I. Exposição dos desenvolvimentos da Phänomenologie des Geistes e das
2. As Grundlinien
2.1. Abstraktes Recht
2.2.5. Passagem da Moralität para a Sittlichkeit
Na Moralität o conteúdo ainda era exclusivamente particular (apenas a forma era universal); a falta de determinações do Bem fazia que a vontade tivesse de preenchê-la com as suas próprias determinações. Essa ausência de determinações positivas explica-se pelo facto de, nesta Moralität, ainda não se ter dado uma identidade completa ou integral entre as determinações objetivas e as determinações subjetivas. A subjetividade universalizava as suas próprias determinações e o Bem (que era o resultado dessa universalização) envolvia apenas, quanto às determinações objetivas que não se conciliavam com as subjetivas universalizadas, uma rejeição ou aniquilação (que, por sua vez, se explicava pela contradição que a vontade ainda mantinha entre a subjetividade e a objetividade, não no que diz respeito à forma, mas quanto ao conteúdo).
Essa contradição ainda não tinha sido superada. Isso só sucede no âmbito da Sittlichkeit (o único conteúdo que a vontade tinha até então era o conteúdo que concordava consigo: a propriedade). Aquilo com que agora passa a identificar-se é um conteúdo que a contraria, que não a reflete imediatamente, mas apenas mediante negação. Se bem que na Moralität já haja uma forma em e para si (e a satisfação seja tanto particular como alheia), o conteúdo ainda é algo somente para si. Na
Sittlichkeit também o próprio conteúdo é em si, um outro ou alheio (não apenas a propriedade privada).
Só assim fica completa a Ideia da vontade; a vontade é agora Ideia, não só quanto à forma, mas também quanto ao conteúdo.
O Bem é a objetivação ou independentização das determinações subjetivas; ele é feito pela consciência a partir de si mesma99. É por isso que, na Moralität, o Bem é ainda um Bem imediato,
não realizado; nele, a vontade está diante de si, mas antes de forma que ainda não o considera
99 “Wie das Gute seinerseits nur im subjektiven Willen die Vermittlung hat, durch welche es in Wirklichkeit tritt”;
103 realmente como outro, como objeto, mas como algo no qual se revê imediatamente, mesmo de forma imperfeita. Pois o Bem já surge como outro no que toca à sua forma, só não no que toca às determinações que o preenchem.
Aliás, a consciência que está diante o Bem é o Gewissen e ela já inclui em si essa componente de a sua forma (a satisfação) ser universal, e não meramente particular. No Bem, o Gewissen revê-se por completo. É, aliás, por isso que é Ideia, é um com o Gewissen. Ao ser incluído na Ideia todo o mundo exterior, o Gewissen teria então de ser superado e de surgir outra forma de consciência que seja já determinada universalmente (que não seja um vazio de determinações positivas quanto ao conteúdo – mesmo que universal no que toca à forma).
A vontade que se revê imediatamente na propriedade é a vontade particular. O Gewissen é a consciência que tem diante de si o Bem e com o qual também imediatamente se identifica. É, assim, uma vontade que ainda possui apenas determinações positivas particulares (ou não as possui de todo). Estas duas formas de consciência são abstratas; a vontade particular é-o porque ainda não compreendeu o seu carácter universal, o Gewissen porque ainda não aplicou a compreensão de que é universal às determinações positivas (que continua a considerar como alheias e como estando somente em oposição a ela).
Perante isto, com o desenvolvimento da Ideia concreta do Bem, que tem lugar na Sittlichkeit, é de perguntar porque não há uma consciência que tenha essa ideia perante si e se identifique com ela imediatamente. Isto é: afinal, qual a forma mais avançada de Gewissen que inclua já em si (que tenha diante de si e se reveja imediatamente nas) determinações objetivas do mundo exterior? E se não há essa consciência, como se explica uma tal ausência?
Poder-se-ia pensar que a entrada de determinações objetivas afugenta a vontade, o que apenas corroboraria que a vontade que ainda existia mantinha um ponto de apoio muito forte na particularidade (apenas reconhecia como sua a determinação positiva que se encontrasse imediatamente em harmonia consigo e não aquela que a negasse).
