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I. Exposição dos desenvolvimentos da Phänomenologie des Geistes e das

2. As Grundlinien

2.1. Abstraktes Recht

2.2.3. O Bem (“das Gute”)

O Bem97 é a unidade de todos os elementos que vimos até agora; é a vontade em e para si. Nele, é

conservada a imediatidade de ter a vontade particular na coisa, a contingência do conteúdo da vontade objetivada e os elementos particulares presentes na subjetividade da vontade (a procura do bem-estar). O Bem é a totalidade destes momentos – cada um deles como superado, nenhum deles de forma independente. A particularidade encontra-se incluída nesta Ideia, mas não como momento essencial. O Gewissen já não é a simples subjetividade que tem apenas o seu conceito para realizar (que tem um conteúdo ainda não exteriorizado) – trata-se antes da subjetividade complexificada, que tem diante de si a sua própria realização, que sabe ser a sua essência e que toma como tal (o Bem é para ela o essencial). O Bem é aquilo com o qual tem de estar em concordância – concordância essa que apenas se consegue através da ação (da colocação da subjetividade no plano objetivo).

A subjetividade não é automaticamente o Bem, mas o Bem é essa mesma subjetividade enquanto objetivada e, portanto, enquanto universal; o universal realizado desta vontade é o Bem (uma subjetividade objetiva, e não a subjetividade abstrata do conceito). A Ideia do Bem é a verdade da vontade e, enquanto a ignorar, continuará abstrata, afastada do seu verdadeiro ser.

95 Ob cit., §128, p.241.

96 Ob. cit., §129, p.243, G. F. W. Hegel, Philosophie des Rechts – Die Vorlesung von 1819/20 in einer Nachschrift,

p.102, G. F. W. Hegel, Naturrecht..., p.286, G. F. W. Hegel, Die “Rechtsphilosophie” von 1820 zusammen mit

Hegels Vorlesungsnotizen (1821 – 1825), p.464, G. F. W. Hegel, Philosophie des Rechts. Nach dem Vortrage des Herrn Prof. Hegel im Winter 1822/23, p.407, G. F. W. Hegel, Philosophie des Rechts nach der Vorlesungs- nachschrift K. G. v. Griesheims 1824/25, p.345.

99 O exercício concreto que a vontade realiza para abandonar a sua subjetividade e se tornar objetiva culmina no Gewissen e no Bem, como objeto dessa consciência – que é, contudo, ela mesma. O ponto mais avançado (mais verdadeiro) da Moralität é, portanto, aquele em que a subjetividade não se concebe como particular, mas como universal, e as figuras em que os dois polos surgem são o

Gewissen e o Bem. Aqui, a liberdade não tem uma existência particular (e, portanto, abstrata), como

tinha na propriedade e no bem-estar, antes tem o seu verdadeiro objeto.

Para ascender a este patamar mais elevado, a subjetividade tem de perceber que o seu objeto (e, portanto, ela mesma) é universal e tem de dar a si mesma esse objeto. Ao fazer isto, tornar-se-á

Gewissen; porque dar a si mesma este objeto universal significa realizar-se a si mesma como universal;

o Gewissen é já o Bem e sabe que o é (saber este que implica realização).

Aquilo que o indivíduo é, na verdade, é aquilo que ele se deve tornar (que é o Bem, o universal – daí a obrigatoriedade do dever, que deve ser cumprido por dever). Não há uma realização do indivíduo que não seja a realização do Bem; qualquer outra realização será uma quimera, um falhanço de realização (se o indivíduo se vai realizar, tem de se realizar como Bem ou não se realiza de todo). Quando o Bem surge como dever, ainda não está realizado: apenas requere realização, ainda é abstrato. O dever é a forma através da qual o Bem se faz sentir na vontade individual, como sua essência (porque é isso que ele é). Mas, como dever, o Bem ainda não tem conteúdo – e, portanto, o dever nunca é concreto; mas, assim que se torna concreto, deixa de ser dever. A consciência sabe que o dever é a sua essência. Mas, como é uma essência ainda abstrata, a identidade que ela estabelece com o dever é uma identidade sem conteúdo, que não lhe traz realidade – apenas a incita a superar essa identidade vazia e a tornar-se real.

É a reflexão da particularidade em si mesma a partir do Bem (a partir da objetividade que compreende ser ela mesma como outro) que a torna Gewissen. O elemento fundador do Gewissen é, portanto, essa auto-compreensão que consiste em a subjetividade passar a saber que é a objetividade, e não somente bem-estar particular. A consciência compreende aqui o poder da negatividade que se estabelece entre ela e o seu objeto – e isso fá-la ascender a uma perspetiva mais elevada). O Gewissen é consciência universal; sabe que a sua particularidade não se encontra desligada da particularidade dos outros, mas que todos constituem o seu próprio ser mediante a negatividade (a consciência integra no seu ser a contraditoriedade).

Não há uma saída para um exterior, mas uma compreensão desse plano que agora se sabe não ser exterior (não ser originalmente separado). Essa separação, que à primeira vista parece absoluta, é precisamente aquilo que une interior e exterior num só (a Sache selbst, a particularidade da vontade com a sua universalidade, a subjetividade com a objetividade). O bem-estar dos outros é também o meu bem-estar, mesmo parecendo ser um bem-estar diferente, alheio.

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Sittlichkeit. Mas depois de se compreender a si mesma como universal (depois de alcançar a

compreensão ou certeza de si mesma como tal, e não apenas como particular), qualquer conteúdo que receba no seu interior recebê-lo-á como verdadeiramente seu: não como algo dado de fora, mas como algo que ela própria realiza.

Se considerarmos a Moralität separada da Sittlichkeit, o conteúdo que temos é apenas satisfação ou bem-estar vazio (é apenas uma forma), de modo que ainda estamos perante uma existência abstrata da liberdade. Ou seja, estamos perante um direito que, embora mais concreto do que o direito da propriedade, é ainda abstrato. A grande diferença entre os dois reside na universalidade deste – a satisfação não é apenas a de um indivíduo particular, mas a satisfação global, embora ainda não tenha um conteúdo para além disso.

Se a Moralität fosse o termo do processo, a atitude em relação ao mundo exterior seria apenas negativa ou de destruição. Todo o conteúdo, por não se adequar à abstração do Bem (e, portanto, por não ser um conteúdo no qual a vontade se possa encontrar enquanto objetiva), não é pura satisfação, mas sempre algo mais determinado, e teria de ser eliminado. A consciência estaria então a negar a objetividade; ou seja, a consciência estaria a pender de novo para a particularidade e a esquecer a universalidade.