A análise dos produtos televisivos evidenciou que os representantes da Medicina ocupam uma posição hegemônica de suporte especializado, e possuem um poder de fala maior que qualquer outro profissional nas matérias que retratam as questões do câncer. Nesse cenário, encontramos, em um mesmo produto, jornalistas e médicos como porta-vozes dos campos da comunicação e da saúde, que detêm juntos valores de credibilidade informativa frente à sociedade. Essa relação vem permeada de conflitos, principalmente para determinar quem, o que e como se falam das informações sobre saúde. Não é raro verificar que, nas matérias jornalísticas, o médico aparece corriqueiramente apenas para ratificar algo que já foi abordado no discurso jornalístico. Uma lógica que nem sempre acontece nos demais programas televisivos, como foi possível perceber.
As matérias selecionadas refletem, de alguma maneira, a importância de avaliar a informação para o comportamento da população diante da saúde, sobretudo porque a televisão é uma das principais referências informativas da sociedade, capaz de influenciar os cuidados, o estilo de vida, os hábitos e os costumes adotados pelos receptores. É necessário examinar e ponderar, contudo, que não se sabe, a partir do olhar da comunicação, o ponto ideal a que a informação pode chegar, até que momento um leigo pode julgar, sem incorrer no risco de errar ou de gerar mais dúvidas, sobre um sintoma e seu diagnóstico. Um indivíduo comum poderá se autodiagnosticar? Ele deve saber mais sobre o tratamento? Os casos apresentados no vídeo demonstram sucessos na oferta de informação? Essas histórias servem de referência para todas as pessoas?
Outro aspecto a ser observado é o de que cada vez mais a TV e especialmente o telejornalismo parecem absorver o coloquialismo cotidiano, no jeito de narrar, na escolha do vocabulário, no modo de expressão dos apresentadores. No caso da cobertura de saúde, esses fatores podem possibilitar uma maior apreensão pelo público, principalmente aquele que possui menor escolaridade, por poder entender o que está sendo tratado. Aos poucos, quebra- se o paradigma de que o conhecimento sobre saúde deve ficar totalmente restrito aos profissionais que se dedicaram a esse objetivo e que o jornalismo apresentou-se como o elo entre o conhecimento especializado e a sociedade. Porém, o que os médicos acham disso?
Com a finalidade problematizar essas questões, foram realizadas duas entrevistas com médicos da Ascomcer: a oncologista Christiane Maria Meurer Alves e o anestesiologista Alexandre de Almeida Guedes. A primeira atende na área de oncologia clínica, e o segundo no centro cirúrgico, além de coordenar dois projetos de estudos acadêmicos sobre tratamento oncológico dentro da própria instituição – o que revela uma preocupação de refletir e discutir aspectos técnicos da doença nesse espaço.
Para a médica Christiane Alves (2013), é necessário que a informação veiculada pelos meios de comunicação seja a mais clara possível, a fim de que se tenha um “alcance maior”, tendo em vista as diferenças em relação à apreensão da mensagem pelos diferentes públicos que existem no Brasil. “Muitas vezes o paciente vem trazendo a informação e ele pede que você traduza aquilo para alguma forma que ele consiga entender”, afirma.
Atuando na área há 20 anos, Christiane defende que a informação representa um papel importante para a saúde, principalmente ao enfatizar a questão da prevenção: na realização de exames, no combate ao tabagismo etc. De acordo com ela, também é preciso que a mídia enfatize as especificidades nos casos abordados, ressalte que alguns processos científicos veiculados ainda estão em fase de experimentação e defende a ideia de que as pessoas precisam ter uma visão crítica em torno do que é publicado.
Em termos de prevenção, ela [a informação] é muito importante. Você informar, por exemplo, a importância de uma colonoscopia, um exame de PSA, um exame de mamografia... Isso é importantíssimo. Só que, às vezes, [se] faz de uma maneira muito generalizada. Por exemplo: “apareceu uma droga nova para tumor de mama”. Aí as pessoas vão pensar: “ah, isso vai se aplicar para mim também”. E não vai se aplicar para todo mundo. Não é todo mundo que vai usar um determinado tipo de remédio. [...] eu acho que deveria ter uma informação um pouco maior. Eu acho até que pelo tempo, que é curto; aquilo não é informado da melhor forma possível. Tinha que enfatizar que as exceções existem; enfatizar que aquilo não é para todos. (ALVES, 2013).
