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3. AO ENCONTRO DO SENTIDO DO “CONFORTO” NA LITERATURA DE

3.2. O “BEM-ESTAR E O ESTAR BEM”: O CONFORTO E A SUA EXPRESSIVIDADE

São poucas as referências escritas acerca do “bem-estar” e do “estar bem” na sua relação com o conforto, embora os termos sejam por vezes utilizados como conceitos similares, próximos e explicitamente sinónimos, (O’Brien, Evans & Medves, 1999; Kolcaba, 2003; Giacomoni, 2004; Galinha & Ribeiro, 2005; Fonseca, 2006; Passareli & Silva, 2007; Newson, 2008; Oliveira, 2011). Na pesquisa realizada não encontrámos nenhuma análise comparativa sobre os termos; no entanto, na literatura de enfermagem Kolcaba (2003) tem a preocupação de os distinguir, pelo que nos parece fazer sentido a sua clarificação,não só pela sua similaridade como também tendo em conta os achados deste estudo.

O “bem-estar” e o “estar bem” surgem como conceitos frequentemente utilizados e, muitas vezes, usados de forma “desmedida, e no dia-a-dia”, entre leigos e profissionais o que os leva a ser pouco precisos e, muitas vezes, usados indistintamente (Oliveira, 2011). Procuramos delimitar teoricamente estes conceitos. Assim, constatamos que o “bem-estar” é definido como um “estado de satisfação plena das exigências do corpo e/ou do espírito, sensação de segurança, conforto, tranquilidade” (Houaiss & Villar, 2002: 556) ou ainda “estado de quem vive com descanso e comodidade” (Machado, 1991: 549). É igualmente utilizado como sinónimo de saúde, felicidade, prosperidade, paz e satisfação com a vida, ou também, como sinónimo ou indicador de qualidade de vida (Acton, 1944; Kolcaba, 2003; Diener & Ryan, 2009), ou ainda como sinónimo de “estar bem” (wellness) (Mackey, 2009).

O estudo do “bem-estar” tem recebido especial atenção e incremento, na última década. Recorrendo a diferentes terminologias e delimitações teórico-conceptuais, surge como uma área de estudo extremamente ampla, cuja investigação reflecte importantes diferenças na concepção e operacionalização deste conceito (Novo, 2003). No enquadramento da disciplina e prática da enfermagem, o “bem-estar” define-se como “saúde com as características específicas: Imagem mental, de equilíbrio, contentamento, amabilidade ou alegria e conforto, usualmente demonstrada por tranquilidade consigo próprio e abertura para outras pessoas ou satisfação com a independência” (Conselho Internacional de Enfermeiras, 2006: 95). Pode ainda ser perspectivado em diferentes facetas: bem-estar físico, psicológico, social e espiritual. Apesar de se verificar, nesta definição, alguma ligação com o conforto, o seu sentido enquanto bem-estar físico é evidente, como podemos ver pela sua definição: “bem-estar com as características específicas: Imagem mental de estar em boas condições físicas ou conforto físico, satisfação com controlo de sintomas tais como o controlo

da dor ou estar contente com o meio físico envolvente”. (Conselho Internacional de Enfermeiras, 2006: 95).

Enquadrado na área da saúde, o “bem-estar”, apesar de ser considerado uma dimensão positiva, difícilmente estabelece uma relação clara que garanta o seu sentido, dado que é um conceito subjectivo, relativo, alicerçado na diferente forma que cada ser humano define o seu “bem-estar” (Galinha & Ribeiro, 2005). O “bem-estar” representa uma atitude face à saúde que implica uma relação estreita entre todas as vertentes e componentes individuais. Por estar em constante adaptação, dependente de cada um, do momento e do meio envolvente, torna-se por isso efémero (Sarvimaki & Stenbock-Hult, 2000).Apresenta-se assim como um estado dinâmico de saúde, no qual o indivíduo progride em direção a um nível elevado de funcionalidade, atingindo um equilíbrio óptimo entre o meio interno e externo. O “bem-estar” é então uma percepção pessoal, sendo o seu significado e definição variável de indivíduo para indivíduo, de acordo com o que cada um considera normal em função das suas próprias experiências, mediante uma intervenção efectiva dos factores culturais, sociais, religiosos, entre outros, e dos conceitos vigentes no meio em que se encontra inserido.

