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O CÂNCER EM PAUTA NO PROGRAMA SER SAUDÁVEL

No documento allandegouveapereira (páginas 116-121)

Foram selecionados, dentro do período de análise, as duas únicas edições que se propuseram a falar, de alguma forma, das neoplasias. As observações de nossa investigação obedecerão aos mesmos critérios dos outros produtos, prescindindo, contudo, de quase tudo que se refere às técnicas jornalísticas; uma vez que o programa parece ter como objetivo se constituir como um outro gênero televisivo, pois os apresentadores, por exemplo, são profissionais da saúde. O programa vai ao ar aos sábados, às 10h, e alguns episódios são reprisados ao término das temporadas.

As edições são sempre gravadas fora do estúdio. Os médico-apresentadores visitam pessoas que vivem ou que viveram uma situação de doença, dialogando com as pessoas, dando informações e entrevistando outros especialistas. Sobre o formato do programa, o sítio eletrônico informa que se trata de uma

escolha de abordagem e de estética que visam apresentar uma perspectiva não apenas médico-científica, mas também humana. A acuidade e atualidade dos conteúdos veiculados são garantidos por equipe multidisciplinar, composta por profissionais de saúde e de comunicação. Além da participação dos especialistas, das explicações e dicas dos médicos-apresentadores, o programa conta com diferentes recursos, como arte gráfica em 3D, para mostrar o funcionamento do organismo em situações de saúde e de doença. Por meio de explicações claras e precisas, o Ser Saudável esclarece a população sobre mitos e verdades, cuidados de saúde e prevenção39 (TV BRASIL, 2014).

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Essas promessas servirão, assim, também como parâmetros para o trabalho investigativo que desenvolve abaixo. As duas edições em questão abordam o linfoma e o mioma (tumor benigno).

A primeira das duas edições analisadas do programa Ser Saudável se dedicou a abordar o Linfoma de Hodgkin – um tipo pouco retratado na mídia e que não está entre os mais incidentes, de acordo com o INCA. Como já antecipamos, o formato do SS inclui a apresentação de dois médicos de família e comunidade que conversam com pessoas que passaram por determinada doença. Cada episódio tem cerca de 30 minutos. Eles visitam a casa das pessoas, onde conversam sobre as circunstâncias vividas pelas personagens e outras informações sobre elas. Falam um pouco sobre a vida delas, hobbies, histórias, casos e memórias. Inicialmente, define-se sistema linfático e qual a sua função no organismo humano; utilizando, para isso, o suporte de recursos gráficos.

Os diálogos vão conduzindo o programa para as diversas informações da doença. Nessa edição, transmitida primeiramente em 31 de maio de 2013 e reprisada em 31 de agosto do mesmo ano (por isso, integrou nosso escopo), não se fala, por exemplo, das causas da doença nem das formas de prevenção. Apesar disso, o médico convidado (onco- hematologista) esclarece que o principal sintoma do linfoma é o aumento assimétrico de um gânglio linfático (um inchaço avermelhado, a famosa íngua). Contudo, há também a informação de que a maioria das ínguas representam um quadro benigno ou simplesmente infeccioso e que são muito comuns. Uma das pacientes conta que teve dor forte na região abdominal e indisposição física. Os médicos elucidam que os sintomas são muitos banais e comuns, dependendo do local, e que a distinção para o correto diagnóstico se faz através do exame de sangue. A cirurgia é normalmente utilizada apenas para diagnosticar (retirando uma parte do gânglio) e, hoje em dia, o PET CT, uma espécie de “tomografia turbinada”, tem permitido a localização exata do tumor, bem como aferir o grau de disseminação.

Em relação ao tratamento, a quimioterapia é a terapia mais eficaz e suas drogas são prescritas de acordo com o tipo de linfoma. Há dois grandes grupos, o de Hodgkin e o não Hodgkin; o segundo possui mais de 30 tipos, podendo ser simples ou grave. A radioterapia é indicada para os linfomas Hodgkin (bem localizado). Os fármacos e a alimentação também são importantes para o tratamento, principalmente porque a doença mexe com o sistema imunológico. Quando a doença se mostra mais agressiva, há a necessidade de transplante de medula óssea, o que é muito raro. Para o tipo não Hodgkin, a imunoterapia também tem sido utilizada. Essas informações aparecem nas falas dos especialistas e dos pacientes. Ressalte-se

o depoimento do médico convidado, que esclarece tudo detalhadamente, em linguagem acessível.

Entre as repercussões dos tumores linfáticos, aparece a baixa imunidade do corpo e, por isso, os pacientes precisam evitar qualquer possibilidade de contrair outras doenças. Os efeitos colaterais da quimioterapia são amenizados pelas duas personagens, que disseram ter lidado bem com este tipo de tratamento. Uma delas apenas demonstrou preocupação com uma possível infertilidade, pois a quimioterapia destruiria células boas também. No entanto, o oncologista afirmou que a maioria das drogas utilizadas não causa esterilidade.