Assumindo que, de facto, há uma fuga da vontade, cumpre perguntar, então, o que há de particular nas determinações positivas (no conteúdo ou matéria) que, contrariamente à forma ou determinações formais, não pode ser conciliado com a vontade. Esta parece ser uma dificuldade séria para a demonstração da universalidade da vontade, não só quanto à forma, mas também quanto ao conteúdo. A partir do momento em que não temos uma consciência que esteja perante a Ideia do Bem realizado, como podemos dizer que essa Ideia é uma realidade?
Seria necessário encontrar uma consciência com a forma do Gewissen (que se identificasse com o seu contrário no que diz respeito à forma – que continuasse a tomar como seu a satisfação dos outros), mas ao mesmo tempo que deixasse de tomar como sua exclusivamente a coisa que não é negada por ninguém (a coisa onde apenas ela enquanto particular se revê imediatamente). É de exigir uma
104 consciência que não só se identifique imediatamente com o objeto universal, mas também com a satisfação universal; isto é, uma consciência que saiba que é universal (que se conheça a si mesma como universal por ter diante de si um objeto preenchido com determinações formais).
2.3. A Sittlichkeit
As leis e as instituições são conteúdos que se apresentam perante a consciência ou vontade como objetos que negam a vontade particular, mas que o indivíduo consegue, através da mediação da negatividade ou contradição, integrar em si100 . O indivíduo que supera a contradição entre a sua
vontade enquanto particular e as leis e instituições é o indivíduo que ascende à sua verdadeira essência, que se põe em conformidade com a sua essência.
Esta conformidade é a retidão (“Rechtschaffenheit”101) – e ela implica o abandono da exclusividade
da individualidade; pois ao fazer o que se costuma fazer (ao seguir as regras de conduta que encontra no mundo objetivo), o indivíduo está a assumir uma componente que contraria diretamente a sua componente de indivíduo: a singularidade. Agora a vontade compreende que não é apenas aquilo com que se identifica imediatamente (as determinações subjetivas não são as únicas que lhe dão conteúdo), antes é também aquilo com que se identifica apenas mediante oposição (aquilo que, numa primeira fase, parecia ser exclusivamente separado).
A prática habitual da vida ética apenas se consegue com o estabelecimento da identidade com as determinações positivas que, numa primeira fase, violavam as determinações subjetivas (desejos, instintos, etc), porque eram diferentes delas. O indivíduo que segue habitualmente a vida ética é o indivíduo que tem o seu segundo nascimento – o nascimento espiritual.
Agora, a vontade tem a sua existência universal também na positividade ou no conteúdo e já não somente na forma (o indivíduo é também as determinações do mundo exterior, que acaba por se revelar não exterior). A vontade já não tem somente as determinações da satisfação ou da felicidade (do bem-estar), mas também as determinações das leis, das instituições, que são determinações opostas às determinações subjetivas.
O indivíduo já não quer somente a satisfação, tanto individual quanto universal – mas quer também aquilo que não é satisfação. A vontade natural dirige-se a um objeto (que não é propriamente objeto, porque não é diferente dela) e captura-o, consome-o, integra-o completamente em si mesma. No fundo, a vontade natural tem-se a si mesma, e só a si mesma, como conteúdo; os desejos e as inclinações não são senão o direcionamento da vontade para si mesma, a vontade a querer-se a si
100 A. W. Wood, Hegel's Ethical..., pp.199 – 202.
105 mesma.
A vontade particular é a esfera da vontade onde mais facilmente se nota isto, porque aqui a vontade não é negada e tudo o que toma diante de si não é diferente de si, mas antes ela mesma (algo onde se vê mediatamente refletida). Ora, quando a vontade a) compreende que não é apenas afirmada (que não é apenas aquilo que tem diante de si imediatamente, mas também aquilo em que só se vê refletida mediatamente, através de contradição), mas, por outro lado, b) ainda não tem determinações positivas em que possa fazer essa experiência (que possa tornar suas ou adaptar para si mediante contradição), a sua única hipótese é tornar as determinações naturais ou subjetivas (que encontra no interior) determinações objetivas (colocando-as no exterior).
