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(2) PATRÍCIA REGINA MOREIRA MARQUES. LUTO NA ESCOLA: UM CUIDADO NECESSÁRIO. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Humanidades e Direito, da Universidade Metodista de São Paulo, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Educação, sob a orientação da Profª Drª Zeila de Brito Fabri Demartini,. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2012.
(3) Dedico esse trabalho às pessoas que fisicamente não estão mais aqui, mas permanecem na minha vida e memória. Em especial ao meu pai Francisco Rosa Marques, que me ensinou O Caminho, e por quem vivenciei pela primeira vez as etapas do luto por morte. O luto antecipatório ocorreu por vários meses, e meu pai foi o mentor nesse processo. À minha amiga-irmã, Marta Leite Gaia (in memoriam). Nossa sala de aula, nunca mais foi a mesma desde a sua partida..
(4) AGRADECIMENTOS. A Deus, que conhece as inquietações e indagações que permeiam meu caminho. Mostrou-me que sou capaz. A minha orientadora Profª Drª Zeila de Brito Fabri Demartini, por acreditar em mim, e neste tema tão desafiador para o ambiente acadêmico. A professora-amiga, Drª Blanches de Paula, que me acompanhou desde a graduação em Teologia. Grande incentivadora para continuidade de meus estudos. Seu rigor acadêmico me convenceu a convidá-la a integrar a banca do Mestrado. Sou grata também por seu desprendimento no empréstimo de dezenas de livros para minha investigação científica. Ao professor Dr. Antonio Joaquim Severino, por compor a banca do Mestrado, por suas observações pertinentes e pela alegria em conhecê-lo. As três mulheres lá de casa: Ana Luzia, Maria Julia e Ana Priscila, pelo apoio sempre presente, por entenderem que a solidão às vezes fazia parte do processo do luto na minha luta, por suportarem minha impaciência e ansiedade durante os estudos acadêmicos. A minha querida amiga Coca, por sempre estar ao meu lado desde os primeiros lutos que passei, por me acolher em sua casa e cuidar de mim. A minha amiga Dagmar, por zelar em todos os sentidos, em casa, na igreja, na companhia sempre presente, quando eu mesma nem queria a minha. E também por transcrever todas as entrevistas. Aos meus queridos amigos Neil e Lourdes, que por diversas vezes me acolheram em sua casa, sempre com palavras de incentivo e reconhecimento de minha capacidade. Em especial ao Prof. Dr. Neil Ferreira Novo, por me introduzir no fantástico mundo da estatística. Ao dentista-amigo, Dr. Américo Nepomuceno. Desde que nos conhecemos, foi o grande incentivador para minhas conquistas. À Maria Márcia Pereira da Silva, secretaria do Programa de Pós Graduação, que nas horas de solidão, me incentivou a prosseguir com fé e persistência. A todos os amigos que regaram a amizade através de telefonemas e e-mail, sempre disponibilizando a cooperar durante o processo do Mestrado..
(5) A Igreja Metodista no Brasil, que concedeu a bolsa de estudos. A Igreja Metodista em Santana, por acompanharem e entenderem essa fase tão importante na minha vida. Ao meu irmão Fernando Cezar e minha cunhada, Vera Regina que colaboraram com a tradução do texto em inglês. Ao meu irmão Ricardo Nilton, por regar minhas manhãs com nossas conversas a distância. Por um período, foi meu companheiro no computador. Ao meu amigo de infância, Paulo Matuí, pela tradução da entrevista do Dr. Colin Murray Parkes. Aos amigos que fiz na academia, em especial a Fabiana Cabrera Silva, que contribuiu com a revisão ortográfica. Ao Samuel Rocha de Oliveira, por todo o incentivo e palavras sábias durante nosso convívio nas disciplinas. Ao Claudio de Oliveira Ribeiro, que com seu olhar crítico, muito me incentivou na pesquisa acadêmica. Enfim, a todos que diretamente ou indiretamente me ajudaram na construção desta pesquisa. Vocês me ensinaram a parar para ouvir, silenciar, chorar e sorrir, participando e construindo a minha história....
(6) Crepúsculo Patrícia Regina Moreira Marques “Era uma menininha...” pareço ainda ouvir a voz do médico ao me dar a notícia do aborto espontâneo que tive no hospital. Em um período de 24 meses era o segundo aborto espontâneo e a dor tornava-se tão intensa como o primeiro. Sonhos interrompidos, pesar, sensação de tristeza, impotência, incapacidade, vazio existencial, fizeram parte da minha vida durante alguns anos. A perda não se fez presente somente pela falta do bebê. A insensibilidade de meu ex-marido me abandonar logo após a saída do hospital, praticamente duas horas depois da alta, fez com que aprendesse a lidar com o luto por morte e perdas diversas. O interesse por essa pesquisa surgiu pelo fato de me co locar à disposição de pessoas que vivem o luto e não sabem como agir. A vida foi me ensinando, e na academia fui infiltrando as leituras que muito contribuem para a minha formação. Sou testemunha do que leio. A experiência me legitima este legado. Procuro ajudar e ter um olhar diferenciado a todos que sofrem a perda do “objeto perdido”..
(7) RESUMO. O presente trabalho trata de uma investigação sobre a presença e o processo do luto por morte nas escolas e, também, como professores, coordenadores e diretores podem apoiar estudantes enlutados. Um significativo índice de mortes de estudantes demonstra que o processo experimentado por estudantes enlutados é realidade presente nas escolas. Por sua relevância, entende-se ser fundamental que o tema seja considerado na educação escolar. A opção metodológica para o desenvolvimento do estudo pautou-se pela realização de uma revisão da literatura para teoricamente traçar uma perspectiva histórica e social fundamentada principalmente em Paiva (2011), Kovács (2003), Franco (2002), Kübler-Ross (1996). Optou-se, também, por usar noticiários e documentários. Para a realização da pesquisa empírica, a investigação teve como campo 2 escolas públicas da Grande São Paulo e 23 sujeitos entre os quais professores, coordenador e diretores. Desse universo, 13 sujeitos eram da escola A e 10 da escola B; todos atuando diretamente com os alunos. Realizouse, em uma primeira etapa, a aplicação de um questionário estruturado, respondido inicialmente pelos 23 sujeitos. Na segunda etapa da pesquisa, utilizou-se como método a entrevista de aprofundamento com uma amostra de 10 profissionais (dois diretores, uma coordenadora e sete professores). Após responderem ao questionário, esses profissionais desejaram participar espontaneamente dessa segunda etapa, para que se pudesse obter maior aprofundamento das questões relacionadas à investigação. Por meio da análise de conteúdo dos relatos obtidos, foram construídos três temas: significado em perder uma pessoa por morte; facilidades e/ou dificuldades em lidar com as questões de luto/morte na escola; papel de gestores e educadores frente às manifestações de luto entre estudantes na escola. Como referências para análises dos dados, elencaram-se Queiroz (2003) e Demartini (2001). A pesquisa permitiu averiguar a presença e o processo de luto por morte nas escolas e como professores, coordenadores e diretores abordam o tema da morte, do luto e da perda. A pesquisa procurou também conhecer e refletir sobre os significados que os educadores têm acerca do luto e morte no contexto escolar. Esse conhecimento possibilitou conhecer como alguns professores e outros profissionais da educação trabalham (ou não) com o processo do luto na escola. As análises construídas a partir dos temas revelaram que alguns profissionais que vivenciam ou vivenciaram a dor pela perda por morte têm dificuldades em lidar com o tema na escola por não saberem lidar com essa situação. Outra questão considerada é a falta de apoio da escola e a falta de preparo dos profissionais ao lidar com o luto na escola. Os relatos apresentam a morte interdita de jovens como uma realidade presente nas escolas e ocupando cada vez mais espaço. Esse assunto desafiador não se encerra. Há muitas ações que a escola necessita realizar. Este trabalho propõe caminhos para novas investigações e desafios. Palavras-chave: Cuidado. Luto. Escola. Morte de estudantes..
