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1. ENQUADRAMENTO E EXPRESSIVIDADE DO ENVELHECIMENTO HUMANO NO

1.1. O ENVELHECIMENTO INDIVIDUAL E O SER IDOSO

“Entrar no país da velhice é uma experiência nova, diferente do que esperaríamos que fosse. Ninguém, homem ou mulher, conhece o país até ter lá vivido (...)”

Malcom Cowley (1898-1989)

Compreendendo uma vasta área conceptual, revelando uma díficil gestão e um extenso palco de intervenientes, o fenómeno do envelhecimento, ao reunir em si muitos aspectos do ser humano, faz com que múltiplas disciplinas o tentem descrever e interpretar

de maneira a dar-lhe um sentido em direcção a uma intervenção integrada e global da pessoa idosa.

Sendo aceite que o envelhecimento se inicia antes da concepção e se evidencia após a maturidade reprodutiva da pessoa, é comum ser considerado como um processo contínuo, multifactorial, extremamente complexo – que tem como consequência natural a velhice – com contornos e dimensões que afectam o homem e a sociedade humana. Sabemos que, de um modo geral, é difícil encontrar consenso quanto à semântica e uso de diferentes palavras que se associam ao envelhecimento. O termo velho/velha definido como uma pessoa com muita idade, bem como todas as suas derivações – idoso, velhice, envelhecer – apresenta, muitas vezes, na sua utilização corrente, várias imprecisões, representando uma realidade difícil de delimitar.

O conceito de envelhecimento sofreu múltiplas variantes ao longo dos tempos, de acordo com a cultura, as crenças, os conhecimentos e os aspectos sociais de cada período/época assumindo uma perspectiva pluridisciplinar. Durante muito tempo, o envelhecimento foi olhado como uma doença, resultante do desgaste do organismo e d a acumulação de sequelas de infância e da idade adulta (Berger & Mailloux-Poirier, 1995), mas, na verdade, o envelhecimento é um processo natural, inerente à vida. Trata-se de um processo íntrinseco ao organismo e degenerativo, na medida em que conduz progressivamente à perda de capacidades e competências (Silva, 2006; Azeredo, 2011). Envelhecer é um fenómeno normal, multidimensional que se instala progressivamente e acompanha a pessoa ao longo da vida, sendo originado pela deteriorização progressiva do funcionamento do corpo, que ocorre após a maturidade e que, à medida que a idade avança, coloca as pessoas mais sensíveis aos factores susceptíveis de as levar à incapacidade e à morte (Cox, 1996;Henrard, 1997; Hayflick, 2007;Gilca, et al., 2007). Esta visão do ciclo de vida respeita e valoriza a natureza universal e dinâmica do envelhecimento. Todas as pessoas envelhecem condicionadas por circunstãncias e vivências de etapas anteriores, sendo que se trata de uma experiência extremamente diversificada, o que contribui para a diversidade do grupo dos idosos. Cícero (103-43 a.C), filósofo romano, na sua obra De Senectude (44 a.C) salientava que a velhice era um fenómeno que variava de pessoa para pessoa constituindo uma oportunidade de crescimento pessoal (Fontaine, 2000).

A abordagem ao envelhecimento humano implica, necessariamente, uma referência a essa etapa vital e particular da vida humana designada por velhice - última etapa do processo de crescimento do ser humano, em relação à qual foram variadas as perspectivas sociais e culturais desde a Antiguidade. Inscrita numa conjuntura histórica, a velhice é

definida como um estado ou condição de velho, sinónimo de idoso, aparecendo associada à idade avançada e a fenómenos seus decorrentes (Silva, 2006). A velhice e a procura da caracterização do fenómeno do envelhecimento despertaram o interesse de vários investigadores e começaram a ganhar um estatuto científico a partir da década de 80, quando se começou a perceber que uma visão pluridisciplinar do fenómeno era essencial. É numa abordagem transversal, onde se cruzam ciências tão variadas, que se centra o estudo dos idosos e do envelhecimento individual, numa procura dos seus fundamentos, em concreto (Bengston, Rice & Johnson, 1999; Fernández-Ballesteros, 2000; Costa, 2002; Arca, in Osório & Pinto, 2007, Azeredo, 2011):

 Do envelhecimento enquanto processo, onde se incluem os aspectos biológicos, psicológicos e sociais da velhice e, da idade enquanto padrão do comportamento social;

 Dos problemas funcionais e da sua inter-relação com as incapacidades e as dependências dos idosos.