A abrangência do conceito coloca-o na intersecção de vários domínios da Psicologia e, neste âmbito, surgem duas perspectivas actuais que se organizam em redor de dois modelos centrados em domínios diferentes e designados por: Bem-Estar Subjectivo (Subjective Well-being – SWB) com ênfase na felicidade e Bem-Estar Psicológico (Psychological Well-Being - PWB) com ênfase na saúde mental, os quais, apesar de percursos e orientações diferentes, partilham objectivos comuns (Novo, 2003).

O “bem-estar” subjectivo (também chamado de felicidade), como componente da Psicologia Positiva10, constitui uma forma de avaliar a qualidade de vida da pessoa e é definido por Novo, (2003: 22), como ”um domínio que se refere ao bem-estar global avaliado a partir da Satisfação com a Vida e da Felicidade”. Sujeito a um olhar crítico, outros autores, advertem que o “bem-estar” subjectivo deve ser perspectivado como um domínio multifacetado de interesses, não se limitando a um conceito único, justificado pela abrangência de fenómenos que incluem respostas emocionais e avaliações globais em relação à satisfação de vida (Diener, et al.,1999; Villar, et al., 2003; Diener & Ryan, 2009; Lima, 2010). Alguns dos autores acima referidos identificaram três componentes principais que sustentam o “bem-estar” subjectivo: a satisfação de vida, o afecto positivo (que engloba emoções como a alegria, o orgulho e a afeição) e baixos níveis de afecto negativo (que

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Psicologia Positiva é um importante novo campo de estudos da Psicologia comtemporãnea que pode ser definido como o estudo científico de emoções positivas, forças e virtudes humanas. Procura uma compreensão mais científica, mais completa e mais equilibrada sobre as experiências humanas. (Passareli & Silva, 2007: 513).

englobam emoções negativas como a culpa, a vergonha e a tristeza) (Diener, Suh, Lucas & Smith, 1999; Diener, Kesebir & Lucas, 2008). Esta forma de “bem-estar”, tem em conta a avaliação que as pessoas fazem da sua vida, com base nos valores, nos objectivos, nos interesses, nos desejos, nas necessidades, nos sentimentos pessoais, nas potencialidades e nos direitos, entre outros critérios, o que faz com que se constitua como uma modalidade, verdadeiramente subjectiva, de compreensão do “bem-estar”, sempre com o “eu”, como centro de referência (Christopher, 1999; Lima, 2010; Oliveira, 2010).

Quanto ao “bem-estar” psicológico, apresenta-se como um constructo multidimensional, do funcionamento psicológico, enraizado na natureza humanista (Fonseca, 2006), e define-se como “uma qualidade de funcionamento que não se constrói por referência ao próprio, mas por referência aos outros e ao mundo, em que a própria descoberta só acontece na relação intersubjectiva, pelo que a esfera do relacionamento interpessoal deverá ser concebida como a matriz de base à construção da identidade pessoal e do bem-estar psicológico” (Novo, 2003: 15). Esta forma de “bem-estar” associa-se a uma avaliação positiva da vida pessoal e está ligada a sentimentos positivos, devendo orientar-se para a compreensão das dimensões que, de certo modo, reflectem a situação que a pessoa ocupa na vida, tais como: a autonomia, as relações positivas com os outros, o crescimento pessoal, a satisfação com a vida, a auto-aceitação, a auto-estima, o ânimo, o domínio do meio e os objectivos de vida (Novo, 2003; Fonseca, 2006). Os mesmos autores adiantam que este tipo de “bem-estar” adquire uma certa relevância quando aplicado à situação das pessoas idosas, quer pelo próprio envelhecimento e respectivas ameaças, quer pela adaptação bem-sucedida às situações desafiantes e consideradas de transição que acontecem com o passar dos anos (Paúl, 1992; Fonseca, 2006). Paúl (1992) acrescenta ainda que, a satisfação com a vida caracteriza o equilíbrio efectivo entre o ambiente que o idoso está inserido, o seu meio interno e todos os outros fenómenos pessoais, presentes aos mais diversos níveis e, refere-se ” (...) à avaliação que as pessoas fazem da vida como um todo, reflectindo a discrepância percebida entre as aspirações e as realizações, (...) ” (Paúl,1992: 62).

