CAPÍTULO IV: A COMUNIDADE DE PINHÕES – UM LUGAR, UM CAMINHO
4.8 Tradição, uma herança
4.8.3 Ser quilombola, ser negro
95 Nessa subcategoria, estão postas as falas dos adultos (dos mestres e da moradora da comunidade, chamada aqui de MG) e também dos jovens, a respeito dos elementos da cultura africana presentes na congada, da condição deles como pessoas negras e da origem quilombola do vilarejo de Pinhões. Em suas falas, de modo geral, apareceram a rejeição da ideia de que são quilombolas e a inexistência de preconceito com relação ao fato de serem negros (tanto por parte deles, quanto por parte das pessoas com as quais eles se relacionam fora de Pinhões).
Os dois mestres contaram que, no passado, há algumas décadas, havia mais diálogo sobre o fato de o vilarejo ser um quilombo. À época, existiam discussões em nível nacional sobre o reconhecimento das terras ocupadas por pessoas negras como remanescentes de quilombo. Na fala do mestre B:
Tem algum tempo que as pessoas falavam mais disso aqui na associação de moradores. Na época tinha umas coisas do governo... de leis assim que iam beneficiar o lugar se fosse considerado quilombo. O que as pessoas contam é que aqui foi formado na época por escravos que vinham de Santa Luzia e de Macaúbas, do convento. Mas a associação foi ficando fraca, sem ninguém pra representar aí o propósito acabou.
Já a moradora da comunidade, MG, informa que ouve a história da fundação de Pinhões como um quilombo desde sua infância, mas que as pessoas não costumam mencionar isso no dia a dia e nem se preocupar com esse fato. Além disso, os moradores, principalmente os jovens do vilarejo, não gostam de serem lembrados como quilombolas. MG afirma
Desde minha infância ouço os mais velhos falando desse negócio de quilombo, então acho que é verdade. Mas o povo aqui, principalmente os jovens não gostam de serem chamados de quilombola. Acho que é porque lembra escravidão e a gente é colocado abaixo dos outros.
Aos jovens foi lançada também a pergunta sobre Pinhões ser um quilombo, e eles responderam algo bastante semelhante ao que o jovem B disse:
A gente mesmo não fala quilombo ou quilombola. Isso é história né, o povo fala isso aí.
96 Aqui ninguém fica falando de quilombo ou lembrando que já foi quilombo, não tem esse costume. Nem aqui e nem fora.
Com relação ao que foi citado pelos adultos, é importante destacar que eles conhecem a história contada pelas gerações anteriores sobre a formação de Pinhões no contexto da escravidão. Concordam com o fato de que a comunidade pode ter nascido como um quilombo, mas essa denominação começou a ser mencionada quando foram estabelecidas pelo governo leis de reconhecimento para as terras quilombolas, o que poderia trazer para o local algumas vantagens com relação aos impostos e às políticas públicas. Até então, as memórias sobre a fundação do vilarejo por escravos fugidos só costumava ser mencionada em rodas de conversa nas quais os mais velhos falavam com seus filhos e netos sobre esse assunto.
Os jovens, por sua vez, afirmam que isso é apenas história, mas que não se importam ou não se preocupam em serem chamados assim, são indiferentes a isso. Afirmaram também que não costumam ouvir ou falar na questão do local de sua residência ser um quilombo.
A nomenclatura de quilombo surgiu justamente no contexto de reconhecimento das terras quilombolas pelo Governo Federal. O termo foi introduzido de fora para dentro da comunidade e por isso não faz muito sentido para os mais jovens. Eles conhecem as histórias contadas pelos mais velhos, mas não se mencionava o nome quilombo, apenas falavam a respeito dos escravos que haviam fugido das fazendas vizinhas e formado Pinhões.
No que se refere ao fato de serem pessoas negras e de que a congada e a festa de Nossa Senhora do Rosário são de tradição negra, com elementos da cultura africana associadas ao Cristianismo, o mestre A informou
O que eu sei é que a congada tá ligada com as irmandades que tinham em Minas há muito tempo. Que a irmandade de Nossa Senhora do Rosário geralmente era de pessoas negras, dos escravos.
De fato, em Minas Gerais, ainda no século XVIII, a existência de ordens terceiras, ou ordens de leigos, que ficaram responsáveis por cuidar da construção e conservação de igrejas e capelas, bem como por fazer as celebrações após a expulsão dos religiosos da região mineradora, fortaleceram as festas ligadas à tradição cristã. A presença de grande número de escravos favoreceu o aparecimento de ordens leigas entre essa população, o que contribuiu também para fomentar as festas ligadas aos santos de devoção dos negros.
97 Quando perguntado também aos jovens sobre sua condição de pessoas negras que participam de uma festa ligada às tradições africanas. Todos responderam à pergunta de maneira semelhante. O jovem C afirmou
Não tem muito isso aqui não. Acho que ninguém pensa se é festa de negro ou de branco. Só que aqui a maioria é negra, só isso.
O jovem A expressou seu pensamento dizendo
Eu não vejo que tem preconceito ou coisas assim não e se tiver a gente também nem se importa.
Não há por parte dos jovens uma preocupação em ser uma festa com elementos da cultura africana. Eles não demonstraram preocupação ou conhecimento sobre a história da festa de Nossa Senhora do Rosário e da congada. Por suas falas ao longo da entrevista foi possível notar que eles se ocuparam mais em falar o que a festa e a congada representam para eles no presente. E, nesse caso, não há por parte dos jovens inquietações relacionadas a serem negros, quilombolas ou qualquer outra denominação que possa ser utilizada com relação a eles. Outra possibilidade é a de que, por causa de preconceitos sofridos pela população negra no contexto brasileiro, eles prefiram evitar o assunto ou não se importar com ele, como uma forma de defesa. De qualquer modo, será mantida a atenção apenas ao que está expresso em suas falas.