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O Apoio e a Participação dos Maridos e dos Filhos no Empreendimento

4 ANÁLISE DOS DADOS DE CAMPO

4.1 A TRAJETÓRIA SÓCIO-OCUPACIONAL DAS EMPREENDEDORAS

4.2.3 O Apoio e a Participação dos Maridos e dos Filhos no Empreendimento

A maioria das mulheres confirma o apoio dos maridos nos seus empreendimentos. Isso não quer dizer que ele necessariamente ajude de alguma forma no empreendimento ou participe nas tarefas de casa. O apoio pode ser ocasional, quando a demanda de trabalho aumenta ou pode ser apenas expressado através da aprovação do marido. Os motivos que justificam esse apoio podem ser de ordem financeira, para complementação da renda ou para que a mulher não lhe peça dinheiro. O marido, depois de trabalhar no empreendimento, pode ainda ter que voltar ao mercado de trabalho para garantir uma renda fixa mensal para a família. Nesse caso, o dinheiro adquirido com o empreendimento não era seguro e suficiente para garantir a renda e a sobrevivência de toda a família.

“O meu apóia porque se eu não tenho dinheiro, ele tem que dar pra mim. Ele ajuda, tem que ajudar, tem que unir” (50 anos, facção).

“Eu no caso, quando o meu apura, ele se joga lá pro meu ateliê” (26 anos, fábrica de velas)

“O meu apóia porque coitado, ele nunca vê a cor do pagamento dele. Ele viaja, fica quinze dias fora. Nem sei como ele vive todo” (41 anos, loja de roupas).

“Eu, o meu marido me apóia, me ajuda. No início ele me ajudou. Ele fazia a parte. Depois a gente conversou e ele arrumou um emprego fora pra garantir o salário pra dentro de casa” (44 anos, facção).

Nem sempre há qualquer tipo de apoio do marido no empreendimento liderado pela mulher, como é o caso do depoimento abaixo. Em visita, essa microempresária relatou à pesquisadora que a principal fonte de renda da família é oriunda do seu trabalho. O marido trabalha como “olheiro” de um time de futebol da Turquia que, pelas suas informações, passa por momentos de dificuldades. Segundo a informante, ele passou a aceitar mais o seu trabalho quando teve de demitir funcionários e vender uma máquina para pagar algumas dívidas e equilibrar as finanças do negócio:

“O meu não ajuda, não gosta. Fica mandando eu fechar porque ele acha que não dá dinheiro. Teve uma febre de bordados e o investimento é muito alto. Comecei com uma máquina muito velha, de vinte anos. Comprei um bagulho e logo em seguida quando me dei conta, eu não conhecia nada. Eu morava fora,

meu marido jogava futebol na Turquia. Ai quando eu tava lá, eu via como tinha roupa bordada. Ai eu pensei, quando eu voltar pro Brasil, vou comprar uma máquina de bordados. Fui na Silmaq e eles falaram: ‘não, compra uma máquina moderna!’ Quando fui vê, era uma sucata da Teka. Paguei na época uma fortuna. E ai o meu marido não podia simpatizar, lógico né?! Teve um dia que ele jogou as minhas linhas tudo na rua. (todas rindo muito)E daí depois, sempre assim. Eu já vendi um carro dele. Ele viajou quatro dias, quando chegou não tinha mais carro” (42 anos, fábrica de bordados)

No estudo realizado por Pineda (2000), na Colômbia, o trabalho das mulheres empreendedoras tornou-se para alguns homens uma forma alternativa de trabalho e sobrevivência. Com isso, ocorreu uma erosão do poder patriarcal que culminou com novas masculinidades. Os homens passaram a trabalhar no empreendimento das mulheres e em casa. Cuidar da casa e dos filhos deixou de ser tarefa exclusivamente feminina. No caso das entrevistadas, os depoimentos sugerem não ter havido essas mudanças. Algumas delas parecem não se dar conta da importância de buscar desconstruir esse padrão de comportamento. As relações de gênero mais amplas na sociedade estão ainda muito presentes no cotidiano dessas mulheres. Outras, como já foi demonstrado em depoimentos anteriores, percebem essas desigualdades e estão construindo novos padrões nas relações de gênero. Talvez não estejam ainda rompendo definitivamente com essa cultura que determina que a mulher deve cuidar do lar, mas, podem estar se mostrando mais independentes para fazerem escolhas e tomarem decisões.

Além de possibilitar uma oportunidade de emprego para o marido, a mulher empreendedora pode contribuir para que os filhos possam se agregar ao empreendimento e garantir a eles também trabalho e renda. Poucas informantes, porém, indicaram a participação dos filhos. Duas delas relataram que essa experiência não deu certo. Os depoimentos a seguir retratam essas realidades:

“Desse tamanho (aponta para filha de dez anos que estava junto) ela já ajuda. Que nem sábado eu tava sem funcionário. Ela atende telefone, faz cálculo. As pessoas chegam e dizem: ‘Mas tu vai saber me dizer?!’ Ela sabe tudo” (44 anos, estúdio fotográfico).

“O meu filho trabalha comigo desde os onze anos, agora tem vinte e um. Agora não quero mais trabalhando comigo. Por que eu acho que ele nunca vai ser um profissional como eu gostaria. Acho que ele vai ter que aprender. Eu dei todas as chances, briguei muito. Então, não quero mais brigar. Acho que ele vai ter muito mais responsabilidade” (42 anos,fábrica de bordados).

“Os meus não querem saber de trabalhar com costura. Uma trabalha fora e o outro trabalha como mecânico com o tio” (44 anos, facção).

“A minha (filha) trabalhou já comigo. Ela tecia. Mas gente nova querem mais tempo pra passear e tudo aquilo. Na ocasião eu quis mudar os teares e ela não concordou comigo, então pronto! Mas agora ela voltou a fazer artesanato mas não tanto como uma época. Só que agora ela ta se arrependendo do que fez. A minha neta já me ajuda mais do que ela” (63 anos, artesanato).

“Eu tenho ela (Cleusa que estava junto) que me ajuda e minha filha mais nova que tem 23 anos. Mas também, todo mundo ajuda o mesmo tanto. Ela não trabalha na empresa, mas cuida da casa, da roupa da gente, da comida, das crianças dela (Cleusa). Ela é que administra tudo em casa” (47 anos, facção).