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1.14 O ARQUIPÉLAGO, AS ILHAS E O “DELTA DO JACUÍ”

De fato, a região encantou a muitos viajantes estrangeiros dos séculos XVIII e XIX,

como Mulhall e Saint’Hilaire, que por ali passaram e deixaram suas impressões em textos que

exaltavam a beleza natural na mistura de águas e terras. Esqueceram, no entanto, de descrever

“os habitantes das ilhas que, com seu trabalho, construíram uma vida comunitária” (GOMES;

MACHADO; VENTIMIGLIA, 1995, p. 14). Esse “olhar estrangeiro”, de quem está “de fora”,

também acomete aos próprios porto-alegrenses. Para muitos deles, talvez a maioria, as ilhas

não passam de uma paisagem; de um adereço ao pôr-do-sol do Guaíba.

78 De acordo com Baierle (2007) esta é a idéia de Porto Alegre que aparece ao “visitante desavisado” através de ruas asfaltadas, arborização, boa limpeza urbana, transporte coletivo eficiente.

79 Isso pode ser ilustrado pelo título de um dos livros da série Memória dos Bairros que trata do “Arquipélago”. No título o nome do bairro é seguido de “as ilhas de Porto Alegre”. Uma explicação necessária para muitos moradores da Capital.

80 Esta região situa-se na porção centro-oriental do estado do Rio Grande do Sul e está distribuída numa área de cinco municípios da Região Metropolitana - Porto Alegre, Canoas, Nova Santa Rita, Triunfo e Eldorado do Sul (CHIAPETTI, 2005). Na região existem 18 ilhas, das quais 16 pertencem a Porto Alegre e formam o Bairro Arquipélago.

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Figura 1 – As ilhas do Delta do Jacuí

Fonte: PREFEITURA MUNICIPAL, 1995.

Nosso olhar sobre o Guaíba, o pôr-do-sol, orgulho dos porto-alegrenses, talvez não tivesse o mesmo significado caso não tivéssemos também inserido nesse quadro natural a imensa cobertura vegetal que cobre as ilhas do Delta do Jacuí. Quem sabe também o que nos encanta no Guaíba não é o contraste da lâmina d’água com o verde da vegetação e o contorno das ilhas, a geografia dos seus canais, a sensualidade natural exposta nas suas formas arredondadas? No estudo do Delta do Jacuí, temos que considerar também o seu significado para a cultura porto-alegrense, agregado à nossa percepção enquanto moradores do seu entorno. (CHIAPETTI, 2005, p. 22).

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Nesta citação de Chiapetti, observa-se a percepção de quem mora no “entorno” e a

referência à região como sendo pertencente ao “Delta do Jacuí”. Pois bem, além da beleza

paisagística, as ilhas do “Delta” podem ainda ser vistas pela sua função. Daí a serem

reconhecidas por sua importância ambiental: por ser uma “área verde” de “alta produtividade

biológica” e que funciona tanto como “filtro natural”, quanto como uma proteção contra as

cheias dos rios Jacuí, Caí, Gravataí e Sinos (GOMES; MACHADO; VENTIMIGLIA, 1995,

p. 9-10; CHIAPETTI, 2005, p. 32). É a chamada função de “esponja” que é constantemente

atribuída às ilhas

81

.

Esta visão considera as ilhas como uma “paisagem natural” que está “fortemente

alterada pelo uso e ocupação verificados ao longo do Delta do Jacuí”. Esta alteração se dá

através da agricultura, da pecuária e das habitações que se situam, principalmente, nas

margens das ilhas e ao longo da BR 116, por serem estas áreas mais elevadas e de inundação

mais difícil. (CHIAPETTI, 2005, p. 34).