(8) ABSTRACT. The present work deals with an investigation about the presence and the process of mourning for death in schools and also how teachers, coordinators and principals can support bereaved students. A significant rate of student deaths demonstrates that the process experienced by bereaved students is reality present in schools. For its relevance, it is understood to be essential that the issue be considered in school education. The methodology option for the development of the study was guided by conducting a literature review, in order to theoretically outline a historical and social perspective established mainly for Paiva (2011), Kovács (2003), Franco (2002), Kübler-Ross (1996). It was decided, also, to make use of news and documentaries. To perform the empirical research, the investigation was focused in two public schools at Greater Sao Paulo and 23 subjects including teachers, principals and coordinators. In this series, 13 subjects were from school A and 10 from school B, and all of them work directly with the students. In a first step, a structured questionnaire was applied and answered initially by 23 subjects. In the second stage of the research, it was used the depth interview as a method with a sample of 10 professionals (two principals, one coordinator and seven teachers). After answering the questionnaire, these professionals wished to participate voluntarily of the second step, in order to get further deepening about of issues related to the research in school. As references for data analysis, Queiroz (2003) and Demartini (2001) were chosen. The research allowed determining the presence and the process of mourning and death in schools and how teachers, coordinators and principals address the topic of the death, the mourning and the loss. The survey also sought to understand and ponder on the meanings that the educators have about death and mourning in the school context. This knowledge allowed to know how some teachers and other education professionals work (or not) with the grieving process in school. The analyses obtained from the themes revealed that some professionals who experience or experienced the pain of bereavement have difficulties in dealing with the theme at school because they not know how to handle this situation. Another considered issue is the lack of support from the school and the lack of staff training to deal with bereavement in school. The reports have shown the death of young people as a present reality in schools and occupying more and more space. This challenging issue does not end. There are many actions that schools need to make happen. This work proposes directions to further investigations and challenges. Keywords: Care. Bereavement. School. Death of students..
(9) LISTA DE TABELAS. TABELA 1 – Idade, tempo de atuação ............................................................... 51 TABELA 2 - Área de atuação .............................................................................. 52 TABELA 3 – Crença religiosa ............................................................................. 53 TABELA 4 – Perda por morte ............................................................................. 54 TABELA 5 – Ajuda no luto .................................................................................. 54 TABELA 6 – Apoio no luto .................................................................................. 54 TABELA 7 – Escola como rede de apoio ........................................................... 55 TABELA 8 – Refletindo sobre questões que levam a morte .............................. 55 TABELA 9 – Ajuda no luto .................................................................................. 56 TABELA 10 – Escola como rede de apoio ......................................................... 56 TABELA 11 – Importância do apoio a estudantes enlutados ............................. 57 TABELA 12 – Significado em perder uma pessoa por morte (gestores) ........... 60 TABELA 13 – Significado em perder uma pessoa por morte (professores) ...... 65 TABELA 14 – Facilidades e ou dificuldades em lidar com o luto na escola (gestores). ............................................................................................................ 70 TABELA 15 – Facilidades e ou dificuldades em lidar com o luto na escola (professores) ........................................................................................................ 74 TABELA 16 – Papel de gestores e educadores frente as manifestações de luto entre estudantes (gestores) .......................................................................... 81 TABELA 17 – Papel de gestores e educadores frente as manifestações de luto entre estudantes (professores) ..................................................................... 85 TABELA 18 - Livros infantis que abordam o tema da morte, organizados por categorias...........................................................................................................90.
(10) LISTA DE SIGLAS. CEP. Comitê de Ética em Pesquisa. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. LEM. Laboratório de Estudos sobre a Morte. TCLE. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. UMESP. Universidade Metodista de São Paulo. USP. Universidade de São Paulo.
(11) SUMÁRIO. APRESENTAÇÃO: PESQUISADORA E TRAJETÓRIA PROFISSIONAL ........ 12. CAPÍTULO 1- ENTENDENDO CONCEITOS: POSSÍVEIS CAMINHOS PARA COMPREENDER A MORTE, O LUTO E A PERDA ........................................... 18 1.1.1 1.1.2 1.1.3 1.1.4. Considerações gerais sobre o luto ............................................................. 21 Processo de luto ......................................................................................... 24 Estágios do morrer – implicações para o luto ............................................ 25 Luto normal e patológico ............................................................................ 27. 1.2 A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO PARA A MORTE ................................... 29. 1.3 FALANDO DE MORTE NA ESCOLA ............................................................ 32 FITA VERDE NO CABELO: NOVA VELHA HISTÓRIA....................................... 37 1.3.2 A Função humanizadora da literatura infantil ............................................. 41 1.4. O CENÁRIO DA MORTE NO BRASIL ......................................................... 43. CAPÍTULO 2 -. LUTO NA ESCOLA: OPINIÃO DE PROFESSORES,. COORDENADORES E DIRETORES .................................................................. 46. 2.1 O CAMINHO DA PESQUISA E O MATERIAL COLETADO ......................... 46 2.1.1 A não entrevista .......................................................................................... 48 2.2 A PESQUISA EM DUAS ESCOLAS .............................................................. 50 2.2.1 O perfil dos participantes ............................................................................ 51 2.2.2 Algumas observações a partir dos questionários....................................... 53 CAPÍTULO 3 -. SIGNIFICADO DA PERDA POR MORTE E ATUAÇÃO DA. ESCOLA AO ENFRENTAR O LUTO (2ª ETAPA) .............................................. 58 3.1 AS CATEGORIAS DE ANÁLISES ................................................................. 59 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 93.
(12) REFERÊNCIAS ................................................................................................... 98 OBRAS CONSULTADAS ................................................................................. 101 ANEXO A – ENTREVISTA ................................................................................ 103 ANEXO B – RELATOS ..................................................................................... 104 ANEXO C – CARTA DE APRESENTAÇÃO ..................................................... 112 ANEXO D – QUESTIONÁRIO ........................................................................... 113 ANEXO E – TRANSCRIÇÕES .......................................................................... 118 ANEXO F – PERGUNTAS SEMIESTRUTURADAS DA ENTREVISTA .......... 147 ANEXO G – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ........ 148.
(13) 12. APRESENTAÇÃO:. PESQUISADORA. E. TRAJETÓRIA. PROFISSIONAL. Em 1984, por insistência de minha mãe, conclui o magistério na Escola Estadual João Cursino em São José dos Campos, período em que já estava matriculada no 2º ano no curso de Pedagogia da Fundação Valeparaibana de Ensino, na mesma cidade. Desde 1982, trabalhava como auxiliar de classe no ensino infantil, na Pré-Escola Metodista Jean Piaget. Em. 1985. assumi,. como. professora. titular,. uma. classe. de. alfabetização. Nesse período, realizei diversos cursos oferecidos pela prefeitura municipal de São José dos Campos, e outros cursos na área do construtivismo, deslocando-me diversas vezes para São Paulo. Minha trajetória confirmava a vocação como educadora a cada descoberta que realizava entre um curso e outro. Em 1989 conclui uma especialização em Metodologia do Ensino Superior na Faculdade de Educação de Guaratinguetá. Continuando na Préescola Metodista Jean Piaget, fui convidada em 1990 a dar aulas em outra escola na cidade de São José dos Campos com uma proposta totalmente diferente do construtivismo. No ano seguinte, recebi a proposta para lecionar também em uma escola da rede particular, ali, a direção posicionou-se demonstrando grande interesse em conhecer a proposta construtivista. Até aquele momento, essa proposta havia sido colocada de modo equivocado, ou seja, como uma maneira de total liberdade aos alunos. Meu posicionamento frente aos alunos sempre foi de facilitar-lhes a expressão de sentimentos, baseada em uma relação de confiança, resultando, assim, em um ensinoaprendizagem com uma abordagem dialógica. Nesse sentido, houve uma relação simbiótica entre alunos e professores e fui “construindo-me” como educadora sempre preocupada com a esfera emocional dos alunos. Em 1997, recebi o convite para assumir a coordenação e direção da Pré-Escola Metodista Jean Piaget. Nesse período, uma aluna tímida e com olhar sempre tristonho, chamou- me muito a atenção. Assim, comecei a aproximar-me mais dela e entre uma conversa e outra em minha sala, ou na sala de leitura, ela.
