CAPÍTULO 2 – NAS BRINCADEIRAS DAS CRIANÇAS A HUMANIDADE SE
2.2 O amplo sentido do termo brincadeiras tradicionais
A prática das brincadeiras tradicionais da infância, durante os intervalos de recreio das escolas brasileiras, poderá ser amplamente notada por qualquer visitante que dedique um pouco de seu tempo à observação do cotidiano destas instituições. Basta ao visitante recordar de seu tempo de escolarização para que logo alguma parlenda28 ou brincadeira de roda lhe surja à lembrança. É um fato conhecido o costume que as crianças têm de perpetuar brincadeiras tradicionais, aquelas cuja estrutura é tão contagiante que percorre gerações via transmissão oral e atravessa séculos sem perder seu encanto. São expressões culturais da infância que encontram no dia a dia da escola um terreno fértil para sua transmissão e renovação, sejam elas inicialmente trazidas pelas crianças, ou propostas como atividade pelos profissionais da escola.
Se percorrêssemos o território nacional perguntando aos nossos conterrâneos se conhecem as brincadeiras típicas da primeira infância como, por exemplo, Ciranda cirandinha, A canoa virou e Pirulito que bate-bate; ou as parlendas: Um, dois, feijão com arroz e Hoje é domingo, pede cachimbo, certamente as respostas seriam positivas e repletas de descrições interessantes.
Seria difícil encontrar alguém que não tenha dito algum dia Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão. Também seriam familiares as brincadeiras das crianças maiores, que estão nos primeiros anos do ensino fundamental, como os Jogos de mãos, o Pula-corda cantado, os Pega-pegas, o Bater figurinhas e a Bolinha de gude.
Por mais difícil que seja localizar a origem destas brincadeiras e mapear a sua distribuição, podemos concordar de imediato que elas nos são muito familiares e que há alguns séculos acompanham o desenvolvimento de nossas crianças. Podemos dizer que, de um modo geral, elas fazem parte da nossa cultura.
28 Parlendas são manifestações lúdicas, expressões da linguagem que se caracterizam pela valorização rítmica dos versos que as compõem. Elas podem ser divididas em inúmeras modalidades como os travalínguas, as quadrinhas, os brincos, as mnemonias, os provérbios, os verbetes, as piadas, as latrinárias e os ditados (MELO, 1979). Heylen (1987, p. 33) comenta que em contato com a parlenda “a criança pequena se inicia no conhecimento da língua materna e dá os primeiros passos básicos para a comunicação verbal”.
As brincadeiras tradicionais podem ser entendidas como bens culturais que compõem o patrimônio cultural da humanidade, pois mesmo diante de fortes aspectos regionais e contemporâneos que as constituem, mantêm certa universalidade, sendo transmitidas principalmente pela oralidade e adquirindo com o tempo sua marca de anonimato (KISHIMOTO, 1993).
Esta pesquisa demonstra especial interesse pelo termo brincadeira tradicional. Apesar deste estudo não ser específico sobre as brincadeiras tradicionais, ele se utiliza de referências importantes obtidas na análise delas.
Isso porque, nelas, é singular a forma como se torna possível assinalar as influências sociodinâmicas29 do brincar. As brincadeiras tradicionais são construídas e transmitidas em um processo sociodinâmico, através do esforço contínuo de crianças e adultos pertencentes a diferentes gerações. Para que existam não é preciso, necessariamente, que haja um programa, um projeto ou uma intervenção pedagógica. Elas fazem parte da cultura popular e “preenchem uma função social” como definiu Florestan Fernandes (2004), ou “preenchem a dinâmica da vida social”, conforme escreveu Kishimoto (1993). É este o ponto que mais interessa nesta pesquisa: o brincar diante das influências socializadoras30 da brincadeira. Por isso, destacou-se aqui o universo das brincadeiras tradicionais e tornou-se necessário definir melhor o termo.
Florestan Fernandes (2004) se refere às brincadeiras tradicionais utilizando, com freqüência, a expressão folguedo folclórico infantil, enquanto que Kishimoto (1993) adota jogo tradicional infantil. Educadores, de um modo geral, utilizam o termo brincadeira mas, devido ao recente acesso a inúmeros materiais pedagógicos e CD’s que compilam estas brincadeiras, eles fazem uso também do termo brinquedo, este referindo-se não apenas ao objeto físico, mas às brincadeiras em si, como é o caso dos brinquedos cantados.
Em função de questões intrínsecas ao processo de tradução dos textos e conceitos, na obra de Vygotsky (1991), em língua portuguesa, o termo brinquedo aparece de modo mais genérico, como uma forma de atividade humana que se distingue das demais, do trabalho, por exemplo. Fruto também das opções dos
29 Termo utilizado por Florestan Fernandes (2004).
30 Termo utilizado por Florestan Fernandes (2004).
tradutores, os termos utilizados revelam um esforço de representação daquilo que repousa sobre os conceitos dos autores.
