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Referendo dos ilustres defensores dos direitos humanos

Capítulo 2 – Governo Montoro: expansão securitária via democracia

2.3. Nascimento da expansão securitária via democracia

2.3.2. Referendo dos ilustres defensores dos direitos humanos

Do mesmo modo como havia ocorrido com o anteprojeto de Código de Processo Penal anterior, de autoria de José Frederico Marques, o Projeto de Lei nº 1.655, de 1983, não obteve aprovação no Senado Federal, o que era necessário para que entrasse em vigor, apesar de ter passado pela Câmara dos Deputados. Todavia, a persistência do Ministério da Justiça não foi em vão. A bandeira da prisão cautelar (ou temporária), que até então era defendida, majoritariamente, por autoridades policiais e por secretários da Justiça e da Segurança Pública, de todo modo, setores conservadores, agora recebia o respaldo, digno de atenção, de José Carlos Dias e Miguel Reale Jr., companheiros de militância e de governo de Paulo Sérgio Pinheiro. Não obstante fossem, respectivamente, os secretários da Justiça e da Segurança Pública de São Paulo, não o eram de qualquer governo, pois compunham a gestão Montoro que pretendia estabelecer o controle democrático das polícias e implantar uma política penitenciária cujo slogan era humanização dos presídios. Haviam chegado a estes cargos, nesta gestão específica, por conta da destacada militância que realizaram em defesa dos direitos humanos e da democracia. No caso de Dias, inclusive, uma militância marcada pela crítica à figura administrativa (ilegal) que sustentava parte considerável do arbítrio policial: prisão

para averiguação.

Pinheiro, agora assessor especial do gabinete de Franco Montoro, explicitou um ponto de vista diverso ao de seus companheiros, assim como o fez Hélio Bicudo, procurador da Justiça e coordenador do Centro Santo Dias de Defesa dos Direitos Humanos. Não deixa de ser interessante notar que até o presidente da Associação

Paulista de Promotores Públicos, Luis Antonio Fleury Filho (futuro governador), marcou uma posição contrária à prisão cautelar, embora reivindicasse a reformulação da legislação penal vigente, “extremamente liberal e de tramitação morosa” (Valmir Salaro, 30/09/1983). Como outrora, Pinheiro (08/10/1983) afirmou que “[e]ntre os flagelos do arbítrio policial no Brasil [estavam] a prisão dita para 'averiguação' e a principal metodologia em prática no país para deslindar crimes e descobrir autores, a tortura”. Não estando convencido de “que a legalização de uma prática arbitrária tradicional da polícia [contribuiria] para enfrentar a insegurança da sociedade”, ou “para debelar a criminalidade”, reclamou que as “oposições democráticas [tinham] de acordar para o debate da prisão cautelar” (id. ibid.). A seu ver:

as graves dificuldades materiais que tem hoje o Judiciário em considerar a prisão preventiva, permanecerão e serão acrescidas, impedindo o controle pelos juízes, como prevê o projeto, da prisão “temporária” de cinco dias, de iniciativa dos srs. delegados. Esse dispositivo logo se transformará em mais uma lei para não ser cumprida, brasileiramente (Pinheiro, 08/10/1983).

Entretanto, ainda que tenha pontuado a sua divergência, Pinheiro poupou os secretários José Carlos Dias e Miguel Reale Jr. Não quis se opor, ou não entendeu, ou ainda, não percebeu o vigor novo que, sob o signo dos direitos humanos e da

democracia, seus companheiros davam à propositura da prisão temporária. Ao contrário

de Mario Simas, advogado de destacada atuação na defesa de pessoas e coletivos durante a Ditadura (Simas, 1986)45 – um dos fundadores da Comissão Justiça e Paz da

45 Dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de São Paulo, professores da Faculdade de Medicina da USP, Professores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, líderes estudantis católicos, professores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto (SP), sargentos, frades dominicanos (Aliança Libertadora Nacional), “filiados” da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), “organizadores” do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), “fundadores”/ “implantadores” do Partido Operário Revolucionário Trotskista (PORT), “colaboradores” do Partido Operário Comunista (POC), “colaboradores” da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), Alexandre Vannucchi Leme, uma

Arquidiocese de São Paulo, ao lado do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, Dalmo Dallari, Hélio Bicudo, Margarida Genevois, José Gregori, além do próprio José Carlos Dias –, que não os tratou com indulgência (Simas, 04/10/1983), assim como o jornalista Osvaldo Peralva (19/10/1983), que lhes dirigiu contundente censura, Pinheiro (08/10/1983) preferiu ressaltar o “claro sinal” de “abertura ao diálogo e ao debate” que ambos davam ao aceitarem participar de discussão organizada pela OAB-SP a respeito da questão.

Preferiu destacar tal valor democrático – a insuspeita diplomacia democrática –, deixando esvair do crivo analítico o ato de fundação da expansão securitária via democracia, dispositivo gerencial que, desde então, e até o presente, não conheceu freios à sua intensificação progressiva. É uma estranha inversão, ou melhor, conversão, que se processou desde então. Afinal, o padrão de controle social, a seletividade penal

dirigida contra os pobres e pretos, o estado de exceção exercido nas periferias, enfim, o

arbítrio desmedido e manifesto do faro policial e das prisões para averiguação eram os alvos dos coletivos de defesa dos direitos humanos, com destaque para a Comissão Justiça e Paz, até há pouco tempo presidida por José Carlos Dias. Estranhamente, sob o manto e as melhores razões democrático-humanistas, o arbítrio das prisões para

averiguação poderia se transformar em um ponderado procedimento de prisão cautelar.