(14) 13. foi, aos poucos, revelando-me sua tristeza. Sua mãe havia se jogado do 13º andar, há apenas um ano, antes de efetuar sua matricula escolar. Confesso que, inicialmente, não sabia o que dizer nem tampouco como lidar com a situação. Na ocasião, não contávamos na escola com apoio de uma equipe multidisciplinar ou de outros profissionais afins, como psicólogos. Por se tratar de uma escola confessional, tínhamos a presença e apoio da pastoral escolar, contudo, decidi não recorrer a esta parceria no momento. Isto porque, conquistar a confiança da aluna implicava um processo difícil e fiquei receosa dela afastarse de mim, uma vez que se posicionava de um modo um tanto arredio. Minha atitude foi de oferecer-lhe minha companhia, bem como amor e atenção, em todo o período que estava na escola, tendo em vista ser demasiada sua carência. A partir desse momento, comecei a me preocupar com a questão do luto e das perdas, presentes no contexto escolar. Na ocasião, lembrei-me da perda de uma grande amiga-irmã, que ocorreu quando cursava a 8ª série do primeiro grau. Foi um choque conviver com a ausência dela, e visualizar por muitos meses, sua carteira que permanecia vazia, pelo fato dos responsáveis não terem o hábito de modificarem o mobiliário da sala, Creio que esse episódio foi o início de minha inquietação de como a escola pode lidar com assuntos relacionados a morte, ao luto, pois percebia que a abordagem era difícil tanto para os alunos, como professores e diretora. Uma vez notória, em mim, a vocação pastoral, iniciei, em 2011, a graduação em Teologia na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista. Inicialmente, fui convidada a participar do grupo de pesquisa “Teologia Prática e Aconselhamento” do Curso de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo. A temática da morte e, consequentemente, do luto, foi objeto de investigação no Trabalho de Conclusão de Curso intitulada: “Um estudo do luto parental como subsídio para o Aconselhamento Pastoral em situações de morte”. Esta reflexão possibilitou-me conhecer o que Kovács (2003) chama de morte invertida, ou seja, a dor de pais que enterram seus filhos, muitas vezes jovens. Embora estudos sobre o luto por morte tenham sido realizados por diversos estudiosos, que há anos vêm contribuindo para uma melhor compreensão e conhecimento do assunto, há ainda um vasto campo a ser investigado no que se refere à área específica na Teologia. Este trabalho, o qual resulta em pesquisa com recorte bibliográfico, correlaciona dois temas.
(15) 14. teológicos que, por si só, inter-relacionam-se, isto é, o luto parental e o aconselhamento pastoral. Num primeiro momento, apresenta o fenômeno do luto e seus desdobramentos na vida humana para, a seguir, abordar o conceito e implicações do luto parental na vida de pais que perderam, precocemente, seus filhos. Nesse sentido, o trabalho estabelece diálogos com outras áreas da Ciência que incorrem em pesquisas sobre essa mesma questão, visando à sociedade contemporânea, como, por exemplo, a Psicologia. O trabalho apresenta ainda resultados significativos que sugerem, inclusive, rompimentos de paradigmas sociais. Isso porque, a pesquisa mostrou que o número de filhos mortos tem aumentado grandemente em relação à morte de seus pais. Esse tipo de luto provoca mudanças relevantes no cotidiano das pessoas, que podem ser identificadas na ótica da psicologia, como indivíduos que agem, exclusivamente, de modo comportamental, emocional ou racional, resultando em lutos mal resolvidos, os quais gerariam desestruturação familiar e eventuais doenças. A relevância do trabalho de “pastoreio” entendido como acompanhamento pastoral em situação de crise parental, torna-se uma ação emergente em nossas comunidades eclesiásticas. Em 2008, conclui especialização em Aconselhamento Pastoral na Universidade Metodista, pesquisando sobre o luto por morte. Focalizei, neste trabalho, o cuidado necessário no âmbito eclesiástico, cujo tema foi: “A morte precoce de jovens e adolescentes, dor e o sofrimento de pais que enterram seus filhos. A importância da Educação para a Morte, responsabilidade também da igreja”. Retomando a trajetória de minha formação, efetuei, no segundo semestre de 2009, minha matrícula, como aluna especial no Programa de Mestrado em Educação, na Universidade Metodista de São Paulo, em virtude do interesse em investigar o processo do luto nas escolas, em decorrência do crescente número de violências e consequentemente de mortes, considerando também mortes naturais que ocorrem diariamente. A partir de minha inquietação e constatação de significativo número de mortes de jovens estudantes, nasceu o interesse pela investigação junto a educadores, diretores e coordenadores sobre esse assunto, assim como o significado que atribuem ao luto. Através de pesquisa bibliográfica, constatei que alguns educadores, ainda que poucos, realizam atividades de apoio aos enlutados na escola. A proposta de apresentar.
(16) 15. algumas ações na qual a escola pode tornar-se uma rede de apoio e constituirse como um elo de consolo e abrigo, pode ser uma situação possível no enfrentamento e desafio que a própria temática pressupõe, constituindo assim um elo de apoio entre a equipe educacional e os enlutados. Em abril de 2011, o acontecimento trágico na Escola Tasso da Silveira em Realengo, no Rio de Janeiro, que culminou com a morte de 12 crianças, despertou meu interesse em deslocar-me até a cidade e investigar o luto coletivo, as ações realizadas pela escola em relação ao apoio às famílias e estudantes enlutados. Em contato com a Diretoria de Ensino e funcionários da referida escola, foi me orientado a não me deslocar para a realização da pesquisa. Conforme relato no telefone: “- Ainda estamos aprendendo a lidar com essa situação: a morte, a perda, o luto. Quem sabe daqui uns dois anos, podemos ser modelo para alguma escola, no sentido que você deseja!” Aprendi que no luto, o processo é construído conforme a vivência, e nesse momento a escola Tasso, estava reconstruindo sua história. No ano de 2011, nossa turma de Mestrado, foi assolada com a notícia do falecimento do nosso querido prof. Dr. Danilo Di Manno. Justamente naquela manhã, encontramos a sala vazia, pois havia falecido no hospital instante antes do horário habitual de nossos encontros matutinos, assim chamava nossas aulas. Uma tristeza inundava nossos corações e corredores. Naquela manhã muitos de nós estudantes, vivenciamos o luto presente no contexto escolar. Várias ações foram realizadas por parte da pastoral universitária no sentido do consolar alunos, colegas, funcionários. Nossa querida coordenadora do Mestrado, profª Drª Roseli Fischmann, quem assumiu as aulas do Danilo, sabiamente foi construindo um caminho para nossas incertezas sem o querido mestre. O processo do luto, tão presente nas aulas, culminou com o encerramento da disciplina Abordagens Filosóficas da Educação com uma homenagem póstuma. Seguimos nosso caminho, vivenciando o paradoxo do tema que se torna infeliz, enquanto vivenciamos a o processo luto e suas implicações, feliz talvez pela relevância do próprio tema, descobrindo e vivenciando o que a teoria propõe. Apresentado minha trajetória formativa e profissional, justificando também o interesse pela investigação, vejamos o enfoque e objetivos da pesquisa. O enfoque se dá a partir do significado do luto por morte de.