Evocando um desenvolvimento contínuo, o ser humano não envelhece de uma forma brusca, instalando-se a velhice de uma forma que nos passa despercebida, sendo que o sinal mais evidente é a diminuição da capacidade de adaptação do organismo, verificando- se (Ramos, 1999: 69):

 Diminuição da capacidade de reserva dos sistemas orgânicos (que se acentuam nos períodos de exercício e/ou stress);

 Diminuição do controlo homeostático interno;

 Diminuição da capacidade de adaptação às diferentes solicitações (ex: hipotensão nas mudanças posturais, hipotemia/hipertermia nas mudanças de temperatura);  Diminuição da capacidade de responder ao stress (exercícios, febre, anemia).

De forma genérica, Schroots & Birren (1980) consideram que o processo de envelhecimento engloba três componentes: (i) uma componente biológica onde se incluem as mudanças da estrutura e fisiologia do corpo e que reflecte uma vulnerabilidade crescente da qual resulta uma maior probabilidade de se morrer; (ii) uma componente social, que diz respeito à representação dos papéis e costumes na sociedade, apropriados às expectativas para este nível etário; (iii) uma componente psicológica, definida pela autoregulação do indíviduo, face ao processo de senescência e relativamente à capacidade para tomar decisões e opções. Relaciona-se com as alterações do comportamento e da autopercepção onde se incluem a memória e as motivações. Durham (1989) distingue ainda o envelhecimento espiritual, que inclui mudanças do idoso na relação com os outros, no lugar que ocupa no mundo e na visão que tem do mundo.

Por outro lado, a diferenciação entre envelhecimento normal/biológico (primário), relacionado com a longevidade máxima e o envelhecimento patológico (secundário) relacionado com as diferenças interindividuais, é importante pelas implicações clínicas, sociais e económicas que tem na velhice. A este propósito, Birren & Schroots (1996), caracterizando as mudanças associadas ao envelhecimento, definem três padrões de envelhecimento que distinguem resultantes do funcionamento normal ou típico do organismo e das mudanças atípicas ou patológicas: (i) envelhecimento primário que diz respeito às mudanças intrínsecas e irreversíveis que acontecem com a passagem dos anos. Como processo fisiológico produz-se de forma gradual, sendo chamado igualmente de senescência, resultando do somatório de alterações orgânicas, funcionais e psicológicas do envelhecimento normal, este caracterizado pelas mudanças corporais da idade. Liga-nos à imagem tradicional do envelhecimento. Apesar dos efeitos serem visíveis, o seu mecanismo interno permanece, em grande parte, desconhecido, existindo no entanto, diferenças na velocidade com que os orgãos envelhecem; (ii) envelhecimento secundário, que se relaciona com as alterações causadas pela doença, também designadas de senilidade, e que podem ser reversíveis ou prevenidas, sem que a doença e o envelhecimento sejam considerados, necessariamente, processos coincidentes; (iii) envelhecimento terciário, relativo às mudanças que ocorrem de forma precipitada. Reflecte um envelhecimento rápido e precede imediatamente a morte (Paúl & Fonseca, 2005; Fonseca, 2006; Azeredo, 2011).

Sáiz Ruiz (2001) salienta que a razão para o envelhecimento se produzir está na incapacidade das células do corpo humano se poderem substituir a si mesmas e, por conseguinte, morrerem ou perderem gradualmente uma parte da sua função. É um processo provocado por factores intrínsecos das células, mas também por factores extrínsecos relacionados com o ambiente ou com a organização hormonal. A diminuição da capacidade de adaptação às influências do meio ambiente é consequência da diminuição do trabalho metabólico e da carência de reserva funcional das células nervosas. A inactividade, associada ao envelhecimento, leva à diminuição da actividade muscular que se traduz numa coordenação sensório-motora menos eficiente levando, nomeadamente, à lentificação de alguns processos e a dificuldades acrescidas de adaptação a novas situações, já que, à medida que se envelhece, maior é o tempo que se leva a reagir às situações de stress interno e externo e mais tempo se demora a repôr o equilíbrio (Sequeira, 2010). A probabilidade de adoecer e de morrer existe e aumenta com a idade cronológica em resposta a uma maior ou menor vulnerabilidade da pessoa.

