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O cenário político no contexto da globalização

A centralidade das técnicas de comunicação no desenvolvimento deste processo (SANTOS, 2000) ajuda a explicar porque em diferentes

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países observamos discursos políticos tão semelhantes. Não é por acaso que vemos nos últimos anos uma escalada de discursos anticomunistas, mesmo após quase três décadas depois da queda do muro de Berlim, marco da derrocada da URSS, última grande potência comunista com um projeto de expansão dos ideais socialistas. Além também de vermos políticos de diferentes países proferindo insultos direcionados aos mesmos movimentos sociais, como é o caso do feminismo.

Ainda no plano da política institucional, observamos uma crescente descrença no modelo democrático representativo, expressa pela quantidade de votos nulos e abstenções, que a cada novo pleito obrigam os poderes judiciários a desenvolverem grandes campanhas que mostram a necessidade dos cidadãos participarem do processo.

Essas são algumas das evidências que atestam a necessidade de repensarmos o modelo político posto, de forma a reorganizar o pacto social. Avaliar até que ponto a democracia liberal corresponde aos paradigmas da globalização, o que não significa sujeitar a sociedade às imposições do capital privado, uma vez que ainda é necessário que o Estado atue em diversos níveis, dada a sua legitimidade com relação à administração dos bens públicos (CASTELLS, 1999) e ao resguardo das concepções que constroem os princípios de igualdade e isonomia (GUEHENNO, 2003).

Em meio a todas as problemáticas ligadas a globalização aqui expostas, fica evidente a necessidade de repensar as categorias e os métodos de análise espacial, de modo a dar conta desse novo e

Orgs. André Luís André e Silvia Lilian Ferro

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conturbado contexto no qual vivemos (MOREIRA, 1997), sempre buscando estender a cidadania de forma ampla e irrestrita a todos os habitantes da cidade.

Para além dessas influências do contexto da globalização, a cidade de São Paulo por si só já foi estruturada a partir de um urbanismo perverso e extremamente acelerado (SANTOS, 2005), que acabou por consolidar desigualdades que alimentam conflitos constantes que já fazem parte de seu cotidiano, marcado pela tensão constante proveniente do contato com os espaços marginalizados.

A partir deste cenário, analisaremos a compartimentação do território do município de São Paulo, buscando observar como a divisão em zonas cardeais reconhecida por órgãos públicos e pela população em geral se articula com a realidade cotidiana e se de fato auxiliam na apreensão das dinâmicas espaciais ali postas, levando em consideração a tendência de diversificação das identidades, bem como do reforço das tradições, processos que inspiram o agravamento de um momento de crise, sobretudo quando aliados a uma realidade já abalada por desigualdades sociais seculares.

A complexidade e heterogeneidade das dinâmicas espaciais no território paulistano

Um aspecto que chama a atenção na paisagem paulistana é a heterogeneidade de sua composição. É emblemática uma fotografia que retrata um condomínio de alto padrão que possui uma favela literalmente

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colada em seus limites. Essa dinâmica também não escapou aos nossos olhares. Para além das contradições visíveis, é necessário tomar em conta a centralidade da metrópole em relação não apenas ao estado de São Paulo, como também ao restante do Brasil e da América Latina.

Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, o CEAGESP, uma espécie de centro de distribuição de alimentos da administração municipal, nos ajudou a verificar essa relação. Para ali convergem as produções não apenas da região rural da cidade, como também de regiões mais distantes, desde a escala nacional até a global. Sendo assim, o CEASA, como também é conhecido, constitui um ponto de grande importância em uma rede que extrapola diversos limites territoriais. É importante ressaltar ainda que essa relação não se limita apenas às dinâmicas comerciais que ali se desenvolvem, uma vez que a localização estratégica ao lado de uma das maiores vias rodoviárias da cidade, a Marginal Pinheiros, e da Linha 9 Esmeralda da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), também contribui com a atração de mão de obra dos rincões mais distantes do município, assim como das outras cidades que compõem a região metropolitana, como Itapevi, Osasco e Barueri, e que estão próximas.

Já no centro financeiro da cidade, nas dependências da BOVESPA, a Bolsa de Valores de São Paulo, que recentemente se fundiu com a BM&F, Bolsa de Mercadorias e Futuros, sagrando o posto de maior bolsa da América Latina, pode-se observar o local onde são negociadas ações de empresas brasileiras e estrangeiras, além

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mercadorias futuras, atribuindo assim, grande importância frente ao mercado financeiro global.

Aquela região corresponde ao centro financeiro não ao acaso, uma vez que se observa a presença de diferentes instituições bancárias, além de sedes de órgãos ligados ao poder público, que contribuem por lançar às ruas ao entorno uma torrente de pessoas em trajes executivos. E é em meio a este cenário que, imersos na dinâmica cotidiana que supera a análise limitada a leituras, percebemos que o centro financeiro não está apenas sujeito aos fluxos econômicos globais. É possível enxergar uma variada gama de atores que compõem o cotidiano daquele local, como vendedores ambulantes, moradores de rua, turistas, transeuntes que podem de fato estar ali por conta das dinâmicas financeiras, como também apenas utilizando as vias de passagem.

Uma importante evidência neste sentido é o fato de o pregão da BOVESPA operar hoje apenas pela internet. Aquela memorável cena do pregão lotado de corretores que gritam entre si já não corresponde à realidade. Mas apesar disso não houve um esvaziamento daquela região do centro de São Paulo, o que pode indicar a existência de outras dinâmicas que fogem a nossa análise dada à limitação de dados. O que podemos de fato afirmar a partir dessa observação, que embasamos desde a visita à CEAGESP, é que, dado o tamanho da cidade e a variedade de relações que ali se desenvolvem, torna-se extremamente complicada a regionalização do território.

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chocar ou até mesmo se ignorar, compartilham o mesmo espaço. Está aí o grande desafio da administração pública na contemporaneidade. Não é viável, do ponto de vista do planejamento, pensar a cidade como um todo homogêneo, mas qual seria a melhor escala a ser levada em conta na compartimentação territorial? Quais as características inerentes a cada uma dessas pequenas regionalizações e quais se articulam com outros locais, afetando cotidianos tão distantes?

Ainda na região central, observa-se o Pátio do Colégio, local que marca a fundação da cidade e que colabora para a nossa percepção de quão heterogênea é a paisagem urbana em São Paulo. Apesar de ainda estarmos no centro da cidade, e em realidade a apenas alguns quarteirões de distância, pode-se um importante ponto da rede global do mercado financeiro e um local tombado como patrimônio histórico da cidade, estabelecidos em meio a um enorme fluxo de pessoas de diferentes bairros, cidades, países e status sociais, com diversas intencionalidades, possibilidades e limitações.

As compartimentações do espaço: o papel do planejamento