2.1 CONCEPÇÕES VIGENTES ACERCA DA LINGUAGEM
2.1.2.2 – SEGUNDO FREUD E LACAN (E SEUS SEGUIDORES)
“[...] o inconsciente fala mais de um dialeto. De acordo com as diferentes condições patológicas que orientam e distinguem as diversas formas de neurose, encontramos modificações regulares na maneira pela qual os impulsos mentais inconscientes se expressam”.
(FREUD, 1913) “O inconsciente é estruturado como uma linguagem” (LACAN, 1961)
Fundada por Freud, no final do século XIX e início do século XX, a psicanálise é uma “ciência” que prima pela ética, não mais da razão (campo da consciência), porém do desejo (esfera do inconsciente). Assim, focalizando o reino do inconsciente, com os seus específicos mecanismos de funcionamento, em detrimento do campo da consciência, o pai da psicanálise alertou para o fato de que o “sujeito cartesiano” não era mais capaz de dar conta da sua própria “morada”, à medida que tropeçava, inevitavelmente, nas armadilhas obscuras de outro tipo de sujeito: “sujeito do inconsciente” - terceiro grande golpe ao narcisismo da humanidade. Surge, assim, o sujeito cindido, criação desta tão questionada “ciência”.
Nesta linha de raciocínio, revisitando, posteriormente, a obra de Freud com o auxílio de recursos da antropologia (Lévi-Strauss) e da lingüística estrutural (Saussure e Jakobson), Lacan
ratificou a concepção cindida do ser humano, postulando a divisão entre um sujeito da consciência, do pensamento e da mestria (sujeito cartesiano) e um sujeito inconsciente, do desejo e escravo, posto que assujeitado ao efeito do significante (sujeito cartesiano subvertido).
Levando em consideração os autores citados anteriormente (Piaget e Vygotsky), Freud e Lacan não se preocuparam em dar conta de uma estruturação cognitiva, mas pretenderam se adentrar nas encruzilhadas de outra estruturação (a subjetiva). Assinalaram, inclusive, o papel crucial da linguagem enquanto instância simbólica que viabilizaria a montagem do aparelho psíquico, ou seja, a constituição subjetiva. Em seguida, serão discutidas essas novas noções de sujeito e de linguagem, reveladas por Freud e, posteriormente, revisitadas e transformadas por Lacan.
Entretanto, já é possível adiantar que, na perspectiva psicanalítica, a linguagem está situada como sendo aquilo que coloca o ser numa posição irremediavelmente humana, ou seja, como sendo aquilo que particulariza a condição humana. A essência deste sujeito, portanto, é a de um ser falante, definido por Lacan como “parlêtre”. Neste caso, a linguagem não é um elemento a mais na humanização, mas a marca essencial na constituição da subjetividade.
Indo mais adiante, não há, portanto, na concepção psicanalítica, “brecha” para a existência de um sujeito anterior à linguagem, ou melhor, à ordem simbólica (como concebem os teóricos descritos anteriormente). Embora o ser humano já nasça imerso no discurso parental (que lhe antecede e lhe é exterior), sendo-lhe reservado um lugar simbólico nas linhagens (materna e paterna), ele vem ao mundo apenas enquanto “candidato-a-sujeito”. É, justamente, neste e por este universo simbólico que o “candidado-a-sujeito” se transformará num “sujeito” propriamente dito servindo-se dos significantes que lhe são ofertados. Por conseguinte, a constituição subjetiva é um produto da linguagem enquanto estrutura significante.
Constituição subjetiva: função estrutural da linguagem, papel do “Outro” e concepção do sujeito cindido
Para melhor entender os processos envolvidos na constituição da subjetividade que estão intrinsecamente relacionados com a ordem simbólica, faz-se necessário abordar as duas “encruzilhadas estruturais” - Estádio do Espelho e o Édipo - como entendidas por Lacan.