(17) 16. professores, coordenadores e diretores, como sujeitos de um processo de interação com alunos, e como podem realizar atividades que proporcionam apoio àqueles que sofrem pelas consequências da dor no luto, algumas vezes sem o conhecimento da própria comunidade escolar. A pesquisa foi realizada em 2 escolas públicas da Grande São Paulo. São escolas que não diferem entre si, mas que trazem histórico semelhante da violência urbana. Inicialmente nossa proposta consistia em três escolas, porém após várias tentativas na escola que denominamos “C”, não foi possível a realização. Cheguei a ter um contato com a diretora e entregar o questionário estruturado, que se prontificou a aplicá-los com os 20 profissionais da escola, que voluntariamente se propuseram a responder. No dia da entrega dos mesmos, a diretora não se encontrava na escola. Após mais de uma hora de espera, fui informada que não seria possível a entrega dos questionários, desta maneira, a impossibilidade da pesquisa. No Capítulo II, - Luto na escola: opinião de professores, coordenadores e diretores apresento um subtítulo que revela a não entrevista, que por si só torna-se tema sugestivo para um estudo de caso. O que não foi possível de realizar nessa investigação, mas que considero pertinente relatar na pesquisa. O objetivo dessa pesquisa é compreender qual o significado do luto por morte para professores, coordenadores e diretores e suas concepções sobre o tema do luto na escola e a relevância que atribuem a mesma como rede de apoio oferecido a estudantes em situações de luto. No capítulo 1 – Entendendo conceitos – apresento uma breve reflexão dos conceitos sobre a morte, e o luto. Como referências para a organização desse capítulo, foram selecionadas os seguintes autores: Elisabete Kübler-Ross (2000), Maria Helena Pereira Franco (2002), Maria Julia Kovács (2004), Lucélia Elizabeth Paiva (2011). Revisito a pesquisa com recorte bibliográfico realizada por mim, por ocasião da conclusão do curso de bacharel em Teologia, cujo tema foi: “Um estudo do luto parental como subsídio para o aconselhamento pastoral em situações de morte”. Também traçamos sucintamente o cenário da morte no Brasil, a partir de os dados apresentados em noticiários. Apresento a proposta do Laboratório de Estudos sobre a Morte - LEM – USP, que aborda a necessidade de apoio e ações que a escola pode desenvolver frete a estudantes.
(18) 17. enlutados. Também, a experiência de uma professora que desenvolve atividades de apoio mediante o luto. Para referência de um caso de morte na escola, em Realengo, Rio de Janeiro, aportamos dados em pesquisas em alguns noticiários e documentários. O capítulo 2 - Luto na escola! Opinião de professores, coordenadores e diretores - é dedicado à apresentação da metodologia da pesquisa de campo. Na primeira fase encaminhei um questionário estruturado às duas escolas públicas, ambas situadas na Grande São Paulo, com o retorno de 23 respostas. Na segunda fase, foi realizada a entrevista de aprofundamento com 8 perguntas semiestruturadas. Essa etapa foi realizada com 10 sujeitos sendo 4 sujeitos da escola “A” e 6 da escola “B” que se apresentaram voluntariamente e que participaram da primeira fase para a realização da investigação, Para o capítulo 3 - Significado da perda por morte e a atuação da escola no enfrentamento do luto - realizo a análise dos conteúdos, apresentando 3 temas: significado em perder uma pessoa por morte; dificuldades e ou facilidades em lidar com as questões de luto/morte na escola; papel de gestores e educadores frente as manifestações de luto entre estudantes na escola. A referência para análise de conteúdo dos dados coletados se apoiou em Zeila de Brito Fabri Demartini (2001) e Maria Isaura Pereira de Queiroz (2003). Nas considerações finais recupero, em síntese, as discussões realizadas nos capítulos articuladas com as análises das representações que a pesquisa possibilitou..
(19) 18. CAPÍTULO. 1-. ENTENDENDO. CONCEITOS:. POSSÍVEIS. CAMINHOS PARA COMPREENDER A MORTE, O LUTO E A PERDA. O objetivo deste capítulo é apresentar alguns conceitos chaves que possibilitam compreender a temática desta pesquisa. Nesse sentido, antes mesmo de iniciar a reflexão sobre o processo do luto na escola e como a equipe escolar (professores, coordenadores e diretores) pode ajudar estudantes enlutados a lidarem com essa situação considerada desafiadora e até mesmo difícil de ser superada, considero pertinente trazer alguns conceitos que podem elucidar os caminhos que a morte, o luto, e a perda trazem consigo. Neste capítulo ainda, apresento o referencial teórico que nos permite discutir os conceitos acima anunciados, tais como as contribuições de Maria Julia Kovács 1, Maria Helena Pereira Franco 2, Elisabete Kübler-Roos3 e Lucélia Elizabeth Paiva 4, referências em estudos do luto no campo da Psicologia e da Educação. Destaco a importância da temática de uma educação para a morte, a partir da abordagem de Kovács (2003), e o uso da literatura infantil como recurso para abordar a morte com crianças e adolescentes, proposta de Lucélia Paiva (2011). O conto de Guimarães Rosa, Fita verde no cabelo - Nova velha história 5 proporciona a reflexão acerca da linguagem metafórica como um. 1. Professora livre docente do Instituto de Psicologia da USP, Coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM). Renomado nome nos estudos e contribuições sobre a morte no Brasil. 2 Psicóloga, mestre e doutora em Psicologia Clinica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pós-doutorada pela University College London, Londres. Coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Especialista em situações de perdas e luto. 3 Psiquiatra dedicou seus estudos a pacientes terminais e cuidados em meio às perdas. Referência internacional no que se refere às situações de luto, morte e morrer. 4 Psicóloga, com atuação nas áreas clinica hospitalar e educacional. Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Ministra palestras, cursos nas aéreas de tanatologia, luto infantil, literatura infantil e cuidado ao cuidador. Centraliza suas pesquisas também em situações de crise, emergência, doenças, morte, perdas e luto. 5 Texto na íntegra se encontra no item 1.3 (FALANDO DE MORTE NA ESCOLA, p.37), retirado do site http://amorecultura.vilabol.uol.com.br/fitaverd.htm. Acesso em 05/05/12 às 23h15.
