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3. BASES CONCEITUAIS

3.6 T EORIA DO C AMPO S OCIAL

3.6.2 O campo social bourdieusiano

A teoria de campo ou teoria do campo social é “um dos mais importantes instrumentos teóricos de Bourdieu”, cujo objetivo é a “possibilidade de compreender mais genericamente o funcionamento desses universos tão paradoxais cujas propriedades não são, ou nunca o são totalmente, redutíveis às de outros universos‖ (Pinto, op.cit. - pgs. 66-67).

A tese de Bourdieu é a de que a estrutura social, situada no polo da objetividade (em oposição/complementaridade ao habitus, localizado no polo da subjetividade), pode ser descrita espacialmente, como um sistema de posições, que exprimiria a situação social do sujeito, determinado pela propriedade das diversas formas de capital e pela composição deste capital possuído, em particular o convertido em capital simbólico específico do campo.

Embora não se possa reduzir a sociedade a um conjunto superposto de campos que se interpenetram, o conceito, testado empiricamente nos espaços e contextos sociais mais diversos, apresenta um forte poder explicativo o que ensejou sua utilização nesta tese.

3.6.2.1 O campo e o “simbólico”

Aqui se permite uma pequena digressão sobre a questão do simbólico em Bourdieu, e suas relações com o conceito de campo. Em busca da hegemonia em um dado espaço social, os sujeitos sociais estabelecem relações, discursos e códigos. Enfim, criam uma demarcação simbólica do campo, que resulta de um jogo (real e simbólico) de poder, que tem no “efeito de nominação” um dos seus instrumentos centrais. Por isto mesmo, as nominações não permanecem restritas ao contexto específico em que foram criadas, mas tornam-se parte da cultura institucionalizada do campo, que se espraia por todos os espaços em que uma luta simbólica homóloga tenha lugar.

129 Caso desta tese, em que se desenvolveu a descrição da propriedade de permanência no campo, que ainda parcial e precariamente, incorpora a noção de habitus.

Uma dimensão específica da nominação é a classificação, que rotula as coisas e as pessoas estabelecendo arbitrariamente limites onde só há continuidade (cf. CASTRO, 1993). O caso dos vestibulares e outros tipos de concursos são exemplares: o limite que separa a aprovação que garante a entrada no ensino superior ou em um “bom” emprego, da permanência na categoria estatística “ensino médio completo” ou “população econômicamente ativa sem ocupação” é totalmente arbitrário, mesmo amparado por toneladas de explicações matemáticas e/ou econométricas.

Segundo Pinto (2000), na “ciência do simbólico” de Bourdieu não há espaço para separação entre poder e violência, conhecimento e política, “a dominação é ainda mais eficaz porque se realiza por meio de instrumentos simbólicos aparentemente destinados apenas às funções de conhecimento e comunicação‖. Por outro lado Bourdieu (2003) afirma que:

―A ordem simbólica apoia-se sobre a imposição, ao conjunto dos agentes, de estruturas cognitivas que devem ser parte da sua consistência e de sua resistência ao fato de serem, pelo menos na aparência, coerentes e sistemáticas e estarem objetivamente em consonância com as estruturas objetivas do mundo social.‖.

Não se quer dizer com isto que só as lutas simbólicas são importantes, nem que a luta pelo controle do capital simbólico seja o único demarcador dos campos, vez que nestes “a luta é tanto pelo real, quanto pela representação do real”. Entretanto é indubitável que, na constituição de discursos sobre a realidade e a intervenção dos sujeitos na realidade, esta é uma dimensão fundadora. Como nos lembra Miceli (1998 págs. 13-14, grifos acrescentados):

