2.3 Constru¸c˜ao do C´odigo de Shor
2.3.1 O C´odigo Bit Flip
Suponha que desejamos enviar qubits atrav´es de um canal que troca os estados-base de um qubit de |0i para |1i e vice-versa com probabilidade p e preserva o qubit de erros com probabilidade 1 − p. Ou seja, com probabilidade p o estado |ψi ´e levado ao estado X|ψi, onde X ´e o operador bit flip. Assim se |ψi = a|0i + b|1i, temos X|ψi = a|1i + b| 0i. Este canal ´e chamado de canal bit flip e ´e equivalente aos canais bin´arios cl´assicos sem mem´oria e com erros ocorrendo aleatoriamente. Portanto, para proteger os qubits dos efeitos do ru´ıdo deste canal, ´e necess´ario construir um c´odigo corretor de erros bit flip.
Suponha que codifiquemos cada estado-base do qubit a|0i + b|1i em um estado de trˆes qubits. Esta opera¸c˜ao de codifica¸c˜ao ´e convenientemente escrita como:
|ui → |uLi ≡ |u, u, ui, (2.9)
onde u = {0,1}. Ou, mais explicitamente,
|0i → |0Li ≡ |000i
(2.10) |1i → |1Li ≡ |111i
Assim, temos um mapeamento da superposi¸c˜ao dos estados-base do qubit em uma su- perposi¸c˜ao dos correspondentes estados-base codificados. A nota¸c˜ao |0Li e |1Li indica,
respectivamente, que estes s˜ao os estados-base l´ogicos |0i e |1i.
Suponha que o estado inicial a|0i + b|1i tenha sido perfeitamente codificado como a|000i + b|111i e que cada um dos trˆes qubits seja passado atrav´es de uma c´opia idˆentica do canal bit flip. Suponha tamb´em que possa ter ocorrido um erro em um dos trˆes qubits. Gostar´ıamos agora de corrigir um eventual erro bit flip sem destruir a superposi¸c˜ao a|000i + b|111i. ´E claro, n˜ao podemos medir um qubit. Por exemplo, se medirmos o primeiro qubit e obtermos o resultado |0i, teremos preparado o estado |0Li e perdido a
2.3. Constru¸c˜ao do C´odigo de Shor 49 Por´em, existe um procedimento simples de detectar qual erro ocorreu (se de fato ocor- reu) atrav´es de duas medidas do sistema f´ısico. Identificado o erro, ´e poss´ıvel ent˜ao fazer a corre¸c˜ao e recuperar o estado quˆantico original que foi enviado ao canal. Duas poss´ıveis medidas s˜ao as dos observ´aveis Z1Z2 (Z ⊗ Z ⊗ I) e Z2Z3 (I ⊗ Z ⊗ Z). Cada um destes ob-
serv´aveis tem autovalores ±1, portanto cada medida fornece um bit de informa¸c˜ao de um total de dois bits de informa¸c˜ao. Ou seja, no total tem-se quatro poss´ıveis s´ındromes de erro. A realiza¸c˜ao da primeira medida, de Z1Z2, ´e na verdade uma forma de comparar
os dois primeiros qubits para ver se s˜ao iguais. E a realiza¸c˜ao da segunda medida, de Z2Z3, uma forma de comparar os dois ´ultimos qubits para ver se s˜ao iguais. Para melhor
entender o porquˆe disto, observe a decomposi¸c˜ao espectral destes dois observ´aveis: Z1Z2= (|00ih00| + |11ih11|) ⊗ I − (|01ih01| + |10ih10|) ⊗ I
(2.11) Z2Z3= I ⊗ (|00ih00| + |11ih11|) − I ⊗ (|01ih01| + |10ih10|)
O resultado da medida de Z1Z2ser´a +1 se os qubits forem iguais, e −1 se forem diferentes.
Similarmente, o resultado da medida de Z2Z3 ser´a +1 se os qubits forem iguais e −1 se
forem diferentes. Ao combinarmos os resultados destas duas medidas, podemos determinar se um erro bit flip ocorreu em algum qubit ou n˜ao, e se ocorreu, em qual dos qubits ocorreu o erro: se ambos os resultados das medidas derem +1, ent˜ao com grande probabilidade pode-se afirmar que nenhum erro bit flip ocorreu; se a medida de Z1Z2 der +1 e a medida
de Z2Z3 der −1, ent˜ao com grande probabilidade ocorreu um erro bit flip no terceiro qubit;
se a medida de Z1Z2 der −1 e a medida de Z2Z3 der +1, ent˜ao com grande probabilidade
ocorreu um erro bit flip no primeiro qubit; e finalmente se ambas as medidas derem −1, ent˜ao com grande probabilidade ocorreu um erro bit flip no segundo qubit. Note que estas s´ındromes s˜ao semelhantes `aquelas encontradas na Tabela 2.2 para o caso cl´assico. A ´unica diferen¸ca ´e que h´a um mapeamento entre as s´ındromes cl´assicas e quˆanticas: 0 → +1 e
1→ −1. Os outros dois poss´ıveis conjuntos de observ´aveis que podem ser usados para
a medida das s´ındromes s˜ao: {Z1Z3, Z2Z3} e {Z1Z2, Z1Z3}. Repare que os trˆes poss´ıveis
conjuntos de observ´aveis s˜ao compostos de operadores Z atuando sobre os qubits das posi¸c˜oes dadas pelo n´umero 1 na matriz verifica¸c˜ao de paridade da eq. (2.3) ou em uma de suas duas formas equivalentes. Isto ser´a discutido com mais detalhes mais adiante.
