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3. RETEXTUALIZAÇÃO, GÊNERO E ADAPTAÇÃO

3.2. O papel do gênero no funcionamento do texto

É inevitavelmente em uma relação com os gêneros textuais em circulação em de- terminada sociedade que ocorre a inserção de qualquer material verbal em determi- nada cultura. Quer se trate de conformidade (o texto corresponde a modelos prees- tabelecidos), quer se trate de incongruência (o texto não se enquadra conveniente- mente em nenhum padrão usual), as práticas textuais consolidadas servirão de qua- dro de referência para a interpretação e, consequentemente, para a tradução. O gê- nero textual, por sinal, é apontado por Bassnett (2003) como um dos questiona- mentos necessários, por exemplo, na tradução da poesia da antiguidade grega: uma vez que o significado de determinadas modalidades literárias daquele período difere dos parâmetros contemporâneos, uma reestruturação profunda pode ser operada com vistas à reprodução da intenção do original e de seus efeitos sobre a audiência

39 que o recebeu inicialmente. Nesse sentido, levando em conta que, nas práticas lite- rárias contemporâneas, a narração de aventuras é habitualmente feita em forma de prosa, é possível conceber que a tradução “domesticadora” de uma epopeia grega, originalmente redigida em versos, seja feita em forma de prosa. Trata-se de um pro- cedimento análogo a uma adaptação para o cinema, que teria por objetivo suscitar, juto à nova audiência, um “efeito semelhante” ao produzido no contexto inicial. Evi- dentemente, esse tipo de procedimento se destinaria a um público mais amplo, e não a helenistas experientes, para quem a narração versificada não causa estra- nhamento.

No caso do presente trabalho, a relação entre tradução e gênero textual se deve a duas razões específicas: 1) a rotulação de um texto como pertencente a um gênero cria um horizonte de expectativas cognitivas, orientando o processamento inferencial e a interpretação como um todo, o que tem consequências importantes para a tradu- ção; 2) os gêneros, na condição de modalidades de inserção cultural de textos, têm um caráter histórico e, por conseguinte, não são cristalizações rígidas – eles passam por mudanças que podem criar a necessidade de retraduzir um texto ou de adaptá- lo a um novo contexto social.

Para Travaglia (2003, p. 16) a língua não é um instrumento inerte e imutável; ao con- trário, ela é construída pelos falantes e está em constante evolução. Assim, pa- ralelamente a seu caráter estável, que permite sua aprendizagem e a tradução, ela tem também um caráter instável, que cria as múltiplas opções à disposição do fa- lante e promove mudanças estruturais no código, o que às vezes cria a necessidade de retradução17. Meurer et al. (2008, p. 7-10) explicam que o gênero se situa na con- fluência da língua com o discurso e as estruturas sociais, tendo passado a ocupar lugar de destaque na própria maneira como a linguagem é concebida. Os autores afirmam que, de modo geral, ele é definido de forma relativamente próxima por dife- rentes estudiosos, apesar de algumas diferenças de ênfase e abordagem e de uma grande heterogeneidade terminológica: fala-se em “gênero textual”, “gênero discur- sivo” ou “do discurso”, e termos relacionados a esse conceito (“sequência textual”, “tipo textual” e “modalidade textual”; “esfera social”, “comunidade discursiva” e “am- biente discursivo”) também se apresentam igualmente variados. Esta pesquisa em-

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Como bem indicou o Prof. Raimundo Carvalho durante a qualificação deste trabalho, o original também precisa ser atualizado, por meio de novas edições com atualizações de ortografia, pontuação e estabelecimento do texto de toda ordem.

40 pregará apenas a expressão gênero textual, entendendo-a como “categoria distintiva de discurso de qualquer tipo, falado ou escrito, com ou sem aspirações literárias” (Swales apud Marcuschi, 2008, p. 147).

Seria inviável estabelecer uma lista dos gêneros existentes: a classificação dos tex- tos empíricos se faz mais ou menos intuitivamente, sempre em função de sua inser- ção em práticas sociais. Essas categorias de atividade verbal portam indexações sociais e, juntamente com as peculiaridades do contexto imediato, imprimem marcas no texto empírico, de acordo com Bronckart (2006, p. 144-147). Para Marcuschi (2008, p. 154), toda atividade verbal se realiza, necessariamente, dentro de um gê- nero, e este não é uma entidade formal, e sim uma modalidade de alcançar determi- nado objetivo dentro de uma situação particular. O autor afirma ainda que os gêne- ros orientam decisões relativas ao léxico, ao registro de língua e aos temas, entre outros fatores, delimitando um universo referencial e estabelecendo obrigações e interditos. Carmelino (2007, p. 12), por sua vez, ressalta a importância do contexto na definição do que “deve (ou não) ser dito e como fazê-lo” – a autora também sub- linha que, no caso da escrita, diferentemente do que ocorre na interação face a face, o contexto de uso é diferente do de produção. Esse fato parece ter grande relevân- cia para o estudo das obras que constituem o corpus deste trabalho, como se verá em capítulo posterior.

Machado (2006, p. 241-242) afirma a correlação entre gêneros e condições de pro- dução e sustenta que é necessário adaptar-se ao gênero escolhido, à situação e ao interlocutor, e elenca vários elementos influenciados por essa necessidade: entre eles, destacam-se os conteúdos verbalizados e os efeitos que se almeja produzir sobre o receptor, bem como os papéis sociais destinados aos coenunciadores – a autonomia do autor existe, embora limitada e sujeita a diversas determinações. Ma- chado (2006, p. 250-251) também mostra, todavia, que é a estabilização de determi- nadas formas comunicativas, inseridas dentro de atividades sociais, que leva à cons- tituição dos gêneros ao longo da história – assim sendo, o gênero pode se modificar, em decorrência do acúmulo de processos individuais nos quais o produtor adapta o gênero à situação. Marcuschi (2008, p. 151) é outro que aborda o caráter histórico dos gêneros, descrevendo-os como entidades dinâmicas que não se com- partimentam de forma estanque. Bronckart (2006, p. 143-144) evidencia igualmente a influência dos gêneros nas escolhas feitas pelos falantes, mas chama atenção pa-

41 ra o fato de que as configurações em que elas se encontram são momentâneas, li- gadas a determinadas formações sociais. É nesse sentido que o autor conclui ser impossível classificar os gêneros de forma estável e definitiva: dentro desse pro- cesso de adoção e adaptação dos modelos textuais disponíveis, as variantes estilís- ticas individuais podem vir a alterar o próprio gênero – ou seja, as inovações intro- duzidas por alguns enunciadores, ao longo do tempo, acabam por se difundir e tor- nar-se prática generalizada, promovendo uma modificação dos gêneros existentes ou a criação de novas modalidades textuais18.

O gênero textual não é definido por propriedades estritamente linguísticas, mas por uma relação complexa entre determinadas práticas sociais e o texto empírico que nelas se insere – com efeito, o mesmo material linguístico pode servir a gêneros tex- tuais distintos, em função do enquadramento que ele recebe de elementos para- textuais19, do suporte20 ou da situação concreta de enunciação. Segundo Carmelino (2007, p. 22) o gênero constitui uma prática social que norteia o leitor21 no estabele- cimento da interação entre as informações do texto e elementos co-textuais e con- textuais e na produção ativa do sentido.