Sobre a divulgação de informações novas e do relato noticioso de casos de sucesso, nos quais se deveriam ressaltar as especificidades, a médica acredita que suscita expectativas e esperanças que vão de encontro com a realidade, além de gerar ansiedade.
Eu acho que aquilo ali [casos de interesse humano] dá um pouco de esperança; [...] conta histórias boas, no sentido da superação... Acaba criando uma esperança, que às vezes você não pode atender [...] e aí cabe ao médico, quando estiver com um paciente com essa expectativa: “ah, será que vai acontecer igual comigo?”. Aí a gente fala se a história é diferente, ou a gente não sabe exatamente qual é aquela história toda; porque não descreve o tumor como era no início... Então a gente vai colocando isso para o paciente entender. (ALVES, 2013).
Outro problema apontado por ela é a superficialidade, a falta de aprofundamento que ela atribui à falta de tempo na televisão. No entanto, segundo ela, a sociedade hoje está bem mais informada, já que os pacientes não chegam mais “crus” como antigamente. Por outro lado, ela conta que já recebeu duas vezes uma mãe em seu consultório, com um filho de 13 anos, que estava com seborreia. Para a médica, essa postura mostra que o conhecimento mal assimilado cria confusões e muitas vezes as pessoas pensam no pior; porque levou ao oncologista primeiro, e não ao clínico geral. De qualquer forma, a notícia sobre saúde, para ela,
mesmo sendo superficial, dá mais bagagem para o paciente conversar com a gente; então eles questionam mais. [...] isso é bom, não é ruim. Quanto mais o paciente questiona, mais informado o médico tem que estar e tem que atender melhor, tem que prestar um serviço cada vez melhor para atender essa demanda de informação (ALVES, 2013).
Além disso, Christiane comenta que a mídia deveria, ainda, enfatizar os direitos dos pacientes portadores de câncer. Ela afirma que é muito difícil saber que, às vezes, um paciente poderia ter mais recursos, mas não consegue por desconhecimento ou por dificuldade no acesso, tendo muitas vezes que recorrer à Justiça para obter direitos que estão previstos na própria Constituição. Para ela, essa também seria uma função da mídia de denunciar os deveres do Estado que eventualmente não são cumpridos.
O médico Alexandre de Almeida Guedes (2014) também concorda que atualmente os pacientes chegam ao consultório depois de já terem consultado o “Dr. Google”. Ele alerta, todavia, para a possibilidade de esses pacientes não conseguirem interpretar a informação disponibilizada na web, em função da complexidade do conhecimento médico46.
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O assunto também já foi alvo de reflexões no âmbito da comunicação e saúde, que propõe a definição de
neopacientes: “Esse novo paciente busca informações em outras fontes e propõe um relacionamento mais direto
com os responsáveis por sua saúde, alterando a relação vertical, de cima para baixo, para um contato horizontalmente desenhado, num perfil mais colaborativo, em que as opções de tratamento e a eventual cura de seus males são mais bem discutidas, afinal o mais interessado nestas é primeiramente o doente e, depois, o
A ideia de que os pacientes não mais aceitam irrestritamente o conhecimento médico, em função de estar “bem informado”, é exemplificada pelo próprio anestesiologista que, ao prescrever a famosa benzetacil para um paciente, teve a recusa do mesmo. O paciente teria alegado que leu no jornal que essa medicação não tinha mais utilidade. Apesar de sua insistência, o médico se viu obrigado a receitar um medicamento alternativo, menos indicado, na sua visão, porque deve respeitar a decisão do paciente. O caso ilustra ainda o conflito da noção de qual ator social detém, de fato, a verdade – o jornalista ou o médico; cujas disputas saem da esfera simbólico-informativa e se materializam na realidade cotidiana dos hospitais. Ambos os médicos entrevistados defendem, assim, que os profissionais, agora mais do que nunca, precisam estar mais preparados e atualizados para lidarem com esses novos tipos de pacientes.
