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5. PARATEXTO: CHAVES DE LEITURA

5.4 O aparelho titular

Genette (2002, p. 59-60) fala em aparelho titular, em função da complexidade dessa instância paratextual, e explica que, de acordo com Hoek (1973), o que hoje em dia é chamado de título corresponde a uma seleção arbitrária da massa textual e gráfica da página de título. Em alguns casos, como a designação pela qual são conhecidas várias obras antigas e clássicas, tem-se um objeto artificial: no caso das primeiras, porque muitas delas sequer tinham título; no caso das segundas, porque esse título, originalmente, era muito mais longo do que o normalmente veiculado atualmente. Frequentemente modificado quando da tradução, o título também costuma sofrer uma erosão com o passar do tempo – trata-se de um processo inevitável nos longos títulos-sumários do classicismo e do século XVIII. O público póstumo, bem mais do que o autor ou o editor, costuma ser o principal fator que interfere nessa modifica- ção, que normalmente promove uma abreviação.

Tomando como exemplo uma obra de Voltaire, Zadig ou la Destinée, histoire orien-

tale, Genette (2002, p. 60) passa em revista as ponderações de dois estudiosos do

assunto, para enfim fazer sua proposta, que será adotada neste trabalho. Hoek (1973) faz uma primeira subdivisão entre título (Zadig ou la Destinée) e subtítulo

102 (histoire orientale), à qual Duchet55 responde acrescentando um terceiro elemento, o

segundo título, e precisando que o subtítulo habitualmente é introduzido por uma

definição genérica (Zadig + la Destinée + histoire orientale). Hoek (1981) reformula então sua nomenclatura em uma análise triádica: título (Zadig) + título secundário (ou la Destinée) + subtítulo (histoire orientale). Genette (2002, p. 60-61), para quem a distinção entre título secundário e subtítulo não é forte o suficiente, estabelece tí-

tulo (Zadig), subtítulo (ou la Destinée) e indicação genérica (histoire orientale), dos

quais só o primeiro é obrigatório no sistema cultural contemporâneo. Há muitos es- tados defectivos (em que um ou dois elementos estão ausentes) ou mesmo indefini- dos (frequentemente, a indicação genérica integra-se ao subtítulo; em muitos casos, integra-se também ao título ou até o constitui). Há ainda títulos mistos, com indica- ção da forma e do conteúdo.

Genette (2002, p. 61-62) considera que rotular esses constituintes é menos impor- tante do que identificá-los e refletir sobre suas interações, seus efeitos. Para o autor, a indicação genérica56 se define de maneira funcional, ao passo que o título e o sub- título, de maneira formal. Dentro de uma estrutura título + subtítulo, os elementos podem ser vistos como mais ou menos integrados: Ariel ou la Vie de Shelley está mais para título duplo do que Madame Bovary, mœurs de province, em que os tre- chos separados pela vírgula são mais fortemente cindidos. A despeito das configu- rações gráficas, “ou” produz mais conjunção do que disjunção.

Genette (2002, p. 102) indica que a localização habitual da indicação genérica é a capa ou a página de título, mas ela pode ser retomada em outros pontos da obra; além disso, ela pode ser fornecida ou reforçada pela inserção do livro em uma cole- ção. No corpus desta pesquisa, Perrault (2011), Tatar (1999) e Marques (s/d) se rei- vindicam como parte de uma coleção: no primeiro caso, como visto acima, a menção

Un livre pour l’été cria um enquadramento institucional (dando aos contos um esta-

tuto genérico parcialmente pedagógico); no segundo caso, a rubrica A Norton Critical

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Infelizmente, Genette (2002) não fornece os dados bibliográficos desse debate (seu livro, por sinal, não tem uma seção dedicada a isso), de modo que as obras aqui mencionadas não poderão apare- cer nas referências bibliográficas desta dissertação.

56 Espera-se ter deixado claro, dentro da discussão proposta no capítulo 3, que o termo “gênero” se refere, aqui, a uma prática social que interessa a esta pesquisa, sobretudo, pelo efeito que seu cará- ter instável produz nas diferentes retextualizações. Apesar de não se ter tentado abordar exaustiva- mente a relação entre os contos de fadas e domínios discursivos / esferas sociais como a pedagogia e a literatura, parece razoável admitir que ela contribui para a configuração dos trabalhos de tradução e adaptação que constituem o corpus desta dissertação.

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Edition aporta um caráter acadêmico e, assim, uma situação igualmente intergené-

rica; no terceiro caso, a etiqueta Clássicos Todolivro visa afirmar o pertencimento do texto ao cânone da literatura infantil mundial. A análise dos textos, no capítulo se- guinte, permitirá verificar a influência do gênero sobre as estratégias de retextualiza- ção.