Em tom otimista e informativo, esse tipo de câncer é considerado como um dos que mais cresce no mundo, mas, segundo o apresentador, a “expectativa de cura é bastante positiva”. Um “povo fala” demonstra que as pessoas nas ruas, de um modo geral, têm poucas informações sobre a doença. O marido de uma das personagens afirmou que receber o diagnóstico de câncer é um “baque muito grande” e que não adianta chorar nem achar uma culpa. Os dois apresentadores comentam que o tratamento de linfoma apresenta um bom prognóstico, pois, “apesar de ser um câncer”, são altas as chances de cura e a sobrevida é cada vez maior.

Na voz da apresentadora, há uma crítica sutil ao sistema público de saúde, que deveria garantir um acesso mais rápido e fácil ao atendimento, além de permitir que um mesmo profissional acompanhe a evolução dos casos – especialmente para o tratamento do linfoma. Para ela, isso deve se estender também para o atendimento da rede privada. Uma informação de serviço é a que incentiva as pessoas a se cadastrarem para a doação de medula óssea, que não oferece riscos significativos ao doador e que pode salvar vidas.

Acreditamos que o formato e o conteúdo empregados por esse programa se aproximam muito de um modelo que poderíamos idealizar para a informação em saúde. Em nenhum momento, o SS faz alarde em torno da doença, não estabelece um regime comportamental para prevenção ou tratamento, procura desmistificar a doença (com perguntas no estilo ‘mitos e verdades’) e, principalmente, ao utilizar a personificação como estratégia de cobertura televisiva, o faz muito mais com a perspectiva de humanização do relato, sem apelar para as emoções ou para o sensacionalismo. É um modelo que, de alguma maneira, pode servir de referência para os demais.

Essa avaliação também se faz em relação à outra edição selecionada, que, na verdade, aborda uma doença que não é considerada câncer, mas que pode causar confusão, como afirmam os especialistas do programa.

“O mioma não é câncer”, informou o médico-apresentador nos minutos iniciais do Ser Saudável. Contudo, incluímos essa edição em nossa análise, sobretudo por conta dessa confusão que se faz e, portanto, configura um material de “abordagem parcial”. Na verdade, miomas são tumores benignos, nódulos do útero que, em alguns casos, causam sintomas nas mulheres. Apenas quando a paciente apresenta sangramento menstrual excessivo, dor pélvica, “pressão” no baixo ventre e/ou aumento do volume abdominal é que o mioma é tratado e, por vezes, retirado. Os ginecologistas mostram que se trata de uma doença muito comum, principalmente no período de idade em torno dos 30 e 40 anos. As consequências possíveis são a retirada do útero, a infertilidade e a compressão de outros órgãos próximos do útero.

O formato desse programa foi bem parecido com o primeiro e, nesse sentido, foi importante para este trabalho para compreender que o câncer guarda tantos mitos que chega, inclusive, a ser confundido com outras doenças que apresentam riscos menores. Nesse sentido, explica-se que a retirada do útero, se necessário (em caso de mioma ou câncer do colo de útero) não elimina, do ponto de vista fisiológico, a libido da mulher; isso pode acontecer, eventualmente, por conta de fatores psicológicos. Além disso, a ginecologista também explica que, apenas em menos de 1% dos casos, um mioma pode se “malignizar” e se transformar em sarcoma (câncer).

Nos dois programas, o alvo foi o público feminino, sendo mulheres de diversos lugares do Brasil: Rio Grande do Sul, São Paulo e Bahia; e de diversas profissões (jornalista, professora, dona de casa...). No segundo episódio, uma mulher negra foi entrevistada pela apresentadora de mesma etnia. Isso demonstra que há uma tentativa, por parte do canal público, de representação da diversidade regional e étnica brasileiras, até mesmo em um programa sobre saúde.

6 NO MUNDO DO CÂNCER: RELATOS DE UMA PESQUISA DE CAMPO

“As noções punitivas da doença têm uma longa história e são particularmente atuantes em relação ao câncer. Existe uma ‘luta’ ou ‘cruzada’ contra o câncer. O câncer é a doença ‘assassina’. As pessoas que têm câncer são ‘vítimas do câncer’. Aparentemente, a doença é o réu, mas ao doente também cabe culpa. Teorias psicológicas da doença amplamente difundidas atribuem ao infeliz canceroso tanto a responsabilidade de ter caído enfermo quanto a de curar-se. E as convenções segundo as quais o câncer é tratado, não como uma simples doença, mas como um inimigo satânico, fazem dele não só uma enfermidade letal mas também uma doença vergonhosa” (SONTAG, 1984, p. 75).