O resultado é o Bem, que tem apenas como conteúdo a satisfação ou felicidade. Agora, a vontade quer-se a si mesma enquanto particular e enquanto objetiva, quer a sua felicidade particular e a felicidade dos outros. A inversão que acontece na Sittlichkeit consiste no seguinte; tendo surgido determinações, a partir do exterior, com as quais a vontade não se identifica imediatamente, o movimento a fazer terá de ser o inverso (a vontade terá de fazer suas estas determinações que parecem provir do exterior).
No entanto, ainda não é inteiramente compreensível a diferença entre estes dois movimentos. Visto que quer as determinações subjetivas, quer as objetivas são tornadas universais mediante contradição, em que medida se pode dizer que umas sejam subjetivas e outras objetivas? Vendo bem, a verdade tanto de umas como de outras é serem universais – o que é diferente é a forma através da qual se compreende (a própria vontade compreende) que sejam universais. A única diferença parece consistir, então, no facto de, nas determinações subjetivas, a vontade particular se ver imediatamente refletida102, enquanto nas objetivas isso acontece apenas por via de mediação.
Como no caso das determinações subjetivas a vontade se vê imediatamente refletida, para as conseguir tornar universais, ela terá de as tomar como objeto separado de si mesma enquanto particular; terá, portanto, de aprender a olhar para essas determinações como objetivas – como alheias em relação a si; terá de se separar das suas próprias determinações; caso contrário, nunca conseguiria conceber que os outros tenham desejos que são diferentes dos seus.
No entanto, não é certo se os desejos dos outros nos chegam de fora ou provêm de dentro e são objetivados; pois, se provierem de fora, parecem não ser muito diferentes das restantes determinações positivas; ao estarmos a assumir que as determinações em causa são recebidas imediatamente como
102 A seguinte passagem descreve esta imediatidade (a forma como a vontade se vê imediatamente no objeto):
“insofern die Bestimmtheit der formelle Gegensatz von Subjektivem und Objektivem als äußerlicher unmittelbarer Existenz ist, so ist dies der formale Wille als Selbstbewußtsein, welcher eine Außenwelt vorfindet (…)”; ob. cit., §8, pp.57 – 58.
106 desejos individuais, em que a vontade se revê imediatamente, ficamos sem conseguir explicar como é que uma determinação que é recebida como objetiva é automaticamente encarada como uma determinação subjetiva. Isto é, se os desejos são determinações que têm o significado de a vontade se querer apenas a si mesma (se são, portanto, desejos necessariamente particulares), como podem provir do exterior na forma de objeto – visto que isso implicaria automaticamente não serem determinações subjetivas (retirar-lhes o carácter que as distinguia das restantes determinações objetivas e impedir até a distinção entre desejos próprios e alheios)?
Não pode haver desejos imediatamente recebidos como outro (como alheios) – o que significa que os desejos não são, de facto, determinações objetivas. Mas, se forem determinações subjetivas, a vontade tem, de facto, de as universalizar: tem de colocar os seus desejos como desejos do outro – e assim torna-se difícil compreender como a vontade, afinal, chegou a saber que a sua essência é não ser apenas particular, mas também negada e, portanto, objetiva. Se esse conhecimento não foi alcançado por a negação ter simplesmente ocorrido103, então como se explica que esse conhecimento tenha sido
alcançado de todo?
O problema é mais um problema de compreender por que ponto se começa a análise filosófica, pois pode muito bem suceder que a vontade seja universal, e saiba que é universal (tenha diante de si objetos ou determinações que compreende serem universais), mas o que ainda fica por decifrar é o processo através do qual tudo isto acontece104 . Para tentar encontrar uma resposta que explique
adequadamente a universalização da vontade, procuraremos, nas páginas que se seguem, desenvolver uma interpretação da Sittlichkeit como um processo de gradual independentização do objeto que é a própria vontade (de sorte que o que está em causa é, na verdade, um alargamento da esfera da vontade).