―Bourdieu permitiu explorar a fundo as pautas de análise mediadas pelos elementos ativos identificáveis nas classes e classificações, investindo nesta transcrição linguística para aí evidenciar os teores do confronto social, político e simbólico, pulsante nas lutas classificatórias, ou seja, buscando extrair delas uma dicção expressiva reveladora dos embates em condições de mobilizar os interesses materiais e simbólicos decisivos dos grupos investigados (...) O poder simbólico permite exprimir o sofrimento, a decepção, a alegria, todos os sentimentos associados aos tempos fortes do ciclo de vida de um grupo social e, num outro registro, veicular os anseios, as expectativas, as identidades e demais sinalizações pertinentes com que os grupos sociais buscam afirmar sua diferença por meio dos encantamentos instilados em sua definição dos mistérios da vida e do mundo. (...) Não se trata, tampouco, de sugerir um status semelhante para as diversas instâncias da experiência social, de nivelar trabalho e representação, de confundir renda e consumo, de tomar coisas de

uma lógica socialmente inventada pela lógica das coisas sociais num sentido abrangente.‖

3.6.2.2 Conceituando campo

Voltando ao conceito de campo, uma definição sintética seria vê-lo como uma descrição do espaço social criado pelos agentes sociais e por suas relações objetivas, onde tais relações se dão e se estabelecem segundo regras específicas. Bourdieu utiliza pelo menos três analogias para explicá-lo: campo de forças/campo de lutas, jogo e mercado.

Deste modo campos sociais são:

―ao mesmo tempo como campos de forças, cuja necessidade se impõe aos agentes que nele se encontram envolvidos, e como um campo de lutas no interior dos qual os agentes se enfrentam, com meios e fins diferenciados conforme sua posição no campo de forças, contribuindo assim para a sua conservação ou a transformação de sua estrutura‖ (Bourdieu, 1997).

“campos de força, mas também campos de luta para transformar ou conservar esses campos de força. E a relação, prática ou pensada, que os agentes mantêm com o jogo faz parte do jogo e pode estar no princípio da sua transformação.” (Bourdieu, 1988 - págs. 42-54)

Bourdieu vai buscar o conceito de “campo de forças” na Física (particularmente na eletrodinâmica de Maxwell), e o utiliza no sentido de equilíbrio dinâmico dos corpos (aqui, os agentes sociais, sujeitos) submetido às forças dentro do campo, às quais não podem escapar, a não ser que outra força, mais intensa aja sobre eles130. Já “campo de lutas” é um conceito militar, semelhante ao campo de batalha; no sentido figurativo, domínio em que se manifesta uma luta cerrada e onde cada adversário explora habilmente os elementos de uma situação.

As relações que estruturam um determinado campo se estabelecem nas e pelas lutas em torno da propriedade das diversas formas de capital: enquanto certos sujeitos se mobilizam para a manutenção (reprodução) das suas posições, outros têm como motor a mudança de suas posições, o que significa o acesso e posse de bens materiais e ou simbólicos.

130 Bourdieu (2003) utiliza várias analogias com o mundo físico e com diversos campos da física, embora afirme que “a sociologia não é um capítulo de mecânica”. Uma delas, utilizando a teoria da relatividade de Einstein,compara um agente com grande volume de capital (por exemplo, uma grande empresa no campo econômico), com um grande corpo que deforma o espaço, conferindo-lhe uma certa estrutura e propriedades (cf. Bourdieu, 2003)

Em outras palavras o sujeito (“agente social”), embora mantido em equilíbrio instável pelas forças que compõem o campo, pode transitar, com mais ou menos liberdade, compondo alianças e traçando estratégias para as lutas que lhe permitirão mudar a correlação de forças a seu favor. Pode-se perceber, mais uma vez, a relação entre o conceito sociológico de campo e os conceitos das ciências do espaço físico, na seguinte afirmação de Bourdieu:

―Em um primeiro tempo, a sociologia se apresenta como uma topologia social. Assim, pode-se representar o mundo social sob a forma de um espaço (com várias dimensões) construído sobre a base de princípios de diferenciação ou de distribuição constituídos pelo conjunto das propriedades que agem no universo social considerado. (...) Os agentes e os grupos de agentes são assim definidos por suas posições relativas neste espaço. Cada um deles está situado numa posição ou numa classe precisa de posições vizinhas (isto é numa região determinada do espaço) e não se pode ocupar realmente, mesmo que seja possível fazê-lo em pensamento, duas regiões opostas do espaço. (...) Pode-se descrever o espaço social como um espaço multidimensional de posições tal que toda posição atual pode ser definida em função de um sistema multidimensional de coordenadas, cujos valores correspondem aos valores de diferentes variáveis pertinentes. Assim, os agentes se distribuem nele, na primeira dimensão, segundo o volume global do capital que possuem e, na segunda, segundo a composição do seu capital – isto é, segundo o peso relativo das diferentes espécies no conjunto de suas possessões‖ (BOURDIEU 1984 apud BONNEWWITZ,2003).

