os médicos seriam homens estudiosos capazes de regular as diferenças nas quantidades de cada humor através de suas práticas físicas. Mesmo com a grande contribuição da filosofia e a da prática da medicina, de acordo com Ackerknecht (1982), a medicina da Grécia ainda teria experimentado a medicina de ares mais religiosos ao mesmo tempo em que a prática médica ficava cada vez mais ligada à ciência. A figura do semideus Asclepius, o filho de Apolo, sintetizaria a crença na medicina miraculosa. O respeito ao médico semideus, que era capaz de trazer os mortos de volta à vida, continuava extremamente forte, e ele teria sido reconhecido como um deus com culto difundido na mesma época em que Hipócrates vivia e praticava medicina. De todas as enfermidades estudadas pela medicina nos tempos antigos, as enfermidades mentais seriam as que mais apareceriam na mitologia religiosa. Normalmente as insanidades mentais seriam consequências de um castigo divino, que levaria os seres humanos aos atos mais extremos e condenáveis, tais como assassinatos e canibalismo. O exemplo mais forte da relação entre religiosidade e as doenças mentais, seria a lenda do popular deus do vinho e das folias, Dionísio. O jovem deus – depois de ter sido ele mesmo enlouquecido por sua madrasta e vagado anos pelo mundo mortal – teria o hábito de punir os mortais com a loucura, caso suas exigências de que os reis e as cidades aceitassem seu culto não fossem prontamente atendidas. Quando o rei Proitus recusou a lhe prestar culto, o deus teria enlouquecido as filhas do rei e as mulheres da cidade, até que todas as moças com filhos pequenos acabassem por comer as crianças. O ato do Rei Licurgo de expulsar o deus de sua cidade (ou em outras versões do mito teria cortado uma árvore sagrada do deus) fez com que ele fosse levado à loucura por Dionísio. Neste estado além de tentar violentar a própria mãe, ao pensar que estaria cortando ramos de videira, Licurgo matou o filho, cortando os braços e pernas do rapaz com um machado. De acordo com as variações do mito também teria matado a esposa e teria cortado o próprio pé (Apollodorus, 1997, p.63; Higino, 1856, p. 109). Muitas das vezes a loucura mandada por deuses causaria também atos sexuais escandalosos de diversos tipos, principalmente formas de incesto e bestialismo. Em vários contos, algum deus infeliz com a conduta de algum mortal o incitava a cometer 11.
(20) atos sexuais ilícitos: “Polyphonte desprezou as atividades de Afrodite e foi para as montanhas como companheira e participante de esportes das virgens de Artemis. Afrodite, cujas atividades Polyphonte não honrou, fez a moça se apaixonar por um urso e levou-a à loucura. Por uma vontade bestial, ela foi levada pelo desejo e copulou com o animal” (Antoninus Liberalis, 1568, p. 38-39).. 1.2. A medicina na Idade Média. A medicina racional teria continuado durante a ascensão do Império Romano. Porém com a queda do império Romano Ocidental, a Igreja Católica Romana ganharia força social suficiente para afastar do ocidente a influência do Império Oriental bem como das práticas curativas orientais pautadas nas traduções dos textos dos médicos racionais da antiguidade. Mesmo assim, os médicos dos primeiros anos da idade média ainda baseariam suas consultas na teoria humoral grega:. (...) eles olhavam a cor da pele do paciente, regularmente examinavam o sangue e a urina do doente para tentar diagnosticar o problema. Os doutores geralmente checavam a posição dos planetas e da lua antes de decidir por um tipo de tratamento, uma vez que [o movimento astronômico] era considerado como um dos fatores que influenciariam nos humores (Barber, 2013, p.30).. Prioreschi (2003, p. 132) aponta que as evidências de como a prática médica acontecia no início dos séculos da Idade Média seriam muito escassas. A maior compilação das práticas dessa época estaria contida no livro “History of the Franks”, do Bispo de Tours. Esse livro contaria com a descrição de diversos tratamentos que foram bem sucedidos com o uso de ervas que supostamente seriam dotadas de poderes sobrenaturais. As evidências apontariam que a medicina científica, agora transformada em uma manifestação pagã, nunca teria desaparecido e continuaria a ser usada, tornando-se a base do florescer científico da ciência iniciado em meados do século XVIII. Por volta do século XII, escolas médicas surgiriam por toda a Europa. A ascensão de escolas para os médicos (que antes não contavam com um tipo mais específico de formação) acabou trazendo novamente a questão de uma medicina baseada na razão. A mais famosa dessas universidades teria sido a escola de Salerno, no sul da Itália, supostamente fundada por um cristão, um árabe e um judeu. Salerno teria, surpreendentemente, tido alguma autonomia diante do controle forte da Igreja sobre as escolas médicas. Mas mesmo com a instituição de uma formação para o médico, a 12.
