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O livro de Malcolm Silverman (2000): um “romance memorial”

Em 2000 é publicado o livro Protesto e o novo romance brasileiro, fruto da pesquisa do estadunidense Malcolm Silverman. Na “Apresentação” do livro constata que no campo das ciências sociais tem surgido considerável material acerca dos acontecimentos de 1964 e dos anos seguintes. Entretanto, destaca a pouca quantidade de livros que examinam de forma crítica o romance produzido nesse período. Silverman apresenta seu livro como um estudo sintético, da mais ampla abrangência, de romances e das técnicas narrativas empregadas para revelar, questionar, e contestar o que ocorreu em terras brasileiras pouco antes de 1964 até anos de 1980. Segundo o autor, o estudo inclui romances reconhecidos (a) pela qualidade estética e (b) também pelo valor documental. Para justificar a inclusão do segundo tipo de romance, recorre a Seymour Menton, crítico que observa a importância de trabalhos de arte menores para esclarecer características e movimentos nacionais e, independentemente de sua qualidade, ou até mesmo por sua falta, ajudam o estudo da história social do período a que se referem. Adverte que sua principal intenção com o estudo é apresentar “um amplo corte transversal, mais do que uma análise minuciosa e necessariamente limitada”

(SILVERMAN, 2000, p. 14). A obra é composta por nove capítulos, e em cada capítulo é discutida uma categoria de romance: jornalístico, memorial, da massificação, de costumes urbanos, intimista, regionalista-histórico, realista-político, da sátira política absurda e da sátira política surrealista. O livro de Renato Tapajós está situado no segundo capítulo, isto é, como “romance memorial”.

Silverman inicia o capítulo falando acerca da memória e de sua intrínseca relação com a prosa, afirmando que, por definição, o memorialismo é autobiográfico e, sendo assim, um espelho inseparável do próprio autor, de forma individual ou enquanto sociedade. Diz que a mistura de documentário e ego subjetivo chegou a novas alturas no Brasil com o fim da censura após 1978, que se evidenciou na produção tanto da direita quanto da esquerda política brasileira, que lançaram uma torrente de memórias da vida real, a qual ele nomeia de “literatura do eu”. Essas obras tratam de acontecimentos desencadeados pelo golpe de 64 que, curiosamente, o brasilianista chama de “Revolução de 1964”; em outras passagens, aparece a expressão “golpe”. Numa nota de rodapé, Malcolm Silverman esclarece que, apesar de os acontecimentos de 31 de março de 1964 poderem ser alinhados mais com a definição de um golpe militar, “Revolução”, termo próprio a que ele aproxima dos “vitoriosos”, será usado de modo intercambiável para refletir as ambiguidades semânticas e contradições que são parte do Brasil durante esse período.Numa passagem mais à frente, ao se referir a determinada passagem do romance O dia de Ângelo, de Frei Betto, na qual o romancista cita Vladimir Herzog e Rubens Paiva9, Silverman refere-se a ambos como “dois dos mais famosos mártires da “ditadura” (Ibid., p. 67). Revela que o memorialismo ficcionalizado é um híbrido mais

literário, mais variado e predominante. Diz também que é mais difícil de definir exatamente quando os fatos acabam e começa a ficção, real e ficção se misturam dentro

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Vladimir Herzog é um jornalista de 38 anos que, na época, ocupava o cargo de diretor de jornalismo da

TV Cultura de São Paulo, que foi encontrado morto nas dependências do 2º Exército, em São Paulo, no

dia 25 de outubro de 1975. No diaseguinte, o comando do Departamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), órgão de repressão do exército brasileiro, divulgou nota oficial informando que Herzog havia cometido suicídio na cela em que estava preso. A foto do jornalista na cela supostamente morto por enforcamento é uma das mais conhecidas do período. Rubens Paiva é um ex-deputado sequestrado e morto, sob tortura, em 1971 por integrantes da repressão militar brasileira. No final do ano de 2012, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, entregou ao coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Claudio Fonteles, os documentos que comprovam que o ex-deputado passou pelo Destacamento de Operações e Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), no Rio de Janeiro, durante o regime militar. Ele é um dos 183 desaparecidos políticos com o paradeiro a ser investigado.

