5 AS REAPROPRIAÇÕES NA FORMATAÇÃO DA INTERFACE DE REDE ANÔNIMA
5.1 A SUBVERSÃO NO PROCESSO DA INFORMAÇÃO
A subversão de sentido é uma noção sobrecarregada de redundância, visto que a noção de sentido de acordo com Santaella (1998) é tratada com um grau de instabilidade e de transição, que torna o sentido em nosso viés, sempre subversão, “o signo representa o objeto, por isso mesmo é signo; o signo só pode representar o objeto parcialmente e pode até mesmo representá-lo falsamente, isto é, produzir nele algum tipo de efeito” (SANTAELLA, 1998, p.
39) Ou seja, independente de como decorre a relação entre o signo e o objeto, sempre haverá a produção de algum efeito (sentido, mesmo que a princípio esta produção possa ou não ter de fato um sentido para um terceiro, um referente) e, por isso associamos aqui esta relação paradoxal a um processo de subversão.
Etimologicamente, o verbo subverter deriva do latim sub (debaixo) + vertere (inverter, dar voltas), tem entre suas traduções, o significado quebrar as regras e esta quebra de regras no campo da informação é possível devido ao habitual desencaixe entre signo e objeto, é uma quebra numa relação dialética mediada por um terceiro elemento. Não haveria subversão se não existisse, se não houvesse uma correlação de sentidos e coisas.
Desta forma aproximamos a subversão à dinâmica da percepção, “na junção entre o resultado perceptivo e aquilo que o provoca, há uma diferença, há um descompasso, ou melhor, algo se perde e algo se acrescenta” (SANTAELLA, 1998, p. 22). Entrando alguma coisa no lugar de outra, ocorre a percepção de um signo, e também a subversão entre o signo e o objeto.
Se há sempre uma disparidade entre signo e objeto, se há entre ambos uma diversidade irredutível, se o signo é uma coisa e o objeto outra, isso significa que podemos ter vias de acesso ao objeto além do acesso que um determinado signo propicia. Às vias de acesso que não dependem daquele signo específico, Peirce chama de experiência colateral, o que, de resto, note-se bem, não quer dizer, de modo algum, acesso imediato, sem a mediação de algum tipo de signo, quer esse signo seja genuíno ou degenerado. Com a experiência colateral, Peirce quer dizer que há garantias de outros tipos de acesso ao objeto que não se reduzem àquele que é dado por um único signo” (SANTAELLA, 1998, p. 47)
No 4chan, por meio da interface anônima, evidencia-se a relação híbrida entre signo e objeto, facilitando a reapropriação de objetos ou de signos produzido e conectados por símbolos e mídias diversificadas, o conteúdo postado é reconfigurado pelas demais relações de código e interações dos usuários. Nestas interações a qualidade do signo é colocada em
jogo pela apropriação simbólica, que pode ir de um signo relativamente genuíno e se atrelar o máximo possível ao seu objeto original até um signo degenerado que se prende ao objeto por uma conexão delicada e bastante específica. Esta variação de conexões são qualificadas pelo conhecimento prévio que se tem do símbolo ou do conteúdo apropriado na subversão.
Além disso, devemos considerar o objeto dinâmico comentado por Peirce, o objeto que escapa ao signo, que existe fora da relação direta entre o signo e o objeto que o determina, no ambiente de redes digitais multicódigos a dinamicidade do objeto é constante. No 4chan a todo momento que um conteúdo é lançado, um objeto, cuja conexão com o signo é perdida, é absorvido como objeto dinâmico e a multiplicidade anônima lhe fornece novos sentidos. Cada ângulo, cada contexto, ironia, ofensa, mentira, se sobrepõe no objeto dinâmico até o momento em que ele é apagado pelos algoritmos de indexação ou anexado em arquivos pessoais.
Os processos de comunicação a partir da produção de informação, da representação que a área faz de si, sempre terão uma parcela de subversão, pois, nunca há uma conexão exata entre uma informação emitida, mediada e recebida. A quantidade de conexões possíveis no processo de comunicação sempre mutaciona em algum grau a informação/dados transmitidos. A observação do processo subversivo é visível na medida em que desconstruímos razoavelmente as múltiplas relações sígnicas na busca do princípio lógico possível e universal. Quanto mais nos desfazermos das conexões culturais e sociais que compõe o cenário perceptual, mais seremos capazes de capturarmos os meios que compõe as múltiplas relações entre signo e objeto. Eis o porque de um objeto técnico das redes digitais, o 4chan, que se posiciona na “periferia” das relações sociais e de significação, ser tão apropriado para o nosso trabalho, se propondo a lidar diretamente com as ideias e a transitoriedade inerente dos objetos e dos signos por meio do anonimato, da apropriação de
sentido e do não catalogamento direto de dados.
A relação do usuário da internet com o arquivamento e a memória também é subvertida no 4chan, pois, enquanto o site em si mesmo não mantém os dados produzidos por mais do que alguns dias43, temos também um amplo catálogo de acontecimentos e
“memórias” que moldam a subcultura chan, e que reverberam por todo o ambiente das mídias sociais através dos memes. Os anônimos podem ecoar, parcialmente, o conteúdo perdido na efemeridade, se utilizando de screen caps ou por meio dos serviços de sites satélites que reproduzem o conteúdo gerado no 4chan, formando um banco de dados de memes e situações consideradas marcantes ou engraçadas.
Em espaços tão transgressivos, questões normativas como identidade fixa, prestação de contas, sistemas de reputação, leituras convencionais ou processos de rememoração dificilmente se aplicam. A busca da informação é construída como um processo cibertextual independentemente da permanência . Na ausência de arquivos permanentes , a busca de conhecimento cibertextual deve ser complementada pela sensibilidade do usuário. O 4chan pode ser uma colmeia de mentes coletivas descentralizada faltando permanência de identidade e de memória , mas arquitetou a si mesmo em torno da centralizada troca de informação, que é predicada na habilidade dos 4channers de discernir verdade do trolls, um jogo pressupondo paidia e enfatizando baseia na capacidade dos 4channers para contar a verdade a partir de trolls , um paidia jogo e pressupondo enfatizando agilidade discursiva e conhecimento prático. Este jogo , consequentemente, gera material digno de memória, que é coletada por usuários valiosos e disseminada no local para promover e policiar a identidade. Neste esquecido espaço, memória digital tem então retornado para a oralidade, na qual os membros da comunidade confiam em sistemas de memória compartilhada para carregar o passado e inventar o futuro. (Manivannan, 2012, p. 7, tradução nossa)
O elitismo permitido pela maneira de lidar com a memória e o conhecimento adquirido, ocasiona no 4chan um duplo senso de pertencimento. Não sendo excludente enquanto a informação transmitida nunca é suficientemente confiável, mas também não autorizando nenhum anônimo a ser considerado detentor do poder da informação, tratando 43 De acordo com Bernstein et al. A duração média de um tópico no /b/ do 4chan pode ser de 3,9 minutos, a
todos como ignorantes quanto ao domínio de um suposto conhecimento real. O conceito de
newfag e o saudosismo dos dias de glória do 4chan (sempre em decadência), de acordo com
esta lógica, fortalecem esta barreira ao mundo exterior ao site.
Complementando esta perspectiva, no âmbito das relações de poder e ideologia, temos um outro significado da subversão atrelado ao ativismo e a contestação. Neste sentido, apesar de adequado, o termo subversão costuma ser utilizado sem muitas restrições, dizendo respeito de qualquer levante contra a ideologia dominante e, assim, deixando de fora o aspecto dinâmico e do movimento associado à subversão.