(21) medicina sobrenatural continuaria (re) conquistando cada vez mais adeptos, principalmente com o controle da Igreja, que aceitaria a presença do médico, desde que como um subordinado do Senhor, ou seja, uma pessoa a quem Deus teria fornecido conhecimento e ferramentas para ajudar os seres humanos em seus momentos de moléstias. Sendo assim, a medicina teria sua existância pela vontade de Deus, e Nele, primeiro que tudo deveria pousar a confiança das pessoas. Só depois a confiança poderia ser direcionada ao médico. A doença, por sua vez, continuaria a ser encarada como, quando não uma punição, pelo menos uma vontade da providência Divina. Da mesma maneira que a doença regular, a doença mental (antes vista como uma alienação causada pelas divindades) teria sido assimilada pela tradição católica. Assimilado com a diferenciação de que a alienação mental seria – quando não alguma manifestação de profecia ou sabedoria mandada pela divina providência – uma manifestação do próprio Mal. Sua cura, quando possível,representaria a manifestação da bondade de Deus. Durante a Idade Média os doentes mentais seriam cuidados (cuidados servindo como um eufemismo para negligenciados) em locais familiares ou em lugares em que ficassem próximos aos parentes. Na Inglaterra a família seria a responsável por cuidar do doente. Normalmente o lunático seria mantido preso em casa, amarrado ou em um quarto com barras, caso fosse perigoso. Se a família falhasse de alguma maneira nesse cuidado, a paróquia local assumiria o controle e mandaria o doente para algum lugar de cuidados local. Esses estabelecimentos de cuidados teriam se desenvolvido ao longo dos anos: “Os primeiros asilos para lunáticos especializados foram criados com os favores da Igreja na Espanha, no século XV- em Valência, Zaragoza, Sevilha, Toledo e Barcelona (Os modos islâmicos podem ter influenciado)” (Porter, 2002, p. 90). A política de confinamento para os loucos nos asilos continuou crescente durante os séculos seguintes.. 1.3. O Renascimento e o nascimento da psiquiatria. O fenômeno da Renascença, que começou no fim do século XIV– e atingiu o seu clímax cerca de duzentos anos mais tarde – consistiria em revisitar as influências da antiga cultura clássica da Grécia e de Roma para, de alguma maneira, mudar toda a perspectiva dos homens de pensamento, ou os que procuravam escapar da hegemonia escolástica dogmática, e das supostas limitações tradicionais impostas pela Igreja. 13.
