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2.4 A NOVA ROUPAGEM DA JURISDIÇÃO NO PROCESSO ELETRÔNICO

2.4.2 Processo eletrônico ou procedimento eletrônico?

Para Giuseppe Chiovenda, é no processo que se desenvolve a função pública pertinente à atuação da vontade concreta da lei. O processo é composto por um conjunto de atos voltados a uma finalidade preordenada e comum, e se desenvolve com base em regras que estabelecem prazos e formas processuais, ou seja, que ditam a ordenação da sequência de atos, que é denominada procedimento.264

Também conforme Enrico Tullio Liebman, os atos processuais não se apresentam isolados. Ao se sucederem no tempo, formam uma cadeia contínua, a qual adquire unidade e recebe o nome de procedimento. Apesar de comumente empregados como sinônimos, processo e procedimento possuem significados distintos.

O último traz ideia mais técnica e mais precisa, ao passo que o primeiro possui significado mais amplo: para Liebman, um processo pode compreender mais de um procedimento, sendo, pois, o processo compreendido como deflagrado por um pedido inicial e encerrado por sentença.265

A estrutura do procedimento, segundo Elio Fazzalari, é composta por uma série de normas segundo as quais se realiza uma sequência de atos, que podem consistir em faculdades, poderes ou deveres. Para o autor, a existência de contraditório é traço que diferencia os conceitos de processo e de procedimento: é na estrutura

263Sobre as causas da demora na prestação jurisdicional, ver o item 1.3, supra.

264CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Tradução de J. Guimarães Menegale. 3.ed. São Paulo: Saraiva, 1969. v.2: As relações processuais: a relação processual ordinária de cognição. p.51-55.

265LIEBMAN, Enrico Tulio. Manual de direito processual civil. Tradução de Cândido Rangel Dinamarco. Rio de Janeiro: Forense, 1984. p.228-229.

dialética do procedimento que participam, em posições simétricas, aqueles cuja esfera jurídica será afetada pelo ato final, que constitui o escopo do processo.266

Relevante diferenciação entre processo e procedimento é feita por Eduardo Juan Couture. O processualista uruguaio define processo como relação jurídica continuativa, que se desenvolve por meio de sucessão de atos ao longo do tempo;

processo é a totalidade, a instituição, o conjunto de atos dirigido à realização dos fins da jurisdição, ou seja, o método de debate cuja finalidade é solucionar, por ato de autoridade e com força de coisa julgada, um conflito de interesses. Procedimento, por seu turno, é essa mesma sucessão de atos, mas em seu sentido dinâmico:

traduz movimento, força vital.267

O critério distintivo adotado por Moacyr Amaral Santos diz respeito à exterioridade do fenômeno processual. Por processo, define "o complexo de atividades que se desenvolvem tendo por finalidade a provisão jurisdicional". Vale dizer, é o movimento em seu aspecto intrínseco. O procedimento, por outro lado, nada mais é do que o mesmo movimento, porém sob a feição a partir da qual "se revela aos nossos sentidos"268.

O entendimento referido é compartilhado por Cintra, Grinover e Dinamarco, os quais destacam ainda que a noção de processo é essencialmente teleológica, já que ele tem por finalidade o exercício do poder jurisdicional, ao passo que a noção de procedimento é puramente formal e diz com as formalidades segundo as quais os atos processuais se concatenam e se exteriorizam.269

Nesse contexto, acerca do problema em análise (processo eletrônico ou procedimento eletrônico?), José Carlos de Araújo Almeida Filho é enfático ao sustentar

266FAZZALARI, Elio. Istituzioni di Diritto Processuale. 8.ed. Padova: CEDAM, 1996. p.77-78/82-84.

267COUTURE, Eduardo J. Fundamentos del Derecho Procesal Civil, 2.ed., p.101-102.

