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4. A ESCOLA DE APRENDIZES ARTÍFICES DA PARAÍBA:

4.1 O Aprendizado da Ordem Contra o Medo das Multidões

A Escola de Aprendizes Artífices da Paraíba, assim como as demais, foi criada pelo Decreto n.º 7.566, de 23.09.1909, pelo então presidente Nilo Peçanha, fato considerado um dos pilares iniciais da “política de intervenção estatal na formação da força de trabalho no Brasil”.

Entre os fatores que indiretamente influenciaram a criação das Escolas de Aprendizes Artífices sobressai-se o Encilhamento, que foi responsável pela febre de grandiosos empreendimentos e pela formação de fantásticas indústrias. No entanto, o Encilhamento teria contribuído, passado a inicial euforia, para que, na primeira metade do século XX o número de indústrias desse um salto quantitativo, de 636 empresas durante a Proclamação da República para mais 3.362, em 1909 166.

165

Ferreiro, Almiro de Sá, op. cit. p. 9.

166 Fonseca, Celso Suckow – História do ensino industrial no Brasil. Rio de Janeiro: SENAI/DN/DPEA,

Dessa forma, o crescimento em vinte anos foi extraordinário. A indústria não crescera apenas quantitativamente mas suas necessidades eram mais complexas, exigindo homens com “conhecimentos especializados” e o estabelecimento do ensino profissional 167.

Entretanto, parece ser pouco provável que somente a quantidade de fábricas existentes em 1909 (3.998 unidades) fosse responsável pela criação dessas escolas profissionais. A localização e o dimensionamento das 19 Escolas de Aprendizes Artífices, “não correspondiam “à distribuição das empresas manufatureiras, especialmente aquelas que requeriam mão-de-obra qualificada 168.

Foram essas escolas localizadas “nas cidades-foco de decisão política”, isto é, nas capitais dos estados, baseada em critérios políticos, já que provavelmente nessas capitais, que eram os maiores dentros urbanos do país, é que havia maior necessidade de mão-de-obra treinada e onde poderiam ocorrer surtos de rebeldia e insubmissão popular “de maior peso e repercussão nacional”169.

Partindo-se desse pressuposto, os motivos desse empreendimento oficial poderiam estar relacionados com o processo de crescente urbanização, gestação da classe operária, ligada à organização de movimentos proletários reinvidicativos. O crescimento do número de vadios, o “inchamento” das cidades, a desordem pública, “a tentativa” de desarticular os conflitos sociais e os movimentos operários de todo o país também foram fatores imediatos que mobilizaram a postura política do estado nessa direção. Bresciani 170 refere a persistente confluência do trinômio máquinas, multidões e cidades, que norteia essa “preocupação com o ordenamento, com a organização dos homens para a sociedade do trabalho”.

Parece ter tomado conta das classes dominantes brasileiras, depois dos primeiros protestos e revoltas da classe trabalhadora, o medo das multidões citadinas, tema de literatos, sociólogos e estudiosos do século XIX. Era clara a articulação do movimento operário no país,

167 Fonseca, C. S. op. cit.p.174. 168

....”não correspondiam à distribuição especial das empresas manufatureiras, supostamente as demandantes da força de trabalho que viria a ser qualificada”. Cunha, Luiz. As escolas de aprendizes artífices e a produção manufatureira. Revista da Educação da UFF, Niterói, v. 10, n.1e2, p. 53-67, jan./jun.jul/dez. 1983. In Ferreiro, A de S. op.cit. p.10.

169

Ferreiro, A S. op.cit p. 10.

170 Bresciani, Maria S.M. Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza,(S.l.: s. n.) Brasiliense

na primeira década do século XX, com o internacionalismo. Imprensa operária, congressos, associações de mutualidade e resistência, e importantes movimentos grevistas 171 – foram registradas 111 greves no período 1900/1910 – demonstrando a força dessas mobilizações à partir do século passado 172.

De outro lado, no mesmo período, os vadios, os desocupados, os mendigos, os ladrões e todos os excluídos e marginalizados “começavam a se agrupar nas grandes cidades” desafiando a ordem estabelecida.