Foi mais ou menos com essa visão que, em 1976, foi criado, por decreto do então

Governador Sinval Guazzellli (Decreto nº 24.385), o Parque Estadual Delta do Jacuí (PEDJ),

do qual o Arquipélago passou a fazer parte. Neste decreto as ilhas são consideradas

literalmente como “área verde”, que funcionam como “filtro natural” das águas dos “rios, os

quais possuem os mais altos índices de poluição do estado”, garantido, assim a “potabilidade

das águas do Guaíba”. Outra função das ilhas, expressa no Decreto, é a de “proporcionar lazer

para a população da capital”. A administração do Parque é confiada à Fundação Zoobotânica

(FZB), com o auxílio do Conselho de Coordenação e Orientação do PEDJ

82

.

Entretanto, a idéia do Parque não foi um ato isolado do Governo do Estado. De 1962

até 1978 uma equipe multidisciplinar realizou uma série de estudos gerais sobre o ambiente

natural de Porto Alegre, sendo que o tema Delta foi abordado com exclusividade entre 1976 e

81 De acordo com Chiapetti (2005), as áreas alagadiças do interior das ilhas têm essa função de represar as águas e servir de filtro. Portanto, são áreas inadequadas para a habitação, não só por serem insalubres, mas também devido à sua importância para o ecossistema. Entretanto, mesmo as áreas marginais devem ser preservadas, pois sua vegetação de maior porte impede os processos erosivos.

82 Criado em novembro de 1976, pelo Decreto nº 25.091. Era constituído por sete representantes de órgãos municipais e do estado, dentre eles havia representantes da área ambiental, mas também do planejamento, por exemplo. Em março de 1979, com o Decreto nº 28.611, o Conselho é alterado recebendo representantes de todas as prefeituras que o Parque abarcava, além de outros representantes de secretarias do estado, chegando a onze membros (FRANTZ, 2010, p. 3-4).

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1978, o que viria a se chamar Grupo de Planejamento do Parque Estadual Delta do Jacuí

(PLANDEL). Esse grupo, composto por 32 técnicos e 68 auxiliares, elaborou o Plano Básico

do Parque, publicado em 1979 na série Planejamento Municipal

83

, em que se encontram

resumidos os trabalhos das diversas equipes

84

. O Parque também era um dos anseios da

organização ambientalista Amigos da Terra. Esta organização realizou entre os anos de 1974

e 1975 uma campanha pela preservação da ilhas do Guaíba “em seu estado natural”

85

.

A criação do Parque tinha, portanto, objetivos meramente preservacionistas, sendo as

populações ali existentes vistas normalmente como vilãs e responsáveis pelo processo de

degradação do ambiente natural. Isto somado ao contexto político da época (em plena

ditadura militar) resulta em um conjunto de decisões que foram tomadas sem a participação,

ou mesmo a escuta, da população local (MOSCARELLI et al., 2005).

Em janeiro de 1979, o Decreto nº 28.161 ampliou a área do PEDJ para incluir as

planícies de inundação dos rios Caí, dos Sinos e Jacuí. Em fevereiro de 1979, o decreto nº

28.436 institui o Plano Básico do Parque Estadual Delta do Jacuí. O objetivo era disciplinar a

ocupação, os usos, os serviços e as atividades no Parque. Com o Plano Básico a área do

Parque fica subdividida em 5 ( cinco ) zonas:

Zona de Reserva Biológica (ZRB) - são áreas de proteção integral da flora, fauna e seu

substrato em conjunto, podendo “cumprir objetivos científicos, educacionais e servir como

bancos genéticos”.

Zona de Reserva Natural (ZRN) – semelhante a anterior, porém permitindo a “instalação de

uso público e interesse social ou manutenção transitória dos usos humanos existentes”, tais

como “atividades agrícolas e zootécnicas já existentes em escala reduzida” que devem ser

compatíveis com a conservação do ambiente natural”. Tais áreas poderiam ser usadas para a

construção de embarcadouros, Clubes ou Centros Culturais, Sociais, Recreativos e Esportivos,

Áreas de Recreação Pública e Postos Meteorológicos.