Embora se apresente esta dupla perspectiva, o conceito “bem-estar” constitui um termo global usado para descrever o Bem-Estar numa perspectiva abrangente, como o resultado de um conjunto de processos cognitivos, afectivos e emocionais (...)”(Novo, 2003: 48). Desta forma, possibilita a descrição de dimensões relacionadas com a vivência subjectiva que “(...) constituem as vias de construção do Bem- Estar Psicológico e reflectem, naturalmente, os sentimentos de satisfação e felicidade de cada um consigo próprio, com as

suas condições de vida sociais, relacionais, com realizações pessoais do passado e com as expectativas de futuro”(Novo, 2003: 49).

Como já referimos, também o “estar bem” (wellness) é um conceito que aparece na literatura e que está relacionado com a ”qualidade ou estado de estar de boa saúde” (Merriam-Webster Dictionary, 2000), estando assim ligado a uma forma de estar orientada para um melhor funcionamento, já que é “um método integrado de funcionamento orientado para maximizar o potencial de que uma pessoa é capaz” (Dunn,1961 citado por Hemstrom- Krainess, 2006: 628-629). Apesar de, na literatura consultada, podermos constatar alguma dificuldade na clareza conceptual deste conceito, o “estar bem” parece estar ligado ao conceito de “(...) saúde (enquanto objectivo) ou de auto-satisfação e o seu objectivo é a auto-realização” (MacKey, 2010; Oliveira, 2011: 17). Quando a saúde física é ameçada ou mesmo declina é de admitir que o “estar bem” se encontra ameaçado, sendo perspectivado mais como um estado potencial do que um estado actual (Mackey, 2009). No entanto, a mesma autora acrescenta que o “estar bem” pode igualmente ser definido como uma experiência subjectiva e actual, podendo ser visto como uma vertente do “bem-estar” no que se refere à dimensão saúde deste conceito (MacKey, 2010; Oliveira; 2011).

Parece haver alguma relação quando se relaciona o conceito “estar bem” com o conceito de “saúde” em oposição à “doença” (illness), constituindo assim a “saúde” o estado clínico, – objectivo – e, o “estar bem” – o estado subjectivo que é percebido e que reflecte a qualidade do estado interno de uma pessoa, sendo no entanto um indicador não observável associado a um estado ou percepção momentãnea (Mackey, 2010; Oliveira, 2011). Decorrente deste sentido, parece haver um elo de ligação entre os conceitos ”estar bem” e “bem-estar”, em matéria de orientação conceptual.

Apesar de, na literatura e na prática de enfermagem, não ser muito evidente a articulação destes dois conceitos, verificamos que o “bem-estar” e o “conforto” surgem fequentemente “entrecruzados” com aspectos em comum sendo o “bem-estar” apontado como elemento relacionado com as definições de conforto, o que caracteriza a sua concepção subjectiva (Mussi et al.,1996; Oliveira, 2011). Nas definições encontradas acerca do conceito de “conforto” temos expressões como: “sensação de bem-estar mental, físico ” ou “estado de comodidade e bem-estar” ou ainda, “estado de bem-estar que pode ocorrer durante qualquer situação do contínuo saúde-doença” ou também “estado de bem-estar em qualquer estado de saúde ou doença (Kolcaba & Kolcaba, 1991; Mcllveen & Morse, 1995; Morse, 1995; Siefert, 2002).

Parece haver algum cruzamento entre “conforto” e “bem-estar”, quando nos reportamos ao signicado de “conforto” como um estado de alívio, de tranquilidade, ainda que este possa ser temporário, já que a sensibilidade para o desconforto é relativa para a pessoa (Mcllveen & Morse, 1995, Kolcaba, 2003).Também para Benner & Wubrel (1989) o “bem-estar” parece aproximar-se do “estar-bem” e associa-se ao conforto, na medida em que o “bem-estar” se relaciona com o “cuidado” e a experiência de “se sentir cuidado”, e o conforto aparece indelevelmente associado à prática do cuidado de enfermagem (Kolcaba, 2003; Morse, 2000; Tutton & Seers, 2003; Oliveira, 2011).