Resultado da investigação, as teorias têm como objectivo explicar as mudanças ocorridas neste período, procurando explicar as causas do envelhecimento celular e as perturbações de saúde; no entanto, nenhuma delas oferece uma explicação total e universalmente aceite sobre o processo de envelhecimento. Existe concordância nos autores consultados de que o processo de envelhecimento é intrínseco ao organismo, é progressivo e é cumulativo, sendo vários os autores que tentam organizar as diferentes Teorias Explicativas do Envelhecimento em diferentes épocas, conduzindo a uma variância estrutural das mesmas. Berger & Mailloux-Poirier (1995: 99-105) distinguem-nas em teorias do envelhecimento biológico (quadro 1) e teorias do envelhecimento psicossocial (quadro 2), com o objectivo de explicar as influências dos factores sociais e culturais sobre o envelhecimento:

Quadro 1– Teorias do Envelhecimento Biológico

Teoria Imunitária O sistema imunitário deixa de reconhecer as células do próprio organismo em

relação a substâncias estranhas presentes (anticorpos), destruindo-as.

Teoria Genética

O envelhecimento é programado biologicamente e faz parte de um contínuo que acompanha a embriogénese, a puberdade e a maturação, funcionando o

genoma como um relógio molecular biológico.

Teoria do Erro na Síntese Proteica

Existência de erros na molécula de ADN que falseiam a informação genética.

Teoria do Desgaste

Componentes do organismo humano deterioram-se com o uso.

Teorias dos Radicais Livres

Os radicais livres provocam o envelhecimento, pela peroxidação dos lípidos não saturados e consequente transformação em substâncias que envelhecem

as células.

Teoria Neuro- endócrina

A regulação do envelhecimento celular e fisiológico relaciona-se com as alterações/insuficiência das funções neuro-endócrinas.

TEORIA PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

Quadro 2 – Teorias do Envelhecimento Psicossocial

Com o intensificar das pesquisas, para além das teorias já referidas, outras procuraram dar resposta a questões relacionadas com os aspectos culturais, sociais e psicológicos inerentes à velhice e ao envelhecimento (Oliveira, 2010), tentando explicar a razão, porque envelhecemos e como envelhecemos, de forma a compreender melhor todo este processo. Embora nenhuma delas, por si, explique cabalmente as questões ligadas ao envelhecimento e, perspectivando a problemática em estudo, parece desejável referir também o surgimento, no período recente (iniciando os anos 80), (Novo, 2003; Fonseca, 2006; Oliveira, 2010): (i) da teoria gerodinâmica ou teoria da bifurcação, inspirada na teoria geral dos sistemas, que procura explicar o envelhecimento tendo por base uma série de mudanças intrínsecas à pessoa levando-as a uma maior desordem e ao enfraquecimento das suas capacidades e recursos e acabando por conduzir à morte. Esta, integra a teoria do caos que se liga a um aumento de entropia associado à idade e da qual resulta a ordem (optimização da autoregulação e da independência) e a desordem (enfraquecimento de algumas capacidades e recursos) e a teoria termodinãmica proposta por Yates (1993), onde acontece uma quebra de energia de base genética condicionada pelo ambiente em que o envelhecimento resulta no declínio funcional de um orgão ou tecido de funções que causam instabilidade dinâmica; (ii) da teoria da gerotranscendência (Tornstam, 1996) que defende que, na velhice, a visão materialista da vida vai cedendo lugar a uma visão mais holistica e

Teoria da Desinserção

Liga o envelhecimento à desinserção que acontece entre a sociedade e o idoso, na medida em que as pessoas, no percurso normal do envelhecimento, tendem a recolher-se ou a desinvestirem dos papéis sociais,

como resposta natural à diminuição das capacidades e interesses e à diminuição dos incentivos sociais para a participação. Esta teoria explica o aumento do activismo sénior, nos anos 1960 e 1970 e, pode estar na base das

políticas sociais que levaram ao aparecimento de centros de dia e de lares. A velhice bem-sucedida implica a descoberta de novos papéis na vida.

Teoria da Actividade

Liga o idoso a uma maior satisfação na vida, na medida em que, quanto mais activo se mantiver, maior será a sua auto-estima permitindo uma maior

manutenção da saúde.

Teoria da Continuidade

O idoso mantém os seus hábitos de vida, as suas experiências, preferências e compromissos, fazendo estes parte da sua própria personalidade.

TEORIA PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

transcendente trazendo consigo uma maior satisfação com a vida, englobando dimensões subjectivas e emocionais e não apenas objectivas e racionais; e (iii) da teoria ecológica, proposta por Birren (1995), que justifica o envelhecimento como resultado da interacção entre um determinado património genético e o ambiente a que a pessoa se encontra exposta (Oliveira, 2010).

