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3. O BOATO DO CONFISCO DA POUPANÇA

3.1. O boato do confisco da poupança como acontecimento

Para efeito de raciocínio e de detalhamento de nossas observações junto ao nosso objeto empírico, destacamos o boato do confisco da poupança como um acontecimento

71 Este conceito será melhor trabalhado na seção “3.1. O boato do confisco da poupança como acontecimento” desta pesquisa.

Apresentação do objeto de estudo: o boato do confisco da poupança

Destaque e análise do objeto a partir de uma concepção dele como acontecimento comunicacional, que possui três fases de individuação: a descrição, a narração e o pano de fundo pragmático.

Exposição do corpus da pesquisa: entre janeiro de 2015 a junho de 2016, no Twitter

Destaque do recorte: março, abril e maio de 2015 e 2016

Enquadrando-o a partir de três categorias previamente apresentadas: o interesse, a credibilidade, e a memória; por meio de 15 indicadores.

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comunicacional e pragmático a partir de estudos e interpretações das visões de Louis Quéré (1991), que entende o acontecimento como “uma emergência que instaura sentidos e rompe com a continuidade da experiência” e que “se inscreve em um contexto e ganha uma nova dimensão na medida em que é narrado e descrito através da comunicação” (SIMÕES, 2014, p. 177). Para cada acontecimento, o autor sublinha três fases da individuação, ou seja, três fases de particularização que distingue este acontecimento de todos os outros. A individuação consiste nos processos de 1) descrição, 2) de narração, e 3) de configuração de um pano de fundo relacional que será capaz de mover práticas e ações dos públicos. Isto quer dizer que cada acontecimento, individuado, se diferenciará de outro devido às suas características específicas. Esse conceito de acontecimento que abraçamos toma como pressuposto a articulação entre acontecimento e experiência, que se dá na interação (MEAD, 1932; DEWEY, 1980) entre “uma criatura viva e algum aspecto do mundo no qual ela vive”, sendo que este “processo continua até que emerja uma adaptação mútua do eu e do objeto” (DEWEY, 1980, pp.95-96), o que vai implicar no próprio processo da vida.

Um acontecimento é estritamente o que sobressai, o que é saliente, a consequência mais notável, o ponto culminante. Ele implica um conceito teleológico; descrevê-lo e narrá-lo só é possível mediante sua delimitação por um começo e por um ponto final, com um intervalo entre esses dois pontos. (DEWEY, 1993 apud QUÉRÉ, 2012, p.23) É a nossa percepção proveniente do sentido de interação e do sentimento de que “algo aconteceu” que faz nascer uma dupla dimensão do acontecimento: o seu poder de afetação e o seu poder hermenêutico. Ou seja, o poder de o acontecimento tocar as experiências dos sujeitos e a forma como esse acontecimento elucida diferentes aspectos do contexto social em que está inscrito. Um acontecimento vai falar dele tanto quanto falará daqueles a que ele afeta e de seu contexto, uma vez que “quando comunicamos, dizemos alguma coisa; e dizemos também algo sobre o que dissemos” (FRANÇA, 2003,p.14).

Este ponto de vista implica que um acontecimento se destaca de um contexto e de uma cultura no tempo presente. Momento em que o que é narrado e descrito assume um significado a partir do que nós entendemos daquilo e do que simbolizamos coletivamente nas trocas interativas. Na perspectiva de Blumer (1969), para esta abordagem existem três premissas:

A primeira premissa é que os seres humanos agem em relação às coisas com base nos significados que essas coisas possuem para eles. Essas coisas incluem tudo o que o ser humano pode notar em seu mundo. (...) A segunda premissa é que o significado de tais coisas deriva ou surge da interação social que cada um estabelece com seus semelhantes. A terceira premissa é que esses significados são manuseados e modificados pelas pessoas através de um processo interpretativo, no trato com as pessoas que elas encontrarem (BLUMER, 1969, p.2).