(22) No início, haveria uma demanda para a liberdade de pensamento, um novo padrão de dignidade humana e uma filosofia de vida: o humanismo. Um dos resultados dessa nova perspectiva seria a apreciação do corpo humano e de suas formas. Sendo assim o corpo – que antes foi considerado como um instrumento de pecado que deveria ser escondido, ou como algo tão sagrado que não deve mesmo ser investigado – voltava a ser um instrumento de estudo. O século XVII foi um período de intensa atividade intelectual em todas as artes e ciências. No campo da medicina, o novo momento possibilitou a maior separação entre as áreas médicas. Assim cada disciplina específica da medicina passaria a contar, cada vez mais, com métodos de estudo, sintomatologia e prática diferenciados. O estudo das diversas anormalidades mentais e de comportamento que viria a ser chamado de psiquiatria teria começado a ser exercido como uma disciplina específica da medicina durante o último quarto do século XVIII. A necessidade de uma disciplina especializada para os casos de doença mental surgiria com a fundação do novo tipo de asilo que buscava, além da exclusão social do doente mental, algum tipo de tratamento para as doenças. Durante o fim do século XVIII e início do século XIX – período de transição entre os dois primeiros períodos da psiquiatria – o sistema de confinamento em asilos, que existia desde a Idade Média para os casos de doença mental teria atingido as condições mais caóticas de sua história. Os doentes mentais não estariam sendo curados ou tratados. Os asilos serviriam apenas para armazenar qualquer tipo de indivíduos desviantes em lugares distantes do convívio social.A população, devido à imigração, teria aumentando rapidamente, e os asilos teriam começado a entrar em colapso. Como resultado óbvio do aumento populacional nas grandes cidades, as doenças mentais começariam a se tornar mais frequentes, sobretudo quando conjugadas com outros fatores como:. (...) o aumento do alcoolismo (o século dezenove viu uma drástica redução nos preços das bebidas); o aumento dos casos de neurosífilis e provavelmente do aumento dos casos de esquizofrenia, apesar de que esse último ser um ponto controverso entre os historiadores. Em qualquer um desses eventos, a população dos asilos aumentava (Shorter, 2005, p. 4).. De acordo com o médico psiquiatra Bucknill (1876, 1879), a quantidade de pessoas nos asilos populares e psiquiátricos teria aumentado ano após ano desde 1800. O médico mostra que o Report of the Scotch Lunacy Commissioners and Poor Law 14.
(23) Board de 1861 apontava que, no dia primeiro de janeiro desse ano, a Inglaterra contava com uma população de 5.116 pessoas nos asilos privados e de 19.718 em casas de correção populares. Esse número corresponderia quase ao dobro do levantamento anterior feito pelo mesmo órgão de pesquisa. Já em 1874, em um único asilo popular em uma cidade da Inglaterra, haveria acomodações adequadas para 575 pessoas, mas o número real em tratamento seria de 750. Em Maryland, no mesmo ano, com uma população de insanos estimada pelo governo em 750, o estado teria conseguido alojamento para apenas 250; outros 90 ou 100 doentes estariam espalhados entre casas de trabalho ou prisões. O restante não havia sido monitorado. No ano seguinte, em outro asilo inglês privado, a situação era esta: “Esta instituição foi erguida há quatro anos, a um custo de 200.000libras.E foi projetado para acomodar 434 pacientes, mas, a data da minha visita e sem qualquer aumento de alojamento nas enfermarias, 673 pacientes foram enviados para ela” (Bucknill, 1876, p. 47). As fontes desse mesmo autor ainda relatam muitos outros casos de asilos superlotados com pouco intervalo de tempo entre as publicações dos censos populacionais. Pouco antes do nascimento da psiquiatria como disciplina, uma das maiores ideias surgidas nesse período para as práticas que viriam a ser entendidas como intervenções psiquiátricas pertenciam ao médico francês Philippe Pinel. Suas ideias encontraram larga adesão por serem entendidas como alternativa para amenizar as condições deploráveis nas quais os asilos se encontravam. Em sua concepção, a doença mental decorreria de alguma agitação dos nervos a partir do fluido nervoso. Este fluido seria transmitido para os nervos e ocasionaria a extensão e inflação das fibras. Os nervos, em algumas pessoas, receberiam uma quantidade maior de estímulos, causando perturbações generalizadas. Pinel afirma que:. Os alienados, longe de serem culpados passíveis de punição, são doentes cujo estado penoso merece todas as atenções devidas à humanidade sofredora dos quais se devem buscar pelos meios mais simples restabelecer a razão desencaminhada. Eles podem estar reduzidos a uma perturbação completa de todas as funções intelectuais e obedecer apenas a um impulso cego que os conduz à desordem e a todo tipo de violência (Pinel, 1801, p. 202).. Sua argumentação introduz o tratamento moral para a loucura baseado na crença de que, por meio de atitudes humanitárias, seria possível introduzir mudanças significativas no comportamento dos doentes. Dentro desse contexto, surgiria também a ideia de que as doenças mentais não deveriam ser punidas judicialmente da mesma 15.
