56 Embora seja tratado como o “caso inglês”, esta seção se refere também ao modelo aplicado no país de Gales. Contudo, cabe a ressalva de que os dados de atendimento publicados pela UNICEF (2015) não são desagregados, isto é, levam em conta todo o Reino Unido.
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O saneamento inglês é reconhecidamente um dos melhores do mundo.
Conforme os dados da UNICEF (2015), tanto o abastecimento de água (com 100%
de abrangência), quanto a coleta e tratamento do esgotamento sanitário (99%) possuem sistemas muito avançados. O atual modelo regulatório encontra suas origens na reforma realizada há décadas, que trouxe à tona diversas inovações no âmbito gerencial-regulatório. Até 1973, o arranjo setorial era fragmentado e contava com centenas de prestadores públicos locais. Esse modelo gerava ineficiências, como a dificuldade de planejamento integrado e falta de escala. Para mudar esse cenário, foi promulgado o Water Act (1973), que criou dez companhias (Regional Water Authorities – RWA), cada uma dedicada a uma Bacia Hidrográfica. As RWA eram responsáveis pelo planejamento e controle dos recursos hídricos em geral (controle da poluição, pesca, controle de inundações, lazer aquático e conservação ambiental).
Esse instrumento foi fundamental para maximizar as economias de escala, além de trazer um caráter técnico à regulação do setor. Conforme Amparo e Calmon (2000, p.
9), “essa abordagem ganhou notoriedade internacional e apoio de ambientalistas e da comunidade técnica e acadêmica ligada ao setor”. A reforma significou a nacionalização do setor, que passou então a ser regulado pela Federação.
Esse modelo operou de 1973 até 1989, quando sucumbiu às restrições de investimentos pelas quais passava o país. A agenda política conservadora, liderada por Margaret Thatcher, foi determinante para a abertura de diversos monopólios naturais no final dos anos 1980. Nessa década, realizou-se a privatização da Jaguar e British Aerospace, da British Telecom e Energia, da British Gas e da British Airports Authority. O novo modelo se legitimava na medida em que o arranjo vigente – baseado na prestação pública – apresentava limitações. Em 1989, as RWA foram vendidas na bolsa de valores, passando para o controle de holdings. Desse processo, se formaram dez Public Limited Companies (PLC). Ainda naquele ano, o Water Act foi reformulado e as companhias de saneamento ficaram responsáveis pela prestação dos serviços de abastecimento de água, coleta, disposição e tratamento de esgotos. Além disso, as PLC ficaram responsáveis pelo investimento no setor, visando cumprir os parâmetros firmados na compra dos ativos. Conforme apontam especialistas, a privatização das companhias inglesas de saneamento proporcionou vantagens aos novos players no mercado. Como estratégia para atração de investidores, o governo inglês assumiu todos os débitos das antigas RWA – cerca de US$ 12,5 bilhões – e aportou recursos – cerca de US$ 3 bilhões – nas companhias que seriam vendidas
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(AMPARO; CALMON, 2000). Após os leilões realizados, as empresas vencedoras se comprometeram a investir o equivalente a R$ 15 bilhões anuais. Em 2004, as PLC somavam mais de R$ 200 bilhões, o que significa uma média de quase R$ 4 bilhões por ano (OFWAT, 2006). A efetivação do volume de investimentos resultante da privatização foi facilitada pelo acordo estabelecido entre o governo e as PLC, pelo qual as empresas foram autorizadas a aumentar as tarifas 5% acima da inflação durante os dez primeiros anos (AMPARO; CALMON, 2000).
A regulação econômica dessas empresas foi unificada com a criação de uma Agência Reguladora Independente, denominada Water Service Regulation Authority (OFWAT). O papel da entidade é ensejar a eficiência na prestação do serviço, sobretudo a partir de mecanismos de regulação econômica da tarifa (Price-Cap) e dos custos (Yardstick Competition). Além disso, o órgão tem como atribuições: (i) proteger os interesses dos consumidores; (ii) incentivar a competição entre os prestadores; (iii) exigir o cumprimento dos padrões de preservação ambiental; e (iv) exigir a observância das condições constantes das licenças de operação das companhias (AMPARO; CALMON, 2000). Atualmente, o arranjo institucional do saneamento inglês se organiza conforme a Figura 8:
Figura 10 – Arranjo institucional do saneamento inglês
Fonte: GO Associados (2017) In: CNI (2017)
Embora os ingleses recebam um saneamento com elevado nível de qualidade, o país ainda possui alguns gargalos. Na última década, a cidade de Londres passou por uma crise hídrica que a fez buscar soluções tecnológicas para dessalinizar a água do mar. A construção de uma usina se mostrou uma saída mais rentável do que transportar água do Norte do país. Custando mais de R$ 1 bilhão, a
Titularidade
• Federal
Regulação
• Federal (OFWAT)
Planejamento
• Federal
Prestação
• Regional
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usina foi inaugurada em 2010 e chega a produzir até 140 milhões de litros de água potável por ano – suprindo cerca de um milhão de pessoas57. Para tornar o projeto rentável do ponto de vista energético, a usina se utiliza de biodiesel oriundo do óleo de cozinha coletado nos restaurantes da cidade. Além disso, a população londrina recebe incentivos financeiros para economizar no consumo de água. Por exemplo, além da prestadora do serviço disponibilizar gratuitamente utensílios para otimizar o consumo, o governo local instituiu multas que podem chegar a R$ 4 mil para quem usar mangueira doméstica quando determinados rios estiverem com nível reduzido58. Em síntese, a experiência inglesa pode ser considerada exitosa ao passo que representa o paradigma da chamada “regulação por agência”, tendo influenciado, por exemplo, o modelo chileno. As grandes lições da gestão inglesa do saneamento são:
(i) a regulação independente em nível federal (OFWAT), com alta capacidade técnica, é fundamental para manter a eficiência do sistema; (ii) o governo federal criou as condições – assumindo as dívidas das empresas existentes – para atrair capitais privados para o saneamento; (iii) embora tenha implicado em aumento tarifário, o setor conseguiu cumprir com as diretrizes de investimento; (iv) a sociedade inglesa (políticos, academia e população) participou ativamente da estruturação de um modelo pautado na transparência e efetividade; (v) políticas públicas e de inovação tecnológica são fundamentais diante da escassez de recursos hídricos.