Por outro lado, pistas mais sutis sobre a compreensão do significado do conceito de campo no âmbito de uma teoria do mundo social são dadas, na famosa Aula Inaugural proferida por Bourdieu no Collège de France, em 23 de abril de 1982 (grifos acrescentados):

―O pensamento em termos de campo demanda uma conversão de toda a visão ordinária do mundo social, que se ocupa das coisas visíveis do indivíduo ens realissimum, ao qual nos liga uma espécie de interesse ideológico primordial; do grupo, que só aparentemente é definido exclusivamente pelas relações temporárias ou duradouras, informais ou institucionais, entre seus membros; enfim, das relações entendidas como interações, ou seja, como relações intersubjetivas realmente efetuadas. (...) a noção de campo supõe uma ruptura com a representação realista que tende a reduzir o efeito do meio ao efeito da ação direta que se efetua numa interação. É a estrutura das relações constitutivas do espaço do campo que comanda a forma que as relações visíveis de interação podem revestir e o próprio conteúdo da experiência que os agentes podem ter.

O princípio do movimento perpétuo que agita o campo não reside em algum primeiro motor imóvel... ...mas nas tensões que, produzidas

pela estrutura constitutiva do campo... ...tendem a reproduzir essa estrutura. Está nas ações e reações dos agentes que, a menos que se excluam do jogo, não têm outra escolha se não lutar para manter ou melhorar sua posição no campo, contribuindo assim para fazer pesar sobre todos os outros as limitações, frequentemente vividas como insuportáveis, que nascem da coexistência antagonista.

Os campos sociais mais diferentes – a sociedade cortesã, o campo dos partidos políticos, o campo das empresas ou o campo universitário – só podem funcionar na medida em que haja agentes que invistam neles, nos mais diferentes sentidos do termo investimento, e que lhes destinem seus recursos e persigam seus objetivos, contribuindo assim, por seu próprio antagonismo, para conservar-lhe as estruturas, ou sob certas condições, para transformá-los.” (BOURDIEU, 1988)

Esta visão do campo, como um ―jogo no qual as regras do jogo estão elas próprias postas em jogo‖ (Bourdieu, 2004), o que implica discutir os interesses e estratégias em/do jogo, e como um “mercado de trocas simbólicas” onde são feitos investimentos nos diversos tipos de capital, com ganhos e perdas em capital simbólico, será aprofundada por meio da discussão sobre as propriedades do campo.

3.6.2.3 Propriedades do campo

Na medida em que o conceito de campo foi sendo utilizado em contextos diferenciados (filosofia, política, religião, etc.) emergiram não apenas suas propriedades específicas (muitas vezes definidas por suas variáveis nacionais), mas também propriedades invariáveis comuns a todos os campos (“homologias estruturais e funcionais”; “leis gerais”), apontando a possibilidade de uma teoria geral dos campos. Estas leis gerais (Bourdieu, 1979, 1984, 1988, 1989, 1992, 1998, 2001, 2003, 2003a, 2004 e 2005; Pinto, 2000; Lahire, 2005a,) implicam constatar que os campos e cada campo sejam e apresentem as seguintes características:

a) um espaço social (microcosmo) dotado de autonomia relativa que lhe permite operar por leis próprias, e que, embora não escape às determinações do espaço social (nacional) global (macrocosmo), mediatiza suas imposições por meio de sua lógica específica;

b) pressupõe a existência de objetos em jogo (apostas, desafios, objetivos, “coisas” pelas quais todos no campo concordam que vale a pena lutar), regras do jogo (como lutar por estas “coisas”) e interesses específicos (porque, com

que fim determinado sujeito luta por aquelas “coisas”), que são irredutíveis aos objetos em jogo, regras, interesses e desafios de outros campos;