O questionamento do reverendo Solly, na cidade de Londres em 1868, comparando o contingente policial às centenas de milhares de indivíduos violentos e “desordeiros”173, teria extrapolado o espaço e o tempo, ecoando também no Brasil, onde o processo de urbanização e industrialização se iniciava. O medo dos movimentos sociais, das greves, da superpopulação , que ocorria de modo veloz, piorando as condições sanitárias, de moradia, de alimentação, evidenciando a necessidade da pacífica incorporação dos desocupados, do homem pobre e expropriado , ao mundo do trabalho para que a estabilidade social não ficasse comprometida 174.

Esse espectro do medo causado pelas multidões, que atingia as elites brasileiras, aliado às experiências vivenciadas em grandes cidades como Paris e Londres, vai estimular, ao lado de outras necessidades, uma política governamental que tem por base a construção de hospícios, asilos, arsenais militares, prisões, casas correcionais e escolas profissionais, objetivando também controlar os desocupados e vadios. É o início da institucionalização de formas para minimizar ou evitar o perigo da desordem social.

À Afonso Pena , através de sua plataforma de governo, coube a iniciativa de expressar e materializar a junção do pensamento positivista 175, com os interesses empresariais, que

171 Sobre o movimento operário na Paraíba e suas particularidades, ver Rubim, Antonio Albino Canelas.

Movimentos sociais e meios de comunicação: Paraíba; 1917/21. João Pessoa: UFPB, 1983. (NDIHR.Textos), p. 14-48. In Ferreiro...cit. p. 10.

172 Hardman, Francisco Foot, Leonardi, Victor. Historia da indústria e do trabalho no Brasil; das origens

aos anos vinte. São Paulo: Global, 1982, p.332-336. Idem.

173 ...”o que pode fazer uma força policial de 8.000 ou 9.000 homens contra 150.000 indivíduos violentos e

rufiões, os quais, numa situação de excitação suficiente podem ser vistos na metrópole investindo contra a lei e a ordem?” Bresciani, op. cit. p. 85. Ibidem.

174 Bresciani, op. cit. p. 478.

175 Mendes, Raimundo T. A incorporação do proletariado na sociedade moderna. Rio de Janeiro: Igreja e

consideravam a criação de estabelecimentos técnico-profissionais como opção para a consolidação da idéia central de ordem, progresso e desenvolvimento industrial.

Quando de seu manifesto à nação, Afonso Pena se referiu à fundação de escolas profissionais, no sentido de contribuírem para o progresso das indústrias, fornecendo-lhes operários instruídos e hábeis e mestres 176.

Em virtude de sua morte prematura, o referido presidente não pôde colocar em prática esse “ideal”, cabendo a seu sucessor, Nilo Peçanha, sancionar a fundação das 19 escolas de aprendizes, estabelecendo as bases oficiais do sistema de ensino profissional federal no Brasil.

A justificativa introdutória do Decreto n.º 7.566, revela em suas entrelinhas, os motivos reais da fundação dessas escolas profissionalizantes. O presidente destaca alguns conceitos chave, que constituíam a base das preocupações das elites, na época: “...aumento constante da população das cidades... habilitar os ... desfavorecidos da fortuna... adquirir hábitos de trabalho profícuo.... os afastará da ociosidade...vício ...crime.. formar cidadãos úteis à nação”177.

Fazendo uma leitura crítica do mencionado decreto, pode-se depreender que a motivação desse empreendimento teria sido “conter os deserdados em seus próprios limites sociais, evitando as desordens populares” 178, além de formação de um contingente de mão-de-obra necessário às atividades produtivas.179

176 Em 15 de novembro de 1906, ao assumir a Presidência da República, Afonso Pena disse em seu

Manifesto: “ A criação e multiplicação de institutos de ensino técnico e profissional muito podem contribuir também para o progresso das indústrias, proporcionando-lhes mestres e operários instruídos e hábeis”. Não obstante essas palavras fossem ditas com pouco entusiasmo, elas representavam uma “evolução do pensamento dos dirigentes do país”, já que era a primeira vez que em sua Plataforma de governo um Presidente da República fazia referência a tal assunto. Fonseca, Celso S. op. cit. v.2, p.172.