(20) 19. recurso facilitador na abordagem do tema da morte. Importante recurso nas questões que abrangem o processo de apoio a situações do luto.. 1.1 O FENÔMENO DO LUTO E SEUS DESDOBRAMENTOS. Nesse item vamos abordar os seguintes aspectos: uma abordagem geral sobre o luto, suas etapas, com destaque para o luto normal e patológico, e os estágios do morrer, abordagem elaborada por Kübler-Ross (2000). Após conceitos fundamentais sobre o luto, apresento a importância do tema da morte na escola é apresentada por algumas abordagens que compõem recursos que podem ser trabalhados com estudantes enlutados, como o uso da literatura infantil e sua função humanizadora. A morte apresenta-se como tema desafiador e difícil porque nos leva a uma reflexão existencial. O medo da morte, presente no ser humano, contribuiu para que o assunto seja tratado como distante da realidade. Ela, a morte, nos incomoda. Frente a ela nos sentimos nus, impotentes. Dificilmente aceitamos que a morte faz parte do desenvolvimento humano. Muitas são as indagações sobre a morte e o morrer. O conhecimento e a vivência na vida podem nos levar a muitos caminhos que podemos escolher, mas infelizmente - porque deixar de refletir sobre a morte é deixar de refletir sobre a própria vida - não são muitos os que optam por “viver o seu morrer”. Em uma sociedade voltada para hedonismo 6, observam-se índices violentos de homicídios, acidentes, fatalismos. Pouco se fala sobre a morte em si, mas com certeza se pensa nela. Poupamos as crianças de falar sobre a morte de avós ou parentes próximos. Apenas tentamos dar um sumiço naqueles que morreram. Nesse sentido, cabe a pergunta de Kovács (2005): até quando lutos mal resolvidos estarão presentes devido à própria negação da morte? Ou ainda, é possível uma educação para a morte no século XXI? 6. O hedonismo surgiu na Grécia. Do grego hedonê, ("prazer", "vontade") é uma teoria ou doutrina filosófico-moral que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana. O hedonismo filosófico moderno procura fundamentar-se numa concepção mais ampla de prazer entendida como felicidade para o maior número de pessoas. http://pt.wikipedia.org/wiki/Hedonismo, acesso em 25/04/2012 às 18h10..
(21) 20. A fim de aproximarmos de um conceito sobre a palavra morte, recorri à versão do Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, que diz:. A palavra morte tem origem da palavra grega (thanatos). Desta palavra decorrem outras raízes ligadas à morte, como (thanatoo- matar), (athanasia- imortalidade), (henesko-morrer, apothnesko-morrer), (synapothnesko-morrer juntamente com alguém), (thnestos-mortal)7. A centralidade do significado de thanatos “ato de morrer” permite o desenvolvimento dessa pesquisa: o enfoque do luto por morte. A palavra luto remete a outros tipos de perdas, como enfrentamento de desemprego, divórcios, separação física, entre outras. O senso comum algumas vezes leva a associar a palavra luto apenas a morte; por essa razão, a importância em considerar o luto por morte, apresentando a origem da palavra grega. A morte é a cessação da vida. A maneira como entendemos este e outros conceitos teóricos que perpassam nossa realidade pode orientar nossa postura diante do luto. O ideal é que cada um possa percorrer este caminho consciente de que, embora o reconhecendo como difícil e doloroso, trata-se de algo inerente a todo ser humano. Diante disso, em entrevista ao Programa Café Filosófico8, a jornalista Rosely Sayão9 afirma que atualmente presenciamos uma reação frente ao luto que pode ser concebida por alguns como banalização do tema ou mesmo um tabu, ou o apagamento da morte, quando algumas pessoas evitam abordar o assunto especialmente com as crianças. Aborda entre outros assuntos, a morte como um tabu entre algumas famílias que, provavelmente, não sabem lidar com a temática. A abordagem da jornalista proporciona uma importante e significativa visão de como a sociedade atual lida com assuntos considerados não prazerosos.. 7. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. BROWN, Colin; COENEN, Lothar (orgs); {tradução Gordon Chown} – 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. p. 1315 8 www.cpflcultura.com.br/evento/filhos-melhor-nao-te-los-rosely-sayao. Acesso em 10/03/2012 às 23h45 9 Psicóloga e consultora educacional. Possui vasta experiência em clínica, supervisão e docência. Presta consultoria em empresas e escola dissertando sobre cidadania e sobre educação de crianças e adolescentes..
(22) 21. Ressalto neste trabalho a importância de que a temática não seja transferida ao cuidado da escola, mas a escola precisa estar preparada para enfrentar o diálogo, o apoio, visto que algumas famílias não realizam tal ato. A abordagem a seguir, apresenta alguns conceitos e definições sobre o luto por morte e suas implicações, informações que podem contribuir no enfrentamento de situações de luto no contexto escolar.. 1.1.1 Considerações gerais sobre o luto. A temática do luto está ligada ao sentimento de perda ou ausência de algo ou de alguém. Já a forma como o enlutado viverá a experiência da perda e consequentemente do luto será definida pelas condições em que tal processo se dará. Para facilitar nosso entendimento, recorremos a alguns significados em dicionários. No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa verificamos:. 1. Sentimento de tristeza profunda por motivo da morte de alguém. 2. Luto originado por outras causas (separação, partida, rompimento, etc.); amargura, desgosto. 3. Tempo durante o qual devem manifestar-se certos sinais de luto. 4. O fato de perder um parente ou pessoa querida; perda por morte. 5. A roupa, geralmente preta, que traja a pessoa enlutada e p. ext. os crepes, os panos negros usados para forrar a câmara ardente, a casa, a igreja, a fachada de edifícios, etc. em sinal de luto por alguém; dó. 6. Conjunto de sinais externos (por exemplo, negro no vestuário do mundo cristão, mas azul no Japão, branco na China, etc.) que os costumes associam à perda de parente próximo ou pessoa querida. 7. Antrpl: observância de formas de comportamento costumeiras e convencionais que expressam a desolação e o desespero por parte dos parentes do morto no período que se segue ao seu falecimento {podem incluir, além de prescrições relativas às roupas, o isolamento, o jejum, o a abstenção de sexo, a automutilação, o corte dos cabelos p/ raiz, etc}- Guardar luto: respeitar o período do luto, de acordo com os costumes de cada sociedade10.. 10. HOUAISS, Antônio (1915-1999), VILLAR, Mauro de Salles (1939-). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa/ Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar, elaborado no Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados Ltda Língua Portuguesa S/C Ltda. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p.1784..
(23) 22. A maioria das culturas, se não todas, têm maneiras aprovadas de satisfazer as necessidades em ocasiões de luto, conforme as definições 5, 6 e 7 do conceito apresentado. Se é verdade que, em se tratando de luto, um determinado comportamento ou ritual é considerado expressivo e significativo em certa cultura enquanto que em outra o mesmo não carrega importância semelhante, também é verdade que cada sociedade manifesta seu sentimento em relação ao “ente querido’’ seja “guardando o luto’’, ou desenvolvendo outra prática como forma de expressar a saudade do ente querido. A palavra luto encontrada no Novíssimo Dicionário Latino – Português nos remete ao sentido de que no luto a dor, lamento, pesar, são situações que podem fazer parte do processo desencadeador.. Luctus: dor, mágoa, lástima, dó, nojo, aflicção. Magoar profundamente a alguém. Lamentos, gemidos, ais, soluços, choros, lágrimas. Estar banhado em lágrimas. Perda, morte. Estar em desespero pela morte do filho”11.. A citação acima faz com que estejamos atentos também a possível dor presente entre jovens enlutados. Jovens, algumas vezes, têm dificuldades em expressar seus sentimentos, e mesmo a tristeza, a lágrima vertida pela ausência, perda de alguém por morte pode não estar expresso de uma maneira nítida. Por esse motivo, torna-se importante conhecer os desdobramentos possíveis no processo do luto. No decorrer deste capítulo verificamos que em cada estágio do luto os conceitos apresentados nos dicionários fazem parte do dia-a-dia dos enlutados. Vejamos, o que diz o Dicionário Interdisciplinar da Pastoral da Saúde: Luto: 1 A separação na vida - O nascimento constitui a primeira separação e é o protótipo de todas as outras. A criança deve abandonar a segurança e a proteção do ventre materno e ser introduzida no mundo para tornar-se criatura independente. Seu primeiro gemido, mostra que chegou à família humana. Para crescer, deve aprender a arte da separação: abandona a infância para entrar na juventude, diz adeus à juventude para entrar na maturidade, deixa a maturidade para entrar na terceira idade e na 11. Novíssimo dicionário Latino - Português. Regido segundo o plano de L. Quicherat. Compilado por F.R. dos Santos Saraiva. 11ª.ed. Belo Horizonte/Rio de Janeiro. Livraria Garnier, 2000. p. 691..
