5 AS REAPROPRIAÇÕES NA FORMATAÇÃO DA INTERFACE DE REDE ANÔNIMA
5.5 O ANONIMATO COMO EXPRESSÃO SUBVERSIVA DA IDENTIDADES
A relação que existe entre o posicionamento de uma identidade, e o anonimato fazem parte de um conflito histórico na formação da humanidade como a consideramos hoje, a liberdade de expressão, o protesto, a individualidade e a moral são vetores que propiciavam ou delimitavam a demonstração pervasiva de um desejo, uma vontade ou uma ideologia.
O anonimato como também o pseudonimato podem ser considerados diferentes graus de manter a relação de propriedade entre uma mensagem e o seu autor (PALME e BERGLUND, 2012). Antes da imprensa, a história oral não mantinha nenhum copyright, as histórias eram passadas na maioria das vezes sem nenhuma preocupação com a autoria (STRYKER, 2012, p.19). Autores de obras célebres inicialmente utilizaram algum grau de anonimato ou do pseudônimo, seja por timidez ou “modéstia” como fora com Lewis Carroll, apelido de Charles Lutwidge Dogdson, autor de Alice no País das Maravilhas; ou para burlar discriminações da época como era muito comum com obras produzidas por mulheres (Stryker, 2012).
forma de anonimato, segundo Cole Stryker, em 1539 na Inglaterra surgiu a primeira lei que obrigava todos os livros a serem aprovados por uma nomeação real, em 1546 as cópias impressas deveriam conter o nome do autor e a da de impressão de cada livro. Em 1663, Jonh Twyn foi esquartejado por imprimir em sua fábrica de impressão um panfleto chamado A
Treatise of the Execution of Justice onde era escrito que os monarcas deveriam ser
responsáveis pelos seus próprios atos. Durante toda a história as variações do anonimato sempre estiveram envolvidas em questões regimentais da sociedade em questão, direitos de minorias e protestos onde o foco na identidade era por demais perigoso para o sujeito civil ou tirava o foco do conteúdo produzido.
Muitas vezes e identidade era preservada em favor do trote, da arruaça e da sátira como era com “As Viagens de Gulliver” e com a obra de Alexander Pope, Um Ensaio Sobre o Homem, publicado anonimamente e bastante elogiada por um rival de Pope, Leonard Welsted. (Stryker, 2012, p.24).
Em diversas culturas existe as chamadas Sociedades Anônimas e o segredo de confissão como formas de preservar e não violar a privacidade e o direito individual, por outro lado, em muitos países é vedado o anonimato conforme comentamos em outro momento. Na internet o anonimato “é fixado nos protocolos que servem de base para a rede. Informação viaja em pacotes e quando ela chega do outro lado, não necessariamente diz de onde veio” (Stryker, 2012, p.27).
A segurança do direito ao anonimato nunca é plena no ambiente virtual, o número de protocolo (IP) pode ser rastreado a um local num determinado momento ou requisitado pelo servidor que hospeda os dados.
O pseudônimo na rede virtual apresenta-se como um híbrido entre a identidade e o anonimato completo. O pseudônimo pode ser “mais valioso para se proteger”(Stryker, 2012,
p.169), pois enquanto a rede possui controle a seus dados reais, ela não te associa a um pseudônimo e, a partir do momento em que o segredo do apelido for revelado é possível desenrolar uma teia de anos de dados e opiniões postadas por trás de um determinado apelido.
No 4chan 90% dos dados são postados anonimamente (BERNSTEIN et al, 2011), o restante são feitos a partir de procedimentos como tripcodes e timestamps, enquanto isto a maioria das redes sociais no ambiente digital hoje, como o facebook, twitter e google+, forçam a noção de identidade persistente sobre o usuário, tornando o espaço entre a identidade real e a chance de alguma “panfletagem” virtual mais delimitada e polarizada.
O servidor anônimo mais antigo criado foi o Anon.penet.fri criado por Johan Helsingius em 1992 na Finlândia (PALME e BERGLUND, 2012) e no seu auge teve 500 mil usuários e 10 mil mensagens trocadas por dia, muitos alegavam que era um meio de comunicação entre pedófilos e uma ferramenta para vazar arquivos secretos da infame Igreja da Cientologia. Helsingius manteve o servidor funcionando até 1996 com o intuito de demonstrar que “sempre há uma solução tecnológica para suplantar a censura” (Stryker, 2012, p. 28, ), ou de acordo com Stewart Brand: a Informação não quer apenas ser livre, ela pertence a liberdade” (apud Stryker, 2012, p. 77).