268O autor alude à lição do ilustre Piero Calamandrei, para quem procedimento "indica mais propriamente o aspecto exterior do fenômeno processual". Há alusão, também, a João Mendes Junior, para quem o processo é "uma direção no movimento" e procedimento o "modo de mover e a forma em que é movido o ato". (SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil. 23.ed. rev. e atual. por Aricê Moacyr Amaral Santos. São Paulo: Saraiva, 2004.

v.2. p.80-82).

269CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pelegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel.

Teoria geral do processop.277-278.

que o modelo vigente no Brasil é de procedimento eletrônico. Além da diferenciação terminológica já desenvolvida, o autor toma como fundamento a previsão legal.270

O parágrafo único do artigo 154 do Código de Processo Civil271 refere-se à

"prática e a comunicação oficial dos atos processuais", os quais passaram a ser admitidos sob a forma eletrônica, desde que disciplinados pelos tribunais no âmbito de suas jurisdições respectivas. Ou seja, correspondem à forma de exteriorização dos atos processuais; trata-se verdadeiramente de procedimento.

Igual conteúdo traz o artigo 1.o da Lei n.o 11.419/2006, ao fazer menção à

"tramitação de processos judiciais"272. Vale dizer, assim como o dispositivo já comentado, nada diz acerca do processo em sua acepção teleológica, mas apenas no que concerne à forma segundo a qual seus atos se externalizam; novamente, procedimento.

Para José Eduardo de Resende Chaves Júnior273, porém, entender que estamos diante de procedimento eletrônico seria pensar no processo escaneado, o que tenderia a reproduzir no meio eletrônico os mesmos vícios constatados no processo em papel. Segundo o autor, há um caminho promissor, que é o de explorar o potencial das novas tecnologias de informação e comunicação "para uma nova racionalidade processual que possa tornar os direitos mais efetivos e as decisões mais justas e adequadas". Para tanto, reconhece o autor que se faz necessário o desenvolvimento de uma tecnologia jurídica específica, capaz de otimizar a resolução dos conflitos judiciais.

A definição aqui pretendida, portanto, está longe de ser meramente acadêmica.

Tem a ver, ao contrário, com a autonomia dos tribunais para a regulamentação da prática de atos por meio eletrônico. Afinal, a competência para dispor sobre processo

270ALMEIDA FILHO, José Carlos de Araújo. Processo eletrônico e teoria geral do processo eletrônico..., p.117-128.

271Inserido pela Lei n.o 11.280, de 16 de fevereiro de 2006, com a seguinte dicção: "Os tribunais, no âmbito da respectiva jurisdição, poderão disciplinar a prática e a comunicação oficial dos atos processuais por meios eletrônicos, atendidos os requisitos de autenticidade, integridade, validade jurídica e interoperabilidade da Infra-Estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP - Brasil".

272A Lei n.o 11.419, de 19 de dezembro de 2006, que dispõe "sobre a informatização do processo judicial", tem seu artigo 1.o assim redigido: "O uso de meio eletrônico na tramitação de processos judiciais, comunicação de atos e transmissão de peças processuais será admitido nos termos desta Lei".

273CHAVES JÚNIOR, José Eduardo de Resende (Coord.). Comentários à lei do processo eletrônico. São Paulo: LTr, 2010. p.24.

é privativa da União; já a competência para dispor sobre questões concernentes ao procedimento é concorrente entre União, Estados e Distrito Federal.274

Não se trata, ademais, de precisão terminológica dissociada de consequências práticas, uma vez que a caracterização guarda relação com o tema da interoperabilidade, ponto que aflige tanto os operadores do direito quanto os profissionais da informática, e que será aprofundado no item 2.5.3, infra.

Não obstante a divergência apontada, e ainda que se venha a concluir que a informatização diga respeito ao procedimento e não ao processo propriamente dito, fato é que a adoção de novas tecnologias da informação implica a reformulação dos chamados princípios processuais e até mesmo na inserção de novos, como passaremos a analisar.

2.4.3 Princípios processuais: uma visão remodelada a partir das novas tecnologias da