Antes de explorar essas duas “encruzilhadas estruturais”, vale salientar que a constituição subjetiva não está pautada numa perspectiva “desenvolvimentista” que implica numa idéia de tempo cronológico, mas numa abordagem estrutural que envolve a noção de outro tipo de tempo:
“tempo lógico”17.
Além disso, seguindo tal linha de raciocínio, o processo de maturação biológica se coloca apenas enquanto limite, mas não como causa da estruturação subjetiva (JERUSALINSKY, 1988). Dito de outra forma, a constituição subjetiva não se equipara à mecanização de um programa biológico pré-estabelecido (KAUFMANN, 1996). Entretanto, mesmo que não se transite por uma interpretação biológica acerca dos mecanismos mobilizadores desta estruturação subjetiva, essa abordagem estrutural não é indiferente a uma visão que envolva gênese e construção do aparelho psíquico.
Quais são, então, esses elementos capazes de gerar e mobilizar a construção psíquica? Desta forma, convém apontar que o que marca o “ritmo” desta constituição subjetiva é o desejo do “Outro” que, através do seu discurso, mapeia a criança. Assim, a subjetividade está sempre em germe no desejo do Outro e não na própria interioridade do organismo (LAJONQUIÈRE, 1992).
17Em “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada” (1945), Lacan confere uma nova dimensão temporal, a
pressa, unindo lógica e tempo, ultrapassando as dimensões já definidas: sucessão e sincronia. O tempo se modula segundo três maneiras de subjetividade: instante de ver, tempo para compreender e momento de concluir. Há uma precipitação do sujeito em concluir na pressa, quando percebe um tempo de atraso no seu raciocínio.
Por conseguinte, o nascimento do sujeito não implica em um dado de desenvolvimento, mas em um efeito da operação significante viabilizada pelo “Outro”. Contudo, situar tal elemento mobilizador “fora do organismo”, não implica em desconsiderar completamente a influência dos déficits orgânicos (ou considerá-los em si mesmos), mas em atrelá-los sempre às implicações imaginárias e simbólicas desse “dano” real do corpo da criança na configuração do “Outro” (JERUSALINSKY, 1984; LEITE, 1999).
Tentando explicitar melhor o campo do “Outro”, Nominé (1999), teórico lacaniano, afirmou que: 1) é uma instância simbólica, lugar do código, realidade discursiva, tesouro dos significantes; 2) é o parceiro simbólico nas duas operações de causação do sujeito: alienação e separação; 3) é uma alteridade que escapa ao domínio do sujeito, que é enigmático e que suporta um desejo; 4) é inconsistente à medida que não possui resposta para todas as perguntas; e 5) é inconsciente já que não se sabe saber18. Sendo assim, o sujeito que não nasce estruturado, adquire inscrições significantes somente a partir do campo do “Outro” (que lhe é anterior e exterior).
Continuando na tentativa de obter maior esclarecimento acerca desta instância simbólica, faz-se necessário remontar às próprias contribuições de Lacan (1976, p. 131), em “Formação do Inconsciente”, tais como: “o lugar do código se situa no Outro e em primeiro lugar no Outro real da primeira dependência”. Portanto, a mãe biológica (ou figura substituta que exerça a função materna) servirá de suporte não apenas às necessidades biológicas da criança, mas também às suas carências de caráter simbólico. A prematuridade da criança, de ambas as naturezas, serão atendidas ao “mesmo tempo” à medida que a mãe, ao satisfazer às necessidades biológicas do
18 Lacan fala deste saber, do qual ignoramos tudo, nos Escritos (1966, p. 803): “um saber que não comporta o
mínimo de conhecimento, a respeito daquilo que está inscrito em um discurso do qual, tal como o escravo mensageiro da antigüidade, o sujeito leva sob a cabeleira o codicilo que o condena à morte, sem saber nem o sentido, nem o texto, nem em que língua ele está escrito, nem mesmo quem o tatuou no couro cabeludo raspado enquanto ele dormia”.
filho, fará segundo um código simbólico ao qual ela própria está submetida e que, por conseguinte, também terminará atravessando a criança.