É possível, entretanto, estabelecer três importantes traços inerentes à atividade lúdica infantil. Esses traços podem ser entendidos como formas de organização do brincar e eles apresentam diferenças que podem ser visualizadas a partir das definições dos termos jogo, brincadeira e brinquedo. Para Brougère (2006), brinquedo é o suporte para a brincadeira, o que sugere a materialidade do objeto com o qual a criança brinca. Uma boneca, um carrinho, uma bola ou um galho de árvore podem ser suporte para uma brincadeira. O brinquedo também carrega em si uma gama de significações sociais que conduzem a atividade para determinados rumos. O termo jogo pode ser entendido como aquela atividade que segue uma estrutura de regras mais definidas, uma sequência mais ou menos rígida de etapas, uma lógica que se repete. A Amarelinha, o Caçador31, a Cabra-Cega, a Roda cutia e a Dança das cadeiras são atividades que delineiam o formato da ação lúdica. Vê-se, aí, que o jogo também é um suporte para a brincadeira, uma vez que sua estrutura guia a atividade, mesmo que não ofereça a materialidade de um brinquedo.
Mas e o termo brincadeira, então, a que se refere? A brincadeira é aqui entendida como a atividade lúdica em si, a ação abrangente que pode encontrar no jogo, ou no brinquedo, um suporte para se desenvolver. Mas a brincadeira pode ir além do suporte, convertendo-se numa experiência que embrenha-se no imaginário, no improviso, no não definível, na arte. Assim, ao encontrar uma bola (o brinquedo), um grupo de crianças poderá praticar o Caçador (o jogo), mas a brincadeira (a ação lúdica) permitirá que tanto o brinquedo, quanto o jogo sejam remodelados de modo que, se as crianças quiserem, poderão alterar os rumos da atividade e ajustar as condições lúdicas aos seus mais íntimos interesses. A bola poderá ser uma bomba e o jogo, um campo de batalha em cujo espaço começam a brotar elementos dramáticos frutos da mais indefinível improvisação criativa.
A atividade lúdica colocada em foco aqui é, sim, aquela que mantém relações com o que se pode definir como atividade tradicional ou folclórica, porém
31O Caçador é uma brincadeira esportiva, de quadra, que resulta de uma competição na qual duas equipes se enfrentam. Uma linha divide as equipes. Os participantes arremessam uma bola que, ao acertar o adversário do outro lado da quadra, provoca a sua exclusão. Ganha quem excluir primeiro todos os adversários. A brincadeira recebe outros nomes, como Queimada, ou Baleada, dependendo da região do país.
ela não é a única modalidade que permite assinalar o objeto que se quer tratar.
Como o que está em questão neste estudo não é a natureza dos jogos, ou dos folguedos, ou dos brinquedos, mas os caracteres do brincar, é na ação das crianças enquanto brincam que repousa a preocupação da investigação. E essa ação será aqui nomeada apenas como brincadeira.
Não há como brincar sem estar diante de uma brincadeira mais ou menos estruturada. Mesmo que esta brincadeira surja da mais imediata e imprevista motivação, como transformar-se em Homem aranha durante o almoço e comer muito para ficar forte, ainda assim, rapidamente serão definidas as condições da brincadeira, suas sequências. Mas o brincar não depende de uma brincadeira que se configure em forma de folguedo folclórico ou de jogo tradicional. Esses dois termos adquirem, assim, um sentido mais restrito, pois se referem às atividades com uma estruturação previamente considerada, que se pode enunciar com certa facilidade mesmo antes do início da brincadeira. Nesse caso, o enunciado será o mesmo, ou ao menos parecido, nas mais diversas circunstâncias em que a brincadeira pode ser encontrada, pois quem brinca de Escravos de Jó, no sul ou no nordeste do Brasil, ontem ou há cinqüenta anos, segue basicamente as mesmas regras32. Esse aspecto ajuda a caracterizar os elementos de uma tradição lúdica própria das culturas infantis.
Dessa forma, o termo brincadeira caracteriza-se por ser mais abrangente, sendo toda a atividade que se realiza enquanto se pode brincar. Já os termos jogo tradicional e folguedo folclórico condicionam à sua definição uma estrutura mais definida de regras, um suporte para brincar centrado em uma seqüência básica e uma idéia de perpetuação e transmissão ao longo de um determinado tempo. O termo brincadeira, neste sentido, passa a incluir tudo aquilo que é inventado enquanto se brinca. Cabe, neste termo, tanto o que se faz durante a execução dos jogos ou folguedos tradicionais, que aqui serão todos tratados apenas como brincadeiras tradicionais, quanto o que se faz diante dos objetos que se pode chamar de brinquedos, e também o que se pode fazer nas atividades
32 Tive a oportunidade de comparar a forma de execução desta brincadeira em diversos contextos brasileiros, encontrando sempre peculiaridades locais, variações rítmicas e melódicas, diferenças nos textos e nas coreografias, como no caso da comparação entre a forma brincada em Campo Largo – PR e Urucuia – MG. Neste caso, mesmo diante das variações, a idéia central da brincadeira permanece a mesma.
de faz de conta, como brincar de casinha, de mãe e filho, de carrinho, ou ainda, de qualquer coisa que se queira.
Este estudo dirige-se, então, à constituição das brincadeiras, e essa constituição é entendida como fruto da ação das crianças diante das motivações pessoais e das situações sociais que lhes envolvem. Não é o repertório de brincadeiras tradicionais, nem de jogos modernos que interessa a este debate. O centro de interesse repousa na imagem das crianças brincando na escola durante o recreio. Se no recreio coexistem modalidades distintas de brincadeiras, se há nele um repertório farto de brincadeiras a identificar e se nele confrontam-se tendências, preferências, isso tudo pode ajudar a ilustrar a discussão. Mas é na interação coletiva e nas formas de parir as brincadeiras que assenta o olhar do pesquisador.