83 Os demais levantamentos e análises das diversas áreas do conhecimento envolvidas formam um conjunto de textos que não foram editados.

84 Conforme o depoimento de um dos seus integrantes.

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Zona de Parque Natural (ZPN) – “correspondem a áreas em que se pretende resguardar

atributos excepcionais da natureza, conciliando a proteção da flora, da fauna e das belezas

naturais, com a utilização para objetivos educacionais, científicos e de lazer” (grifo meu).

Zona de Uso Restrito (ZUR) – “admitem a liberação de funções para atividade do próprio

Parque como para determinados tipos de ocupação particular”, tais como: parque para

acampamento; residências unifamiliares; jardins botânicos; viveiros de plantas nativas; postos

de abastecimentos de combustível; restaurantes e hotéis; instalações administrativas e

culturais do parque.

Zona de Ocupação Urbana (ZOU) – “correspondem a áreas onde, já existente este uso, as

condições permitem a sua manutenção dentro de determinadas características, adaptadas às

necessidades e limitações das ilhas e do Parque”. Conforme Branco Filho e Basso (2005) esta

zona corresponderia apenas à Ilha da Pintada.

As zonas ZRN, ZUR, ZOU, teriam legislações específicas, o que acabou não

acontecendo, com exceção da Ilha da Pintada, por se tratar de uma zona urbana anterior à

criação do Parque (CHIAPETTI, 2005, p. 48). Haveria ainda (Cfe. o Art. 3º) uma “Zona

Crítica”, “onde as interferências humanas levaram a condições que prejudicam a sua

utilização” e cuja Zona, de acordo com o Decreto, será definida “após superados os problemas

determinantes de sua caracterização”. Essa Zona Crítica ficou definida como a Ilha da Coroa

dos Bagres, inteiramente degradada pela retirada de areia para o aterro da Praia de Belas; e a

Ilha do Pavão, utilizada como destino dos resíduos sólidos da Capital no período entre 1973 e

1976 (BRANCO FILHO; BASSO, 2005).

Conforme o Plano Básico, não seriam permitidos aterros nem drenagens, e a

remoção ou eliminação de árvores ou de qualquer espécie de vegetação só poderia ocorrer em

casos especiais, com autorização expressa do órgão administrativo do Parque. Também estava

prevista a recuperação da vegetação das margens, mas proibia-se o plantio de espécies

ornamentais exóticas.

S

erviços essenciais, como água, luz, esgoto e lixo, deveriam ser

providenciados pelos proprietários ou usuários, não tendo a administração do Parque ou a

municipalidade qualquer responsabilidade pelo provimento dos mesmos.

115

Para Moscarelli et al. (2005, p. 6), tal situação poderia ser facilmente assimilada por

aqueles moradores que vivem, ainda hoje, do pescado ou de alguma atividade relacionada à

pecuária. Porém, torna-se inviável para “uma população de baixo poder econômico, pouco

conhecimento ambiental, fixada de forma extremamente adensada e não dependente dos

recursos naturais locais para sua subsistência”. Em uma análise crítica, os autores afirmam

que o PLANDEL teria subestimado o poder de atração que o local exerce, mesmo diante das

condições adversas (riscos de inundação, falta de infra-estrutura e irregularidade fundiária).

Por outro lado, acreditava-se no “poder de polícia para a gradual retirada da população”, não

havendo a intenção de qualificar as habitações e a malha existente. Havia um reconhecimento

da realidade de pressão antrópica, porém não se observaram políticas de inclusão desta população nas diretrizes previstas. Verifica-se o objetivo de manter os valores culturais tradicionais, reconhecendo as antigas ocupações de pescadores e agricultores. Porém o plano pressupõe a gradual extinção das sub-habitações devido a fatores como a inexistência de posse fundiária, o crescimento dos usos característicos de Parque e os altos custos para sua urbanização (MOSCARELLI et al., 2005, p. 5).