O 4chan foi fundado tal qual como todos os outros sites “chan” criados primeiramente no Japão, baseado no anonimato e no compartilhamento de informações e imagens, o primeiro “meme” de imageboard, foi criado no Ayashii World, o Giko-neko, um gato postado em liguagem ASCII com um balão dizendo “vai se 'fuder'”:
Ilustração 15: Giko Neko Fonte: arquivo pessoal
Apesar do fundamento anônimo, o 4chan se comporta anonimamente apenas na interface, na interação do usuário com o site, os dados de IP ficam no banco de dados do servidor antes de serem apagados como todo conteúdo que lá é postado. Desta forma o usuário ainda pode ser localizado se for feito o pedido para o provedor do 4chan, ou se pistas locativas forem fornecidas (ex: os dados geolocativos contidos em arquivos de determinadas câmeras fotográficas digitais). O anonimato no 4chan funciona quando estamos falando sobre apropriação de sentido e “de se falar o que se pensa sem consequências, fora isso ele é passível de controle técnico, esta dificuldade de lidar com o anonimato torna difícil compreender estes ambientes:
No entanto, para as pessoas que não querem ser reconhecidas, que não querem ser encurraladas em grupos demográficos, e não querem a hierarquia do prestígio, outros espaços persistem. Estes são os tipos de espaços que foram os progenitores de redes sociais: grupos de discussão, salas de chat, fóruns on-line e canais de Internet Relay Chat. Eles oferecem uma falta de responsabilidade por aquilo que se diz, uma maneira de esconder fatos desagradáveis sobre si mesmo, e uma escotilha de escape imediato se as coisas se tornem muito desagradáveis. Eles oferecem anonimato. (Auerbach, 2012b, tradução nossa)
Na A-Culture, descrita por David Auerbach, ele faz oposição ao conceito de Estigma de Erwing Goffman, afirmando que ao contrário da noção de Stigma, o anonimato da A-Culture (da qual pertence o 4chan), só pode ser associado através do meio ao usuário num certo nível, depois disso não existe maneira de diferenciar o conteúdo postado, criando um estigma coletivo.
A anonimato favorece três economias no 4chan segundo Auerbach, a economia da ofensa, da suspeição e da irrealidade, estes três fatores caracterizariam o comportamento coletivo do anônimo no 4chan em detrimento da minimização do indivíduo (Auerbach apud Manivannan p.4). Tudo pode ser reapropriado ofensivamente, tornando o conhecimento sobre as normas e percepções do funcionamento do site necessário para não ser vítima da ofensa
infligida; todo conteúdo deve ser percebido com um elevado grau de desconfiança pois a reapropriação de sentido pode ter criado um conteúdo falso ou mentiroso para enganar o leitor; e por fim o faz de conta, a realidade paralela de fantasia e fan fiction que impera nos significados do site.
Semelhantes ao 4chan, a internet ainda propicia a formatação de outros perfis de culturações anônimas, como o TOR, the onion route, um software conectado ao conceito de
Deep Web, a internet que tal qual o 4chan leva o conceito de não documentação da rede a um
outro grau. Sendo o 4chan considerado o portão da internet do senso comum e da deep web. Podemos observar nele traços característicos de comportamentos anônimos e indexados na chamada deep web através do TOR (The Onion Route), onde transações ilícitas podem ser feitas, distribuição de material proibido e tudo que seja costumeiramente ilegal é acessível a quem tenha o conhecimento técnico e acesso à rede do TOR. Além dele temos o pastebin “A ferramenta n°1 de arquivamento desde 2002” onde qualquer um pode “upar” um conteúdo qualquer que seja e disponibilizá-lo anonimamente a quem quer que queira baixá-lo, lidando com muitas barreiras e questões acerca da pirataria através do braço anônimo. E por fim temos as moedas de transação virtual, como o BitCoin, que cria uma espécie de dinheiro virtual e permite que negociações sejam feitas pela rede sem o mínimo de contato identitário e individual pela rede, tudo através de cálculos e algoritmos resultantes de trabalhos como os dos já citados cypherpunks.