A partilha coletiva de significados vai aparecer anteriormente em Mead (1932) na obra The Philosophy of the Present,em que o autor fala que um acontecimento que passa a existir

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“cria com sua unicidade um passado e o futuro”, tornando-se “uma história e uma profecia” (p.23). Uma interpretação da obra feita por Paula Simões (2014) destaca que um acontecimento “tanto aponta para o passado como para o futuro que ele mesmo inaugura” (p.176):

Assim, (...) o acontecimento é uma emergência na experiência, um existente saliente que irrompe em um contexto e neste sofre mudanças e contingências. Ele emerge no presente e, com isso, constrói tanto um passado como um futuro – revelando a dimensão temporal que lhe é constitutiva. (SIMÕES, 2014, p.176)

Aqui, a perspectiva temporal – a sensação da passagem de tempo, adquire destaque. Uma vez que é através de um acontecimento, como o estamos entendendo aqui, que se desencadeiam sentidos nas experiências dos sujeitos e que faz saltar no nosso tempo uma percepção de passado e de futuro. Vera França (2012) explica que os acontecimentos são fatos que ocorrem a alguém, que provocam a ruptura e desorganização, e que introduzem uma diferença, pois fazem pensar, suscitam sentidos, e fazem agir – a partir de uma dimensão pragmática. São, por isso, ocorrências que “curto-circuitam o tempo linear; [e que] ocorrendo no nosso presente, eles convocam um passado e re-posicionam o futuro” (p.14).

Os boatos são capazes de levar os públicos a tomar decisões coletivas que serão vistas, no futuro, talvez como absurdas, mas que no contexto e no momento em que aconteceram faziam sentido. Em cada momento, portanto, estaremos falando também de uma diversidade de outros fatos que podem incidir sobre o contexto para alimentar a especulação. Ou seja, de um conjunto de outros acontecimentos que auxiliarão na criação e sustentação da narrativa do temor por um novo assalto aos saldos bancários.

Aqui, relembramos a possibilidade da relação entre a memória e a experiência nas dinâmicas de circulação dos boatos, e da união de fragmentos de memórias na propagação de estereótipos e sínteses de entendimentos que nos posicionam em relação ao futuro.

O boato do confisco da poupança nasce de um fato concreto das vidas dos brasileiros, distinguindo-se dos boatos que dizem de uma situação hipotética, equivocada, mal interpretada ou apenas possível. Sendo assim, lançaremos mão de descrever (primeira fase da individuação) dois acontecimentos: o primeiro, que é o confisco de 1990; e o segundo, que é o rumor que ocorreu sobre o confisco entre janeiro de 2015 e junho de 2016 no Twitter. Assim faremos, pois entendemos não ser possível desvincular deste segundo acontecimento simbólico (o confisco-rumor) a sua primeira vida de dimensão factual (o confisco-concreto72). Como explica Vera França (2012), a partir das ideias de Quèrè, as duas vidas de um acontecimento coexistem, pois “vivemos acontecimentos que se veem marcados não apenas por suas características

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intrínsecas, mas também por outras representações que fazem parte de nosso repertório e são a eles associadas no processo de sua simbolização” (FRANÇA, 2012, p. 14).

Neste sentido, Quèrè propõe pensar os acontecimentos como existencial e objeto. O primeiro, é um acontecimento tal como emerge e se concretiza, desencadeando reações fundadas na percepção imediata dos fatos e a emoção; e o segundo, o acontecimento objeto, passa por um processo de simbolização realizada através da comunicação, ganhando dimensões discursivas e passando a fazer parte de nossas condutas (SIMÕES, 2014, pp. 184,185).

Do nosso entendimento, frisamos que falar do boato do confisco como acontecimento é falar não das concretudes de um assalto às contas bancárias dos brasileiros pós-1990, mas da sua expectativa atrelada a características simbólicas da época em que vivemos. Com efeito, nesta pesquisa, ao perseguimos aquilo que pode nos ajudar a entender como os boatos participam da dinâmica de formação da opinião pública, perceberemos que a atuação da memória tem forte peso na interpretação do rumor do confisco da poupança, atualizando o fato concreto da década de 1990 com aspectos da realidade presente.

