• Nenhum resultado encontrado

O CAMINHO DA PESQUISA E O MATERIAL COLETADO

No documento Download/Open (páginas 47-51)

CAPÍTULO 2 LUTO NA ESCOLA: OPINIÃO DE PROFESSORES,

2.1 O CAMINHO DA PESQUISA E O MATERIAL COLETADO

Um dos procedimentos realizados primeiramente para dar início à pesquisa foi o aparato ético que busquei juntamente ao Comitê de Ética da Universidade Metodista de São Paulo em agosto de 2011. Após aprovação25 do

projeto de pesquisa, iniciei os contatos com as escolas26.

Já havíamos decidido anteriormente, que faríamos a pesquisa de campo em três escolas públicas da Grande São Paulo. A primeira escola pública que chamamos de “A” foi uma indicação de uma mestranda. Ao conhecer a temática da pesquisa, sugeriu entrar em contato com a diretora da escola, que já havia vivenciado situações de morte, luto e violência nessa mesma escola e que sinalizara falta de apoio nessas situações. Juntamente com minha orientadora, decidimos que seria uma investigação pertinente a nossa inquietação. O critério da escolha da escola, “B” se deu por estar inserida em uma região considerada alguns anos atrás como uma das mais violentas na cidade de São Paulo. Localizada em um bairro com mais de 100 mil habitantes, a maior favela da capital paulista, traz juntamente

25

Parecer deliberado e aprovado sobre o número 01000 0 214 214-11.

26

com essa referida escola, um histórico trágico de morte de estudantes. A comunidade tem participado de projetos sociais oferecidos pelo município com o apoio do governo federal e algumas organizações não governamentais, porém, o índice de violência ainda é significante. A escolha da escola “C” foi uma sugestão minha mesma pelo fato de estar localizada bem próxima a minha residência. Provavelmente esse critério ingênuo da escolha da escola, resultou em inquietação, pois, não foi possível a realização da pesquisa na escola “C”. No subtítulo a não entrevista, apresento com maiores detalhes essa trajetória.

Apresentam contextos socioeconômicos e culturais semelhantes. Para nossa surpresa, no segundo contato com os diretores das escolas “A” e “B”, ouvimos os relatos da trajetória de acontecimentos que marcaram a vida de alguns alunos, profissionais, e da comunidade do bairro onde a escola está inserida. Logo de início solicitei autorização para registrar tais fatos. Optei por manter a narrativa integral desses relatos que apresentam detalhes importantes que compõem esclarecimentos algumas vezes não expressos na entrevista de aprofundamento que realizei momentos diferentes a estes. A diretora da escola “A” apresentou o relato da morte de dois alunos-irmãos que foram esquartejados pelo pai e madrasta27. O relato do diretor da escola “B”28 também apresentou

pontuações importantes para a compreensão de toda a situação vivenciada na escola a partir da morte de uma aluna muito participativa e admirada por todos, como revela sua fala na entrevista. No mesmo dia em que ouvi o relato do diretor da escola “B”, praticamente fui cercada por uma funcionária que se encontrava na secretaria da escola que ao ter conhecimento da pesquisa, solicitou me insistentemente que fosse entrevistada, pois, vivia situações de luto pela perda de seu esposo e se sentia “deixada de lado, esquecida”. Atendi o exigente pedido feito e após apresentar o Termo Livre de Consentimento para a realização da entrevista, iniciei o que tanto a professora almejava: alguém que lhe escutasse. Esta vivência na pesquisa me fez remeter ao que afirma Demartini (2001): o processo de pesquisa é sempre muito complexo, envolvendo descobertas e impasses. Através da manifestação espontânea dessa

27

ANEXO C. Em uma conversa informal, a diretora apresentou detalhadamente o ocorrido. Esse momento não foi gravado. Em um segundo momento, a diretora apresentou o mesmo relato, porém de uma forma sucinta.