Antes de iniciar a exploração das “encruzilhadas estruturais”, vale a pena remontar ao “momento lógico” anterior ao estádio do espelho (tempo lógico pré-especular), no qual o infans19 se encontra no reino da dispersão angustiante do corpo (tempo da fragmentação). Desse modo, ao chegar ao mundo, o ser vivo não é nada mais do que um “monte” de partes, não dispondo de algo que lhe forneça um contorno corporal, isto é, que o unifique como sendo UM, não sendo ainda revestido de um “eu” (moi). Portanto, o corpo está numa dimensão anterior ao ganho da consistência imaginária (Estádio do Espelho) e, em decorrência disto, não há consciência de si e dos outros, de interior e exterior; enfim, vive num momento de indiferenciação (LAJONQUIÉRE, 1992). Aqui, o infans se encontra no lugar de puro vazio – dialética que precede o nascimento do sujeito do inconsciente – (Je).
Neste instante, partindo para as “encruzilhadas estruturais”, Lacan (1966), em “Escritos”, descreveu o Estádio do espelho (que ocorre em torno dos 6 - 18 meses de vida) como um “tempo
lógico” relativo à “formação do Eu”, ou seja, à constituição do eu (moi) a partir de uma trama
imaginária, intermediada pela palavra do “outro” (semelhante), onde o “eu” (Je), inicialmente, se precipitaria. Dito nas próprias palavras deste autor, o Estádio do Espelho se refere à:
[...] assunção jubilatória de sua imagem especular pelo ser ainda imerso na impotência motora e a dependência da alimentação, que é o pequeno homem nesse estágio infans, vai-nos parecer desde então manifestar numa situação exemplar a matriz simbólica onde o eu (je) se precipita numa forma primordial antes que se objetive na dialética da identificação a outro, e que a linguagem lhe restitua no universal sua função de sujeito (ibid., p. 94).
Como isto ocorre? O que isto implica? Para responder tais questões, no “momento” especular se reconhece três “etapas” importantes, tais como: 1) o bebê reage à imagem do
espelho como se tratasse de outra criança; 2) o bebê reconhece que o outro que se encontra no espelho não se trata de uma criança real, mas sim de uma imagem; 3) o bebê reconhece a imagem no espelho como sendo a sua própria imagem, manifestando júbilo, isto é, encontra-se ao nível imaginário na sua imagem especular, imagem esta caracterizada pela perfeição e completude, validada pelo olhar e pelas palavras do “outro” (semelhante). A presença desta terceira “etapa” é o que diferencia o ser humano dos demais animais, já que estes jamais chegam a atingi-la.
É importante ressaltar que a intervenção do “outro” (semelhante) – primeiro representante do “Outro” - estabelecendo a articulação entre a imagem especular e a criança, é extremamente crucial para que haja o reconhecimento do infans nesta imagem, posto que, sem este “atestado”, isto jamais seria possível. Desta forma, “o bebê ‘vê’ sua imagem porque o olhar da mãe (primeiro outro a encarnar o Outro) dá sustentação ao acontecido” (LAJONQUIÈRE, 1992, p. 167). Assim, essa articulação entre a imagem especular e a criança é possível porque há uma confluência de desejos: desejo materno que se dirige a essa imagem especular tão valorizada (que se trata do lugar de falo imaginário) e desejo da criança de satisfazer o desejo materno, vindo a ocupar exatamente este lugar de falo imaginário, ou seja, este lugar de objeto do desejo materno (“objeto a”). Por conseguinte, não resta à criança nenhuma outra saída, a não ser alienar-se naquilo que melhor satisfaria o desejo materno.