Se fizermos um esforço de imaginação e nos deslocarmos para um momento de incerteza econômica, em que os índices de desemprego aumentam, os salários não rendem como costumavam nos supermercados e em que os representantes políticos que deveriam resolver esses problemas não possuem legitimidade ou não aparentam ter a capacidade desejada de mudança rápida e eficiente, uma das opções razoáveis a se acreditar seria um possível confisco da poupança. Afinal, se uma, duas, três grandes agências internacionais de crédito rebaixaram a nota de confiança do país – e essas notícias foram divulgadas pela imprensa, e a poupança, por outra série de complexas relações e razões econômicas, chega a registrar o pior saldo em 20 anos73, não é absurdo imaginar que o governo precisaria de dinheiro para pagar dívidas e manter compromissos.

Ressaltemos, todavia, que essa é uma visão simplista do contexto, associada ao tempo de circulação do rumor do confisco da poupança, e que muitas outras combinações de frequência e peso de diferentes fatores contribuíam para tornar o momento de crise mais instável e incerto entre os meses de janeiro de 2015 e junho de 2016. No mesmo espectro, podemos

73 Notícia de fevereiro de 2015 da Agência Estado afirma: “Dados divulgados ontem pelo Banco Central revelam que os resgates da caderneta, já descontados os depósitos, somaram R$ 5,529 bilhões em janeiro - o maior dos últimos 20 anos. Foi a primeira vez em nove meses que o volume de retiradas (R$ 152,996 bilhões) ficou maior do que o de depósitos (R$ 147,467 bilhões). Em abril do ano passado, o resultado havia ficado negativo em R$ 1,273 bilhão. Com isso, o saldo da poupança em janeiro é o pior para o mês da série histórica do BC, iniciada em 1995”. Acesso à matéria completa disponível em: http://www.opopular.com.br/editorias/economia/poupa n%C3%A7aregistrapiorsaldoem20anos1.774474

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lembrar, inclusive, a própria atuação da memória coletiva dos sujeitos entre os momentos semelhantes vividos pelo país nas diferentes décadas: crises políticas, envolvimento presidencial em acusações de corrupção, crises econômicas, pedidos de impeachment...

É claro que esta associação entre as notícias que revelam o maior número de resgates da caderneta de poupança dos últimos 20 anos, e o boato de um novo confisco não pode ser feita levianamente, porque justamente uma das explicações que ajudam a justificar esses saques foi o agravamento de uma crise econômica que se arrastava por meses e que se intensificou naquele período. Quem tinha dinheiro guardado deveria, dessa forma, poder acessar seus saldos bancários e sacá-los para solucionar questões como, por exemplo, dívidas domésticas. No entanto, não podemos negar que tais rumores existiram e circularam no período de forte crise econômica nacional de que tratam as notícias e que, portanto, estiveram presentes para afetar e alimentar diversos quadros de sentidos que os públicos possuíam em suas memórias sobre o assunto e seus envolvidos.

Logo, para prosseguirmos pensando o rumor sobre o confisco da poupança, é importante pensá-lo nesta relação entre sua emergência no corpo social e o que ele desencadeia na formação da experiência e da opinião dos públicos. Parte dos quadros de sentidos relativos ao boato do confisco da poupança deriva do acontecimento da década de 1990 e se torna, em si, uma expectativa simbólica gerada por ele. Por fim, aceitamos que o boato do confisco da poupança pode ser considerado como um acontecimento, porque pode ser descrito, podendo ser enquadrado em um período de tempo (janeiro de 2015 a junho 2016) e distinguindo-se, assim de outros acontecimentos. Pode também ser narrado, porque se inscreve em uma linha temporal, com compreensão da existência e identificação de ações e atores; e, ainda, possuir um pano de fundo pragmático, que articula e move práticas instituídas e hábitos de ação a partir das estruturas culturais, gerando a percepção de públicos e suas diversas reações. Dessa forma, na perseguição por outros entendimentos, seguimos individuando nosso objeto.