Face às diferentes teorias, assume-se também a natureza subjectiva e, portanto, a unicidade na percepção implícita ao processo de envelhecimento, percebendo-se que não só se deve procurar explicações numa abrangência mais holística e sistémica, como também, são necessários modelos que integrem diferentes variáveis e que se centrem numa explicação holística (bio-psico-social) do envelhecer (Oliveira, 2010). Reconhecem-se dificuldades de ordem conceptual, o que faz com que alguns aspectos estejam pouco claros, procurando explicar-se a forma como o processo de envelhecimento ocorre ao longo do tempo, nas diferentes dimensões da pessoa (biológica, psicológica e social), os problemas funcionais dos idosos que conduzem a uma maior ou menor capacidade para levarem uma vida independente e ainda a idade enquanto padrão de comportamento social (Bengtson, Rice & Johnson, 1999; Oliveira, 2010).

A idade é um dos mecanismos básicos que a sociedade utiliza para atribuir diferentes papéis, direitos e responsabilidades às pessoas (Arca, in Osório e Pinto 2007; Azeredo, 2011). Quando pensamos em idade, em idade cronológica, pensamos geralmente em tempo, em meses e anos de vida, tratando-se de um índice de informação acerca da pessoa e do seu desenvolvimento e de um método simples de organização dos acontecimentos, com o qual se está familiarizado, ressalvando porém, que a idade por si só, não explica muito (Fonseca, 2006). Qualquer limite cronológico é sempre arbitrário e não traduz as implicações ao nível biológico, psicológico e sociocultural, associadas ao processo de envelhecimento.

A verdade é que a velhice não tem um início cronológico. São vários os autores, em diferentes épocas, que sugerem definições distintas para o conceito de idoso, passando estas por uma designação, na maioria das vezes, baseada numa condição de ordem meramente cronológica, ligada ao natural desenrolar do ciclo de vida. De acordo com Spirduso, (2005), os idosos dos 75 aos 84 anos devem ser classificados como “idosos”, dos 85-99 de “idosos-idosos” e a partir de 100 anos, como “idosos muito idosos”. A Organização das Nações Unidas divide as pessoas idosas em três categorias: Os pré-idosos (entre 55 e 64 anos) os idosos jovens (entre 65 e 79 anos, ou entre 60 e 69 anos para quem vive na Ásia e regiões do Pacífico) e os idosos de idade avançada (com mais de 80 anos). Os idosos de idade mais avançada também são chamados grandes idosos e os menos idosos,

com cerca de 67-70 anos, de velhos novos. Esta nomenclatura associada às diferentes idades pode variar consoante os autores. Não sendo consensual qual a idade para se considerar uma pessoa idosa, a Organização das Nações Unidas, elegeu que o idoso é todo o indíviduo com 60 e mais anos de idade, independentemente do sexo (WHO, 2002a, 2009). No entanto, a idade da reforma e do início da velhice estabelecida na maior parte das sociedades europeias é de 65 anos e mais, considerando o INE (2002:1), “ pessoas idosas os homens e mulheres com idade igual ou superior a 65 anos que em Portugal está associada à idade da reforma”, sendo para nós esta a unidade de sentido utilizada neste estudo para a Pessoa Idosa.

Embora se reconheça um conjunto de traços típicos do envelhecimento humano, que se manifestam com a passagem dos anos e se caracterizam pelo seu carácter irreversível, como cabelos brancos, pele enrugada, diminuição do vigor, entre outras alterações (morfológicas, orgânicas e funcionais), cada pessoa envelhece de forma particular, diferente de outra, tendo em conta aspectos biológicos, psicológicos, geográficos, históricos, sociais, culturais e económicos (Berger, & Mailloux-Poirier,1995; Costa, 2006; Imaginário, 2004; Oliveira, 2010, Azeredo, 2011). A diversidade de factores que condiciona o envelhecimento e a grande amplitude etária em que se integram a faixa dos mais velhos, faz com que este grupo seja muito heterogéneo. A idade cronológica dá-nos a indicação sobre o período histórico em que a pessoa viveu, determina muitas vezes a idade da reforma, mas não esclarece nem contextualiza, de forma precisa, a evolução do processo em si, havendo por isso necessidade de atender a outros indíces para se poder compreender o comportamento e a forma como as pessoas vão envelhecendo (Fonseca, 2006; Oliveira, 2010).