Assim como Christiane, Alexandre salienta a importância da informação para a prevenção da doença, acima de tudo para evitar os tipos de câncer que estão associados aos hábitos de vida e à hereditariedade. “Filhos de pais ou [netos] de avós que tiveram determinadas doenças neoplásicas, ao terem essa informação, vão obviamente tomar medidas preventivas e isso vai minimizar muito, consequentemente, o desenvolvimento da doença” (GUEDES, 2014). Ele acredita que há uma desinformação generalizada na população brasileira, marcada por grandes diferenças socioculturais.
Para ele, as informações veiculadas pela mídia são, muitas vezes, superficiais e tendenciosas. Por isso, ele propõe que passem a existir jornalistas especializados em saúde, da mesma maneira que existem aqueles que dominam áreas como economia e esportes.
Eu acho que deveria ter o que conhecesse um mínimo possível das políticas de saúde, do modus operandi do sistema de saúde e também ter o mínimo de conhecimento de, ou procurar esmiuçar um pouco mais a questão de doenças; porque quando vai falar de alguma doença e eu, quando vou ler alguma coisa relacionada à doença, ou patologia, ou tratamentos, na mídia, são totalmente distorcidos do que é na realidade. Ou seja, o autor da matéria não procurou verificar, ou coletou de fontes [não seguras]... (GUEDES, 2014).
O médico condena as reportagens que tentam dar informações dissonantes com a realidade, isto é, os produtos que procuram difundir uma ideia falsa de que já existe a cura para o câncer, baseando-se em descobertas preliminares ou que ainda estão sendo desenvolvidas. Para ele, criam-se, desse modo, falsas esperanças. Ele mesmo já pôde verificar
profissional que o atende.” (PESSONI, 2013, p. 137-138) O autor sugere ainda que, independente da veracidade do conteúdo cibernético, isso faz com que “esse paciente seja potencialmente menos disposto a acatar passivamente determinações médicas” (PESSONI, 2013, p. 138).
isso no convívio com a sua esposa, que é leiga no assunto e que, inclusive, teve um caso de câncer na família:
Porque foi mostrada uma determinada notícia de uma esperança de cura muito promissora para uma determinada patologia e ela [a esposa] falou assim: “nossa, mas que coisa legal...” E eu falei assim: “calma, eu já vi esse artigo. Isso aí ainda está em fase dois, está em estudo in vivo, em animais”. Então, isso está ainda muito longe de chegar à realidade, se é que vai chegar ao longo desse processo, vai se comprovar que não era eficaz (GUEDES, 2014).
O problema maior, no seu modo de ver, está na falta de aprofundamento do relato e também no estilo “manchete” que, em outras palavras, não dá conta de expressar as nuances das informações sobre saúde ou ciência. Essa manchete pode ser mal compreendida, porque quer chamar a atenção, ser apelativa, sem se preocupar com a realidade concreta do fato.
O médico anestesiologista comenta que a mídia não tem obrigação de dar todas as informações para população. Para ele, o profissional de saúde, sim, deve se preocupar em transmitir o conhecimento, porque adquiriu a erudição numa área e, por isso, deve transformar esse conhecimento em algo mais acessível. “O paciente tem, de acordo com os princípios bioéticos, direito de receber todas as informações numa linguagem que lhe seja clara e de grande possibilidade de entendimento, a respeito da sua patologia. Isso é um princípio básico, um princípio essencial da assistência médica” (GUEDES, 2014).
Segundo as impressões de Christiane e Alexandre, um ponto positivo na atuação da mídia seria o papel desmistificador da doença. Os dois disseram que a abordagem da doença na imprensa ajuda a diminuir os mitos (mostrando pessoas que superaram a doença, por exemplo), além de operar mudanças culturais significativas, a exemplo da redução do consumo de tabaco, que, para ambos, foi possibilitada graças à atuação da mídia.
