Entre as inovações trazidas pelo pe. Marcelo Rossi está o “Carnaval de Jesus”, realizado a partir de 1999 durante o período carnavalesco. Após a missa realizada no santuário do Terço Bizantino, entre 1999 e 2003, o padre Marcelo e dom Fernando saíram às ruas, avenidas, praça ou estacionamento de shopping, em Santo Amaro, sobre um trio elétrico cantando marchinhas, acompanhados por milhares de foliões, como pôde ser constatado na tabela referente aos grandes eventos.63 Nesses, ambulantes venderam inúmeros produtos e alugaram cadeiras, centenas de policiais garantiram a segurança e a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) organizou o trânsito e o estacionamento.
Aparentemente, o “Carnaval de Jesus” não apresenta nenhuma diferença do carnaval tradicionalmente comemorado na Bahia ou em Pernambuco. Entretanto, neste carnaval não há mulheres nuas, bebidas e violência, segundo seus organizadores. Há freiras dançando e cantando em trajes rígidos, fiéis-foliões, na grande maioria mulheres, portam camisetas da Virgem e nas cabeças faixas saudando Jesus. O trio elétrico ou carro de som passou a ser batizado de “trio elétrico de Jesus”. Ao contrário da axé music ou do frevo, os participantes são embalados pela chamada boa fé music, termo criado pelos humoristas do Casseta & Planeta e, de certo modo, adotado pelo pe. Marcelo. Mas o que seria a boa fé music. Trata-se da adaptação de centenas de canções religiosas em ritmo de marchinha de carnaval, tais como “Glória, Glória, Aleluia”, “Segura na Mão de Deus”, “Deixa a Luz do Céu Entrar”, “Feliz com Jesus”, entre outras, assim como os sucessos gravados pelo padre Marcelo. Em 1999, no intervalo de uma música e outra, Rossi gritava à “maior escola de samba do mundo do
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No primeiro ano, o evento ocorreu na avenida Engenheiro Eusébio Estevaux; em 2000 pela avenida Eng. Alberto de Zagotis: em 2001, no estacionamento do Shopping Interlagos; em 2002, próximo ao Terço Bizantino; em 2003, na praça Acapulco.
Senhor”: “Ah! Eu sou de Cristo. Para se divertir não é preciso beber ou se drogar. A alegria verdadeira vem de Jesus” (PADRE MARCELO Folha de São Paulo, 15/02/1999, p. 4-2). Há aqui um esforço em dar um novo sentido ao carnaval. Alguns depoimentos de fiéis-foliões ilustram a busca pela ressemantização do carnaval. De acordo com os fiéis, ele transformou-o numa “festa de Deus”, num evento respeitoso: "Me cansei das sem-vergonhices, das festas de tirar a roupa. Era uma festa assim que eu sonhava", destaca a estudante Marcela Sarria Viana, então com 16 anos e que estava debutando nos carnavais (BIANCARELLI, Folha de São Paulo, 08/03/2000, p. 3-4).
Durante o “carnaval comum”, ocorrem extravagâncias, a inversão de valores. O carnaval é uma ocasião em que a vida diária deixa de ser operativa e, por causa disso, um momento extraordinário é inventado. Nesse período, pode se deixar de viver a vida como fardo e castigo. É uma oportunidade de fazer tudo ao contrário: viver e ter uma experiência do excesso de prazer. Há uma sensação de igualdade social, algo fora da realidade, uma reviravolta positiva (catástrofe), estímulo à diversidade, invenção e a troca de posições numa sociedade marcada pela hierarquia (DA MATTA, 1986: 65- 78). O “Carnaval de Jesus” é pólo oposto à festa pagã. O carnaval proposto por Marcelo Rossi pode ser lido, então, como uma inversão simbólica dos rituais da tradicional festa de Momo. Há um religioso cantando num trio e uma grande massa composta de leigos que consumem os bens simbólicos produzidos exclusivamente por um especialista. No “Carnaval de Jesus” o ator social principal é um padre e não o citado rei. Além disso, não é permitida a inversão de valores e posições. Atrás do “trio elétrico de Jesus” só não vai quem não tem fé, que não é católico praticante, quem não respeita as normas morais da Igreja. Por outro lado, ela permite aos fiéis-foliões brincarem o carnaval sem sair da sua religião.
Isso pode ser observado na atitude tomada em relação à transmissão e divulgação do evento em 2000. De acordo com o pe. Marcelo apenas a Rádio América iria fazê-lo, pois a ampla divulgação poderia atrair não-cristãos: “Poderiam vir pessoas que eu não quero”. Ainda segundo o padre, como não havia costume de ver o carnaval como “festa religiosa”, era preciso que apenas os verdadeiros cristãos, aqui entendidos como “praticantes” e não “formais”, estivessem no evento, pois estes compreendem que não se tratava de uma “carnaval comum” (IZIDORO, Folha de São Paulo, 02/03/2000, p. 3-6). A ação do padre é apoiada por d. Fernando. Em 2001, sobre um caminhão-altar, ele lembrou a importância que o carnaval tinha antigamente para as famílias. “Era uma época em que a família se preparava para o tempo da Quaresma”, disse o bispo durante a missa (SASAKI, Jornal da Tarde, 28/02/ 2001).
Em lugar do “carnaval devasso”, um “carnaval devoto”. Percebe-se o esforço de distinguir os dois carnavais e oferecer uma alternativa aos católicos. Está em jogo o conflito lazer profano e catolicismo. Na ótica de padre Marcelo, a festa de Momo afasta progressivamente os fiéis dos “bens de salvação” ofertados pelos pastores católicos. Num momento de afirmação diante das novas “empresas de salvação”, sobretudo as igrejas neopentecostais, o padre Rossi busca resguardar o controle sobre seu rebanho, impedindo seu afastamento dos espaços e das atividades religiosas. Busca-se ressaltar a identidade cristã a partir do ascetismo, ou seja, de uma renúncia a este mundo, uma espécie de morte quotidiana, que proporcionaria vida no além (FOUCAULT, 1995: 231-249). Este gerenciamento moral da sociedade pelo padre Marcelo associa-se à necessidade de um mercado apto a consumir os novos “bens simbólicos”. Suas ações ambicionam combater a cultura da Modernidade, especificamente seus divertimentos, e instituir um habitus com um mínimo de
competência para sentir a necessidade de consumo dos produtos ofertados pela burocracia religiosa.