(24) maneira que a punição dos criminosos comuns, pois, ao contrário desses últimos, a doença mental seria uma condição que não ofereceria nenhuma alternativa para o sujeito. Pinel passa a acreditar que o asilo deveria ser um lugar onde a terapia moral pudesse ser levada a cabo, e não apenas um lugar para que os loucos ficassem confinados. O asilo deveria contar com a estruturação da rotina do dia a dia, com trabalhos e atividades. Os hospitais psiquiátricos deveriam ser organizados e administrados por uma política rígida sobre o que os pacientes deveriam ser autorizados a fazer, mas, ao mesmo tempo, deveriam inspirar, através de sua equipe de trabalho, uma atitude liberal e compreensiva. Acima de tudo, os asilos deveriam ser grandes o suficiente para permitir a segregação das diferentes categorias de pacientes, organizados pelo tipo de transtorno mental que apresentassem. Pinel adverte contra o uso da camisade força por longos períodos. Tanto a camisa de força quanto a ducha de água fria poderiam ser usadas no tratamento, desde que. ordenadas. apenas. pelo. médico.. Os. espancamentos. seriam. rejeitados. completamente, pois não seriam eficazes como tratamento, nem capazes de educar os insanos. O método das sangrias e o método das imersões bruscas na água também foram abandonados. Por outro lado, ele acreditava que banheiras e chuveiros poderiam ser muito eficazes como métodos de tratamento, casos controlados e administrados com conhecimento médico. O exercício físico ou trabalhos mecânicos deveriam formar o programa básico de cada hospital mental. Por isso, de acordo com Pinel, os membros da nobreza, que geralmente rejeitariam trabalhos dentro de asilos devido ao tipo de vida que levavam em suas casas com seus familiares, seriam especialmente difíceis de curar. As atividades religiosas deveriam ser cuidadosamente restritas, porque, às vezes, poderiam provocar estados perigosos de êxtase. Pinel estava profundamente convencido da absoluta necessidade de uma separação precoce entre o paciente e a família. Famílias não poderiam cuidar da loucura corretamente, e a insistência em ficar com o doente poderia produzir uma ansiedade desnecessária nos envolvidos. O médico, por sua vez, deveria ter uma rotina constante de trabalho nos asilos, bem como uma rotina de estudo sobre as partes essenciais da personalidade dos pacientes, tomando os fatores observados como as bases para o tratamento. Pinel é citado em literaturas de referência como pai da psiquiatria, pelo largo reconhecimento e difusão de suas ideias. A palavra “psiquiatria”, contudo, representa 16.