Esta imagem especular é um símbolo, ou seja, é algo que representa, substitui e traduz o
infans, permitindo-lhe uma unidade (consistência imaginária) – primeiro e decisivo passo no
terreno simbólico. Este símbolo, entretanto, se encontra ainda imerso no cenário imaginário, não tendo alcançado toda sua “eficácia simbólica”. Desta forma, está selado o destino alienante de todos aqueles que passam por tal encruzilhada: acreditar ser aquilo que não é, senão, uma imagem (moi); imagem esta que não é o sujeito do inconsciente propriamente dito (Je), mas que lhe permite reconhecer-se e denominar-se - identificação imaginária.
Portanto, o infans, do “momento lógico” pré-especular, ainda imerso na impotência
motora, ao se identificar com esta imagem especular - unificada e completa - termina por antecipar a sua própria maturação biológica. Por isto, Lacan (1966, pp. 97-100) entendeu a identificação como a “transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem”. Desta forma, esta identificação imaginária promove a substituição da vivência do corpo espedaçado pela visão de uma forma “ortopédica de sua totalidade”, possibilitada por uma gestalt, que lhe é exterior, antes mesmo de adquirir realmente a sua maturação biológica. Desta forma, há um antecipado domínio imaginário do corpo, por parte da criança, antes dela poder ter um efetivo domínio do mesmo. Assim, este autor retratou o “momento lógico” especular da seguinte maneira: “[...] é um drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a antecipação”.
Contudo, vale enfatizar que o Estádio do Espelho não se caracteriza apenas como uma trama imaginária, já que é a própria ordem do simbólico que lhe fornece as bases de sustentação. Desta forma, persistindo no parceiro imaginário (“outro”) o que há da ordem do simbólico (“Outro”), esta imagem não se constituirá, assim, em algo tão perfeito, possibilitando, por conseqüência, a inscrição da falta na criança. Assim, a partir do referencial materno, a criança não será o “falo imaginário” propriamente dito, mas apenas aquilo que o simboliza (“falo simbólico”).
Desse modo, algo ocorre aí de extrema importância. Neste instante especular, o infans se transporta do lugar original de puro vazio, dialética que precede ao nascimento do sujeito do inconsciente – Je, para entrar numa outra dialética, a do significante (já da ordem do simbólico) – primeira operação de causação do sujeito: alienação ao significante do desejo materno. Assim, este sujeito do inconsciente (Je) adquire uma primeira representação através da
constituição do eu (moi), possibilitada pela identificação com o significante do desejo materno (falo imaginário)20.
Entretanto, paga-se um alto “preço” por tudo isto. De que se trata esta dívida? Dando prosseguimento à reflexão, mesmo se encontrando numa imagem especular que o representa aos olhos do “outro” como também a si mesmo, o infans paga o preço da cisão, já que, paradoxalmente, não pode se encontrar todo nela, permanecendo algo fora da representação. O que isto realmente quer dizer? O “eu” (moi) resultante da operação de identificação imaginária parece ser “todo o ser”, mas, de fato, não o é. Dito de outra maneira, o eu (moi) “quer queira ou não”, mesmo se constituindo enquanto lugar de salvação do infans por lhe ofertar uma primordial inscrição, não pode ignorar aquilo que restou da operação de representação – sujeito do inconsciente (Je).
Assim, o tempo especular possibilita ao sujeito sua unicidade, mas, ao mesmo tempo, o submete ao desconhecimento de si mesmo. Em suma, o “eu” (moi) forma-se ao preço de renunciar a ser o sujeito do inconsciente (Je). Deste modo, marca-se uma diferença entre a instância narcísica – “eu” (moi)21 (sujeito do enunciado) e o sujeito do inconsciente (Je)22 (sujeito
da enunciação) – sujeito cindido da psicanálise (LAJONQUIÈRE, 1992).
Portanto, o “momento lógico” especular envolve a relação de três elementos: o infans, o “outro” (semelhante) que suporta a função do espelho e o “Outro” (estrutura da linguagem). Explicando melhor a relação entre esses elementos, tem-se que o “Outro” é quem detém a “eficácia simbólica”, advogando ao “outro”, seu representante imaginário, a força necessária para efetuar o reconhecimento do infans na imagem especular. Portanto, o “outro” só poderá exercer a
20Também denominado de significante mestre (S1) e de significante unário.