Nas décadas seguintes, a ocupação nas zonas do parque foi se intensificando,

sobretudo na borda da Ilha Grande dos Marinheiros (ao longo do canal do Furado Grande), na

Ilha das Flores (canal do Rio Jacuí e ao longo da rodovia) e nas margens do Rio Jacuí, na Ilha

da Pintada e no município de Eldorado do Sul (CHIAPETTI, 2005).

Em 1997, um Decreto do Governador Antônio Britto (Decreto nº 37.824) criou o

Conselho Consultivo do Parque Estadual Delta do Jacui. O Conselho tinha como objetivo

viabilizar a implantação do Parque e a elaboração do Plano de Manejo e seria presidido pelo

Secretário de Estado da Agricultura e Abastecimento, tendo como Vice-Presidente o

Diretor-Superintendente da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul. Contaria, ainda, com

representantes dos seguintes órgãos e entidades: Procuradoria-Geral do Estado; FEPAM;

Fundação Metropolitana de Planejamento - METROPLAN; Departamento de Recursos

Naturais Renováveis da Secretaria da Agricultura e Abastecimento; Departamento de

Recursos Hídricos da Secretaria de Obras, Saneamento e Habitação; Brigada Militar;

prefeituras de Canoas, Nova Santa Rita, Eldorado do Sul e Triunfo; Assembléia Legislativa e

Organizações não governamentais. Novamente a população local não é considerada.

Em julho do ano 2000, o Decreto nº 40.166 vedou qualquer nova intervenção na área

do Parque por prazo indeterminado (FRANTZ, 2010). Com a criação da Secretaria Estadual

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do Meio Ambiente - SEMA, em 2000, há uma mudança no órgão gestor do Parque e, com

isso, novos atores sociais foram inseridos no processo de implantação do PEDJ. Estes,

alinhados ao conceito de conservação, adotaram uma postura de conciliação instituindo, nas

áreas ocupadas, uma área de amortecimento. Mas esta primeira proposta não teve aceitação

dos atores envolvidos nas discussões (MOSCARELLI, et al., 2005). Em 2001, a

administração do Parque Estadual do Delta do Jacuí foi transferida para a recém criada

Secretaria do Meio Ambiente pelo Decreto nº 40.812, de 06/06/01. Em 2002 foi votada e

aprovada pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente a desafetação da área ocupada. Este

termo significa que a área mudaria de finalidade, deixando de ser área de Parque. A proposta

também não se desenvolveu, culminando, em 2004, em uma nova proposta. Esta pretendia

transformar a área ocupada em Área de Proteção Ambiental (APA), criando uma Unidade de

Conservação que abrangia a área de APA e de Reserva biológica (MOSCARELLI et al.2005,

p. 4). Em setembro de 2004, o Governador em exercício Antônio Holfeldt, a partir do o

Decreto nº 43.367, criou a Área de Proteção Ambiental Delta do Jacuí, delimitando uma área

que permitia a ocupação humana de maneira sustentável. Esse decreto criava a Reserva

Biológica dos Banhados do Delta, uma zona de proteção integral que objetivava manter os

banhados “livres de alterações causadas por interferência humana direta ou modificações

ambientais” (FRANTZ, 2010, p. 4). Com isso “acirraram-se conflitos entre diversos grupos

(ONG’s, comunidades, órgãos ambientais e outras entidades do Estado e da sociedade civil)

sobre a forma de ocupação e interpretação de categorias de áreas de preservação para esse

espaço” (MOSCARELLI et al.2005, p. 4).