Mas, se por um lado sabemos que “(...) ter saúde ou estar doente é um estado subjectivo, que se refere não só ao bem-estar, mas também, ou sobretudo ao controlo do sofrimento e ao conforto sentido, (...)” (Vieira, 2007: 84) e se por outro, atendermos à expressão de Kolcaba (2003), de que o conforto se apresenta como um estado imediato de se sentir fortalecido por ter supridas as necessidades de alívio, de tranquilidade e de transcendência, nos quatro contextos da experiência vivida, depreendemos que os dois conceitos apresentam diferenças. Assim vejamos:

– o “conforto” é referido como um estado imediato emergente, desejado,(Kolcaba, 2003), enquanto o “bem-estar” se refere a um constructo que, embora se perspective no momento presente, se reporta a uma experiência subjectiva de afecto agradável a longo prazo pela felicidade e satisfação com a vida e, à falta de afecto desagradável, (Diener, et al., 1999);

– o “conforto” relaciona-se com a experiência subjectiva de se sentir ajudado, fortalecido, beneficiado por algo ou por alguêm mediante encorajamento ou ajuda “fornecida” e, por isso ter adquirido ou potenciado a capacidade individual (Kocaba, 2003); o “bem-estar”, apesar de se referir também à experiência subjectiva, parece estar relacionado com o estar satisfeito, o estar bem com a vida nas suas múltiplas condições, (saúde, relacionamentos, aceitação de si mesmo, emoções, economia, entre outros), sugerindo assim a existência da relação da pessoa consigo própria e com a vida no presente e no passado, na revelação da sua capacidade para a orientação da sua própria vida, em função de objectivos significativos (Novo, 2003).

Articulando ideias, se compararmos o “conforto” e o “estar bem” conseguimos perceber que não são sobreponíveis uma vez que, o “estar bem” é percebido como a ausência de doença, de sintomas e de problemas (ou seja, desconfortos) e, o “conforto” pode também ser considerado como uma causa (medida) de alívio desses desconfortos, ou seja, como intervenção, embora, como já ficou explícito, não se esgote nesta perspectiva (Oliveira, 2011). O conforto é muito mais que a percepção subjectiva de saúde, “(...) é um

estado holístico e complexo (...)” e “um resultado essencial do cuidado de saúde (...)” sendo “o objectivo do cuidado de saúde aumentar o conforto (...)” (Kolcaba, 2003: 16-17).

Decorrente do exposto e sabendo que a pessoa no seu processo de vida é confrontada com “(...) a necessidade de adaptação, ou seja, de gerir as mudanças na sua vida de forma a manter ou conseguir o conforto físico, psicoespiritual, social e ambiental de que necessita para se sentir saudável” (Vieira, 2007: 84), consideramos que o “conforto” tem o seu interesse como resposta de cuidados de saúde, nomeadamente, em contexto de cuidados ao doente idoso crónico hospitalizado, na procura permanente da excelência no exercício profissional do enfermeiro.

PARTE II

CONSTRUÇÃO METODOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO DA INVESTIGAÇÃO:

UM ESTUDO ETNOGRÁFICO NUM SERVIÇO DE MEDICINA

A Parte (II) centra-se nas opções metodológicas e procura justificá-las do ponto de vista teórico. Com base no exposto iremos proceder à delimitação da problemática, à definição das perguntas de investigação, clarificando a opção pela metodologia qualitativa, explicitando as características e motivos de escolha do tipo de estudo que nos propusemos realizar – método etnográfico. Faremos a descrição do modo como planeámos e realizámos as várias fases do processo de investigação, clarificando os critérios utilizados e descrevendo os procedimentos inerentes ao percurso da recolha e análise dos dados, bem como os princípios éticos que tivemos em consideração.