28

professora, estava à frente de um dilema que não envolve apenas alunos enlutados, mas também funcionários da escola. Percebi que as informações expressas permitiriam um novo olhar em relação à investigação proposta; uma nova realidade. Essas observações permitiram também construir a análise de conteúdo a partir das questões apresentadas pelo diretor no tema: dificuldades e facilidades em lidar com o luto na escola.

Apresento a seguir os procedimentos realizados na escola “C”. A não entrevista, com o diálogo inexpressível travado com a diretora, algo talvez inusitado, poderia se tornar se um novo problema de investigação.

2.1.1 A não entrevista

A escolha da escola “C”, se deu pelo fato da escola se localizar relativamente perto da minha residência. Ingenuamente acreditei que os trâmites para a realização da pesquisa poderiam ser fáceis, assim como o deslocamento, pois, para a escola “B” a distância de mais de 60km mais o trânsito para atravessar toda a cidade, foi um percurso desafiador. Os primeiros contatos com a escola “C” foram extremamente difíceis. Desloquei-me várias vezes para o estabelecimento escolar sem sucesso de ser atendida. Alguns contatos por telefone também expressaram a mesma dificuldade em me receber. Em novembro consegui me reunir com o coordenador pedagógico que se prontificou a entregar os 20 questionários aos profissionais da escola. No mês de dezembro de 2011, foi marcado várias datas para a devolutiva dos questionários respondidos, porém sem nenhum sucesso. Finalmente foi marcado um horário com a diretora, que foi relutante em me receber. Como já era de seu conhecimento e já havia autorizado a pesquisa, me surpreendeu com seu argumento: “- Aqui não temos tempo pra isso, temos muitas outras coisas pra fazer! A morte fica só do lado de fora da escola. Eles morrem é lá na rodovia. Sempre tem um dos nossos lá”.

Admirada por tal argumento, agradeci a atenção e saí sem saber primeiramente que rumo retomar. A diretora mencionou que eu poderia tentar recolher os questionários agendando com o coordenador. Insisti por três vezes sem nenhum êxito. Importante ressaltar que a escola se situa apenas alguns

metros de uma importante rodovia federal. Não há passarelas próximo à rodovia, nem tão pouco um posto policial nas proximidades.

Essa fala da não entrevista me inquietou: a direção concebe a morte como um caso isolado? Como podemos entender a concepção da diretora em relação à humanização que deveria estar presente na escola? Como a escola poderia evitar a morte precoce de seus alunos que são vítimas de acidentes na rodovia? Não poderia juntamente com a comunidade ou autoridades competentes efetivar ações para o trágico problema dos acidentes ocorridos na rodovia? Como tratar do luto, sem entender que a morte precoce poderia ser evitada entre seus alunos? Temas como morte e violência são excluídos da educação de crianças e jovens? Há uma tentativa de apagamento da morte? Como os alunos reagem a indiferença da escola em relação à morte de seus colegas?

Seria o caso do indizível como nos pontua Queiroz (2003): a experiência do indizível se procura traduzir em vocábulos. O sentido da narrativa oral desta professora estaria interligado a sua própria experiência e dificuldade em lidar com o tema da morte?

Um tanto frustrada e sem saber o caminho a percorrer, fui acalentada, mais uma vez, pelas sábias palavras que minuciosamente li algumas vezes, compreendendo, assim, o caminho percorrido na pesquisa.

O processo da pesquisa é sempre muito complexo, envolvendo descobertas e impasses que devem ser analisados; coloca os pesquisadores sempre em situação de incerteza mais que em condições de trilhar caminhos previamente definidos (DEMARTINI, 2001, p.51).

As palavras de Demartini pareciam soar ao meu ouvido como um incentivo na incerteza. Compreendi assim, que a incerteza traduz a persistência. Dessa maneira a pesquisa seria realizada apenas nas duas escolas já contatadas anteriormente.

O desejo em tornar a “fala” da diretora da escola “C”, em estudo de caso como objeto de investigação estava evidente. Porém, quem sabe, para a continuidade em estudos futuros.

No documento Download/Open (páginas 47-51)

Documentos relacionados