(24) 23. velhice. A vida é cheia de despedidas e de ritos que educam para o provisório, aceitando a dor, enfrentando a solidão para poder descobrir novos horizontes. Deixa-se a casa para ir a escola; as brincadeiras para trabalhar; a família de origem para construir uma nova; o trabalho para aposentar-se; a vida para encontrar a morte; a morte para entrar na vida eterna. A vida impõe a lei da morte. Há quem perde o próprio contexto cultural ou o trabalho, os bens materiais ou os humanos e espirituais, os laços afetivos ou a saúde, a própria identidade e até a esperança. Toda perda lembra a caducidade de todas as coisas: “Para tudo há momento e tempo: tempo para dar a luz e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de chorar e tempo de rir...” (Ecl 3, 1-8) Sempre se diz adeus a alguém ou a algo e as pequenas separações nos preparam para enfrentar as mais difíceis e definitivas. O luto é o preço que se paga pelos próprios apegos e afeições12.. A definição acima completa o entendimento do ciclo vital do ser humano. Nasce, cresce se desenvolve e, um dia, morre. Nesse ciclo sistemático, alguns de nós precisamos (re) aprender a viver. E, para tanto, o conhecimento do significado da palavra luto é fundamental, possibilitando diferentes posturas diante da morte. As definições referentes a pesar, dor, tristeza, perda apresentam similaridades. Notavelmente, a perda está presente no luto. Ela é o fator desencadeante para esse processo; não há luto sem perdas. Estas ocorrem por diferentes motivos, não somente por morte, mas também por divórcios, rompimentos de diferentes relacionamentos afetivos, rupturas no dia-a-dia, etc. Franco (2002, p.133), afirma que “o luto é um processo de elaboração e resolução de uma perda real ou fantasiosa pelo qual todas as pessoas passam em vários momentos da vida, com maior ou menor sucesso” Com êxito, o enlutado pode ser motivado à busca de novos significados para questões norteadoras de sua vida enquanto o fracasso pode levar a situações que requerem ajuda de especialistas da área ou pessoas próximas, que geralmente são os primeiros “ajudadores”. Embora o sentido da perda se faça por diferentes significados, considero importante evidenciar que no luto por morte a perda física, a ausência de um ente querido, poderá ser considerada uma dificuldade no enfrentamento. 12. CINÀ, Giuseppe. LOCCI, Efísio. ROCCHETA, Carlo. Dicionário Interdisciplinar da Pastoral da Saúde. Trad. Calisto Vendrame, Leocir Pessini e equipe. São Paulo: Paulus, 1999. p. 708.
(25) 24. no processo do luto. Apresento no item seguinte alguns apontamentos considerados pertinentes ao processo do luto.. 1.1.2 Processo de luto. Para Bowlby (1985), só existe luto quando houve um vínculo que tenha sido rompido, o vínculo entre indivíduos se forma à medida que se obtém uma base de segurança e se faça presente sempre como ponto de apoio nos momentos de riscos e ameaças. Quando se perde essa base, passa-se a uma situação temerosa e ameaçadora, fazendo com que o luto e a desvinculação da proteção e sobrevivência dessa resulte em sofrimento pela perda, sofrimento esse expresso de forma diferente, de acordo com cada cultura. Entendo que entre estudantes o vínculo mantido pela convivência diária,. a. aproximação. pelos. mesmos. interesses,. possibilitam. que. o. relacionamento seja construído à medida que os vínculos vão se tornando cada vez mais significativos. A morte de um colega de classe, ou a morte de alguma pessoa que mantenha o vínculo, pode trazer ao enlutado uma dificuldade de uma maneira geral, não somente na escola. Se considerarmos que no processo do luto a perda pode ser uma dificuldade para a resignação da vida, torna-se importante conhecer as reações possíveis. Para Bowlby (1985, p.119) o processo de luto, por definição, é um conjunto de reações diante de uma perda, e compõe-se de quatro fases:. 1. Fase de choque que tem a duração de algumas horas ou semanas e pode vir acompanhada de manifestações de desespero ou de raiva. 2. Fase de desejo e busca da figura perdida, que pode durar também meses ou anos. 3. Fase de desorganização e desespero. 4. Fase de alguma organização.. Na primeira fase, quando ocorrem expressões emocionais intensas, ataques de pânico e raiva, é aconselhável a companhia de outras pessoas. Isso.
(26) 25. porque, nessa fase, a pessoa se sente frágil e desprotegida. Alterações emocionais deixam-na em estado de choque. Na segunda fase, da negação, o/a enlutado/a alimenta a esperança de que tudo não passou de um pesadelo. Quando enfim ocorre, definitivamente, a. percepção. de. que. houve. efetivamente. uma. perda,. aparece,. compreensivelmente, a raiva e a revolta. A consciência da realidade da morte provoca desespero, insônia e preocupação. Na fase de desorganização e desespero, muitos/as enlutados/as, com medo de continuar a vida sozinhos/as, procuram alguém que possa ocupar o lugar da pessoa ausente. São poucos os que optam por permanecerem sozinhos/as, readaptando-se a uma nova vida. A última fase caracteriza-se pela aceitação da perda e constatação de que uma nova vida precisa ser iniciada. Se quando atingida, essa fase pressupõe a elaboração e o desenvolvimento de um processo saudável de luto. Isso porque, se o enlutado antes dependia de seu ente querido para realizar desde pequenas até grandes tarefas, passa agora a adaptar-se a uma nova realidade.. 1.1.3 Estágios do morrer – implicações para o luto. A seguir, apresento a síntese do pensamento de Kübler-Ross (2000, p.43-118) acerca dos estágios da morte e as implicações consequentes para o luto. Abordagem que esclarece também as possíveis situações de luto normal ou patológico, assunto apresentado posteriormente a este. Uma forma de encarar e conhecer o processo da morte e do luto é apresentada pela autora Kübler-Ross (2000) que utiliza o conceito de “estágios”. Para ela, são cinco os estágios presentes no processo do luto. O conhecimento desses estágios permite um entendimento maior do processo que o enlutado também poderá passar, uma vez que, seja ele próximo ou distante do moribundo, sofrerá o luto antecipado ou o pós-morte. A relação inicia-se com o estágio chamado de Negação: a notícia é uma surpresa e aqueles que a recebem negam-na ou isolam-se, fugindo muitas.
(27) 26. vezes do convívio social. Negam aceitar que algo errado possa estar acontecendo. A ira é o estágio que substitui a negação por sentimentos de raiva, revolta e ressentimento. A raiva contra Deus, contra as pessoas ou a própria vida podem ser nutridas pelo sentimento de medo, traição (de Deus) e pelo descontrole emocional. Na barganha tenta-se negociar com Deus, na esperança de recuperar um passado não muito saudável com a pessoa que morreu. Na depressão, o paciente ou enlutado é tomado de sentimentos de grande perda e experiências, sintoma clínico de depressão. A conscientização da morte, de que ela é inevitável, pode levá-lo/a ao desespero e a viver sem esperança. Na recuperação, a pessoa percebe que sua vida continuará com um novo ajuste e objetivos diferentes. Para algumas pessoas, esta fase é passageira enquanto que para outras, longínqua, podendo levá-las à morte. No estágio, aceitação, o paciente concebe que a morte se aproxima e que a possibilidade de cura em seu tratamento é impossível. Provavelmente desistindo de “lutar” com a morte, o paciente se entrega a ela. Também pode acontecer no momento de “partir”, consciente da chegada final. Muitas pessoas passam pela fase da depressão e entram na fase da aceitação. A pessoa entende que vai morrer, mas tem uma perspectiva sobre a sua morte. Essa perspectiva tem muito a ver com o centro de sua vida, as crenças, a fé, sua teologia. Outros fatores importantes são o tipo de apoio da família, amigos, e também grupos de apoio. O que diferencia a enlutado e o paciente nos estágios da morte obviamente é a interrupção da vida daquele que partiu. Enlutados vivenciam esses estágios e a esperança pode ser uma perspectiva de motivação em continuar vivendo. Fazer do sentimento de saudade novas perspectivas de vida pode ser fator desencadeante para a elaboração do luto normal. Sobre esse assunto, passamos a refletir sobre luto normal e patológico, também conhecido como luto complicado. Conforme Freud (1984, p.108), algumas pessoas reagem de maneiras diferentes frente ao luto. Vejamos o que afirma:. Freud definiu o luto como sendo uma reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências.
