Markus Lasch, no artigo “Em câmara lenta: representações do trauma no romance de Renato Tapajós”, publicado em 2010, inicia com uma divisão da crítica do romance em três linhagens. A primeira se enquadra no que Flora Süssekind chamou de “literatura-verdade”, ou seja, a obra suscitaria um interesse antes sociológico que literário. Obras como O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira, Os
carbonários, de Alfredo Sirkis, e A fuga, de Reinaldo Guarany se oporiam aos
melhores romances da época que, citando Dalcastagnè, são aqueles que conseguem transitar “com competência e elegância” da história à ficção. Dentre esses romances figuram Reflexos do baile, de Antônio Callado, A festa, de Ivan Ângelo, e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. A segunda linhagem observa os aspectos estéticos do romance ligando-os aos aspectos éticos do romance. Nessa perspectiva está a leitura de Antonio Candido no parecer inserido no processo que se seguiu à prisão de Renato Tapajós pela publicação do livro. Se essa leitura do romance é, segundo o ensaísta, evidentemente interessada em livrar o escritor e militante da repressão, numa outra leitura presente no artigo “O papel do Brasil na nova narrativa”, o crítico aponta o livro como uma amostra honrosa de uma “geração da repressão”, atestando, como aponta Lasch, ao romance uma técnica ficcional avançada. Apontam-se como pertencentes a essa linhagem um artigo de Jaime Ginzburg e dois trabalhos de orientandos seus acerca
do narrador e do foco narrativo de Em câmara lenta11. A terceira linhagem engloba
aqueles trabalhos que olham para o texto com um interesse primordialmente sócio- político, e que acabam por opor o romance a um rol de obras da mesma época que seriam, supostamente, superiores à obra de Renato Tapajós. Ícone dessa linhagem, para Lasch, são os trabalhos de Renato Franco. Se, por um lado, o crítico defende a obra de Tapajós das críticas de Flora Süssekind, por outro lado observa desequilíbrios formais no livro e acaba por opor Em câmara lenta a outros romances ditos originais.
Lasch, em seguida, esclarece que argumentará “em prol do trauma causado por tortura e morte como centro gravitacional do livro: é aparentemente ao choque do corpo violado que se ligam a desorientação, o abalo das convicções políticas e o sacrifício final do herói-anti-herói militante” e que sua leitura do romance inscreve-se na segunda das linhagens críticas apresentadas (LASCH, 2010, p. 3). Conforme Lasch, o fio principal da narrativa é o desejo angustiado de um militante em conhecer detalhes acerca da morte de sua companheira. Paralela a essa história, há a história de instaurar uma guerrilha rural na Amazônia e, por outro lado, a saga da guerrilha urbana, protagonizada pelas personagens Marta, Fernando e Sérgio. Destaca a alternância do foco narrativo e o entrelaçamento de cenas como, num primeiro momento, dificuldades para a recepção do romance. Para além desses traços, o que torna o texto de ainda mais difícil apreensão é o grau de violência ali representada. Concordo plenamente com o crítico. Nós, leitores brasileiros, apesar de termos a violência enquanto elemento constitutivo da nossa sociedade, não conhecemos, com propriedade, a história dessa violência que nos cerca e nos constitui. A ditadura ainda é assunto polêmico, não discutido em todas as suas esferas na educação e na sociedade em geral. Sendo assim, um texto no formato do romance de Renato Tapajós incomoda, causa mal-estar, é repudiante, sobretudo para o tipo de leitor moldado às convicções do romântico Schelling, conforme aponta Jaime Ginzburg (2012) em seu ensaio.
Marcus Lasch apresenta uma reflexão envolvendo o foco narrativo do texto. Como ele mesmo lembra, é ponto pacífico que pessoa gramatical e foco narrativo não são a mesma coisa, e que, para ele, a perspectiva narrativa do romance está mais para
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PINTO JR., Jayme Alberto da Costa. O narrador de Em câmara lenta, de Renato Tapajós. In: Literatura
e Autoritarismo: Dossiê “Escritas da Violência”. Universidade Federal de Santa Maria, 2008 e COSTA,
Carlos Augusto. O foco narrativo do romance Em câmara lenta: o problema da alternância e suas relações com a violência histórica. In: Literatura e Autoritarismo: Dossiê “Escritas da Violência II”. Universidade Federal de Santa Maria, 2010.
um “ele” do que de um “eu”. Os esforços e efeitos de distanciamento e despersonalização que se operam no romance, como, por exemplo, na caracterização das personagens, ponto que o crítico lembra que Renato Franco classificou como um desequilíbrio formal, clamam na leitura pelo “real” e pelo autobiográfico. Segundo Lasch, cenas de tortura e morte da personagem militante precisam ser necessariamente autênticas e de alguma forma vivenciadas, porque, para ele, seria, no mínimo, de mau gosto inventar algo semelhante, perverso e até desumano. Adiante recorre a um acontecimento narrado por Maria Rita Kehl no prefácio da coletânea O corpo torturado para aproximar o ocorrido com Renato Tapajós e o romance Em câmara lenta. Lembra- se da passagem de A citação privada, em que Ricardo Piglia recorda a conhecida cena de 3 de janeiro de 1888, em Turim, na qual o filósofo Nietzsche chora, abraçado ao pescoço do animal depois de ver como o cocheiro maltratava o animal. Piglia também lembra que a cena é uma repetição literal de uma passagem em Crime e castigo, de Dostoiévski – parte 1, capítulo 5 –, em que Raskolnikov sonha com camponeses bêbados que batem num cavalo até matá-lo. Segundo Lasch, “a identificação de Nietzsche com a dor do cavalo é em última instância efeito do poder da literatura, é efeito de uma memória falsa causada pela literatura” (Ibid., p. 7). A partir de um trecho de entrevista do escritor paraense, no qual ele comenta que cresceu rodeado por livros e que leu muita coisa durante sua infância e adolescência, Lasch acha conveniente aproximar o ocorrido com o filósofo alemão com o ocorrido ao escritor Renato Tapajós. Questiona se “não poderíamos imaginar a força da literatura, a (falsa) identificação, atuando também no pólo oposto ao da recepção, ou seja, no da produção? Neste sentido, o escritor, que também é leitor, seria secundado pela agora positivamente falsa memória justamente lá onde o trauma deixou a ferida na memória, impedindo a representação do evento traumático” (LASCH, 2010, p. 7). Próximo ao fim do texto, Lasch parte para um reflexão rápida acerca da pulsão de morte por meio de Sandor Ferenczi, discípulo de Freud.
Finaliza afirmando que os procedimentos misteriosos da literatura operam no livro, tornando real o que é ficcional e ficcional o que foi demasiadamente real. É a literatura que permitiu a representação daquilo que se nega à representação e também é a literatura que, ainda que por poucos momentos, nos move e comove.