(25) aidealização concreta de uma disciplina nas faculdades de medicina, e seria introduzida sete anos depois da publicação de Pinel, pelo médico J. C. Reil1. Em um tratado de 118 páginas publicado no ano de 1808, Reil defende a criação de uma disciplina médica especializada nas doenças mentais, que ele chamaria de psiquiatria. Ele argumenta que a psiquiatria seria uma especialidade da medicina muito necessária no cenário da época e que as pessoas que estavam doentes mentalmente não deveriam ser tratadas por especialistas de outras disciplinas, porque seus distúrbios, bem como os respectivos tratamentos, não seriam os mesmos que os das outras doenças. Os médicos mais aptos dentre todos seriam os psiquiatras, depois de completar a formação específica em psiquiatria. O psiquiatra e discípulo de Pinel, Esquirol (1838) continua baseando a causa das loucuras como distúrbios das funções intelectuais e racionais. Porém sua classificação apresentava alguns tipos de loucura: lipemania, demência (dividida em imbecilidade e idiotia) e a monomania. O tipo de classificação de Esquirol destacava muito a sintomatologia das doenças, pois cada um dos desvios intelectuais (loucuras) seria combinado com demonstrações um tipo de paixão (tristeza, exaltação, depressão, fixação em determinados objetos) muito específico para cada loucura. Sua teoria ganhou ampla adesão dos seus contemporâneos. Quanto às práticas psiquiátricas, Esquirol (1838, p.12) também avança a teoria de Pinel sobre o tratamento moral e lança algumas outras recomendações para o tratamento psiquiátrico da loucura. Para construir os asilos, ele acredita, deveriam ser escolhidas as regiões com os lugares de clima ameno, devido à facilidade de contrair irritações na pele que os insanos teriam. Os quartos deveriam ser arejados, protegidos de umidade, ensolarados, mas não muito quentes. Seria um absurdo que alguns médicos considerassem que os alienados mentais fossem indiferentes às mudanças climáticas e continuassem os confinando em locais apertados e abafados em que fizesse muito frio ou um calor insuportável. Exercícios físicos e moderados, principalmente em situações de contato com a natureza seriam altamente recomendados. Para estabelecer a base de cada tratamento mental, primeiramente o psiquiatra deveria procurar investigar tudo o que pudesseprincipalmente os fatos gerais e individuais sobre o sujeito em questão e sobre sua patologia.. 1. Johann Christian Reil (1759-1813), professor de terapia na Universidade de Halle, na Alemanha central (hoje Universidade Martin Luther de Halle-Wittenberg). 17.
(26) Em 1857, o psiquiatra Benedict A. Morel 2 baseou sua classificação na etiologia das doenças, visando substituir a classificação sintomática de Esquirol. Para ele, os loucos seriam fruto de um desvio mórbido da maneira normal da humanindade. A degeneração poderia ser um resultado tanto de uma herança mórbida física quanto mental (Morel, 1857). Morel (1857, p. 45-48) aponta diferentes causas para a degenerescência (degeneração) que incluem o abuso de substâncias etílicas, alimentação deficiente, viver em meio social miserável, imoralidade dos costumes, vida sexual desregrada, doenças da infância. A origem das degenerações, para Morel, estaria no fato de que desde os tempos primitivos o homem preciso alutar incessantemente para harmonizar sua vida física e mental com as condições do mundo externo, essa luta seria constante até os dias atuais. Sendo assim, uma linhagem acometida pela degeneração tenderia a acentuar seus desvios de geração em geração. O extremo dessa acentuaçãoacarretaria na sua esterilidade e extinção, permitindo assim que a natureza também se livrasse do menos apto. A teoria de Morel também contou com larga adesão entre seus contemporâneos, com alguns psiquiatras de expressão chegando a dizer que a classificação de Morel conseguia cobrir todas as doenças mentais até então conhecidas. Por se proclamar etiológica e conter traços evolucionistas, a teoria da degenerescência conseguiu conferir à psiquiatria um referencial teórico muito sólido. As muitas teorias surgidas acabaram por contribuir na estabilização da disciplina da psiquiatria. A ideia dos asilos como parte de uma política de confinamento que visasse o bem estar e o tratamento dos doentes mentais atrairia atenção dos responsáveis pelos insanos de famílias de aristocratas. Os aristocratas doentes seriam confinados em sanatórios privados. Esses sanatórios particulares ficariam conhecidos por eufemismos como casas de hidroterapia e institutos para doenças nervosas. Com a necessidade de mais asilos, a institucionalização começaria a alcançar todas as parcelas sociais e, por conseguinte, a psiquiatria incluiria em seus objetos de estudo muitos outros comportamentos entendidos como socialmente desviantes.. 1.4. A medicina legal. 2. Benedict Auguste Morel (1809-1873 )psiquiatra francês. 18.