177

“... o aumento constante da população das cidades exige que se facilite às classes proletárias os meios para vencer as dificuldades sempre crescente da luta pela existência, que para isto se torna necessário não só habilitar os filhos dos desfavorecidos da fortuna com o indispensável preparo técnico e intelectual, como fazê-lo adquirir hábitos de trabalho profícuo, que os afastará da ociosidade, escola do vício e do crime, que é um dos primeiros deveres do Governo da República formar cidadãos úteis à nação”. Fonseca, Celso s. op. cit.v.2 p. 177.

178 Ferreiro, Almiro de Sá. A Escola de Aprendizes Artífices no Estado da Paraíba: Processos

Disciplinares e de Reordenamento Para o Trabalho assalariado. Série documental: Relatos de Pesquisa, n.19, jul./1994, MEC, Brasília/1994.

179 Ferreiro, Almiro de Sá. A Escola de Aprendizes Artífices no Estado da Paraíba: Processos Disciplinares

e de Reordenamento para o Trabalho Assalariado. Série Documental: Relatos de Pesquisa, n.19, jul/1994., MEC, Brasíl/1994, p.11.

Rebuscando o legado imperial/escravocrata para investigar a origem do ensino profissional no Brasil, pode-se detectar que o castigo, a prisão e a subordinação foram símbolos que articularam um processo em que as relações de produção eram marcadas por trabalho e coerção.

As “relações escravistas de produção” desde os tempos coloniais, eram um desestímulo para a orientação da força de trabalho no sentido do artesanato e manufatura. Provavelmente a subordinação do trabalhador teria sido uma das razões que impediram o desenvolvimento das corporações de ofício no Brasil colonia, já que os senhores viam seu subordinado como coisa sua 180.

Desde os tempos coloniais, coagia-se a transformação de homens livres em operários. Naturalmente essa situação somente ocorria com aqueles homens livres que social e politicamente não tinham condições de opor resistência. Esse procedimento também ocorria com os menores, os abandonados, os órfãos, os desvalidos, que não podiam opor resistência e eram conduzidos pelo Estado, por meio do juízes e Santas Casas de Misericórdia, aos arsenais militares e da marinha, onde internados se submetiam `a aprendizagem de ofícios manufatureiros 181.

Na gênese das escolas de aprendizes artífices, também percebe-se, além de vestígos de múltiplo preconceito relativos ao trabalhador nacional, ao imigrante e às atividades manuais,vistas como “destinadas aos desvalidos da fortuna”, a tentativa do poder oficial em demonstrar interesse pelas camadas urbanas, que-assumiram nova configuração e exigiam mudanças no tipo do ensino ministrado no país.

Esse ensino, era reservado de forma prioritária ao academicismo e à formação de uma elite privilegiada de “doutores”, reforçando o “status quo das classes dominantes e reproduzindo a questão secular da dualidade social brasileira entre “favorecidos e desfavorecidos”182.

180

...”a subordinação do trabalhador (a inclinação exagerada dos senhores/empregadores de ver o setor produtor/subordinado como coisa sua), como uma das razões pelas quais as corporações/irmandades de ofício não tiveram, no Brasil Colônia, o desenvolvimento verificado em outros países”. Cunha, Luiz A. op. cit. p.48.

181

Cunha, Luiz A., op. cit. p. 48-49.

182 Teixeira, Anísio. Educação não é privilégio. Rio de Janeiro. J. Olympio, 1957, p.35-37. In Ferreiro,

O preconceito contra o trabalho manual era evidente. O ensino superior “é destinado a ilustrar” os filhos das classes dirigentes, em contraposição à profissionalização de grau elementar e médio 183.

A iniciativa da criação dessas escolas profissionalizantes significa uma investida ambígua e tímida, ancorada mais em oferecer uma resposta às pressões sociais do que, exatamente, “atender à demanda de mão-de-obra do mercado de trabalho”, já que na maioria dos 19 Estados contemplados com as escolas citadas esse mercado era incipiente, com exceção de São Paulo e Rio de Janeiro, os quais possuíam indústrias para absorver pessoal “qualificado de nível inicial”184.