Alexandre acredita que há muito pouco espaço para os médicos no espaço jornalístico e, quando tem, nem sempre o profissional convidado é o mais qualificado para falar sobre o assunto; e que, realmente, muitas vezes o médico tem dificuldades de simplificar a linguagem ou diminuir o nível de erudição – “eu não sei como é que vai resolver isso, mas esse muro que separa a informação médica da imprensa e esse muro que separa a imprensa da população, que é mais baixo, eu não sei como é que vai resolver, é uma coisa complexa” (GUEDES, 2014). Uma solução aventada por ele seria, além da especialização dos jornalistas, evitar esmiuçar as questões da doença, que exigem maior profundidade e competências.
A respeito do Grupo e do Centro de Estudos, o médico esclareceu que são propostas muito incipientes de pesquisa no hospital, uma vez que há uma prevalência da vocação assistencialista da Ascomcer, voltada para o diagnóstico e o tratamento de câncer.
Pesquisa, nós somos totalmente incipientes, embora nós tenhamos, no nosso corpo clínico, profissionais muito renomados, profissionais titulados que poderiam estar aqui desenvolvendo alguma pesquisa nessa área; porque nós temos um grande número de pacientes, nós temos um ambiente muito propício para esse tipo de coisa. Porém a pesquisa é muito complexa e pesquisar em seres humanos é absolutamente cercado de muito dogma, cercado de axiomas muito complexos, de uma série de normas internacionais; e nossa instituição ainda não atingiu esse patamar (GUEDES, 2014).
Ele conta que fazer pesquisas efetivas na entidade é um anseio que eles têm, mas que demanda recursos, infraestrutura e vocações de pesquisadores. Ao comparar a Ascomcer com outras grandes instituições brasileiras e internacionais, Alexandre afirma que há uma distância muito grande em relação à pesquisa, mas nem tão grande assim em assistência. O Centro de Estudos da Ascomcer é, então, uma iniciativa que “veio para fomentar e estimular a atualização dos profissionais de saúde da instituição e de fora dela” (GUEDES, 2014).
Finalmente, o especialista explica que o tratamento do câncer, de fato, aumentou muito nos últimos anos. Não descobriu a cura, mas criou mecanismos que possibilitam uma sobrevida com razoável qualidade de vida para os pacientes. Então, a mídia poderia, sim, divulgar as descobertas científicas, mas atentar para as especificidades e para o caráter experimental de muitas dessas descobertas. Fazendo uma analogia com a Aids, Alexandre sinaliza que talvez não seja possível descobrir uma cura para o câncer, mas um controle que permita viver muitos anos mais, razoavelmente bem.
Os discursos médicos mobilizam, dessa forma, as disputas que caracterizam a determinação de quem está apto ou não a publicizar as informações sobre saúde. As trocas linguísticas e as tensões em campo revelam a complexidade da relação comunicação e saúde; assim, é possível considerar que esses embates podem repercutir na forma e no sentido de transmissão das notícias, refletindo em condutas dos pacientes, como nos casos relatados pelos médicos. Esses profissionais consideram mais importantes as informações relativas à prevenção, ou seja, as pessoas devem ter conhecimento para apenas evitarem a doença. Após o diagnóstico, a mídia não teria obrigação, na visão deles, de dar mais informações a respeito da patologia, que apresenta muitas especificidades e complexidades. Nota-se certo silenciamento na fala de ambos em relação às outras questões que envolvem a doença, sociais e psicológicas, que demandariam a atuação de outros profissionais. A única referência é dada por Christiane, que defende a divulgação dos direitos dos pacientes. Eles também omitem, em grande medida, os sentidos mobilizados pela palavra “câncer” no seio social, talvez porque haja uma preocupação maior, de seus pontos de vista, em cuidar da doença somente em seu caráter orgânico e também porque, possivelmente, lidar com neoplasias já é algo tão habitual
no cotidiano de ambos, que já não evoca metáforas e mitos com os quais se deve ocupar. A fim de ampliar o debate sobre os sentidos do câncer, sob o prisma de outras áreas, conduziremos a seguir reflexões em torno da Psicologia e do Serviço Social.
6.3 RELAÇÃO MULTIPROFISSIONAL DO CÂNCER – QUESTÕES PSICOLÓGICAS E