3. BASES CONCEITUAIS
3.6 T EORIA DO C AMPO S OCIAL
3.6.3 Possibilidades e limites da Teoria do Campo Social
Um conceito poderoso, de reconhecida capacidade explicativa, legitimado no campo sociológico (para usar a própria análise bourdieusiana) por um dos seus maiores “profetas” (tornado por alguns, “sacerdote”, o que causava incômodo e repugnância ao próprio Bourdieu), torna-se difícil de ser contestado, ainda mais por “hereges” advindos de outro campo. Mas, seguindo as regras da sociologia reflexiva, as recomendações do de Bourdieu contra a cristalização de conceitos, como “teoria pura”, descolados da realidade empírica e, sobretudo, seguindo as pegadas de sua mais inovadora discípula (Gisèle Sapiro) e do seu mais rebelde e “herético” discípulo (Bernard Lahire), pode-se apontar, como “prolongamentos críticos”, além das potencialidades já apontadas, algumas limitações e necessidades de aprofundamento conceitual e da aplicação prática do conceito de campo, particularmente, no que se refere ao campo Qualificação.
3.6.3.1 Autonomia relativa dos campos
Um dos elementos para o sucesso da teoria dos campos é exatamente a descoberta da autonomia dos campos em relação ao espaço social global. Isto permite um aprofundamento e um foco nas características específicas do campo, já citadas. Embora constantemente seja assinalado que esta autonomia é “relativa”, corre-se o risco, de um lado, de desprezar ou minimizar as influências de processos mais gerais e, de outro, de entender que um sujeito, na sua trajetória pessoal, pode estar inscrito em mais de um campo, e que “uma mesma ação pode-se inscrever em duas esferas distintas” (SAPIRO, 2001 apud XAVIER DE BRITO, 2002), sendo estas apenas duas das diversas maneiras pelas quais os campos se interpenetram.
No primeiro caso, torna-se necessário verificar: i) na história social do campo, quais os espaços sociais, que outros campos lhe deram origem, como se deu o processo de autonomização e, ainda, se o campo estudado é tributário daqueles; e ii) no passado e no presente do campo, como as transformações mais gerais da sociedade o influenciaram e de que forma. No segundo caso, trata-se de admitir, como faz Gisèle Sapiro, que existem zonas de interseção e superposição e que “certas manifestações de autonomia dos campos podem ocultar por vezes intenções e influências heteronômicas‖ (XAVIER DE BRITO, op.cit.).
O grau da autonomia dos campos também depende do momento histórico e das condições nacionais; o processo de autonomização não é irreversível, sofrendo marchas e contramarchas em sua evolução histórica (FABIANI, 2005). Além do mais, é preciso perceber que, em períodos de crises, a gradativa autonomização dos campos aparece como resultante da agudização do processo de disputas pela hegemonia, tanto no âmbito das concepções quanto no das iniciativas concretas dos agentes (cf. BOURDIEU, 1998 e 2000), visto que tais disputas se espraiam por todos os espaços da vida social.
Na presente tese foi enunciada e utilizada a noção operatória e complementar de vertente social (ver capítulo 6), numa tentativa de resolver o problema da origem e influência dos campos mais gerais, no caso do campo Qualificação, os campos Produção, Estado e Educação, além da macro contextualização deste campo na contemporaneidade (Capítulo 2).
3.6.3.2. Uso para sujeitos coletivos
A utilização da noção de campo para sujeitos coletivos parece óbvia, à medida que o próprio Bourdieu o aplica, em estudos empíricos, a instituições, a exemplo da citação a seguir:
―Pensar cada um destes universos particulares enquanto campo é encontrar o meio de entrar no que há de mais singular em sua singularidade, como fazem os historiadores mais minuciosos, construindo-os de maneira a percebê-los como um ‗caso particular do possível‘, para usar as palavras de Bachelard, ou, mais simplesmente, uma configuração entre outras de uma estrutura de relações. Isto pressupõe, mais uma vez, que se preste atenção às relações pertinentes, com frequência invisíveis ou imperceptíveis à primeira vista, entre as realidades diretamente visíveis, como as pessoas individuais, designadas
por nomes próprios, ou as pessoas coletivas, simultaneamente nomeadas ou produzidas pelo signo ou pela sigla que os constitui enquanto personalidade jurídica...” (BOURDIEU, 1988 - p. 42-54, grifos acrescentados)
Porém, a complementaridade do conceito de campo com a noção de habitus deixa margem a diversas incertezas. No sentido de apontar a possibilidade de utilização mais ampla da noção de campo, Sapiro (2001 apud XAVIER DE BRITO, 2002) afirma que ―o estudo das interações deve ser reinserido em uma análise estrutural das relações objetivas, identificáveis através das propriedades sociais dos agentes e das instituições‖.
Somente a partir desta percepção interacionista é que podemos perceber os campos também como resultantes de tensões no interior de cada instituição ou sujeito coletivo, minimizando o papel do habitus. Do sujeito coletivo, emergem como concepções e práticas coletivas, que se constituem, por sua vez, em espaços "internos", que se relacionam com os espaços "externos" com relativa autonomia. Os contatos e as tensões entre os espaços “externos” e “internos” vão estabelecendo territórios, espaços de disputa entre os sujeitos sociais, através dos quais os projetos se expressam e onde a “guerra por posição” é permanente como no campo, mas significativamente diferente. Neles, toma forma a congruência significativa entre as vivências dos agentes e as características das estratégias coletivas dos grupos (negociação, mobilização, reconversão, etc.) e pode-se compreender a interpenetração destas vivências e estratégias com outros campos.