(27) Dentro da medicina, principalmente entre os médicos psiquiatras, surgiria um subgrupo científico que receberia o nome de medicina legal. Esse subgrupo poderia ser definido, dentro da medicina, como a ciência que aplica os princípios e práticas dos ramos da medicina para a elucidação de processos judiciais.Questões relacionadas como a causa ou a hora da morte, concepção e nascimento, causas ou efeitos devido a doenças ou injúrias mentais ou físicas que afetam o status legal dos indivíduos. (Hamilton, 1984, p. 17). Smith (1954) acredita que seria impossível dizer especificamente em qual ponto da história da medicina a medicina legal teria surgido com uma disciplina específica, mas as primeiras evidências de que a medicina e a legislação estariam intimamente ligadas poderiam ser encontradas nas civilizações antigas. O primeiro homem a combinar medicina e leis teria sido Imhotep (aproximadamente 3000 a.C.) o médico, vidente e grão-vizir da corte do rei egípcio Djoser. Infelizmente os conhecimentos de Imhotep o teriam levado a ser adorado como uma divindade e seus tratamentos passariam a receber status de magias e rituais tradicionais. Outras pistas da relação entre a ciência médica e o âmbito jurídico poderiam ser encontradas nos códigos de ética das civilizações da antiguidade. Dentre todas essas compilações de doutrinas, o Código Justiniano, (Roma entre 529 e 564 d.C) representaria o ponto mais alto de evidências para a definição de algo que poderia ser relacionado à medicina forense. O código romano incluiria em suas disposições um preceito que indicava que um médico especialista não seria vantajoso se fosse para ser simplesmente considerado como uma testemunha comum para um lado ou para outro lado. A função de um médico para os tribunais seria ajudar o judiciário, emitindo uma interpretação imparcial com base em seu conhecimento especializado (Smith, 1954, p. 601). Durante a ascensão e declínio do império Romano a medicina legal teria ficado relegada à esfera secundária sem conhecer nenhum avanço. Somente na Alemanha durante o século XVI, o imperador Charles V publicaria o Código Caroline que afirmaria claramente em suas seções pertinentes que o testemunho do médico especialista deveria ser obtido para a orientação dos juízes em casos de assassinatos, ferimentos, envenenamentos, enforcamentos, afogamentos, infanticídios e em outras circunstâncias que envolvessem lesão à pessoa.. 19.
(28) Em 1621, o médico italiano Paollo Zacchia3 publica a obra Quaestiones MedicoLegales. Por essa publicação, o médico ficaria conhecido como o “pai da medicina legal”. A obra é divida em cinco livros, e trata-se de uma ampla gama de tópicos: a relevância dos vários estágios da vida, gravidez, parto e pós-parto, a morte do bebê, frigidez, virgindade, impotência e bissexualidade, feridas e simulação de doenças, monstros, prodígios e milagres, os diferentes transtornos psicopatológicos, epilepsia, convulsões, sonambulismo. Na mesma obra enfatiza sistematicamente que os médicos deveriam participar dos tribunais, principalmente nos casos em que os movimentos da mente, como a paixão erótica ou raiva, estivessem em questão. Zacchia(1726, p. 116) acreditava que Intellectus in ira sui juris non est, ou seja, o indivíduo, sobre a influência verdadeira da raiva, deveria ser justificado, pois as fortes emoções deveriam ser consideradas um fator atenuante em casos criminais. Somente um médico poderia dizer se essa raiva era legítima a ponto de tornar uma condenação injusta. Em outro momento do texto ele utiliza de uma alegoria para avisar aos advogados sobre os julgamentos precipitados sobre a saúde mental de uma pessoa: um desconhecido iria visitar o hospital de Santa Maria della Pietà, interessado em pacientes que sofressem de loucura. Ele seria recebido por uma pessoa aparentemente equilibrada, que teria sido seu