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O autista apresenta problemas de separação do “Outro”.

2.2 CONCEPÇÕES VIGENTES ACERCA DO AUTISMO

2.2.3.3 CONTRIBUIÇÕES DA ESCOLA FRANCESA

4. O autista apresenta problemas de separação do “Outro”.

A partir disto, aprende-se “lições” preciosas que podem ser confirmadas na clínica do autismo, tais como: é melhor abordar tais crianças pelas suas costas, falando-lhes, apenas, indiretamente, de forma tal que o seu dito se assemelhe mais a um barulho do que propriamente a uma voz (confundindo-se, inclusive, com os outros barulhos do ambiente) ou a uma canção rica em ritmo e melodia. Além disso, deve-se manter numa posição de calculada distração, permanecendo ocupado com qualquer outra coisa, já que é justamente aí que essas crianças poderão surpreender, fazendo-lhe algum endereçamento através de um sorriso ou de um olhar.

Esta autora esclareceu a posição da criança autista acerca do “Outro”, afirmando que:

[...] consiste por conseqüência em tentar manter uma espécie de homeostase, em travar a dialética da palavra, em manter-se na relação com uma ou duas demandas absolutamente estereotipadas e repetitivas, sem enunciação. Tudo o que se move do lado do Outro, tudo o que multiplica suas demandas, tudo o que se apresenta como instável, imprevisível, tem um impacto direto, imediato sobre essas crianças. No fundo, sua própria estabilidade depende de que o Outro não se mova (SOLER, 1999, p. 226).

Por isso, essas crianças apresentam uma inclinação para o ritual, ou seja, para a ausência de atividade espontânea, cujo objetivo é fazer com que as coisas permaneçam sempre como estão.

Em suma, afirmou que esses sujeitos “não entram por sua própria conta na alienação significante (...) são considerados unicamente no nível da palavra e dos significantes do Outro (...) permanecem puros significados do Outro” (ibid., p. 230), não podendo inverter a mensagem do Outro para, dela, se apropriar.

Esta autora não se mostrou tão otimista quanto ao progresso dessas crianças. O tratamento poderá trazer algumas evoluções no plano da norma e no plano educativo, ou seja, elas “aprendem palavras, elas aprendem a servir-se de maneira quase apropriada e a ser independentes quanto ao asseio. Portanto, elas se civilizam um pouco (...) mas sempre encontramos o mesmo obstáculo: a separação impossível” (SOLER, 1999, p. 231).

Reportou-se a Mahler, coadunando com as suas idéias, no sentido de que “as terapias, com efeito, fazem apenas uma coisa: estendem a apreensão das sugestões do Outro, sem modificar a problemática”. Na mesma linha de raciocínio, concordou com Meltzer, visto que “mesmo se as crianças fazem progressos, elas têm um pequeno aspecto ‘papagaio’, um ‘reproduzir o outro sem inteligência” (ibid., p. 232).

Em síntese, estas crianças autistas “permanecem na psicose, às vezes um pouco mais dóceis à educação”. Isto significa dizer que “nelas não há inversão da mensagem do Outro: elas se tornam o seu reflexo. Em outras palavras, não há separação da cadeia significante. Precisemos: ou elas são marionetes do Outro, ou puro real” (ibid., p. 232). Com essa “sentença”, essa autora cela o destino, não tão promissor, dessas crianças acometidas pelo autismo.

b) Leonardo Rodriguez

Rodriguez, indagando-se acerca da função da palavra e do campo da linguagem no autista, colocou que essas crianças podem oscilar “entre um mutismo quase absoluto e um falar logorréico sem sentido, ou melhor, com um sentido ‘congelado’, segundo a expressão de Lacan” (RODRIGUEZ, 1999, p. 246).

Para este autor, a posição subjetiva dos falantes não autistas é diferente da posição subjetiva dos autistas falantes, já que, nestes últimos, “há a ausência do sujeito da enunciação”, reduzindo-se a “ser somente um puro significado do Outro”. Assim, essas crianças permanecem fora do discurso, apresentando “uns poucos enunciados sonoros sem enunciação própria” (ibid., p. 246). Dito de outra forma, o sujeito se mantém excluído da fala que enuncia.

Neste sentido, a partir da clínica, esse autor teorizou que o autista não encontra o “Outro” numa “condição de interlocutor”, ou seja, como um possível parceiro de discurso. Desta forma, diante de tal condição, a posição subjetiva do autista, é a de:

[...] ser completamente possuído pelo Outro, reduzido a ser o porta-voz inseparável (...) do Outro; um Outro que não era o do discurso mas sim o do gozo; um Outro sem falta nem desejo, encarnado pela voz televisiva; um Outro gozador que ainda que falasse todo o tempo, não estava inscrito no discurso (RODRIGUEZ, 1999, p. 246).

Esse autor analisou detalhadamente o percurso de um paciente autista, na aquisição da linguagem, trazendo contribuições importantes nesta área. Inicialmente, a sua fala se resumia a uma “geringonça quase inteligível”, a nominação de todas as marcas de automóveis, a repetição ecolálica de frases feitas (sintagmas cristalizados) e a emissão de poucas palavras, de modo reticente, em resposta a um “Outro”, sentido como insuportavelmente intruso. Além disso, não iniciava uma conversação espontânea e possuía uma entonação exagerada.

Entretanto, com o passar do tempo, a fala de seu paciente se ampliou consideravelmente, embora sua posição autista de base não tenha se modificado. Ficou cada vez mais acomodado em sua “clausura verbal” e as suas respostas à intimação do “Outro” permaneciam mecânicas. Iniciava, algumas vezes, um curto diálogo, porém sempre de uma forma estereotipada. A sua fala permanecia dominada pela ecolalia diferida, embora as suas construções verbais refletissem uma maior complexidade sintática (assemelhando-se à fala normal), e o seu vocabulário tivesse se ampliado. Entretanto, os ‘termos indexicais (Shifters na terminologia de Jakobson e dêiticos na terminologia de Benveniste) permaneciam ausentes ou distorcidos em suas produções verbais, tais como: os pronomes pessoais, os advérbios de tempo e lugar e a conjugação verbal.

Este paciente continuou a repetir propagandas de televisão, aprendeu a ler (embora não se saiba o quanto compreendia do que lia), a escrever (limitando-se à cópia), a somar e multiplicar com relativa facilidade. Enfim, com a sua “fala estereotipada”, mantendo uma barreira ao “Outro”, a sua “fascinação compulsiva repetitiva” em relação a algumas atividades e objetos e a sua “cópia manuscrita” incansável adquiriram certo equilíbrio estável.

Rodriguez (1999, p. 247) foi enfático ao afirmar que, embora seu paciente tenha apresentado alguma evolução, ao longo dos anos, decorrente do crescimento “em extensão e complexidade” do “Outro”, “o sujeito se [manteve] não-separado, congelado em sua posição de significado”.

A partir do que foi exposto acima, sobre a posição subjetiva do autista, este autor relatou mais detalhadamente os problemas que essas crianças enfrentam no campo da linguagem:

1) Ausência quase que total da dimensão pragmática. O campo semântico se apresenta