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O CASO CHILENO

No documento CURITIBA 2017 (páginas 95-98)

O Chile é um caso de sucesso no que se refere aos serviços de saneamento.

De acordo com os dados da UNICEF (2015), todos os chilenos que vivem em centros urbanos têm acesso à água tratada, enquanto 93% recebem o serviço na zona rural.

Da mesma forma, a coleta e o tratamento de esgoto já estão praticamente universalizados tanto nos centros urbanos (100%) quanto na zona rural (91%). Com cerca de 18 milhões de habitantes, que se distribuem entre 15 regiões, 54 províncias e 350 comunas, o país possui uma disponibilidade hídrica considerada alta (BRANCO, 2016). Contudo, foi uma gestão diferenciada que tornou o Chile referência entre os países sul-americanos48. Ao analisar o Ranking do Saneamento (2016), elaborado pelo Instituto Trata Brasil, em parceria com a Go Associados, é possível perceber que o Chile está bem à frente do Brasil. A título de comparação, unificaram-se os dados de atendimento de água e esgoto do Ranking (Quadros 49 e 51, p.101-103). Assim, somando-se os percentuais de atendimento de água e esgoto, como se estes fossem pontos, chegou-se a um ranking geral, conforme a Tabela 4:

Tabela 4 – Ranking latino-americano de saneamento

# País

48 O Ranking do Saneamento (2016) mostra que o Chile tem o melhor saneamento da América Latina.

Disponível em: goo.gl/qrQTqW. Acesso em: 01/03/2017.

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17 Nicarágua 65,9 23,3 89,2 1.963

Fonte: Ranking do Saneamento (2016). Trata Brasil e GO Associados.

Baseado em dados da CEPAL (2015), do SNIS 2015 e Banco Mundial.

É interessante notar que o Chile tem os melhores índices de saneamento e que isso está em consonância ao seu patamar de renda. Já o Brasil, mostra uma discrepância muito grande em relação ao seu nível de renda. Isso é um indício de que a gestão chilena do saneamento está sendo feita de maneira correta, diferentemente da experiência brasileira.

No passado, o modelo vigente era baseado na prestação direta do Servicio Nacional de Obras Sanitarias (SENDOS), que operava o saneamento exceto em Santiago e Valparaíso (CNI, 2006). De modo similar aos avanços do Brasil na época do PLANASA, os chilenos elevaram a cobertura de atendimento de 78% para 98%

(água) e de 52% para 82% (coleta de esgoto). Entretanto, havia gargalos que impediam o setor de atingir excelência, dentre os quais se destacavam: (i) o gap entre a tarifa cobrada e os custos do serviço – fato que também ocorreu no Brasil; (ii) falta de um marco regulatório estável, que pudesse ser articulado por diferentes atores.

Com o fim da ditadura de Augusto Pinochet em 1990, foi estabelecido um novo arcabouço regulatório (Ley General de Servicios Sanitarios), que contemplava as condições de outorga do serviço, a política tarifária, o modelo de regulação, etc.

Como resultado, a SENDOS foi transformada em Sociedades Anônimas Estatais (uma por região), que assumiram a operação completa do sistema. Para regulá-las, foi criada a Superintendencia de Servicios Sanitarios de Chile, a qual executa o modelo de regulação por agência, isto é, define padrões de qualidade, níveis de investimento, política tarifária, etc. Após “arrumar a casa”, promovendo o equilíbrio tarifário do setor e consolidando a segurança político-jurídica da prestação do serviço público, o Chile conseguiu iniciar a transição para um modelo privado de saneamento. Foram vendidos 35% da Empresa de Saneamento de Valparaíso (1998), 51,2% da prestadora de Santiago, e assim sucessivamente. Atualmente, 94% da população é atendida por empresas privadas de saneamento, sendo o arranjo setorial conforme a Figura 6,

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Figura 6 – Arranjo institucional do saneamento chileno

Fonte: GO Associados (2017). In: CNI (2017)

Torna-se importante ressaltar que o modelo chileno não conseguiu obter sucesso meramente pela privatização do setor. Pela reformulação regulatória e pelo empoderamento dos prestadores regionais, foi possível criar um planejamento integrado, que garantisse o mínimo de viabilidade econômico-financeira ao serviço.

Contudo, isso não implicou um aumento substancial da tarifa, excluindo os mais pobres do acesso. Pelo contrário, o governo conseguiu promover uma política tarifária de subsídios – diretos e cruzados – que serve de referência para vários municípios do Brasil: cerca de um quinto da população possui descontos nas tarifas que podem chegar a 75% nos primeiros 15 m³ consumidos. Além disso, a regulação promovida por Empresa de Referência fez com que os prestadores otimizassem seus custos e tornassem o serviço mais eficiente. Em síntese, conforme Kleber Luiz Zanchin (2015) argumenta

“[...] o Chile, assim como vários países da América do Sul, começou com um modelo estatal. Quando o país identificou o tamanho da ineficiência e a incapacidade de investimento no setor, migrou para um modelo de concessões, mantendo as empresas estatais. Em um segundo momento, o país privatizou as empresas. Hoje, o sistema de saneamento do Chile é fundamentalmente privado e o Estado assumiu a função reguladora. O sistema está perfeitamente equilibrado lá. Nada comparado ao que temos no Brasil” (ZANCHIN, 2015)49

Resguardadas as devidas proporções – sobretudo de escala – entre Brasil e Chile, as duas experiências apresentam grandes similaridades. Contudo, o caso chileno conseguiu avançar mais rapidamente na estabilização do setor. Obviamente,

49 Entrevista concedida ao Instituto Millenium. Disponível em: goo.gl/4BLhRi. Acesso em: 01/03/2017.

Titularidade

• Federal

Regulação

• Federal

Planejamento

• Federal / Prestadores

Prestação

• Regional

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isso foi possível dada a estrutura socioeconômica, política e geográfica do país, que conseguiu unificar as agendas – pública e privada – em torno de um projeto nacional e de longo prazo para o saneamento. As grandes lições deixadas pelo modelo chileno são: (i) a descentralização do serviço em nível regional ajudou a capturar as economias de escala e escopo, evitando as desvantagens da fragmentação; (ii) a regulação passou a ser fundamental para proporcionar equilíbrio dos prestadores e o acesso dos mais pobres ao saneamento; (iii) a estabilização das regras trouxe transparência e planejamento de longo prazo para o setor; (iv) a privatização quase que completa foi realizada após a criação de um arranjo institucional sólido e participativo; (v) o uso de ferramentas modernas de regulação torna o serviço mais eficiente e rentável, tanto para os investidores quanto para a sociedade que ganhou em qualidade de vida.

No documento CURITIBA 2017 (páginas 95-98)