(28) 27. produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos que essas pessoas possuem uma disposição patológica13.. O conhecimento do processo do luto normal e patológico possibilita uma maior compreensão das reações adversas, assim como de perdas objetais. Para tanto, me apoio em Franco (2002) para compreendermos essa diferenciação entre os dois tipos de luto apresentados pelo autor.. 1.1.4 Luto normal e patológico. As reações apresentadas durante o processo do luto diferem de pessoa para pessoa. Não se fala dessa ou daquela reação como certa ou errada,. positiva. ou negativa.. As reações podem,. no entanto,. serem. consideradas como características de luto normal ou patológico. Muitas pessoas que vivenciaram lutos indagam se suas reações diante do sofrimento são normais. As implicações que as reações trazem à sua nova maneira de viver, agora sem o seu ente querido, refletem-se no dia a dia e são perceptíveis nas várias alterações que provocam não somente na rotina, mas no físico, no emocional, forma de conceber o sentido da existência. Franco (2002) pontua que, de acordo com a American Psychiatric Association, o luto normal não é considerado doença mental. No luto normal, reações adversas diante do sofrimento são consideradas normais e mesmo esperadas. Entre essas reações encontram-se quadros depressivos com alguns sintomas como insônia, diminuição de apetite e perda de peso. Apresento a seguir um quadro compilado por Franco (2002) que exemplifica características importantes no processo de lutos normais e patológicos:. 13. Freud menciona a perda desconhecida que se produz na melancolia. Isso nos leva a relacionar a melancolia com a perda do objeto que é subtraída a consciência. È um processo duplo pelo qual o indivíduo vai se constituir, a partir da perda do primeiro objeto..
(29) 28. Quadro 1 - Diferenciação entre o luto normal e o luto patológico. LUTO NORMAL. LUTO PATOLÓGICO. 1) Identificação excessiva e anormal com o falecido. 2) Pouca ambivalência para com o 2) Maior ambivalência e raiva falecido. inconsciente para com o falecido. 3) Choro; perda ou aumento de peso; libido diminuída; retraimento; insônia; 3) Similar ao luto, em relação a hipersonia; irritabilidade; concentração qualidade, mas com maior intensidade. e atenção diminuídas. 4) Idéias suicidas raras. 4) Idéias suicidas comuns. 5) Auto-imposição de culpa relacionada 5) A auto-imposição de culpa é global. ao modo como o falecido foi tratado. 6) Ausência de sentimentos globais de 6) A pessoa pensa ser inútil ou má em inutilidade. termos gerais. 7) Evoca empatia e solidariedade no 7) Geralmente evoca aborrecimento e médico. irritação médica. 8) Com o tempo, os sintomas cedem; 8) Os sintomas não aliviam com o autolimitados desaparecem de uma tempo, e podem piorar, podendo maneira geral em seis meses, podendo persistir por vários anos se não se estender até ao redor de dois anos. tratados. 9) Vulnerabilidade a doenças físicas e 9) Vulnerabilidade a doenças físicas e psíquicas. psíquicas. 10) Ausência de resposta a 10) Resposta a reasseguramento e reasseguramento; afasta contatos contatos sociais. sociais. 11) Não ajudado por medicamentos 11) Ajudado por medicamentos antidepressivos. antidepressivos. 1) Identificação normal com o falecido.. Fonte: Dados apresentados por FRANCO, 2002, p. 136. O quadro acima apresenta características do luto normal e patológico também conhecido como complicado. Como em outros tipos de luto por morte, conhecê-las proporciona requisitos prévios que podem contribuir para uma melhor compreensão do processo do luto no contexto escolar. A proposta seguinte é refletirmos acerca da importância da educação para a morte, consequentemente a presença do luto por morte na escola. Em seus estudos, Kovács (2003) aborda a importância da educação para a morte na escola, momento que possibilita conhecermos a parceria do LEM- Laboratório de estudos da Morte, com a Escola de Aplicação da USP e atividades sugeridas pelo Projeto Falando de Morte. Posteriormente, apresento a experiência da educadora Carlyne Cardoso Paiva, e sua práxis em sala de.
(30) 29. aula, relato esse apresentado na I Jornada do Luto, organizada pelo LEM-USP em maio de 2012.. 1.2 A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO PARA A MORTE. Para Kovács (2003), é necessário pensar na ampliação do escopo da educação para a morte numa sociedade em que a morte interdita se torna cada vez mais presente. A morte escancarada bate a nossa porta a cada dia, não escolhendo gênero, idade, nível cultural ou econômico. Diversas e diferentes imagens mostram a morte desencadeada por acontecimentos drásticos que resultam na morte precoce de adolescentes e jovens. Mas, não podemos esquecer as mortes ocorridas naturalmente e das pessoas que se encontram enfermas, algumas em fase terminal. Considerando que “o avanço da medicina traz a possibilidade de maior convívio com os processos de morrer, alguns com intenso sofrimento tanto para familiares como para profissionais da área de saúde e educação” (ibid., p.155), a reflexão sobre a temática de uma educação para a morte ´torna-se relevante também no contexto escolar. A importância de uma educação para a morte se torna um paradoxo: o desejo talvez de ocultar a morte e adiar o processo de morrer, e a necessidade de espaços de compartilhamento sobre o tema. Nesse sentido, refletir sobre a morte com estudantes, sejam enlutados, e equipe técnica, tornase uma temática relevante. A partir dessas considerações, considero importante a discussão do tema da morte na escola, assunto abordado a partir da proposta significativa de Kovács (2003) e do Laboratório de Estudos sobre a Morte da USP. Atualmente, ainda que algumas escolas desenvolvam programas de apoio a estudantes enlutados, ainda é um assunto considerando ausente do cenário escolar e, infelizmente não é dada a importância que o tema sugere. Provavelmente pela falta de preparo de professores, ou até mesmo a dificuldade em lidar com essa temática, não somente na escola, como na vida de uma maneira geral, alguns profissionais na escola não desenvolvem ações que.