Em outubro de 2004 o Núcleo Amigos da Terra e a Rede de ONGs da Mata Atlântica

protocolaram no Tribunal de Justiça uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra o

Decreto. No mesmo mês, uma Audiência Pública reuniu moradores e ecologistas no

Ministério Público

86

. De um lado, os moradores exigiam solução para o problema da falta de

saneamento que se arrastava há 30 anos. De outro, os ecologistas e técnicos de instituições de

proteção ambiental alertavam para a inconstitucionalidade do decreto e os riscos que a medida

do governo representava para a preservação daquele ecossistema. Neste contexto de disputas,

em dezembro de 2004 foi aprovado na Câmara Técnica de Política Florestal e Biodiversidade,

órgão que faz parte do CONSEMA, a manutenção da categoria Parque inserida em APA. Tal

86 O conteúdo desta AP a seguir foi extraído do sítio da EcoAgência de Notícias

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resolução visava contemplar a realidade em que o PEDJ estava inserido, “tanto das formas de

ocupação quanto de conservação/preservação do seu ecossistema” (MOSCARELLI et

al.2005, p. 5).

Em março de 2005, a Ação Popular movida pelos ambientalistas junto ao Ministério

Público conseguiu suspender o Decreto tendo como uma de suas justificativas a de que a

matéria deveria passar, por exigência constitucional, “sob o crivo da Assembléia Legislativa,

via projeto de lei”

87

. Em 30 de junho de 2005, foi entregue o projeto de lei para redefinição

dos limites do Parque Estadual Delta do Jacuí, elaborado pelo Departamento de Florestas e

Áreas Protegidas – DEFAPA, da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (MOSCARELLI et

al.2005). Em novembro de 2005, é aprovada na Assembléia Legislativa a Lei Estadual

12.371/05, que cria o Parque Estadual Delta do Jacuí (PEDJ) e a Área de Proteção Ambiental

Estadual Delta do Jacuí (APAEDJ).

A administração das unidades ficou a cargo da SEMA, porém, devia ser feita de

forma participativa com o Conselho Deliberativo, para a APA, e com o Conselho Consultivo,

para o PEDJ. Desta vez são incluídos, em ambos os conselhos, representantes das

organizações locais, além das organizações civis e órgãos públicos. Os conselhos deveriam

elaborar seus próprios regimentos, com uma única ressalva, quem estivesse em um conselho

não poderia participar do outro. A SEMA ficou responsável pela elaboração dos Planos de

Manejo, devendo, no processo de elaboração, ouvir os respectivos conselhos (FRANTZ,

2010).

Mesmo assim, ao final de 2009, um comunicado da SEMA afirmava que os termos

de referência para a regularização fundiária e os Planos de Manejo ainda estariam em

elaboração por “equipes técnicas”, o que, obviamente, não incluía membros da comunidade.

Em 2009 foi elaborado um Plano de Ações Emergenciais com o auxílio do Conselho

Deliberativo da APA (aí sim incluindo representantes da comunidade) para, minimamente,

orientar algumas ações na região

88

. De acordo com este documento, as terras pertencentes aos

limites da APAEDJ são de uso privado e pertencem aos seus proprietários que já possuem o

registro, ou podem ser regularizadas por aqueles que não possuem. Já as terras pertencentes

87http://www.mp.rs.gov.br/ambiente/noticias/id65.htm, acesso em 09/03/2011

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ao PEDJ deverão ser adquiridas pelo Estado do RS, pois são áreas destinadas à “proteção

integral dos ecossistemas sem a presença da ocupação humana”.

Contudo, a discussão sobre o “Delta”, da forma como até aqui foi vista, representa

uma abordagem bastante parcial da realidade daquele território. Ela faz menção apenas ao

PEDJ e o conjunto de leis e medidas que o criou, com pouca ou nenhuma descrição dos

processos políticos e das ações efetivadas, tanto por parte dos órgãos responsáveis pela gestão

do Parque, quanto pela população local. Fala-se bastante da incapacidade e descaso do poder

público em solucionar o “problema do Delta”, este, entendido como decorrência da ocupação

humana desordenada. Ainda assim, esta é apenas uma das maneiras de ver as ilhas, cujo ponto

de partida é a criação do PEDJ e seus desdobramentos.

