4. TEORIA E A PRÁTICA: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA COMPLEXA
4.5. O atual estágio dos sistemas de videoconferência: as cabeças falantes
P orqu e o SENAI d ecid iu in ve sti r n u m p ro je to de sta n a tu re za? O que di fe re um sistema de videocon ferênci a comu ment e utili zado em o ut r a s i n sti tu i çõ e s e o d esen v ol v i do ne st e p ro j eto ?
E s tas d u a s per g un t a s po ssue m d oi s arg u men t os fo r t es q ue j u s t i fi ca m o in v es t i me nt o , a di s t in ção e o pio neir i s mo d e ste p ro j e t o frente ao s atuais sist emas educacionais qu e fa ze m uso da v i deo con fe rên ci a e de p o rt ai s w ebs de ap r en d izag e m.
Em p rimeiro lugar, o de safio do público que particip a de ste p ro jeto: g aro tos recém s a ído s do ensino fu nd amen t al, faixa etária de 14 a 16 anos, em regime de estudo integral , visto que possuem jorn ad a
d up la, p assam me io tu rn o em a t iv id ade s esco la re s p resen cia s do en sin o mé d io, nu m pro jeto d e sen volv i do e a co mp an had o p el o S E S I , e me i o tu rn o no cu r so do P ro jeto Piloto d o Cu rso d e Ap ren d izag em In du st rial Bá si co à Di stân cia ..
Q uan d o abo r da mo s a q u e stão d o pú b li co alv o , c ar act eri zan do - o s co mo o ma ior d e safio d es te tr ab alh o , é pelo fa to de send o ad olescentes, se rem considerados um públi co mu ito instável e inquieto, co m u ma r e f erên c i a d e l i mi t es p o uco d e fin i da, e m b u sca co nst an t e d e situ açõ es c o n fo rtáv eis e pra zero sas ; esta v ersão d a ado le sc ên cia, cu l tu r al e h i sto ri came n t e const r u í da co mo u m gru po d e sg o vernado , q u e precisa de co ntrole e ordem, ap esar dos cu idados necessá rios que nos sin ali za at en ção p ar a qu estõ e s co mo dis cip lina, au ton o mi a, eu foria , n ão define u m posicionamento determin ista, co mo se todas as p essoas nesta faix a etária, todos os ad olescentes fo s sem pouco afei t os a mo me ntos de r e fl ex ão, d e dis c iplina e a au to no mia d e su as a ções e pr oduções; é a i ma g e m d a j uv entud e reb e l de e tr an sv iad a , d o ado l escen te irr it ad i ço e ch eio de vontades tanto qu anto ch eio de espinha s.
Adolescen tes se riam cap azes de ad ministra r o próprio tempo? Co mo pod emos p ensar e de senv o lv er su a au ton o mi a? As t ecn olo gias u t il i zad as d ur ante o cu r so p od e m p ot en ci al iz ar a au to n o mi a? C o mo p ro p or u m c u r so p ar a ad olescen t e s s e m pen s ar n u m co n tr o l e co mpo rt ame n t al rígido, q ue lh es d e fin a os limit es e pos sibil idades da co l ab o ração so ci al? Po r div e rs as v eze s o uv i mo s q ue e st a pro po st a n ão fun cion aria, não po rq ue fo sse ma l elabo rad a ou in con sisten te , ma s po r q ue o p úbli co era inad eq uad o .
Al é m do s d esa fio s d o pú b lico alvo ad olescen te , p erc ebía mos tamb ém co m clar eza que, independente da faixa etária, assi stir co m a tenç ão o d iscurso de u ma ‘cab eça falant e’ p o r trin ta , q ua ren ta min u tos e r a u ma t ar e fa d e t i t ã s, r eal me nt e mu i t o di fí cil ; p ou cas p e ssoa s d o mi n a m os r ecur so s da comu n i c aç ão p elo víd eo a po nto de tornar u ma ap resen taç ão t eórica in t ere ssant e e cap a z d e g aran tir no ss a at en ção po r
mu i t o t emp o ; qu and o p en s a mo s n o s profe ss or es assu mind o est es r ecur so s, co m su a s re sistên ci as e d i ficu ldad es, per cebemo s a co mpl ex idad e d o d e safio; pouco s p ro fessor es, ao dep ar arem- se com u m d e sa fio d e st es, co nseg u e m d e sen vo l v er a p er cep ç ão d os d oi s co ntex t os : o co ntex to do mome n to da captu ra da i mag em, n o lo ca l o n de a câ me ra está, seja estúdio ou locação externa; e o contexto daquele que os a ss is t e, em c a s a o u n u m a sal a d e au l a.