(31) 30. contemplem abordagens que possibilitam apoio mediante situações em que a morte, o luto e perdas estão presentes. À titulo de exemplo dessa possível parceria, o LEM - Laboratório de Estudos sobre a Morte - oferece parcerias entre a Universidade e escola. Fundado em março de 2000, o Laboratório faz parte do Departamento de Psicologia do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). A justificação para sua criação é a importância dos estudos sobre a morte e o morrer. Kovács é a coordenadora do LEM e apresenta algumas propostas de atividades oferecidas (op. cit., p. 156):. 1- Oferecimento da disciplina “Psicologia da Morte” especialmente para professores ou convidados a frequentarem a regularmente, oferecida no Instituto de Psicologia da USP. 2- Criação de espaços de treinamento em serviço na própria escola, com módulos específicos como, por exemplo: comunicação com uma criança que sofreu a perda de pessoas significativas; integração de uma criança gravemente enferma nas atividades didáticas e de recreação; discussão e reflexão sobre comportamentos autodestrutivos e suicídio entre jovens, mortes de jovens em acidentes. 3- Oferecimento de assessoria contínua sobre aspectos como: a) Preparação de atividades pedagógicas para abordar o tema da morte na escola. b) Manejo dos educadores com crianças e adolescentes que estejam passando por situações de perda e luto. c) Proposição de bibliografia, específica ou correlata, para subsidiar a formação de professores. d) Apresentação, discussão e preparação dos professores para o uso dos DVDs do Projeto Falando de Morte: a criança e adolescente. Propor reflexão dos temas abordados e como poderão ser usados em atividades didáticas e regulares para esse fim.. Em sua descrição, Kovács (2003), apresenta outra iniciativa do LEM que é a pesquisa na Escola de Aplicação da USP, via programa de Iniciação Científica, utilizando-se da série de filmes do Projeto: Falando de Morte. O projeto trata-se de recursos audiovisuais que possibilitam reflexão e abordagem com a temática da morte especialmente aos públicos: infantil, adolescente e idoso. O Projeto tem como objetivos principais a produção de filmes com roteiros e imagens que facilitem a sensibilização e a comunicação entre o tema da morte; proporcionar que os filmes sejam instrumentos facilitadores para a.
(32) 31. discussão da temática da morte em diversos locais como escolas, hospitais, domicílios (ibid., p. 133). O último DVD da série, lançado na I Jornada de Luto e Morte, realizado na USP em maio de 2012, completa a série sobre a temática: Falando de morte na escola. O filme é direcionado a estudantes que passam por situações de perdas e luto. A proposta do LEM é para uma discussão sobre o tema abordado, em que a opinião dos estudantes que assistiram ao filme, pode ser o início de um diálogo, tendo o próprio filme como tema facilitador para a comunicação. Em palestra proferida na I Jornada do Luto em maio de 2012, a convite do LEM- USP, a professora Carlyne Cardoso Paiva14 apresentou sua prática pedagógica em abordagens sobre as temáticas do luto e morte e o apoio essencial que a escola pode oferecer a alunos enlutados. Em entrevista concedida15 a mim logo após sua palestra, relata sua experiência iniciada aproximadamente 8 anos. A ênfase em sua palestra ressalta sua experiência mais recente com alunos do Ensino Fundamental I em uma escola da Grande São Paulo. À convite da coordenadora da escola, Carlyne iniciou ações que possibilitaram reflexão e apoio mediante ao luto. Na ocasião, o acontecimento do massacre em uma escola em Realengo: “estavam todos muito abalados, se perguntando se aquilo poderia acontecer na escola deles também”, conta a educadora. Essa situação proporcionou o início da abordagem do tema da morte e luto entre estudantes e educadora. Carlyne foi a “escolhida” porque utiliza ferramentas de sua disciplina – histórias e poemas – para trabalhar sobre morte e perda com os estudantes de ensino fundamental II e médio. No caso do massacre de Realengo, pediu aos alunos que falassem sobre o que estavam sentindo. As próprias crianças propuseram fazer um minuto de silêncio em homenagem às vítimas, reunir-se numa roda de orações (da qual só participou quem quis) e enviar cartas de apoio. 14. Mestre em Teoria Literária, Universidade de São Paulo. Possui Bacharelado e Licenciatura em Letras, com habilitação em português, Universidade de São Paulo (2004). Atualmente é Profa. do Ensino Fundamental II e Ensino Médio, na disciplina de Língua Portuguesa, pela Prefeitura Municipal de São Paulo. 15 ANEXO A - Entrevista com a professora Caryne Paiva..
(33) 32. aos colegas do Rio. “A gente tem que legitimar a dor do enlutado em sala de aula e ouvir o sentimento do aluno”, defende a professora. Poucas semanas depois, a própria Carlyne experimentou o luto, com a perda da mãe. Foi então que seus alunos do sexto ano (crianças de 10/11 anos) proporcionaram o acolhimento à sua dor: entregaram-lhe cartas e cartões com mensagens do tipo “pera aí, você ainda tem a gente pra cuidar!”; deram-lhe um banner com a foto da turma e fizeram ainda uma festinha em sala de aula porque não queriam ver a professora triste. “Adultos não fariam isso. Os abraços de muitos adultos foram uma formalidade, mas aquilo que as crianças fizeram veio do coração. Foi o melhor presente que alguém já me deu”, diz Carlyne: “vale a pena falar sobre o tema na escola, até para que as crianças desenvolvam condições de lidar com a morte – um fato natural e inescapável da vida – de forma mais saudável”. Essa experiência confirma a importância da abordagem da temática da morte, o apoio em situações de enfrentamento do luto, e no caso específico da professora, o apoio pela perda de sua mãe foi primordial na sua dor, como já citado anteriormente, sendo essa ação o melhor presente. O desafio maior da equipe escolar talvez seja o enfrentamento de desafios inerentes à própria vida, a morte. Explorar recursos didáticos e pedagógicos que proporcionem a abordagem é a proposta que proponho a seguir.. 1.3 FALANDO DE MORTE NA ESCOLA. Nas reflexões feitas até agora, vimos conceitos fundamentais sobre a morte e o luto que possibilitam clarificar o processo desencadeador presente no luto. Também refletimos sobre a importância da educação para a morte, tema desafiador para educadores em abordagens com estudantes na escola. Proponho a seguir a abordagem da literatura infantil como recurso possível de ser utilizado em situações do enfrentamento da morte e seus desdobramentos. Paiva (2011) apresenta a literatura infantil como recurso para abordar a morte com crianças e educadores. A autora parte do pressuposto de que o.
(34) 33. luto infantil não pode ser desconsiderado, faz parte da vivência da criança, consequentemente, também é vivenciado no contexto escolar. Em entrevista a jornalista Isabela Nóbrega 16, a educadora Lucélia, afirma que “podemos falar da morte com as crianças desde sempre. Não devemos excluir o tema da morte de nossa vida”. Reconhecendo como um tema difícil de ser abordado por alguns educadores, sugere que se fale com naturalidade, com amor e humor, explicando que faz parte do ciclo da vida. Indica também o uso da literatura infantil como recurso nas abordagens da temática da morte também com estudantes e educadores. Atualmente o número de crianças que passam a maior parte do dia nas escolas aumentou consideravelmente devido aos horários de trabalhos dos pais ou responsáveis, que exercem papel profissional e social que requerem cada vez mais tempo fora do lar. Paiva (2011) reflete sobre a importância da escola lidar com novas descobertas e aprendizados, entre eles, o luto, que faz parte da história dos estudantes. “A escola não pode ignorar tal fato, ela ocupa um espaço importante e significativo na vida da criança, e de estudantes de um modo geral” (ibid., p. 52). Ao fundamentar sua reflexão, a autora se pauta em Pavoni:. educar é formar e informar. Isso significa que temos que habilitar as crianças a viverem neste mundo felizes, sem conflitos, de maneira a não se desestruturarem. Isso implica que a educação deverá atender a criança nas suas características presentes [...] (1989, p. 54).. Essa afirmativa reforça que cabe a escola também construir caminhos novos com alunos enlutados, pois reencontrar o sentido da vida é um desafio em situações de perdas e luto. Se no processo do luto não houver apoio necessário, certamente o luto se tornará patológico, assunto esse apresentado anteriormente. Reconstruir e resignificar o sentido da vida mediante ao luto, a dor, a perda, também faz parte da vivência escolar. Conforme a proposta de Paiva (2011) podemos considerar a literatura infantil um caminho que oferece reflexão, aprendizado, indagações e até mesmo. 16. Entrevista concedida para Revista Construir Notícias, p.5..
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