O que ´e crucial para o sucesso deste procedimento ´e que nenhuma das medidas d´a qualquer informa¸c˜ao sobre as amplitudes a e b do estado quˆantico codificado, e portanto nenhuma medida destr´oi as superposi¸c˜oes dos estados quˆanticos que desejamos preservar ao usarmos este c´odigo.
A etapa seguinte ´e usar o valor das s´ındromes para determinar qual procedimento adotar para recuperar o estado original. Se as s´ındromes indicarem que nenhum erro ocorreu, nada temos a fazer. Mas se indicarem que ocorreu um erro de bit no qubit i (i=1, 2 ou 3), basta aplicar o operador X sobre o qubit i (Xi) para fazer a corre¸c˜ao.
Portanto, dadas as s´ındromes de erros, ´e poss´ıvel recuperar o estado original com total perfei¸c˜ao.
O grupo de erros a corrigir ´e composto por um ´unico gerador, hXi. Sendo a distˆancia do c´odigo de repeti¸c˜ao de trˆes bits igual a trˆes, podemos afirmar que o c´odigo quˆantico associado ´e capaz de corrigir at´e b(3 − 1)/2c = 1 erro X (ver defini¸c˜ao 3 e teorema 1).
Portanto, o procedimento de corre¸c˜ao descrito acima funciona perfeitamente desde que ocorra no m´aximo um erro bit flip. Isto ocorre com probabilidade (1 − p)3+ 3p(1 −
p)2= 1 − 3p2+ 2p3. A probabilidade de um erro n˜ao ser corrigido ´e portanto 3p2− 2p3,
exatamente como o c´odigo de repeti¸c˜ao cl´assico estudado anteriormente. Novamente, desde que p < 1/2, a codifica¸c˜ao melhora a confiabilidade de armazenagem do estado quˆantico.
Fidelidade Quˆantica
A an´alise de erros que fizemos acima n˜ao ´e completamente adequada. O problema ´e que nem todos os erros e estados na mecˆanica quˆantica s˜ao criados de modo igual: vimos que estados quˆanticos est˜ao em um espa¸co cont´ınuo, portanto ´e poss´ıvel que alguns erros corrompam um estado por uma quantidade muito pequena, enquanto que outros destruam o estado por completo. Um exemplo extremo disto ´e o fato que o erro bit flip X n˜ao afeta o estado (|0i + |1i)/√2como um todo, mas troca o estado |0i pelo estado |1i e vice-versa.
Para o estado (|0i + |1i)/√2, n˜ao precisar´ıamos nos preocupar se um erro bit flip ocorreu, enquanto que para os estados |0i ou |1i, ter´ıamos, obviamente, motivos para ficar muito preocupados.
2.3. Constru¸c˜ao do C´odigo de Shor 51 Para tratar deste problema faz-se uso do conceito de fidelidade quˆantica2. Deixe-nos comparar a fidelidade m´ınima alcan¸cada pelo c´odigo de trˆes qubits com a fidelidade quando nenhuma corre¸c˜ao de erros ´e feita. Suponha que o estado quˆantico de interesse seja |ψi. Sem o uso do c´odigo corretor de erros, o estado do qubit ap´os ser enviado atrav´es do canal ´e:
ρ= (1 − p)|ψihψ| + pX|ψihψ|X. (2.12) A fidelidade ´e dada por:
F =phψ|ρ|ψi =p(1 − p) + phψ|X|ψihψ|X|ψi. (2.13) O segundo termo sob a raiz quadrada ´e n˜ao negativo, e igual a zero quando |ψi = |0i. Portanto, vemos que a fidelidade m´ınima ´e F =√1− p. Suponha que o c´odigo corretor
de trˆes qubits seja usado para proteger o estado |ψi = a|0Li + b|1Li. O estado quˆantico
corrompido ap´os a corre¸c˜ao ´e:
ρ= [(1 − p)3
+ 3p(1 − p)2]|ψihψ| + .... (2.14) Os termos omitidos representam contribui¸c˜oes de bit flips em dois ou trˆes qubits. Todos os termos omitidos s˜ao operadores positivos, portanto a fidelidade que calculamos ser´a um limitante inferior para a fidelidade verdadeira. Temosphψ|ρ|ψi ≥p(1 − p)3+ 3p(1 − p)2.
Assim, a fidelidade ´e de pelo menos p1− 3p2+ 2p3e, portanto, a fidelidade para o estado
quˆantico ´e aumentada desde que p < 1/2. Esta ´e a mesma conclus˜ao a que chegamos anteriormente com uma an´alise bem menos refinada.