A presença da indicação genérica e sua autonomia em relação ao título, de acordo com Genette (2002, p. 98), variam de acordo com as épocas e os gêneros. Seu es- tatuto é oficial e pouco importa se ela é apropriada ou não: o que conta é o efeito de sentido produzido sobre o destinatário – o público, que é uma categoria mais ampla que o conjunto de leitores e que participa da difusão da obra. Ou seja, o fundamental é a intenção sinalizada pela decisão do autor e do editor, que dividem a responsabi- lidade por essa instância de comunicação (mesmo que não o tenham produzido) e se tornam, assim, seus destinadores.

É importante ressaltar que a análise dos títulos interessa mais pelo efeito de co- mentário que eles exercem sobre a obra do que por uma obsessão classificatória, explicitamente rejeitada por Genette (2002, p. 196). As funções desempenhadas por essa instância paratextual são, assim, identificar a obra (obrigatória e inseparável das outras), descrever seu conteúdo e/ou sua forma (função facultativa, mas inevitá- vel), portar conotações57 (voluntárias ou não, sempre inevitáveis), seduzir o público (o que tem eficácia duvidosa e sempre depende do receptor).

No que tange à edição de 1697, lê-se em sua página de título Histoires ou Contes du

Temps Passé: Avec des Moralitez, que pode ser analisado da seguinte forma: título

duplo (Histoires ou Contes du Temps Passé) com indicação genérica, como era co- mum no classicismo, de acordo com Genette (2002, p. 82), e subtítulo (Avec des

Moralitez). Essa subdivisão parece mais adequada por conta das escolhas tipográfi-

cas e gramaticais: os caracteres usados para Histoires e para Contes têm as mes- mas dimensões, sugerindo que o sintagma du Temps Passé se refere a esses dois termos, não apenas a Contes, que o precede imediatamente. Além disso, a conjun- ção “ou” cria um efeito de ambivalência: Histoires remete, de certa forma, para algo real e Contes, para o mundo da ficção; o fato de as narrativas alegadamente provi- rem de um passado recuado reforça essa ambivalência (que funciona como um re-

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Genette (2002, p. 95) observa que as conotações dos títulos são carregadas não somente de in- tenções, mas também de efeitos involuntários.

104 curso estilístico58). Como a indicação genérica já está integrada ao título duplo, o trecho Avec des Moralitez funciona como um comentário que anuncia parcialmente o conteúdo educativo da obra, justificando sua leitura. Curiosamente, porém, a obra de Perrault é frequentemente identificada por uma inscrição que aparece no frontispício, não na página de título: Les contes de ma mère l’Oye. Essa expressão, segundo o posfácio da edição de 2011, referia-se no tempo de Perrault às histórias simples que as amas contavam às crianças.

Imagem 12. Frontispício e página de título da edição de 1697.

As edições contemporâneas também insistem na integração da indicação genérica ao título: a de 2008 (Les contes de Perrault) associa a esse procedimento a ênfase no autor; na de 2011 (Neuf contes), o nome de Perrault está tão próximo do título

58“Essa tradicionalização do discurso através da ligação com gêneros tradicionais é uma estratégia para conferir autoridade ao texto.” Bauman & Briggs apud Koch et al. (2007, p. 91).

105 que quase se integra a ele – esses dois exemplos são particularmente curiosos quando se tem em mente que Perrault assinou os contos com o nome de seu filho.

No caso das coletâneas, Opie & Opie (1980) e Tatar (1999) têm exatamente o mes- mo título (The Classic Fairy Tales), o que demonstra por que Genette (2002, p. 80) diz que a função designadora do título é falha – fica claro, aqui, que o nome do autor se torna um elemento indispensável para a identificação da obra. O que chama a- tenção, aqui, é o destaque dado à consagração do gênero, e o fato de que a coin- cidência do título insere Tatar (1999) em uma forte relação intertextual com Opie & Opie (1980). Tatar (2004), por sua vez, apresenta uma estrutura mais complexa de título com indicação genérica (Contos de Fadas) seguido de um subtítulo (Edição

comentada & ilustrada) que não deixa de estabelecer certo caráter intergenérico.

Laranjeira (2007), que reúne diversos trabalhos de Perrault, opta pela simplicidade da designação Contos e Fábulas, mais uma vez insistindo no pertencimento gené- rico. A seção que traz a tradução da obra de 1697 se chama Histórias ou Contos de

Antigamente com Moralidades. Apesar de seguir de perto o original, é notável como

essa tradução suprime os dois pontos e sugere um longo título único, em vez de uma estrutura em duas partes. Marques (s/d), finalmente, se contenta em exibir o nome da protagonista (Chapeuzinho Vermelho) da narrativa apresentada.