21 Eu (moi) equivale ao Ego (designação de Freud) que se constitui no lugar das identificações imaginárias do sujeito
e no lugar de desconhecimento que lhe permanece inerente – descrito por Lacan (1966) em “Posição do Inconsciente”.
22 Sujeito do Inconsciente (Je) se constitui na perda onde surgiu como inconsciente – descrito por Lacan (1966) em
função especular, caso invoque os poderes simbólicos do “Outro”. Quanto à estrutura da linguagem, esta descarrega um resto inevitável, à medida que a sua engrenagem implica numa barra entre significante e significado (mecanismo do recalque). Por isso, o sujeito do inconsciente (Je), como significado, efeito da operação de representação, nunca poderá ser totalmente representado pelo significante, criando-se uma tensão entre as duas instâncias subjetivas em decorrência desta impossibilidade (LAJONQUIÈRE, 1992).
Na tentativa de trazer de volta este resto que foi recalcado, fruto da operação de representação, o “eu” (moi) fica fadado a uma cadeia discursiva, deslizando de um significante para outro, sem nunca, de fato, dar conta de todo o seu ser. Portanto, a ordem da linguagem é, paradoxalmente, aquilo que possibilita a constituição de um sujeito falante, mas também aquilo que responde pela sua incompletude (ibid.)
Dito de outra forma é o próprio sistema de linguagem que causa o inconsciente, produzindo o corte e a dissociação na subjetividade (JERUSALINSKY, 1988). Ou melhor, o sujeito do inconsciente mediado pelo sistema lingüístico está definitivamente dividido, porque ao mesmo tempo em que está excluído da cadeia significante, só pode ser representado veladamente aí (LEMAIRE, 1986). Assim, o inconsciente é algo que resiste bravamente a simbolização, apesar de todos os esforços do “eu” (moi) para resgatá-lo numa cadeia discursiva.
Vale ressaltar que é apenas através do “eu” (moi) que a boca passa da dimensão de puro orifício (organismo) para a condição de comunicação (corpo subjetivado). Por conseguinte, conclui-se que para poder se converter em autor de um discurso, apresentando-se como eu (moi), o sujeito do inconsciente (Je), nos primórdios do seu nascimento, precisa estar assujeitado ao discurso do “Outro” (estrutura significante) (LAJONQUIÈRE, 1992).
Entretanto, para poder observar todos os possíveis efeitos do sistema da linguagem que viabilizariam a constituição da subjetividade, é preciso caminhar um pouco mais adiante,
adentrando-se na segunda “encruzilhada estrutural”: cenário edípico. Este outro “momento lógico” implica num deslocamento na posição subjetiva da criança frente ao desejo do “Outro”, passando da condição de “objeto causa de desejo” (objeto “a”) a de “sujeito de desejo”, em três tempos, conforme a conceituação lacaniana.
No “primeiro tempo” do Édipo, que correspondente ao momento final do Estádio do Espelho, conforme visto anteriormente, a criança identificada com a imagem especular, adquire apenas uma primeira inscrição através do “significante desejo materno” – S1 (falo imaginário) para se representar no campo do “Outro”. Assim, apresenta-se alienada na problemática fálica sob a modalidade da lógica do SER: “ser ou não ser” aquilo que melhor satisfaria o desejo materno (ou seja, obturaria a falta no “Outro”), sendo submetida a uma lei insensata materna e servindo ao gozo do “Outro”.
Portanto, confunde-se com o “objeto causa de desejo” do “Outro” (“objeto a”) e, numa fusão com a mãe, da qual não é mais que um prolongamento, oferta-se como um “nada”, renunciando à sua própria palavra. Nada falta à mãe, à medida que a criança é tudo para ela, emergindo a “célula narcisismo/mãe-fálica”, representada por Lajonquière (1992) na Figura 1, abaixo:
Figura 1 – “Primeiro momento” edípico – “célula narcisismo/mãe-fálica” (Posição subjetiva da criança – ser mero objeto do desejo materno - falo)
Vale salientar que é somente pelo fato da mãe estar na posição de sujeito desejante que emerge a possibilidade da entrada da criança na “órbita” do desejo, mesmo que ainda na condição de “objeto a”.