Nesta tese, a abordagem concentrada exatamente nos sujeitos coletivos foi uma escolha deliberada, assim como foi a minimização da utilização da noção de habitus, coerente com a posição do autor em relação às possibilidades dos sujeitos coletivos no campo. Isto constitui, ao mesmo tempo, um risco calculado e uma inovação, ainda que relativa, no uso da teoria do campo.
3.6.3.3 Implicações da teoria do campo na análise das relações sociais
A análise da realidade social a partir dos sujeitos coletivos está consolidada há muito nas ciências sociais, embora tenha recentemente sofrido certo desgaste com a
relativa perda de força132 de alguns destes sujeitos na contemporaneidade, particularmente, os sujeitos coletivos tradicionais do polo não hegemônico: sindicatos e outras organizações baseadas na identidade de classe (GONH, 2000).
Exatamente pela ênfase na dinâmica das relações entre os sujeitos, a teoria do campo, se apresenta como extremamente útil na análise dos processos sociais complexos e os fortes argumentos já apresentados justificam a manutenção da sua importância. Entretanto, isto não pode ser feito, como já ressaltado, sem a devida prudência crítica, o que se fará em quatro aspectos (cf. Lahire, 2005a), assinalando as adequações complementações realizadas na presente tese.
Primeiro, a teoria do campo social não pode ser encarada como uma teoria geral do mundo social. Por mais universal que pretenda ser, ainda é uma teoria parcial (para Lahire, regional), pois se situa numa posição intermédia, entre a análise diacrônica, cujo objeto é as “ondas longas” da história e a microanálise de contextos muito particulares. Na análise do campo Qualificação, tentou-se, na medida do possível, vincular as demandas do campo nos processos mais gerais da contemporaneidade (Capítulos 2 e 7).
Segundo, é preciso reconhecer que nem todo espaço social pode ser descrito como um campo e nem toda prática necessariamente está inscrita em um campo determinado. Isto significa que é excluída a grande massa da população, que possui muito pouco capital e que se comporta apenas como expectador, fornecedor da infraestrutura para a realização do jogo (enquanto trabalhador em diversos serviços no fornecimento de insumos ou de suporte, como limpeza, etc.) ou – pior – ignora completamente os jogos que estão sendo jogados, mesmo quando os efeitos dos jogos, quase sempre negativos, se abatam como maldição sobre eles. Também se deve reconhecer que o conceito se aplica melhor em espaços sociais onde a demanda por capital simbólico é alta e onde os especialistas (técnicos, intelectuais, profissionais, etc.) têm o seu papel mais claramente definido. Este é o caso do campo Qualificação e a categorização dos sujeitos sociais em “protagonistas”, “coadjuvantes” e “figurantes”,
132 Tal perda de força, confundida com o “desaparecimento de cena”, tem levado diversos pesquisadores a concentrarem sua atenção nos agentes mais em evidência, enquanto que outros, paradoxalmente, insistem em mantê- los presentes, mesmo que para isso partam do pressuposto equivocado da sua importância transcendente, por mais que a realidade concreta desminta tal pressuposto.
teve a intenção de minorar o efeito “mágico” do desaparecimento dos sujeitos no campo.
Terceiro, não se pode desconsiderar os discursos dos sujeitos, embora também não se possam considerá-los apenas per si. Os discursos são também obras do campo e fornecem pistas preciosas de trocas simbólicas, linguísticas e das representações dos sujeitos no campo, e, deste modo, podem ser ponto de partida para a compreensão das relações entre os sujeitos do campo. No presente trabalho os discursos, sob a forma de documentos, foram a matéria prima desta primeira fase da análise do campo Qualificação (ver capítulo 5).
Quarto há a necessidade de, para além da descrição, história social e reprodução do campo, analisar os seus produtos, as obras em si. Estas, no final das contas, são produtos da cultura humana, ainda que apropriadas individualmente e/ou de forma privada. Entretanto, discorda-se de Lahire (2005a), no sentido de que esta necessidade deva ser perseguida pelo pesquisador que escolheu, como objetivo de pesquisa e premissa metodológica, desvendar as relações objetivas do campo.
No caso específico do campo Qualificação, de forma competente, outros pesquisadores vêm realizando o papel de analisar substantivamente as obras, mas poucos escolheram uma perspectiva relacional. A análise do campo Qualificação, ora realizada, se justifica para sanar, ainda que parcialmente, uma lacuna, embora completar esta tarefa seja um programa de pesquisa, necessariamente coletivo. Este capítulo 3, ao apresentar os elementos conceituais em estreita ligação com a prática, seja ela empírica ou teórica, tenta (re) fazer o vínculo entre a produção acadêmica sobre trabalho e educação. Ao invés de desprezar os estudos (que também são obras pertencentes ao campo), o desafio será o de integrar os seus achados em uma rede de pesquisadores e de pesquisa, que forneçam uma visão de totalidade: análise diacrônica, análise do campo e análise das práticas.