c) só pode existir porque pessoas se dispõem a jogar o jogo (ou seja, lutar a luta real e simbólica), apostando e investindo seus recursos nele, dotados com os habitus que permitem o conhecimento e o reconhecimento das regras do jogo e dos objetos em jogo;

d) funcione semelhante a um mercado, com produtores e consumidores de bens, e os agentes têm por objetivo e apropriação e acumulação do capital específico do campo (que, por sua vez é obtido pela conversão das diversas formas de capital), que lhes garanta o monopólio do poder/violência legítima no campo ou a redefinição do capital legítimo;

e) é um “espaço estruturado de posições” onde ocorrem lutas entre os agentes que ocupam posições diversas. A estrutura do campo, estado das relações de força entre os agentes (ou instituições), expressa e é determinada pela distribuição do capital simbólico específico do campo, que é desigual, o que implica na existência de dominantes (possuidores de grande volume de capital) e dominados (possuidores de pequeno volume de capital);

f) que a composição do capital total de um agente, mais que a soma de cada tipo de capital, é dada pela articulação entre eles e pela simetria ou convergência com a estrutura do campo, que maximiza os retornos dos investimentos. Em outras palavras, o desenvolvimento de cada campo particular estabelece formas de conversão e acumulação do capital simbólico, este específico e identitário a cada campo;

g) é um espaço de conflito, com a estrutura sendo também resultado das lutas travadas no campo, no decorrer da sua história. Isto porque tal estrutura está sempre em jogo, vez que o monopólio do poder/violência legítima (autoridade específica) é sempre um dos principais objetos em jogo;

h) todos os agentes apresentam estratégias relacionadas com suas posições no campo. As mais evidentes e gerais são as estratégias de conservação da estrutura (ortodoxia), mais frequentes entre os dominantes e de subversão da

estrutura (heterodoxia, heresia), mais frequente entre os dominados, em particular aos “recém-chegados” ao campo;

i) todos no campo compartilham uma série de interesses fundamentais, vinculados à própria existência do campo como tal. Esta “cumplicidade objetiva” é subjacente a todos os antagonismos, como acordo entre os antagonistas em relação ao que vale a pena lutar, a luta em si e suas regras. Tal acordo não é evidente, é tomado como “ordem natural das coisas” (doxa) e contribui para a reprodução do jogo131;

j) corresponde a um habitus próprio do campo e somente aqueles que incorporaram este habitus estão habilitados a jogar o jogo, principalmente por acreditar na importância do jogo. Uma parte deste habitus é constituída pelo domínio da linguagem ou léxico específico do campo e pelo reconhecimento do corpus conceitual e da “problemática” do campo;

k) a autonomia é relativa, as lutas econômicas, políticas, sociais, etc., externas ao campo e influenciam fortemente as relações de forças internas;

Estas propriedades gerais apontam, per si, quais os elementos a serem considerados na análise de um determinado campo. Esta radiografia do campo seria satisfatória se contivesse, ao menos, a descrição sincrônica do campo (utilizando a analogia com a física, poderíamos chamar da “estática” do campo); a reconstituição de sua história social (a “dinâmica” do campo) e a compreensão de seu processo de (re) produção do campo, embora tais dimensões sejam inseparáveis.

A descrição do campo implicaria descrever/compreender:

a) O que está em jogo? Qual a abrangência (competência) do jogo? Qual é a função própria do campo?

b) Quais os agentes que estão no jogo/jogando e em que posição? Quais seus interesses específicos? Quais são as suas estratégias? Quais se comportam como sacerdotes ou profetas, ortodoxos ou hereges?