da obra. Silverman lembra que desde o seu início o romance brasileiro, sobretudo o psicológico, tem uma tendência à inclusão de elementos autobiográficos. Machado de Assis, Lima Barreto e Raul Pompéia, conforme o autor, estão entre os primeiros e maiores praticantes. A variação desse fenômeno pós-64 desenvolveu-se em dois planos paralelos: da paródia surrealista não convencional até a autobiografia ficcionalizada mais identificável. Em Machado, por exemplo, iriam de Memórias póstumas de Brás

Cubas a Dom Casmurro e Memorial de Aires. Dando seguimento ao texto, Silverman

diz que a popularidade, nos últimos 25 anos, dos livros de memórias e, ainda que em menor escala, dos romances memorialistas, pode ser atribuída às necessidades simbióticas e catárticas do leitor e do escritor. Segundo ele, o escritor, originário da mesma classe média que inicialmente apoiou o golpe militar, voltou-se para si mesmo em busca de uma expiação, enquanto seus descendentes, crescidos no Brasil pós-64, procuravam simplesmente familiarizar-se com os acontecimentos distantes para melhor entender dilemas que enfrentavam.

Em seguida, faz uma pequena reflexão acerca do depoimento quase factual e do testemunho. Destaco o trecho:

Em termos estéticos, esse memorialismo político é reconhecidamente um passo atrás, especialmente quando porta as “marcas” da tortura. Afinal de contas, sua meta declarada é expor, objetivamente, e em detalhes, casos de violência física e psicológica envolvendo órgãos de repressão do governo. Assim o fazendo, diminui necessariamente, ou até elimina, qualquer pretensão de atributos ficcionais. Entretanto, esses casos de “vampirização de experiências históricas” também aparecem. Documentário francamente de oposição, sem pretensões literárias, descreve a forma mais rudimentar de depoimento, praticado preponderantemente por ex-ativistas políticos ao mesmo tempo jovens e ficcionalmente inexperientes (SILVERMAN, 2010, p. 63).

Acrescenta ainda, numa nota de rodapé, que a maioria desses trabalhos tende a vir “sob as mesmas poucas rubricas familiares”: a Alfa-Omega, de São Paulo, e a Codecri, do Rio de Janeiro, sendo justamente a primeira editora a responsável pela publicação de

Em câmara lenta. De antemão sabe-se que, para o crítico, a obra está no rol daquelas

“sem pretensões literárias” e cuja meta é apenas expor objetivamente casos de violência física e psicológica envolvendo órgãos repressivos do governo. Ainda que esses textos se prestassem somente a isso, o que não corresponde à realidade, já seria de grande valia para a sociedade brasileira e ocupariam um lugar de destaque e relevância na nossa história. A presença da tortura não é fator determinante para que se tenha ficção. A

discussão engendra caminhos muito mais densos que passam por limites não tão claros e contornáveis como possa parecer10.

Então, inicia o percurso pelos romances memoriais começando com Guerra é

guerra, dizia o torturador, de Indio Vargas, passando por Tempo de ameaça, de

Rodolfo Konder, e Os carbonários, de Alfredo Sirkis, até chegar ao romance de Renato Tapajós. Diz que as cenas excruciantes de tortura são explícitas, repetidas e prolongadas pelo estilo arrastado do autor, “a ponto de amortecer o choque inicial, se não a compaixão que provoca” (Ibid., p. 65). Diz que nessas cenas o autor usa tanto a primeira quanto a terceira pessoa, às vezes se distanciando do envolvimento pessoal, comum ao depoimento político convencional. Atenua que “uma maior atenção à técnica narrativa é aparente em dois depoimentos de estágio ‘intermediário’”, em que se consegue uma recriação aguda e incansável do sofrimento da ditadura. Quanto ao tema, segundo Silverman, prevalece o tom de impotência, de futilidade da luta armada, nascida da desilusão, e não do medo da tortura. Sintetiza afirmando que, à exceção do autobiográfico narrador-protagonista, os demais personagens são apresentados do ponto de vista coletivo, indistinguíveis exceto pela caracterização esquerda-direita que reduz a todos a uma alegoria do bem contra o mal.

9. O livro de Mário Augusto Medeiros da Silva (2008): ficção e guerrilha