• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO III: ELEMENTOS TRADICIONAIS NA CONGADA

3.2 O aspecto religioso na congada

Congados, congo ou congada são palavras utilizadas nos escritos de folcloristas e autores brasileiros para designar um fenômeno cultural que é descrito de diversas maneiras: Câmara Cascudo chamou-a de auto; Mário de Andrade, de dança dramática; Edison Carneiro preferiu debater com Mário de Andrade negando a pertinência do termo por ele utilizado e voltar aos termos danças, cortejos, desfiles, autos ou jogos, que considerava mais apropriados. Certamente, pelo exposto, é possível concluir que não há um consenso sobre que tipo de manifestação cultural se está falando ao se tratar da congada (nem mesmo há uma única denominação para ela). Contudo, nas descrições que são feitas, há unanimidade quanto ao fator religioso que deu origem a ela.

Não apenas a congada, mas muitas manifestações que fazem parte do universo cultural brasileiro, estão alicerçadas sobre o ritual católico, com seu calendário litúrgico e seus santos. Os colonos portugueses professavam a fé cristã católica que trouxeram consigo da Europa e aclimataram em seu novo lar.

Segundo Roger Bastide (1959, p. 16), “eis que se abria ao catolicismo um mundo novo que ele podia moldar à sua feição: um continente virgem, a que podia impor o ritmo único das comemorações dos eventos da vida de Cristo”. Segundo o autor, o colono português, mais especificamente o clero católico aqui instalado, acabava utilizando-se de elementos do

59 cotidiano de escravos e índios para introduzir a evangelização, colocando essa tarefa como missão. Aliás, era obrigação dos colonos batizar os cativos ainda em território africano ou assim que desembarcavam na Colônia. A eles eram dados nomes cristãos e logo eram introduzidos nos hábitos referentes ao culto católico.

É importante compreender que as tradições de execução de autos e outras festas com temas cristãos já faziam parte do repertório cultural tanto em Portugal quanto no restante da Europa. Os padres que vieram para o Brasil com o intuito de contribuir para a colonização com sua missão evangelizadora, muitas vezes utilizaram esses recursos para se aproximar de indígenas e africanos. Sobre a presença dessas festividades de origem europeia no contexto colonial, sabe-se que os autos de Natal e outras dramatizações trazidas pelos padres jesuítas

incorporaram às partes litúrgicas pequenos e inocentes dramas que simulam, inclusive, cenas de visitações com cortejos processionais. Cortejos com cantos e danças estenderam-se dos primeiros rituais jesuíticos de catequese para os solenes festejos aos santos padroeiros ou santos de preceito católico mais amplo. Alegres danças, de que as folias portuguesas seriam um exemplo, faziam parte de dramatizações devocionais realizadas tanto no interior das igrejas quanto nas procissões que percorrem ruas de cidades e povoados. Elas aparecem em cerimônias litúrgicas dos seguintes ciclos e festas: Natal (até a Epifania), Páscoa, Pentecostes, Corpo de Deus (BRANDÃO, 1984, p. 61-62).

Um conjunto de costumes e ações festivas ligadas ao culto católico espalhou--se pelo território do Brasil e foi com o tempo sendo modificado e transformado em uma estrutura cultural própria da Colônia. Elementos indígenas e africanos foram aos poucos sendo incorporados, com ou sem a permissão dos colonos ou clérigos, dando ao universo cultural brasileiro características bastante peculiares.

Quer seja para manter os escravos passivos, aculturando-os e dando a ideia de que podiam também ter seus momentos de lazer e festas religiosas ou não, quer seja algo bastante diferente disso: a entrada da população negra nos esquemas culturais da Colônia incorporando alguns valores e mantendo outros que eram seus como forma de defesa. A realidade àquela época era a existência de ricas festividades ligadas à Igreja que foram se modificando ao longo do tempo, dando origem a tantas outras que hoje compõem o universo cultural brasileiro.

60 Ao descrever o ritual da congada, geralmente são mencionados os elementos que compõem essa manifestação cultural: a presença da devoção a um santo (Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia), a dramatização de uma luta (que podia ser travada entre mouros e cristãos, entre tribos africanas), a coroação dos reis congos, tudo isso regado a música, passos de dança e representações teatrais. Os congados percorrem as ruas vizinhas, visitam as casas, encenam suas lutas, cantam, dançam, coroam seus reis, participam de uma missa para o santo de devoção e terminam sua festa com um banquete, do qual todas as pessoas que participam do ritual ou estão presentes podem participar. Com algumas variações, esse é o ritual da congada que está presente em diferentes regiões do país.

Para alguns autores que elegem a escravidão como tema de estudo, a relação entre o catolicismo e a população negra deu-se em termos de sua utilização para a dominação dos escravos. Nesse sentido,

Trata-se de emprestar das civilizações africanas elementos utilizáveis, mas, trocando-lhes a função: por exemplo, a existência dos reinos africanos para sagrar os reis do Congo, mas no interior da igreja a fim de que os reis sirvam de intermediários entre o branco e a massa dos homens de cor na fiscalização dos costumes africanos [...] (BASTIDE, 1959, p. 19).

De fato, a religião cristã serviu de instrumento para certo controle dos colonos portugueses sobre a população africana que foi introduzida no ambiente da Colônia, como propõe Roger Bastide. Certamente não devem ser ignoradas as questões políticas, étnicas etc. na relação entre africanos e portugueses no contexto colonial, bem como as consequências dessa relação, sobretudo para os escravos. Acredita- se aqui, no entanto, que essa realidade era bem mais complexa e não se resumia apenas à dominação por parte dos colonos ou da aculturação por parte dos africanos. O que se quer destacar aqui, por hora, é que a presença dessa religiosidade nas relações colonos-escravos e a união entre elementos da cultura cristã e africana acabaram resultando em ricas manifestações culturais.

Contemporaneamente, a religiosidade ainda é o subsídio central da congada. E esse é um dos fatores que estão no âmago daquilo que é transmitido em termos de saberes nesse contexto cultural. As rezas, canções, memórias sobre um passado religioso estão presentes em todos os momentos de ensaios e da realização da congada em si. As pessoas que já conhecem os rituais, os passos, as melodias, acabam por se tornarem transmissoras desses saberes àqueles que se interessam por aprender. Aliados ao saber que está propriamente vinculado à

61 congada estão tantos outros que, intencionalmente ou não, são repassados de geração em geração.