A imersão em um espaço reconhecida e marcadamente dedicado ao combate à dor do câncer nos conduziu a importantes noções acerca dos efeitos sociais predominantes no universo que essa doença delimita. Nosso objetivo foi buscar reconhecer os sentidos que a informação em saúde mobiliza para todos os atores sociais envolvidos, quais sejam: pacientes (ex, em controle40, em tratamento ou recém-diagnosticados), familiares, amigos, médicos e todos os outros profissionais que lidam com as neoplasias. Outrossim, pretendíamos compreender e descrever a realidade cotidiana do câncer por si mesma, sem a mediação social direta estabelecida pelos meios de comunicação.

Diante dessas necessidades e objetivos, precisávamos observar, conhecer e dialogar com esses personagens e, nessa perspectiva, encontrar um espaço no qual fosse possível encontrar todos eles e fomentar essas relações. No município de Juiz de Fora, existem três instituições de destaque na área da Oncologia: Instituto Oncológico/Hospital 9 de Julho, Fundação Ricardo Moysés Júnior e Associação Feminina de Prevenção e Combate ao Câncer (Ascomcer)/Hospital Maria José Baeta Reis. A primeira e a última entidades estão habilitadas, pelo Ministério da Saúde, como unidades para procedimentos de Alta Complexidade em Oncologia, além do Hospital Dr. João Felício41.

O Instituto Oncológico é uma organização especializada em câncer, mas é de natureza privada, apesar de possuir convênio com o SUS. A Fundação Ricardo Moysés Júnior dedica-se, especificamente, ao câncer infantil. O Hospital Dr. João Felício engloba outras especialidades médicas. Por essas razões, selecionamos o Hospital Ascomcer, pois, ademais, é uma instituição filantrópica, tradicional na cidade, próxima à Universidade Federal de Juiz de

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Após o término do tratamento dos tumores malignos, os pacientes entram na fase denominada de “controle”. Esses pacientes comparecem periodicamente ao consultório para realização de exames e outros procedimentos de prevenção, a fim de diminuir as possibilidades de reincidência. Esse período dura, normalmente, cinco anos. 41

De acordo com a portaria nº 102, de 3 de fevereiro de 2012, do Ministério da Saúde. Disponível em <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2012/prt0102_03_02_2012.html> Acesso em 24 set. 2014.

Fora e cujos atendimentos são realizados, em sua grande maioria, para pacientes do SUS – cerca de 94%, de acordo com a Assessoria de Comunicação da entidade.

Apesar de ter em seu nome “Associação Feminina”, o Ascomcer atende pacientes de ambos os sexos e de todas as idades e, portanto, trata de todos os tipos de neoplasias. A Associação vive de doações e de repasses de recursos pelo poder público, que, também segundo o setor de Comunicação, não são suficientes para custear todas as despesas. A Associação mantém e provê o Hospital Maria José Baeta Reis que podem ser considerados como uma mesma instituição, localizada no mesmo espaço físico e, por isso, é conhecida como Hospital Ascomcer. Por não ter fins lucrativos, a entidade elabora e promove uma série de iniciativas para captação de recursos e doações; há, inclusive, um setor dedicado exclusivamente a esse fim.

Escolhida a instituição, entramos em contato com a Assessoria de Comunicação do Ascomcer para apresentar e explicar os objetivos da pesquisa e, por conseguinte, solicitar a autorização para a realização da mesma na entidade. Isso ocorreu em meados de julho de 2014, quando foi a realizada a primeira visita. Fomos recebidos pela assessora Sara Tellado, que pôde conhecer os objetivos do projeto e as atividades propostas para serem realizadas na instituição. Nesse momento, a assessora de comunicação nos conduziu em um tour, para conhecer as instalações do Hospital, e passou uma série de informações institucionais, numa espécie de entrevista não estruturada. Após essa primeira reunião, enviamos um e-mail, com as devidas informações, para que a assessora pudesse solicitar a autorização da Diretoria da entidade. Cerca de duas semanas depois, recebemos o retorno positivo e iniciamos, imediatamente, a pesquisa de campo, cujos dados serão apresentados a seguir.

Foram aproximadamente seis meses de visitas periódicas, com atividades divididas em três fases: (I) observação não participante e conhecimento da rotina do hospital, além dos projetos implementados; (II) entrevistas semiestruturadas com alguns profissionais, já que, pôde-se constatar, o câncer demanda um tratamento multiprofissional, a incluir: médicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais; e (III) diálogos com os pacientes nas diferentes fases de tratamento. As informações serão dispostas, nesse projeto, na ordem de realização dessas etapas.

No documento allandegouveapereira (páginas 116-121)