Podemos ver agora, sob nova perspectiva, a diferença entre as análises institucional-internalista e institucional-(liberal-)externalista que, no capítulo anterior, expus ao tratar do Seminário sobre criminalidade violenta promovido pela OAB, em 1980. Incólume em relação aos rótulos e às intenções (democrática, humanista), bem

“dirigente” Partido Comunista do Brasil (PCdoB), “militantes” do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

como à legalidade conferida pelos legisladores, o ponto de vista institucional- internalista preocupa-se com o modo de funcionamento de um dispositivo técnico (a pena, o policiamento ostensivo, o isolamento carcerário) no que ele tem de intrínseco: uma pena não pode fazer mais do que punir, independentemente dos adjetivos que se possam conferir a ela. O problema que esse ponto de vista encaminha é: o que pode um dispositivo técnico? Não que ele seja, de uma vez por todas, inapto às transformações. Mas um acontecimento de tal ordem dependeria, necessariamente, de um processo que se instaurasse a partir de sua própria estrutura funcional e operacional. Em uma palavra, dependeria de uma transformação interna – que seria correlata a uma transformação de suas exigências externas (e não apenas de sua rotulação, por assim dizer, legal). Dessa forma, seria esperar demais que a simples colocação da prisão para averiguação nos termos da lei fosse capaz de produzir a alteração de seu modus operandi e de sua finalidade sistematicamente denunciada. Como se a legalização da prisão

cautelar/temporária pudesse livrá-la da mais evidente razão de ser das prisões para averiguação: propiciar o rápido, desburocratizado e eficiente controle social das classes

perigosas (Donnici, 1978 e 1980; Pinheiro, 1975, 1979b e 1991; Pinheiro & Hall, 1979 e 1981)46.

Por sua vez, o ponto de vista institucional-externalista, ou institucional-liberal, propunha uma análise realista, descomprometida com utopias e ortodoxias, baseada numa necessidade inadiável: combater a criminalidade violenta. Sob uma exigência

46 Da minha parte, não acho que esse ponto de vista esteja muito distante da seguinte apreciação: “[...] o princípio de toda tecnologia é mostrar como um elemento técnico continua abstrato, inteiramente indeterminado, enquanto não for reportado a um agenciamento que a máquina supõe. A máquina é primeira em relação ao elemento técnico: não a máquina técnica que é ela mesma um conjunto de elementos, mas a máquina social e coletiva, o agenciamento maquínico que vai determinar o que é elemento técnico num determinado momento, quais são seus usos, extensão, compreensão..., etc” (Deleuze & Guattari, 1997b: 76). Afinal, o controle social das classes perigosas parece ser a máquina abstrata que determina o funcionamento das prisões para averiguação.

como essa, não seria o caso de amarrar as mãos da polícia, mas de construir as regulamentações adequadas e a formulação legal precisa para tornar suas ações aceitáveis dentro de uma governança democrática e atenta aos direitos humanos. Não era o caso de recuar, receosos quanto aos impasses técnicos de um procedimento policial, mas de avançar, construindo os controles interinstitucionais necessários para gerenciar as medidas a serem executadas. Passar as detestáveis necessidades policiais (as prisões para averiguação) para dentro dos limites da lei (a prisão cautelar) não era outra coisa senão erigir controles externos sobre os procedimentos a serem adotados. Era jogar luz sobre uma zona cinzenta; expandir os domínios da lei sobre um território de exceções. Assim, a prática que deveria ser extirpada dos esforços policiais, segundo o ponto de vista institucional-internalista de Virgílio Donnici – até então afinado ao de Paulo Sérgio Pinheiro –, ganhava o apoio de quem pensava que, sob a égide de um

estado democrático de direito, ela se tornaria um recurso eficaz no combate à criminalidade violenta e, acima de tudo, coerente à defesa dos direitos humanos.

Esse acontecimento – o apoio dos democratas e ilustres defensores dos direitos humanos, José Carlos Dias e Miguel Reale Jr., ao advento da prisão cautelar – é o signo da transformação que estava em curso: sob a anuência dos direitos humanos e da

democracia, o sistema penal era livrado dos diagnósticos que o analisavam a partir de

seus próprios funcionamentos, ou melhor, que identificavam suas internas e insanáveis falhas e crises. Assim se inicia o ocaso das questões judiciária, policial e penitenciária, o que garantiu ao sistema penal novos pulmões para aguardar a administração do remédio composto de um tanto de direitos humanos, acrescido de um tanto de democracia. Doravante, tais compostos serão a panaceia da Segurança Pública.

Doença (in)curável ou funcionamento ardiloso por meio de crises? Importa compreender que acerca da sobrevida desse sistema – como em outras usufruídas pelos sistemas que compõem o liberalismo democrático –, a bula do remédio administrado é bastante evasiva, até fugidia, quanto aos componentes que leva. É possível dizer que ela carrega, simultaneamente, duas operações: 1) democratização (ou, democracia procrastinada) – através de um sorrateiro procedimento retórico, ela dá ênfase a uma derivação do verbo transitivo democratizar, dilatando a leniência daqueles que deverão esperar pelos efeitos; 2) substituição do cidadão pelo Homem (ou, a cantilena dos Direitos Humanos) – em vez de criticar contundentemente as suposições do direito liberal – seu senso majoritário –, se apoia em um senso universal, sorvido em aporias quanto ao particular – melhor seria dizer, singular –, para reivindicar a ampliação dos direitos (sempre pelas vias constitucionais, obviamente)47. Soma-se a isso, a

inadvertência quanto ao possível e principal efeito colateral: 3) a expansão democrática e humanista da segurança pública (ou, punir mais e melhor em democracia).