guia durante a visita pela estrutura. Diante da visão de um paciente com uma atitude triste e pensativa, o visitante teria questionado ao seu cicerone sobre qual a doença que aquele paciente sofreria. O guia responderia que aquele era um louco convencido de que era o Espírito Santo, mas que crença seria falsa porque o Espírito Santo era ele mesmo, o guia de improviso, evidentemente, também um paciente internado que passara despercebido pelo visitante leigo. Entre o século XVIII e o século XIX, a medicina legal corresponderia a uma prática em expansão, principalmente pela influência da publicação do livro L‟uomo delinqüente studiato in rapport o, all‟antropologia, Allá medicina legale e alle discipline carcerarie de Cesare Lombroso, que marcou a ascensão de mais uma ramificação no saber médico-legal: a antropologia criminal. Lombroso primeiramente desejava fixar as diferenças que poderiam existir entre o louco e o delinquente através da investigação de cadáveres de seres humanos de prisões e asilos de anciãos na cidade de Pavia. Lombroso (1876, p. 655) acreditava que seu trabalho estava sendo desperdiçado até que em um dia de dezembro de 1870, estudou o crânio de um bandido 3. Paollo Zacchia (1584-1659), médico e conselheiro jurídico italiano. 20.
(29) que continha anomalias atávicas, entre as quais sobressaíam uma grande fosseta média e uma hipertrofia do cerebelo em sua região central. Essas anomalias são as que encontramos nos vertebrados inferiores. A partir desse fato, intensificou seus estudos até postular que as causas da criminalidade seriam individuais e deveriam ser procuradas nos próprios humanos. Assim, existiriam seis tipos de criminosos: o nato(atávico), o louco moral (doente), o epilético, o louco, o ocasional e o passional. Por causa das profundas diferenças entre esses tipos de criminosos, a pena não poderia ser a mesma para todos. Com as teorias médicas surgidas sobre as causas e formas da criminalidade, os tribunais passaram a ter a preocupação cada vez mais presente de quais criminosos mereciam ser realmente penalizados por seus crimes. Durante o século XIX a exigência para a presença de um médico habilitado, que pudesse responder da maneira mais objetiva e profissional possível tais perguntas, aumentou em relação aos séculos passados, fazendo da medicina legal uma área da especialidade que demandaria dos médicos conhecimentos e profundidade sobre os estudos das diversas insanidades. Hamilton (1894) fornece uma descrição de como os conhecimentos médicos seriam usados na corte durante o século XIX: a classe mais importante de casos para os quais médicos seriam chamados em juízo seriam os casos de suspeição de insanidade. A jurisprudência do século XIX definiria que as questões que envolvessem a determinação da insanidade do réu deveriam ser decididas pelo juiz e acatadas pelo júri na hora de proferir a sentença. Para que o juiz e júri fossem capazes de tomar a melhor decisão possível, um especialista médico seria chamado para instruir e explicar para a corte como funcionavam as questões teóricas e práticas da ciência médica sobre a insanidade. O especialista não poderia, contudo, fazer inferências ou afirmações sobre a culpa, a participação e a condição mental do réu no momento do crime. Regularmente o especialista seria inquirido de uma maneira própria por cada advogado, mas, muitas das vezes (como acontecia na corte inglesa) as perguntas, caso fossem muito diretivas do tipo O senhor acha que o réu na hora do fato estava em estado de insanidade mental?. seriam proibidas pelo juiz. O especialista deveria. responder a perguntas que exigissem apenas seus conhecimentos médicos e que fossem gerais, tais como:. 1. Nesses casos, certas peculiaridades - [aqui o conselho detalhou as principais peculiaridades provadas no caso do prisioneiro] - são, em sua opinião, inconsistentes 21.