P or con ta d i sso, p erceb e m a d i ferenç a en tre seu di scu r so e st át i co e e st eticamen te po bre, do s eu di scurso co m dua s , três câ me ras, e feito s d e ed i ção, cen ário e fig urino sel ecion ad os . Es te s pro fessores, h á t an to s ano s aco s t uma d os a r e al i dad e d a sal a d e au l a o n de to d a a r az ão d a cen t r ali za ção , fo r ça e au t or i d ad e de s eu p apel e r a r esu l t ant e d os s eus n ot ó rio s con h ec i mento s no s con t eú dos d as d i sci pl i n a s que mi nis t r av a m, ao in serire m- se n um cu r so de sta n ature za , com e s tes re cu rsos e e sta s ex igên cias d e te mp o , p artic ipaç ão e mo vi me n ta ção , exp re ssão o ra l e co rp o ra l , p er ceb e m co mo é ma n d a t ó r i o at ent ar p ar a a ma n ei ra co mo s e p lane ja e se reali za as açõ es d e ed uc aç ão, t an to q uan to o u ma is q u e so b re os co nteú do s di scutid os5; d ur an t e o p ro gr a ma de T V do cu r so an alis ado , o alun o assis te e d es envolv e sen so críti co t an to p ara os co nteú do s qu an to p a ra a fo r ma c o m q ue o s con t eúd o s s ão t r abalh ad os , ex i gi n do d o profess or u ma du p l a preo cup aç ão: é t ão i mp or t an t e o q u e e le diz q uan to co mo di z, como ap ar ec e d izend o , do to m e v o lu me d e su a v oz a q u alid ad e e adeq uaç ão d a ro u pa q u e v est e.
N ão se tr ata d e v a lo rizar u m mod elo de repr esentaç ão q ue an ule a e sp on t aneid ad e d o in t erlo cu t or no víd eo , q u e re co nstru a a i ma g e m d o i n t erlo cuto r apr es en t an do u ma o u t r a p e r son a, co mo u ma má sc ar a, u m a r tifí cio; trat a-se de p e rc eber q ue q u e m a ssis te u m programa de TV, ou lê u m livro, ou vai a uma exposição, está aten to
5 Aqui vale ressaltar que é principalmente na forma que a força e a autoridade do professor é reforçada,
permitindo a perpetuação de um modelo de educação reprodutor de uma lógica social onde quem pode fala, quem não pode cala; as questões aqui trazidas merecem reflexão tanto no que concerne as atividades realizadas em sala de aula, ou seja a didática do processo ensino-aprendizagem, quanto ao posicionamento político do professor na sua condução e orientação.
t an to ao co nteú do daq u i lo que s e apr esen t a q u anto a su a fo r ma; e no s s a r e fe rênci a co mu m d o s prog rama s d e TV qu e assi sti mo s (fazen do u ma i n dic aç ão d ir et a ao p adrão glo bo d e p ro d ução ) , cos t u ma p r i or i za r a f or ma , a p er fei ção d a fo r ma , e m d et ri men t o d o con t eú d o; é de s t a ma n ei r a q ue a i nd ú st ri a cul t u r al ( e a g l ob o ) co íb e m a s p ro d uçõe s de vanguarda, justamente por trabalharem com fo rmas inad eq uadas, ainda que seus conteúdos s eja m r ico s e cr íticos; é desta maneir a tamb ém qu e e st a me sma in d ústri a cultu ra l e mp obr ece o me rc ado a rtí sti co , po is ao p rio ri zar a fo rma em d et rime nto do co nteú do , emp ob rec e o co nteú d o q u e car ece de um senso crítico éti co ( at é porque est e s enso crítico é i mp ró p ri o p ara o me r c ado , v i s t o q ue q u e st i on a v al or es e pr i ncíp i os d e u ma mi noria que não quer ser questionada), e estabelece u ma ditadura d a for ma , u m mo del o d e fo rma s u po stamente ‘melhor’ que os outros (o s eu mo del o ) , mod el o e st e qu e v e m aco mpan h ado t a mb ém d e val o re s e p ri n cípio s d a me s ma mi n oria, qu e q uer v er o seu modelo co mo modelo de todos.
O proj eto de cu rso real izad o e st á co mpro me tid o co m o d esa fio d e for ma r e st e pú bli co ad o les cent e e co m a n ec es s id ad e d e p ensar u ma o utra ma nei ra d e fa z er vid eoco n ferên cia s em p roj eto s d e edu c ação , p oten ci alizan d o o s processo s en sino -apr en dizag em; ao fazer u so das me smas t ecnologia s, a linguagem u tilizada em um si st ema d e v i deo con fe rên ci a p od e ap rov ei tar m ui t o d a l i ng u agem d a TV , sua velocidade e cr iatividade, obv iamente que este ap roveitamento exig e um sen so crí ti co qu e ev it e a p rop aga ção d os me smo s erro s e fraq ueza s.
U m o ut r o a s pe cto : s e h á t ri n t a, q ua r ent a an o s era pre ci so mi lh õe s d e d óla re s p a ra mo n tar o ap ar ato d e c aptu ra, ed ição e d i s t rib ui ção d e u m p ro g rama d e TV , h o j e , po d emos co n seg uir u ma p er fo ma nc e q uase pro fi ssio n a l co m alg u mas câme r a s d i git ai s a mad o ra s e p ou co s comp u t ado r e s .
N ão qu eremo s p ropo r o fim d os si stema s d e v id eo con fer ên ci a q ue trabalh a m n o mo d elo da s cab eças falan t es; a cred i to in clu sive q u e
e st e mo de l o po d e t er u m p úb l i co ad equ ad o, p od e t e r um p r o fi ssio n al b e m prepa r ad o, e po d e fu nc i o n ar p er f eit a men t e enq u anto met od ol o g i a ed uc acio na l; q uere mo s so me n te con h ece r e sta ma ne ira de fa ze r ed uc ação , b u sc an do an a lisar a po ssível po tenci ali za ção da s c apacid ade s p ro d ut o ras d e con heci me n t o i n div i d ual e d o g r up o d e a l un o s e pro fesso re s por meio das TIC’ s.