131 O recém-chegado pode pagar sua cota de ingresso no campo, simplesmente reconhecendo o valor do jogo e respeitando suas regras, contribuindo assim para a reprodução do campo, mesmo que seus objetivos sejam assumir a posição dominante. O dominante trata de defender seu monopólio da violência legítima, o que, obviamente, também contribui para a reprodução do campo.

c) Quais as regras do jogo? Qual a estrutura onde o jogo acontece? Como se dá o funcionamento do campo?

d) Qual a “moeda” do jogo? Quais as formas de capital e composições de sua posse que possuem valor no jogo? Qual é o capital simbólico específico do campo?

e) Quais as palavras de ordem e ideias força gerais do campo? Qual o habitus próprio do campo? Qual o léxico, o corpus conceitual e a problemática do campo?

f) Quais os sinais e níveis de autonomia do campo? Que outros campos o interpenetram e o influenciam? Como os espaços locais e nacionais se articulam com o espaço internacional? Como as questões mais gerais do macrocosmo social se refletem no campo e modificam as relações de força entre os agentes?

A reconstituição da história do campo, por sua vez, implicaria descrever/compreender a história social do campo: sua gênese, o processo de constituição do habitus, suas “revoluções parciais”, suas tendências e suas mutações. A importância da história do campo para a sua compreensão é enunciada por Bourdieu (1989 p. 69-71):

―Compreender a gênese social de um campo, e apreender aquilo que faz a necessidade específica da crença que o sustenta, do jogo de linguagem que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram, é explicar, tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrário, e do não-motivado os actos dos produtores e as obras por eles produzidas e não, como geralmente se julga, reduzir ou destruir.

[...] Nunca se passa para além da história e a ciência do homem não pode por a si mesma outro fim que não seja o de se reapropriar, pela tomada de consciência, da necessidade que está inscrita na história e, em particular, de conferir a si mesma o domínio teórico das condições históricas em que podem emergir necessidades trans-históricas.

[...] Donde a análise da história do campo ser, em si mesma, a única forma legítima de análise da essência‖.

Finalmente, a compreensão do processo de reprodução do campo envolve os processos de formação do capital cultural dos agentes, particularmente aqueles específicos para a entrada, permanência e ascensão no campo. Entre os elementos a estudar estariam, inclusive as disciplinas acadêmicas, os intelectuais e especialistas nos temas e as instituições educadoras. Isto porque um dos “índices mais seguros da

constituição de um campo” (BOURDIEU, 2003) são as pistas de relações objetivas: conservadores (biógrafos, filólogos, comentaristas, etc.) da vida e das obras produzidas no campo e historiadores do espaço social limitado pelo campo, quando já se torna impossível compreender uma obra sem vincula-la à história do campo.

Um determinado problema é legitimado, quando os detentores do capital simbólico específico do campo, fazendo uso do seu monopólio da violência legítima, o reconhecem como tal (referenciando-se na lógica da história do campo e nas suas disposições específicas historicamente constituídas), aumentando enormemente as possibilidades de o problema ser reconhecido por todos; Do mesmo modo, ser um profissional no campo (ser filósofo, cientista ou educador, etc.) é dominar o que tem que se dominar da história do campo para saber comportar-se como profissional daquele campo específico.

Entretanto, seria até um desrespeito à obra de Bourdieu, utilizar acriticamente estas propriedades, até porque elas estão permanentemente em debate, mesmo entre os seus discípulos. Particularmente estão presentes no corpus teórico da presente tese conceitos como exploração, classe social, sujeito social e hegemonia, que precisam ser articulados com as noções e conceitos bourdieusianos, sob pena de uma incoerência e ecletismo injustificável. Esta tentativa de articulação começa no próximo item e prossegue pelos capítulos restantes da tese.

Uma “provocação” se faz necessária, a guisa de introdução ao debate. Entre as inúmeras falas de Bourdieu sobre os campos, escolheu-se a citação a seguir, não pela sua clareza ou originalidade, mas pelas pistas que aponta para um debate sobre papel do sujeito, na realidade, criador e criatura das forças postas em campo:

―Na medida em que estamos sempre mais ou menos presos a um dos jogos sociais oferecidos pelos diferentes campos, não nos ocorre perguntar por que, em vez de nada, há neles ação... um campo só pode funcionar se encontra indivíduos socialmente dispostos a se comportarem como agentes responsáveis, a arriscarem seu dinheiro, seu tempo, às vezes sua honra ou sua vida, para perseguir objetivos e obter os proveitos decorrentes, que, vistos de um outro ponto de vista, podem

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