Criou-se uma legislação acreditando que ela, por si mesma, seria suficiente para

preservar uma região. Na sua elaboração os ilhéus não foram ouvidos sobre o que tinham a

dizer. “Estavam tão fascinados pela natureza, pela beleza do local que se esqueceram do

homem. Descreveram uma paisagem sem o homem, sem aquele que é capaz de criar uma

cultura, um modo de vida próprio” (GOMES; MACHADO; VENTIMIGLIA, 1995). Mas

quem são essas pessoas que habitam as ilhas? Qual é esse “modo de vida próprio” que

aparece em vários textos, inclusive o do site da Prefeitura? Novamente a visão objetiva de

quem está de fora fornece inúmeras descrições que se reproduzem no imaginário do

porto-alegrense sobre a região.

A visão sobre as pessoas que habitam as ilhas é marcada pela ambigüidade. De um

lado, há um certo romantismo em algumas narrativas que retratam os habitantes como

moradores tradicionais que vivem da natureza. De outro, existe a visão do lixo e da miséria:

de que o “pessoal das ilhas” é gente pobre, que vive do lixo e que precisa de assistência.

As publicações oficiais dão conta de que a primeira ocupação das ilhas do

Arquipélago foi de índios guaranis. Posteriormente, vieram os açorianos e, depois, os

escravos. No início do século XIX, as Ilhas abasteciam o centro da cidade com seus produtos,

principalmente capim, hortaliças e peixes, mas, a partir do final desse século, a pesca passou a

ser a principal atividade econômica dos ilhéus. Foi assim até meados de 1970: a pesca era

artesanal e abundante, sendo o barco o meio de transporte por excelência. Com o processo de

119

desenvolvimento urbano da cidade, altera-se o modo de vida de seus habitantes. A construção

da rodovia BR 116/290, com seu conjunto de pontes

89

que liga as ilhas ao Centro da capital,

fez diminuir o uso do transporte fluvial. Por sua proximidade e facilidade de acesso ao Centro

da cidade, houve significativo aumento populacional na região. (GOMES; MACHADO;

VENTIMIGLIA, 1995; OBSERVATÓRIO, 2008). Com isso era viabilizado o escoamento

da produção “a seco”, impulsionando, assim, a indústria automotiva. Conforme Baierle

(2007), é justamente a substituição do padrão rodoviário, em substituição ao ferroviário,

ocorrido nesse período, que vai favorecer a consolidação das favelas como uma alternativa

efetiva para a moradia popular em Porto Alegre

90

.

Portanto, a construção das pontes foi um elemento que intensificou o processo de

ocupação das ilhas vinte anos antes dos estudos realizados pelo PLANDEL para a

implantação efetiva do Parque. Ora, em vinte anos muita água já havia rolado por debaixo

daquelas pontes e as consequências do êxodo rural já seriam bastante visíveis. Com a

modernização da agricultura, muitas famílias começaram a ocupar as ilhas, por serem um

local relativamente próximo ao centro da capital, onde se poderia buscar alimentação e

trabalho e onde poderiam desenvolver alguma atividade de subsistência.

Apesar de já haver uma relativa urbanização na Ilha da Pintada, em conseqüência da

instalação do Estaleiro Mabilde no final do Século XIX, com a construção das pontes em

1959, começou um processo de ocupação do território de maneira mais intensa. As margens

da rodovia foram aterradas e representavam um local relativamente protegido contra as

cheias. Havia uma relativa facilidade para as pessoas ali se instalarem, pois, como dizem

alguns moradores mais antigos, era só “pegar um pedacinho de mato” (moradora Ilha da

89 Trata-se da travessia Getúlio Vargas, concluída em 1959, que permitiu a ligação a seco entre Porto Alegre e a zona sul via BR 116/290. Com seu complexo de pontes, que ligam as Ilhas da Pintada, Flores, Grande dos