Nesta linha de ideias, os estudos realizados têm suscitado algum desenvolvimento relativamente ao processo de envelhecimento, sendo este caracterizado em diferentes “categorias de idade” (Arca, in Osório & Pinto, 2007; Oliveira, 2010): (i) a idade física e biológica relativa às mudanças físicas e à perda ou deteriorização de faculdades relaciona- se com o funcionamento dos sistemas vitais do organismo humano, com importância para a consideração dos problemas de saúde que afectam as pessoas, na medida em que a capacidade de auto-regulação do funcionamento dos sistemas diminui com a idade; (ii) a idade psicoafectiva refere-se às capacidades e competências comportamentais utilizadas no processo de adaptação a acontecimentos importantes e às mudanças do ambiente. Inclui sentimentos, cognições, motivações, memória, inteligência e outras dimensões organizativas do controlo pessoal e autoestima; (iii) a idade sóciocultural que diz respeito aos papéis sociais adoptados em sociedade e à cultura a que pertencem, com base em comportamentos, hábitos, estilos de relacionamento interpessoal e, que determinam o

modelo de comportamento que se espera dos idosos. Relativamente à conceptualização da velhice, Fernández-Ballesteros (2000), introduz também, a noção de idade funcional que se constitui como um conjunto de indicadores (capacidade funcional, tempo de reacção, satisfação com a vida, amplitude de redes sociais), que se relacionam com a saúde, a independência física, a função social e psicológica e permitem compreender como se podem criar condições para um envelhecimento satisfatório.

Todos os acontecimentos da vida influenciam e organizam o processo de envelhecimento. Apesar da idade da reforma (65 anos), ser um marco seguro para o início da velhice, sabemos que, hoje em dia, as pessoas reformam-se cada vez mais cedo, por motivos vários, onde se incluem o desemprego, as reformas antecipadas, as doenças e as incapacidades, factores que implicam um decréscimo dos rendimentos económicos, a perda de contactos sociais e uma maior quantidade de tempo livre (Figueiredo, 2007). O isolamento social é um factor a considerar nas questões relacionadas com a adaptação do idoso a mudanças, pelo que se torna fundamental encontrar formas de lidar com esta situação. Há assim, uma identidade própria onde os idosos se encontram identificados.

De uma etapa de vida, demarcada pela idade, para outra adquirem-se ou perdem-se direitos, envolvendo diversas mudanças em simultâneo, muitas vezes, dificilmente conciliáveis entre si, podendo ser olhada sob duas vertentes: uma positiva e outra negativa, o que determina a criação de novos papéis e funções aos seus actores. Por um lado, trata- se de um etapa com benefícios, mais positiva, não só propícia ao estabelecimento de relações mais próximas com a família e outros significativos, bem como à realização de actividades que promovam bem-estar, onde imperam factores como a liberdade, maior estabilidade económica, mais disponibilidade e tempo para o lazer, procurando alcançar novas metas que sejam gratificantes. Por outro, é uma etapa que se liga a uma abordagem negativa, fundamentada nas situações de pobreza, de isolamento social, de solidão, de doença e de dependência, restringindo o indivíduo, nesta fase do ciclo vital, a uma existência desprovida de interesses, de integração social e oportunidades, assinalada por momentos de sofrimento e perdas, nomeadamente, a perda de estatuto como membro activo, perda de papéis no sistema familiar, na organização social, havendo necessidade de um ajustamento ao novo universo de sociabilidade (Mauritti, 2004; Fonseca, 2005; Azeredo, 2011).

Concordamos com Costa (2006: 35), ao realçar como aspectos significativos e preocupantes para os idosos as “Situações como a solidão, o sentido da perda dos contactos familiares e sociais, a carência de recursos económicos ou de suporte social e a

perda de autonomia (condicionante da sua incapacidade e dependência) (...) ” as quais perduram no sistema global de cuidados, pelo que, nos parece ser importante ter uma atenção centrada na redução ou prevenção dessas mesmas perdas bem como, nas características da pessoa que envelhece.

Em consequência das percepções sociais da velhice, constata-se que, na época em que o envelhecimento não era tão acentuado, a velhice estava associada à sabedoria, à experiência e a um importante reconhecimento social. No entanto, com as transformações verificadas na sociedade, ao assumirem a velhice como um declínio progressivo e absoluto, sinónimo de incapacidade e de rejeição e, ao enaltecerem a beleza, a vitalidade e a juventude, a imagem das pessoas idosas alterou-se tendo o idoso progressivamente vindo a ocupar um lugar de menor relevância nas sociedades industrializadas, tornando-se um encargo pesado para os serviços sociais e recursos da saúde.

É evidente a grande importância das crenças populares e das representações sociais a propósito da velhice, bem como da maneira como as pessoas a vivem e a experimentam.