1.3 O PROBLEMA DA DEMORA NA PRESTAÇÃO JURISDICIONAL
1.3.2 O arcabouço normativo e as sucessivas reformas
Como já destacado por Vera Lúcia Feil Ponciano118, as atitudes inadequadas perpetradas pelos Poderes Legislativo e Executivo em face de suas missões constitucionais, pelos demais atores do sistema judicial e pelas pessoas jurídicas de direito privado conduzem à conclusão de que "a solução para a crise do Judiciário não depende apenas de mudanças na legislação ou no âmbito estrutural e organizacional da instituição".
No mesmo sentido, e referindo também à experiência italiana, Paulo Hoffman119 destaca que as reformas do Código de Processo Civil, sem olvidar da importância, não alcançaram em sua plenitude os fins colimados.
É tradição do nosso sistema judicial despender-se tempo demasiado em discussões meramente formais, muitas vezes sem conotação prática qualquer.
Ou seja, a formalidade pela formalidade, sem se prestar a proteção de interesse material algum. As sucessivas reformas do Código de Processo Civil, além da assistematização, resultaram em acirradas discussões acerca do direito aplicável, nada obstante a existência de regras de transição previamente definidas.
A produção legislativa não tem por costume descer às minúcias, criando assim lacunas ou mesmo superposição de normas. Isto é, cada reforma, por salutar que seja, traz consigo certo grau de indefinição, ensejando teses divergentes e longas discussões judiciais sobre matéria processual. As situações recentes são inúmeras, a julgar, por exemplo, pela imprecisão legislativa na redação do artigo 475-J do Código de Processo Civil no que respeita ao marco inicial da fluência do prazo para cumprimento espontâneo da sentença. Não fosse o bastante, a jurisprudência
118PONCIANO, Vera Lúcia Feil. Condicionantes externas da crise do judiciário e a efetividade da reforma e do "Pacto Republicano por um Sistema Judiciário mais acessível, ágil e efetivo".
119HOFFMAN, Paulo. O direito à razoável duração do processo e a experiência italiana, p.4.
vacilante sobre esse ponto agrava ainda mais a sobrecarga do Judiciário, atrasando a resposta jurisdicional.120
Ainda no que respeita à forma como a lei repercute no tempo do processo, cabe recordar que é ela, a lei, a fonte genuína do Direito em nosso ordenamento.
Ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei, garante a Constituição.121 A Administração Pública tem sua atuação pautada exclusivamente em autorização legal. Não é, pois, de se estranhar o emaranhado de leis vigentes em nosso país, oriundas das esferas Federal, Estadual e Municipal.
As consequências desse fenômeno, também conhecido como inflação legislativa, são maléficas para a atividade jurisdicional. Essa disfuncionalidade legislativa – produção exacerbada – acaba por contaminar também doutrina e jurisprudência.
Afinal, no seio dessas fontes secundárias, em que pese o hercúleo esforço dos juristas, acabam por surgir interpretações dissonantes, tamanha a complexidade que adquire o sistema legal. Como bem pondera Fabiana Rodrigues Silveira122, cabe ao magistrado tomar em consideração a supremacia da Constituição e efetivar os direitos nela contidos, independente da omissão, inconsistência ou qualquer outro vício na produção legislativa.
Ainda no contexto da inflação legislativa, Jeziel Rodrigues Cruz Junior123 adverte sobre os problemas decorrentes do despreparo do legislador. Para o autor, a falta de formação específica e a forma de fazer política deságuam em imprecisões
120O Superior Tribunal de Justiça possuía jurisprudência consolidada no sentido de que era desnecessária a intimação do devedor para que promovesse o cumprimento de sentença, iniciando-se o prazo a partir do trânsito em julgado da decisão condenatória. Todavia, a posição foi revista a partir de julgamento realizado pela Corte Especial, assentando que "o devedor haverá de ser intimado na pessoa do seu advogado, por publicação na imprensa oficial, para efetuar o pagamento no prazo de quinze dias, a partir de quando, caso não o efetue, passará a incidir sobre o montante da condenação, a multa de 10% (dez por cento) prevista no art. 475-J, caput, do Código de Processo Civil". (SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA (Brasil). Recurso Especial n.o 940.274/MS. Relator para acórdão Ministro João Otávio de Noronha. Diário de Justiça Eletrônico de 31.05.2010. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/revistaeletronica/Abre_
Documento.asp?sSeq=740091&sReg=200700779461&sData=20100531&formato=PDF>. Acesso em: 5 nov. 2011).
121Artigo 5.o, inciso II.
122SILVEIRA, Fabiana Rodrigues. A morosidade no poder judiciário e seus reflexos econômicos, p.158-159.
123CRUZ JUNIOR, Jeziel Rodrigues. As causas da morosidade judicial, p.13.
lógicas, técnicas e vocabulares, as quais ensejam inúmeras e desnecessárias discussões judiciais.
Novamente sem olvidar dos pontos benéficos trazidos pelo Novo Código de Processo Civil, afigura-se oportunista e dissociada da realidade empírica a assertiva que, por si só, o Novo Diploma reduzirá entre 50% (cinquenta por cento) e 70%
(setenta por cento) o tempo de tramitação dos processos judiciais. Conforme já mencionado, a existência de condicionantes externas, bem como a recente experiência (própria e de outros países), leva a crer que há muito mais a ser feito.
Além de uma nova postura dos magistrados, menos legalista e mais consentânea com a efetivação das garantias constitucionais, a solução do problema da inflação legislativa passa pela adoção de um sistema pautado em precedentes jurisprudenciais. Afinal, a lógica do sistema é ferida ao admitir que, diante de casos idênticos, um juiz ordinário possa contrariar a ratio decidendi adotada pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional ou pelo Supremo Tribunal Federal, quando versar norma constitucional.
Tal inconsistência, como bem anota Luiz Guilherme Marinoni, afronta o dever de manter a coerência do ordenamento, acarretando indevida demora ao jurisdicionado em igual posição, comprometendo assim a credibilidade do Poder Judiciário.124
Dentro dessa proposta de respeito aos precedentes, independente da incessante produção de leis, situações idênticas uma vez apreciadas e resolvidas definitivamente pelos Tribunais Superiores, formarão precedentes de caráter obrigatório para as instâncias ordinárias do Poder Judiciário. Com essa transcendência dos motivos determinantes, o sistema tornar-se-á mais previsível, possibilitando um acesso à justiça mais qualificado e racionalizado, já que o advogado poderá instruir seu cliente a deixar de litigar diante da existência de precedente desfavorável.
124MARINONI, Luiz Guilherme. Precedentes obrigatórios. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010. p.65.