(30) com uma pessoa capaz de realizar um bom juízo?; 2. Essas peculiaridades são um indicativo de insanidade?; 3. Se o senhor fosse informado de que tais peculiaridades foram especialmente desenvolvidas depois de um acidente [aqui conselho detalhou qual acidente sofrido pelo prisioneiro que havia sido provado] – seriam estas circunstâncias um indicativo a mais, em sua opinião, para fazer com que expressasse que essas peculiaridades indicam debilidade mental? (Tidy, 1882, p. 10).. As definições de quais noções, perguntas e testes seriam feitos, a fim de que o júri acatasse a defesa de insanidade seriam impostas pela própria corte, pois no processo penal em que o acusado usa como defesa a loucura, os tribunais triam estabelecido certas regras de direito, como, por exemplo, qual grau de obliquidade mental ou moral seria suficiente para proteger um homem de punição e para fazê-lo, no sentido legal, irresponsável. Os muitos casos em que a defesa de insanidade seria usada abrangeriam, em sua maioria,crimes sexuais e de honra. Dessa maneira, a medicina, em seu aspecto legal, constituiria o centro da ascensão da psiquiatria da perversão sexual. O médico psiquiatra deveria ter parâmetros de estudo e conhecimento bem definidos para deixar claro para os juízes e, quando necessário, para os jurados, que aqueles comportamentos sexuais bizarros seriam realmente frutos de enfermidades, para tanto, os psiquiatras começariam a estudar novas manifestações de insanidades sexuais e catalogar os resultados para cooperar com seus colegas.. 1.5. A sexualidade: objeto de estudo da psiquiatria. Também no século XIX, a psiquiatria teria despertado interesse pelos estudos dos comportamentos sexuais anormais a fim de demonstrar que essas singularidades dos comportamentos da sexualidade poderiam corresponder às ocorrências de doenças mentais. Lanteri-Laura (1994) escreve que a Igreja sempre aparecia como o grande entrave para a expansão da dominação da classe social burguesa. Uma vez que a Igreja mantinha a posição de marginalizar qualquer tipo de comportamento sexual que escapasse à finalidade da reprodução, só restaria à burguesia, em uma manobra principalmente política, contrariar a moral cristã oferecendo uma grande tolerância para os mais variados tipos de comportamentos sexuais. A nova ideologia burguesa enxergaria as anomalias apenas como variedades do gosto pessoal ou consequências bastante desculpáveis das proibições abusivas. Sendo assim, assumir-se-ia que esse 22.
Outline
Documentos relacionados
Os totais obtidos da quantificação da chuva média em área pelo radar meteorológico de Bauru, utilizando as três equações Z-R citadas para cada período decendial nas áreas de Assis
Foram estudadas 17 variáveis referentes ao ADE do Módulo II (existência de protocolos para acolhimento à demanda espontânea/urgência, conteúdo dos protocolos;
Sem nunca perder de vista as dificuldades his- tóricas salientadas por Scruton, Zakaria responde à questão através da apologia do liberalismo constitucional (não confundir com
Já é uma realidade que estas mensagens estão cada vez mais presentes, seja pela sua forma persuasiva, pela maneira original ou mesmo como uma estratégia de marketing
Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (FREUD, 1905/1974), o autor nos informa que decidiu lançar mão do termo masoquismo, assim sugerido pelo psiquiatra Krafft-Ebing,
Para Krafft-Ebing (1894), as neuroses sexuais parestésicas corresponderiam às psicopatias do instinto sexual, às neurastenias sexuais ou às perversões do instinto sexual.
Seu comportamento, em geral, é resultante de interação com o meio educativo, que representa todas as condições que afetam a conduta, quer seja um evento físico, químico,
Bureau 1600 x 800 avec retour 1000 x 510, extension de réunion Ø 1100, voile de fond en métal, plateau en mélamine chêne et structure métallique laquée.. 1 x bloc de 4 tiroirs