Entretanto, a criança deve caminhar um pouco mais para ser “socorrida” por uma operação significante (metáfora paterna), onde haverá a substituição do “significante desejo materno” (S1) por outro: “significante nome-do-pai23” (S2), fazendo com que o primeiro caia sob a barra do recalque, o que induz a significação fálica, possibilitando uma outra forma de representação do sujeito no campo do “Outro”. Para vislumbrar esta operação significante, deve- se entrar no “segundo tempo” do Édipo e, posteriormente, no “terceiro tempo” do mesmo.
Neste “segundo tempo”, emerge na criança uma suspeita de que talvez não esteja satisfazendo plenamente sua mãe, ocorrendo, assim, um estilhaçamento desta “célula
narcisismo/mãe-fálica”. Porque isto ocorre? Começa a se desmontar a certeza de SER o falo
imaginário, porque surge o pai interditor, como um quarto elemento, insurgindo-se na triangulação: mãe, falo e filho. Este pai “terrível” priva a mãe do seu objeto de desejo, enquanto encarnado no filho, e frustra a criança, por não poder dispor da mãe incondicionalmente, exigindo os seus direitos em relação a esta mãe-mulher (fenômeno denominado por Freud de “castração simbólica”).
Desta forma, segundo Lacan (1976, p. 87), pela entrada paterna como interditor da relação imaginária mãe-criança, à criança é possibilitada, “ao dirigir-se ao outro, [encontrar o] Outro do outro, sua lei”. Portanto, a mãe remonta o filho a uma lei que não é mais propriamente a sua, mas a do pai, assinalando que o objeto de seu desejo pode advir do lado paterno, lançando o filho nesta direção. Por conseguinte, quando esta criança se dirigir para sua mãe, verá que os olhos dela também estão voltados para o seu pai, chegando a uma difícil conclusão: “eu não lhe basto”.
Portanto, essa intervenção paterna vai re-instaurar a instância do falo, como objeto desejado da mãe, porém distinto do seu filho, fazendo a criança deparar-se com a Lei do pai. Para o filho trata-se de algo essencial: ser retirado de sua posição de objeto fálico, promovendo sua
passagem da dialética do SER para a do TER: “ter ou não-ter” o falo. Desta forma, introduz uma hiância entre o desejo da mãe e desejo de filho, já que o segundo não se resume ao primeiro. Entretanto, agora, do pai, como agente interditor imaginário, a mãe recebe o que lhe falta: pai enquanto falo. Este “segundo momento” edípico está representado por Lajonquière (1992) na Figura 2, abaixo:
Figura 2 – “Segundo momento” edípico - estilhaçamento da “célula narcisismo/mãe-fálica” (Posição subjetiva da criança: a lei do pai destrona a criança da posição fálica)
É importante ressaltar que a presença efetiva do pai, em si mesma, não garantirá o suporte da função paterna, sendo imprescindível para isto, sobretudo, que a mãe o olhe com apetite, ou seja, que o deseje, investindo a palavra paterna de valor de Lei. Portanto, a função paterna é propriedade da atividade significante, de todo e qualquer significante, e não necessariamente do genitor biológico. É através da entrada da Lei, que a mãe fica privada do seu objeto de desejo e à criança fica interditado o gozo do “Outro” (operação de “castração simbólica”).
Adentrando-se, neste instante, no “terceiro tempo” edípico, tem-se que a rivalidade fálica que havia se instalada entre pai e filho termina, à medida que o filho reconhece os atributos fálicos com os quais a mãe investe o companheiro, não lhe atribuindo a posição de falo. A criança