Capítulo 1 – Proveniências da preocupação democrático-humanista com a segurança
1.2. As três linhas discursivas
1.2.1. O Cardeal Arns e a “Comissão Justiça e Paz”
O primeiro domínio discursivo decorre do investimento político de setores da Igreja Católica na oposição ao regime militar, inspirado, sem dúvida, nas novas bases da ação eclesiástica instauradas pelo Concílio Vaticano II, com destaque para a declaração “Dignitatis Humanae” (1965) e a encíclica “Populorum Progressio” (1967), ambas de Paulo VI, mas também para a encíclica “Pacem in Terris” (1963), promulgada nos últimos meses do papado e da vida de João XXIII10. Estes documentos abriram uma via
para a absorção teológica da “Declaração Universal dos Direitos Humanos” (1948)11 e
para a opção da Igreja Católica pelos pobres12, e ganharam ainda maior relevo nos
documentos eclesiásticos latino-americanos e nacionais – e.g.: “Conclusões de Medellín” (CELAM, 1968), “Diretrizes gerais da ação pastoral da Igreja do Brasil – 1975/1978” (CNBB, 1974), “Exigências cristãs de uma ordem política” (CNBB, 1977), “Conclusões de Puebla” (CELAM, 1979) e “Reflexão cristã sobre a conjuntura política” (CNBB, 1981).
Sob essas diretrizes, um novo domínio de objetos emergiu na crítica Católica ao arbítrio do regime militar e à opressão do sistema capitalista: a marginalização dos
empobrecidos, o crescimento das favelas, a violência policial legalizada e, com algum
10 Também na exortação apostólica Evangelii nuntiandi (1974), do Papa Paulo VI.
11 Cf. por exemplo, as palavras do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns durante o II Encontro Nacional de Direitos Humanos: “Os direitos humanos brotam do Evangelho, pertencem ao próprio ser humano como tal, não são mero fruto da cultura” (Movimento Nacional de Direitos Humanos., 1983).
12 Nessa linha, sem dúvida, o Frei Leonardo Boff constituiu a proposição mais radical, segundo a qual o grande tema bíblico é “o direito dos pobres” (Boff, 1982). Cf., também, as conclusões do Cardeal Arns: “Quem (…) nos fornece a prova de que estamos no caminho certo é o pobre e o oprimido sem meios de defesa. Como na Bíblia, assim também na vida prática é ele que precisa dar sempre de novo o ponto de partida, para que a humanidade toda descubra os caminhos da paz. Aí está, portanto, a norma áurea para todos os que quiserem empenhar-se nesta campanha indispensável para os tempos novos. Se não nos colocamos ao lado do pobre e do fraco, também não nos colocamos ao lado da humanidade” (1980: p. 142).
atraso, a violência contra o preso comum. Embora essa linha se tornasse mais espessa através da eminência de Dom Hélder Câmara, da heterodoxia de Frei Leonardo Boff – que punha “em perigo a sã doutrina da fé”, segundo o Cardeal Ratzinger, responsável pelo seu processo junto à Congregação para a Doutrina da Fé –, e se alastrasse pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ela cintilou da maneira mais extraordinária, sem dúvida, na figura do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, desdobrada principalmente pela Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo (criada em 1972) – em menor medida, no que tange o problema levantado por esta tese, se destacaram também as ações da Comissão Arquidiocesana da Pastoral dos Direitos Humanos e Marginalizados de São Paulo (criada em 1975) e do Centro Santo Dias de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo (criado em 1980).
Muitos membros da Comissão Justiça e Paz (CJP) figuram, ainda hoje, na contagem dos/as grandes defensores/as dos direitos humanos: José Carlos Dias, Margarida Genevois, Hélio Bicudo, Mário Simas, Dalmo de Abreu Dallari, Fábio Konder Comparato, José Gregori, Paulo Sérgio Pinheiro13. À sombra das ameaças da
Ditadura e sob a luz da longínqua promessa da redemocratização, os/as militantes da CJP vislumbraram a necessidade de ampliar a defesa jurídica que dedicavam aos presos
políticos para que fossem garantidos os direitos violados dos presos comuns. Para se ter
uma ideia, a força da CJP levou o futuro governador de São Paulo, Franco Montoro, no final de 1982, a convidar o então presidente da Comissão, José Carlos Dias, a assumir o comando de sua Secretaria de Justiça. Sua sucessora, Margarida Genevois, pela mesma época, reforçou ao futuro governador a necessidade de conceder especial atenção ao
13 A lista completa dos membros da CJP, bem como a relação de suas diretorias/presidências entre 1975 e 2004, pode ser conferida em Fester (2005: 311-316).
problema penitenciário:
ninguém se ocupou ainda, efetivamente, dessa questão, e existem problemas sérios de torturas, superlotação e mortes nos presídios. Essa situação dramática – e já bem conhecida em nosso país – impõe a implementação de um projeto sério, contínuo e viável de assistência jurídica aos detentos, inclusive de apoio efetivo ao egresso que, sem assistência, acaba voltando às prisões; é sabido que 70% dos egressos são reincidentes, exatamente por falta de preparo e de opções quando saem das prisões. A OAB já tentou agir nesse campo, mas encontrou grandes barreiras (apud Benevides, 2009: 232).
Eram os grandes dias dessa Comissão quando o Cardeal Arns (1980) afirmou que, “[n]o que concerne aos marginalizados e à defesa dos direitos humanos, a Igreja tem procurado evitar uma posição passiva, assumindo, isto sim, uma atitude mais crítica” (: 31). Assim como a atuação pastoral em outras áreas de atenção da Igreja, a CJP fornecia uma espécie de maior evidência a respeito do elo que a opção pelos pobres e os direitos humanos fornecia entre a teologia e a política: “Não há dúvida que a Igreja sempre teve – e de modo muito mais explícito está tendo – consciência desta missão crítico-profética” (id. ibid.).
No que diz respeito à CJP, essa missão crítico-profética dependia da capacidade recíproca de energização entre as diretrizes teológicas advindas do Concílio Vaticano II, que possibilitavam deslocar as ações da Igreja na direção dos marginalizados, e os esforços dos membros leigos que tornavam concretos os ideais dos direitos humanos a cada acolhimento realizado, a cada apuração de informações recebidas, a cada defesa jurídica concluída. Esse movimento de mão dupla parece inscrito no próprio Regimento Organizacional da CJP, na medida em que ela se dava como objetivos “analisar e interpretar as encíclicas e documentos conciliares relacionados com os ideais de justiça e paz visando converter aquelas aspirações em conquistas de cada homem e de cada
nação”, por um lado, e, por outro, “analisar e interpretar todos os documentos relacionados com os direitos humanos, com a justiça e paz, e com o progresso social dos povos” (Fester, 2005: 35-36).
Poder-se-ia dizer que a CJP era nutrida e efetuava-se através de um movimento de espiritualização da política, coetâneo a um outro, de politização da teologia. Ou simplesmente dizer que se tratava de uma teologia-política. Reter a singularidade desse agenciamento é muito importante para o meu argumento, pois será apenas em nome dos direitos humanos – e não da opção pelos pobres – que José Carlos Dias e Paulo Sérgio Pinheiro serão convocados a compor a equipe de governo de Montoro (Capítulo 2), assim como José Gregori e, mais tarde, Pinheiro, serão convocados pelo então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, para chefiar a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos (Capítulo 4). Essa mudança de agenciamento será decisiva para pragmatizar a luta pela garantia do bom funcionamento institucional das prisões, policias e judiciário, desvinculando-a da luta pelos direitos econômicos e sociais intrínseca à teologia que velava pelos pobres.